quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

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