quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Prémio ao Cimento: Cavaco Silva e o "Whitewashing" à Europeia


Bom dia. Acordei a meio da noite para ir à casa de banho e, na ingenuidade de quem acha que consegue controlar tudo (inclusive o tempo), dei uma espreitadela no telemóvel com o intuito de voltar a adormecer... O resto é algo que podem imaginar — algumas horas de sono perdidas. Li esta notícia: "
Cavaco Silva condecorado com a Ordem Europeia do Mérito em Estrasburgo" - fui de imediato ver se era alguma partida de 1 de abril ou mais uma "exclusividade" da edição digital da Folha Nacional - que, para quem anda distraído, é o jornal oficial e o órgão de propaganda do partido Chega. Mas nem uma coisa, nem outra. Aconteceu mesmo!
Logo hoje, que eu ia usar o meu precioso tempo para falar das escolhas (fortemente questionáveis) do selecionador nacional para o Mundial de 2026... Quero que saibam que estou desde as 05:30 (e já passa das 08:00!) a escrever este texto. Porquê? Porque me dei ao hercúleo trabalho de procurar algo que este homem tenha feito para merecer tamanha distinção. Confesso que de pouca coisa me lembrava; tive de fazer arqueologia política, escavar muito numa rocha a que chamam de Google, isto para não fazer má figura, nem enganar ninguém.
Meus amigos, aconteceu terça-feira, na cidade de Estrasburgo, França, Europa — a uns 2.000 quilómetros de Lisboa. No meio de palminhas ensaiadas e sorrisos amarelos, a Múmia de Boliqueime — aquele ser de uma modéstia ímpar que dizia que "nunca tinha dúvidas e raramente se enganava" — recebeu uma medalha do tamanho do seu ego chamada Ordem Europeia do Mérito. Sim, deram-lhe um prémio daqueles grandes, com fitinha dourada e tudo!
E quem melhor para receber um prémio da Europa do que o nosso Doutor Alcatrão, o homem que transformou Portugal num parque de estacionamento gigante? A escolha foi feita por um júri de líderes europeus e, vejam bem a ironia, um deles era Durão Barroso. Alguém que não o conhece de lado nenhum, nem nunca tinha ouvido falar dele, decidiu dar nota positiva ao morto-vivo da nossa política. E lá estava ele, parecia preso por arames (pelas fotos que acompanham a notícia), a receber a medalha ao lado de figuras de relevo mundial, como a alemã Angela Merkel — a "Chanceler de Ferro", também conhecida por "Mamãzinha" no tempo em que controlava os seus subalternos europeus. Imagino a conversa de circunstância em "bom alemão"...
Se bem se lembram, enquanto os outros mandavam de facto nos seus países, o "Bolo Rei" do nosso orçamento limitou-se a gerir o alcatrão de estradas como a A1 e a EN125. Os chefes da Europa acham que ele mereceu o prémio por nos enfiar na UE, mas nós cá na paróquia lembramo-nos bem do que ele fez nos anos 80 e 90 — pormenores que a medalha finge esquecer. Foi a autêntica loucura do betão. Entrou tanto dinheiro vindo de Bruxelas e, em vez de modernizar o país, construir escolas de futuro e hospitais, o agora medalhado gastou quase tudo em autoestradas para podermos viajar mais depressa e gastarmos mais combustível.
Depois, veio o crime no setor primário: o governo aceitou as ordens de Bruxelas de cabeça baixa e trocou os nossos barcos e campos por subsídios para pescadores e agricultores ficarem em casa a ver as telenovelas. O interior esvaziou e passámos a comprar tomates a Espanha com o dinheiro que vinha de fora (porque os nossos já tinham ido à vida). Ainda hoje não os temos.
Para além disso, privatizou bancos e empresas estatais quase às escondidas, num número  de magia financeiro. E quem esquece aquele feitio altivo, com laivos pidescos? Um chefe teimoso e prepotente que ignorou a revolta do buzinão da Ponte 25 de Abril e os protestos dos estudantes contra as propinas. A brilhante ideia de mandar polícias avançar à força contra os seus próprios colegas - a que deram  ao episódio os "Secos e Molhados" — um espetáculo absolutamente lastimável. E, claro, como o homem gostava de silêncio, houve até espaço para a censura, ao proibir um livro do nosso único Nobel da Literatura, José Saramago.
Não esquecendo que essa múmia também não quis dar uma pensão a Salgueiro Maia. Não esquecendo que essa múmia também, umas semanas antes do BES ter entrado em falência, disse sem hesitação que o BES era um banco seguro. E por coincidência o genro dele de nome António Montez ganhou a compra, por proposta em "carta fechada" da atual MEO Arena, quando essa personagem estava falida. 
Durante os seus mandatos presidenciais, a par da governação PSD/CDS-PP liderada por Passos Coelho, o país implementou as duras medidas de austeridade associadas ao resgate da Troika, um rumo que Cavaco Silva chancelou. 
Mas a internet não perdoa e o timing é cruel. Enquanto o para mim "inexpressivo de Boliqueime" subia ao palco todo vaidoso a receber o metal, o feed das redes sociais dava atenção a um jovem, em França, que saltou para um rio perigoso para salvar um pato bebé. A piada faz-se mesmo sozinha: um rapaz arrisca a vida por um patinho indefeso, enquanto a Europa dá uma medalha de ouro ao agora surdo-mudo Cavaco - o homem que usou a força do cimento para empurrar a nossa agricultura e a nossa pesca para o fundo do poço.
Parabéns! Eu não, mas a Europa agradece penhoradamente por nos teres deixado permanentemente agarrados ao soro deles.
Texto adaptado de Luís Santos

Sem comentários: