domingo, 14 de abril de 2024

O fenómeno do livro "Identidade e Família" e a realidade de quem cria filhos hoje


Ver a obra «Identidade e Família» - apresentada por Passos Coelho e escrita por vários autores do meio conservador a liderar as vendas da WOOK pode parecer surpreendente à primeira vista, mas deixa de o ser quando olhamos para a conjuntura atual. Os estudos mais recentes sobre a Geração Z evidenciam um fosso ideológico crescente, no qual os rapazes tendem cada vez mais para posições conservadoras, enquanto as raparigas se aproximam de visões progressistas. O sucesso comercial deste tipo de ensaio é apenas o reflexo desse choque cultural.

Confesso que não gastei dinheiro na compra do livro, pois prefiro alocar o meu orçamento noutros recursos. Limitei-me a analisar o prefácio disponível na amostra online, o qual transparece um manifesto coletivo sem assinatura individual. A tese que orienta esse texto introdutório é bastante direta e, a meu ver, redutora: eleva o modelo tradicional (mãe, pai e filhos) como a única estrutura capaz de gerar valor social, diabolizando em simultâneo qualquer configuração familiar alternativa.

Argumentos dogmáticos versus evidência empírica
Esta visão levanta-me sérias reservas a vários níveis. Em primeiro lugar, há a utopia do lar perfeito, onde se parte do pressuposto falacioso de que o modelo nuclear tradicional é garantia absoluta de harmonia. Ignora-se, contudo, a quantidade de problemas estruturais - a começar pelos índices de violência doméstica - que infelizmente ocorrem em lares convencionais. Não há famílias, pais ou filhos imunes a falhas.

Em segundo lugar, sobressai o claro défice de suporte científico. É curioso ver um texto que ensaia algum rigor formal citar textos religiosos (como passagens bíblicas), mas falhar redondamente no essencial: onde estão a literatura científica ou os estudos sociológicos rigorosos que demonstrem que crianças educadas por mães solteiras, casais do mesmo sexo, pais divorciados ou avós têm pior desenvolvimento psicológico ou menor sucesso emocional? Afirmar que a estabilidade afetiva é exclusivo da família tradicional é uma falácia sem sustentação empírica.

O que as famílias realmente precisam (independentemente do formato)
O único ponto de contacto com a realidade prática surge quando o texto reconhece a necessidade de dar mais apoio aos lares. De facto, o velho provérbio "é precisa uma aldeia inteira para educar uma criança" nunca fez tanto sentido, numa altura em que a pressão laboral desmantelou essa rede comunitária.

Contudo, a solução para este problema não passa por batalhas ideológicas sobre o formato da família, mas sim por políticas públicas eficazes. Precisamos do alargamento e gratuitidade da rede de creches, de uma melhoria substancial das licenças de parentalidade para ambos os pais, do reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no acompanhamento pediátrico e de saúde mental, e de medidas urgentes para mitigar a crise na habitação e dar estabilidade financeira aos jovens.

É lamentável que uma obra com esta visibilidade prefira focar-se em nostalgias morais e católicas em vez de propor soluções reais para as dificuldades materiais de quem quer criar filhos em Portugal.

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