Sobre o "movimento de mulheres conservadoras" é usar as conquistas por exemplo - o voto, a candidatura e a voz pública - contra elas mesmas.
Esquece quem faz que não sabe (ou não se lembra) que, no Estado Novo, o máximo que faziam em público era benzer-se na missa e pedir autorização por escrito para ir às compras. E não, não estou a exagerar.
Antes do 25 de Abril, uma mulher casada precisava do consentimento do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária. Hoje, estas militantes "cheganas" aproveitam a autonomia conquistada para apoiar quem marcha ao lado de quem quer retirar-lhes direitos - de quem lhes quer enfiar o avental à força. Agora um pouquinho "mais a sério", dá-me repulsa, nojo, assistir a mulheres a lutar pela própria submissão - e ainda verem-se aplaudidas por quem devia defender o progresso social -;é tão absurdo como ver perus a manifestarem-se alegremente a favor do Natal todos os dias.
Não é novidade, e é triste e revoltante ver a "cheganice" aliar-se aos evangélicos e seus propósitos de ter mais votantes.
É isto que temos que nos indignar e criar repulsa e falar a verdade. Vejamos em contraponto o legado de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma católica convicta e ativista e progressista.
O pensamento pioneiro de Maria de Lourdes Pintasilgo e o confronto com a Ditadura
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930–2004) foi uma das figuras mais marcantes e singulares do século XX português, tendo-se tornado na primeira e até hoje única mulher a assumir o cargo de Primeira-Ministra de Portugal, em 1979, além de ser uma das mais destacadas pensadoras da igualdade de género no espaço lusófono e internacional. O seu pensamento estruturou-se em torno da ideia de que a emancipação das mulheres não devia significar uma mera assimilação do modelo masculino de poder, mas sim uma transformação profunda na própria forma de fazer política, introduzindo valores de cuidado, mediação, ecologia e justiça social. Como dirigente do Graal, um movimento internacional de mulheres católicas, e sendo ela própria uma católica convicta, Pintasilgo demonstrou que a fé e o progresso social não eram incompatíveis. Pelo contrário, defendia que o verdadeiro compromisso ético e humanista exigia a libertação das estruturas patriarcais e autoritárias que historicamente remetiam as mulheres ao silêncio.
Durante os últimos anos do Estado Novo, em pleno período da chamada "Primavera Marcelista", gerou-se uma ténue fresta de debate sobre a modernização e o desenvolvimento económico do país. Em 1970, o regime criou a Comissão para a Política Social Relativa à Mulher - a antecessora histórica da atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) -, convidando Maria de Lourdes Pintasilgo para a presidir. Foi nesse contexto que Pintasilgo conduziu um diálogo estratégico com o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, usando a sua formação em Engenharia Química, o seu rigor técnico e a sua projeção internacional junto da Organização das Nações Unidas para confrontar o regime com a contradição da condição feminina em Portugal.
Pintasilgo conseguiu convencer Marcello Caetano da necessidade de mudar a política em relação às mulheres ao demonstrar, com diagnósticos sociológicos e económicos rigorosos, que a profunda discriminação jurídica, profissional e civil existente - como a obrigação de obter autorização do marido para trabalhar, viajar ou abrir uma conta bancária - representava um atraso civilizacional e um travão ao desenvolvimento do próprio país. Além disso, invocou a dimensão internacional para sublinhar o isolamento de Portugal face aos organismos mundiais. A sua atuação permitiu que o país integrasse a Comissão do Estatuto da Mulher da ONU e viabilizou os primeiros diplomas legais de proteção ao trabalho feminino e à maternidade ainda antes da Revolução. Ao utilizar as fissuras da ditadura para erguer as bases institucionais dos direitos das mulheres, Maria de Lourdes Pintasilgo abriu caminho para as transformações democráticas que se consolidariam após o 25 de Abril de 1974, reafirmando a voz e a autonomia feminina como conquistas irreversíveis da história portuguesa.
Ler mais:
Nota: No artigo o texto intitulado Para uma óptica revolucionária da condição feminina na Constituição, o link fornecido está errado. Podem lê-lo aqui
Sem comentários:
Enviar um comentário