domingo, 25 de outubro de 2026

Os cientistas já sabiam que o Glaciar do Juízo Final estava a derreter. Só não tinham noção de que o fazia de forma tão agressiva

O glaciar mais largo do planeta está a derreter "de forma mais agressiva" do que o previsto até agora, o que significa que o seu impacto na subida do nível global do mar pode representar o dobro das estimativas atuais, revela uma nova investigação realizada por uma equipa de glaciólogos.

O glaciar Thwaites, situado na Antártida Ocidental e apelidado de Glaciar do Juízo Final devido à catástrofe que o seu colapso desencadearia, é uma enorme incógnita quando se trata de prever a subida das águas a nível mundial.

Com uma dimensão equivalente a quase duas vezes o território de Portugal continental e localizado num dos pontos mais inacessíveis da Terra, este glaciar tem vindo a recuar há décadas. Atualmente, o degelo contribui para cerca de 4% da subida global do nível do mar.

Contudo, os mecanismos por trás deste recuo são excecionalmente complexos, tornando difícil traçar o seu futuro com exatidão.

Trata-se, ainda assim, de uma tarefa vital, uma vez que o Thwaites retém água suficiente para fazer subir o nível do mar em mais de 60 centímetros caso colapse. Como também funciona como uma rolha que trava o vasto manto de gelo da Antártida, o seu desaparecimento poderá, em última análise, provocar uma subida de cerca de três metros no nível das águas, devastando comunidades costeiras de Miami a Manila.

Glaciólogos da Universidade da Califórnia, em Irvine, e do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA desenvolveram um novo modelo do manto de gelo que, defendem os próprios, reflete melhor o que está a acontecer por baixo deste gigante gelado.

O recuo rápido do Thwaites é impulsionado por fenómenos que ocorrem na sua "linha de ancoragem", o ponto onde o gelo se desprende do fundo marinho e começa a flutuar no oceano como uma plataforma glaciar.

Enquanto os modelos tradicionais tendiam a encarar esta linha de ancoragem como algo fixo e maioritariamente estável, "chegámos à conclusão de que existe uma dinâmica diferente por baixo dos principais glaciares terrestres que terminam no oceano", explicou o autor principal do relatório, Mattia Poinelli, cientista de projetos na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que investigava ciências do sistema terrestre na Universidade da Califórnia em Irvine à data do estudo.

Os dados de satélite revelam que a linha de ancoragem é, na verdade, uma "zona de ancoragem", por vezes com vários quilómetros de largura, onde a água do mar entra e sai constantemente ao ritmo das marés, elevando e baixando o gelo espesso num processo conhecido como "bombeamento de maré". Este fenómeno permite que a água oceânica, relativamente quente, penetre "em profundidade por baixo dos mantos de gelo, causando um degelo vigoroso", detalhou Poinelli.

Quando os cientistas ajustaram os modelos para incluir o conceito de zona de ancoragem, descobriram que o Thwaites pode contribuir com até três centímetros para a subida do nível do mar até 2100 (o dobro das estimativas anteriores), mesmo sem um agravamento do aquecimento global, apontam as conclusões publicadas na segunda-feira na revista científica Nature Communications.

O solo onde assenta o Thwaites tem uma inclinação descendente, o que significa que, à medida que o glaciar derrete, mais gelo fica exposto à água quente do oceano. A topografia é, no entanto, dificultada por duas importantes cristas subaquáticas que "prendem" o gelo, impedindo-o de fluir para o oceano com maior rapidez.

Os processos de degelo na zona de ancoragem do Thwaites estão a acelerar o "desprendimento" do gelo de uma grande elevação conhecida como Crista de Mouginot, concluiu a investigação. Existe uma probabilidade de 60% de que o glaciar se solte totalmente desta estrutura até ao final do século, momento a partir do qual deverá recuar rapidamente pelo leito rochoso inclinado em direção à próxima grande crista.

As conclusões sugerem que o impacto da perda do Thwaites pode ter sido subestimado. Uma subida do nível do mar de três centímetros pode parecer pouco, mas é suficiente para agravar substancialmente os perigos para as populações costeiras.

Estes resultados "preveem um maior risco e exposição a inundações costeiras nas próximas décadas do que o antecipado", alertou Eric Rignot, coautor do relatório e professor de ciências do sistema terrestre na Universidade da Califórnia, em Irvine.

Para Ted Scambos, investigador principal no Centro de Ciência e Observação da Terra da Universidade do Colorado em Boulder, que não participou no estudo, estas descobertas podem representar "um verdadeiro ponto de viragem nas previsões sobre a subida do nível do mar provocada pelo Thwaites".

No entanto, tanto Scambos como outros especialistas advertem que é necessária mais investigação para compreender o impacto dos diferentes processos de degelo na zona de ancoragem, sobretudo através da recolha direta de dados por baixo do glaciar.

"A realidade é que ainda há muito por descobrir sobre os processos na zona de ancoragem para podermos fazer previsões seguras quanto à velocidade a que o gelo será perdido", sublinhou Robert Larter, geofísico marinho do British Antarctic Survey, que também não esteve envolvido no estudo. O especialista acrescentou que o ambiente por baixo do Thwaites, de dificílimo acesso, é ainda mais complexo do que o descrito no artigo científico.

A recolha de dados de observação diretamente na linha de ancoragem do Thwaites é o próximo passo, adiantou Rignot. Os cientistas planeiam viajar até ao local em 2028 para instalar instrumentos capazes de documentar a entrada e saída da água do mar.

"Há décadas que estamos conscientes do impacto das alterações climáticas nos sensíveis mantos de gelo do nosso planeta", recordou Rignot, "mas a perceção crescente, adquirida nos últimos anos, sobre o que está realmente a acontecer na base de glaciares como o Thwaites está a gerar um sentimento de alarme ainda maior".

O investigador defendeu que o mundo tem de reduzir já a poluição que aquece o planeta de forma a limitar os impactos, mas deixou um aviso: "Mesmo que o façamos, podemos esperar níveis do mar mais elevados no futuro, em resultado dos danos que já foram causados".

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