A desumanização das relações e a mercantilização do afeto vertidas em "Que Amor Não Me Engana" espelham de forma crua as dinâmicas socioeconómicas contemporâneas, encontrando um eco surpreendente nas discussões em torno da nova proposta de reforma laboral do Governo — o pacote "Trabalho XXI".
Quando José Afonso canta sobre a urgência de um amor que não atraiçoe e a amargura de quem olha em redor e, "à porta do muro", não vê ninguém, ele traduz liricamente o isolamento do indivíduo perante estruturas que priorizam a métrica e a eficiência em detrimento da dignidade humana.
Essa mesma tensão entre a necessidade de conexão genuína e a frieza dos sistemas reflete-se diretamente na flexibilização proposta pelo novo quadro legislativo, nomeadamente através do regresso do banco de horas por acordo individual e do alargamento dos contratos a termo para cinco anos no caso de termos incertos.
Estas medidas, embora desenhadas sob a premissa de dotar o mercado de maior agilidade e produtividade, correm o risco de aprofundar a precariedade existencial do trabalhador, transformando o tempo de vida e de descanso numa mercadoria transacionável e adiável, onde a segurança psicológica é sacrificada em nome da sobrevivência económica.
O "engano" de que Zeca falava materializa-se hoje na ilusão de autonomia individual perante plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial que passam a gerir recursos humanos e a ditar despedimentos e avaliações; uma realidade tão desprovida de empatia que a nova lei se vê obrigada a legislar para garantir um controlo humano mínimo sobre as decisões das máquinas.
No fundo, ao cruzar a poesia de resistência com a nova legislação laboral, percebe-se que a busca por um "amor que não engana" continua a ser a busca por um ecossistema social e profissional que reconheça o trabalhador não como uma ferramenta de rendimento descartável, mas como um ser humano que necessita de amparo, tempo e verdade nas suas relações.
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