A obra de Lamberto Maffei, condensada de forma magistral no seu tríptico constituído por Elogio da Lentidão, Elogio da Palavra e Elogio da Rebeldia, ganha uma nova e inquietante espessura quando se corrige a grelha de leitura cronológica do autor, onde as siglas a.P. e d.P. significam, com precisão histórica, "antes da Pandemia" e "depois da Pandemia". O pensador e neurocientista italiano não se limita a tecer uma crítica cultural superficial sobre os malefícios do isolamento tecnológico; ele ancora a sua reflexão na biologia do cérebro humano para demonstrar como o trauma civilizacional da Covid-19 acelerou geometricamente a migração definitiva da nossa vida social para o interior dos ecrãs, forçando uma mutação patológica na nossa ecologia mental. Esta viragem histórica projeta a análise de Maffei diretamente para o campo da biopolítica, uma vez que o confinamento normalizou o controlo, a vigilância e a mediação algorítmica de todas as esferas da vida, transformando o próprio cérebro no território definitivo onde o poder contemporâneo opera.
Ao cruzar este diagnóstico com a sociologia, percebe-se que a transição para o cenário d.P. materializou o solipsismo militante de Gilles Lipovetsky e radicalizou a tese de Zygmunt Bauman, revelando uma sociedade que ultrapassou o estado líquido para se tornar completamente liquefeita. Trata-se de uma rede de comunicação crescentemente sofisticada que, sob o pretexto de nos manter conectados em segurança sanitária, funcionou como uma parede invisível que aprisionou o indivíduo num isolamento entristecedor. Para um neurocientista, a biopolítica do século XXI já não se exerce apenas através de decretos de Estado ou cercas físicas, mas sim na modelação mecânica do sistema nervoso das populações através da captura dos circuitos biológicos de dopamina. Ao habituar-se à ausência de corpos reais e tridimensionais, o cérebro humano, devido à sua plasticidade sináptica, adapta-se à reclusão digital, gerando uma atrofia das áreas ligadas à empatia e ao pensamento crítico lento, o que torna as massas mais dóceis, previsíveis e fáceis de governar.
Esta rutura comunicacional d.P. afeta diretamente os processos identitários descritos por Paul Ricoeur, que defendia que o si-mesmo só se conhece verdadeiramente através do outro. Para compreender a gravidade desta fratura, é essencial convocar o olhar da psicanálise de Sigmund Freud e os seus conceitos de transferência e contratransferência. A alteridade necessita do atrito e da presença do interlocutor para que o sujeito descodifique os seus próprios traços de personalidade, seja por oposição ou por identidade. Quando a biopolítica pós-pandémica confina os corpos e substitui o próximo por uma imagem plana filtrada pelo ecrã, a contratransferência real é amputada, o diálogo converte-se num monólogo estéril e o autoconhecimento fica gravemente comprometido.
Face a este cenário de liquefação social e domesticação cognitiva, a resposta que emana da obra de Maffei assume o caráter de uma contra-biopolítica urgente. Dado que a plasticidade cerebral garante que não estamos biologicamente condenados ao determinismo digital, a rebeldia proposta pelo autor deixa de ser um mero manifesto intelectual para se tornar num ato de resistência biológica defensiva. Educar os indivíduos no espírito crítico, forçando a suspensão do juízo e o confronto presencial com a contradição, é uma forma de terapia ocupacional que reabilita o córtex pré-frontal contra os automatismos da pressa digital. Rebelar-se na era depois da pandemia significa, portanto, resgatar deliberadamente a lentidão e a palavra dita para abrir caminhos sinápticos alternativos, salvaguardando a soberania do pensamento e a profundidade da condição humana perante os sistemas de controlo da modernidade.
Para aprofundar este diagnóstico diretamente a partir das palestras do autor, a intervenção Lamberto Maffei - Le nuove frontiere delle neuroscienze: ambiente e cervello ilustra com clareza como o neurocientista detalha a vulnerabilidade do sistema nervoso às pressões ambientais e a urgência de defender a nossa biologia. Adicionalmente, para compreender a transição teórica do controlo dos corpos para o controlo digital das mentes, o ensaio sobre a Psicopolítica de Byung-Chul Han oferece uma excelente ponte filosófica para a anatomia da resistência proposta por Maffei.
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