segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Tecnofascismo e carbofascismo: as novas formas de dominação do poder contemporâneo e o fim da política tradicional


Resumo
A reconfiguração geopolítica e sociotécnica do século XXI impõe a necessidade de ultrapassar as molduras teóricas herdadas da modernidade. Este ensaio desenvolve uma análise crítica sobre como a intersecção entre o tecnofascismo e o carbofascismo constitui a arquitetura de poder dominante do nosso tempo. Argumenta-se que, enquanto o tecnofascismo rege a subjetividade humana através de ecossistemas algorítmicos e do capitalismo de vigilância, o carbofascismo assegura a reprodução material do capital fóssil e a inércia sistémica perante a catástrofe ecológica. Perante esta aliança estrutural, o espetro político convencional (Esquerda e Direita institucionais) revela-se incapaz de resposta, resultando numa anestesia política generalizada.

1. Introdução: O Diagnóstico do Poder Contemporâneo
A teoria política clássica acostumou-se a definir o poder através da coerção estatal exercida dentro de fronteiras soberanas, medida pelo monopólio da violência legítima (Weber) ou pelas instituições disciplinares (Foucault). Contudo, o cenário contemporâneo apresenta um deslocamento fundamental: o exercício do controlo transicionou para mecanismos de modulação comportamental invisível e para a preservação forçada da infraestrutura energética de combustíveis fósseis.
A tese central deste ensaio assenta na premissa de que o poder atual é estruturado por dois eixos complementares:
1. O eixo imaterial/algorítmico (Tecnofascismo), que captura a atenção, atomiza a sociedade e modula o comportamento do cidadão;
2. O eixo material/extrativista (Carbofascismo), que impõe a continuidade do modelo fóssil, sacrificando a estabilidade ecomaterial do planeta em prol da acumulação de capital.

A convergência destas forças gera um nó cego institucional, no qual as vias tradicionais de representação política e reivindicação social se tornam obsoletas e inoperantes.

2. O Tecnofascismo e a Modulação Digital do Comportamento
O conceito de tecnofascismo descreve a consolidação do poder de corporações multinacionais de tecnologia (Big Tech) que operam além da soberania dos Estados e redefinem a esfera pública. Esta forma de dominação não necessita do terror físico tradicional dos regimes autoritários do século XX; em vez disso, atua por via da submissão voluntária e do condicionamento psíquico.

2.1. O Capitalismo de Vigilância e a Ilusão de Autonomia
Como analisa Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), o capitalismo digital opera através da apropriação unilateral da experiência humana privada, convertida em "excedente comportamental" (behavioral surplus). Este excedente é alimentado a sistemas de inteligência artificial desenhados para prever e modificar ações futuras.
Nesta arquitetura:
  • A coerção estatal é substituída pela psicopolítica digital (Han, 2014), em que o utilizador é constantemente induzido à auto-exposição e ao consumo atencional;
  • A arquitetura das redes sociais e das bolhas de ressonância (echo chambers) incentiva a polarização dirigida, transformando conflitos sociais estruturais em "guerras culturais" online estéreis;
  • A energia coletiva e a capacidade de organização no mundo físico degradam-se à medida que a atenção é atomizada e desprovida de eficácia política real.
2.2. A Substituição da Esfera Pública pelo Algoritmo
O filósofo e sociólogo Evgeny Morozov alerta para o perigo do "solucionismo tecnológico" — a ideia de que todos os problemas complexos da sociedade podem ser resolvidos por algoritmos e otimização de dados. O tecnofascismo manifesta-se precisamente quando a mediação algorítmica substitui o debate deliberativo democrático. O cidadão deixa de ser um sujeito político ativo para se tornar um ponto de extração de dados e um recetador passivo de estímulos otimizados para maximizar o engagement.

2.3. A Monetização da Intolerância (Bigotry) como Mecanismo de Dispersão 
A eficácia do tecnofascismo reside na capacidade de rentabilizar e amplificar a intolerância e o preconceito (bigotry). Dado que as arquiteturas algorítmicas priorizam métricas de reação emocional imediata, o discurso de ódio e a menorização do "outro" tornam-se mercadorias de alta rentabilidade. Esta dinâmica converte fraturas sociais profundas em mero espetáculo reativo, garantindo que o ressentimento popular seja drenado contra minorias vulneráveis em vez de se dirigir à infraestrutura material do capital fóssil e corporativo.

3. O Carbofascismo e o Imperativo do Capital Fóssil
Se o tecnofascismo domina a dimensão psíquica e informativa, o carbofascismo comanda a infraestrutura material da sobrevivência humana. O termo descreve a aliança coerciva e institucional entre o setor dos combustíveis fósseis, o capital financeiro e as elites políticas governamentais para manter a hegemonia do carbono a todo o custo.

3.1. A Dinâmica do Capital Fóssil
Na obra Fossil Capital (2016), o ecologista político Andreas Malm demonstra que o capitalismo histórico não se aliou às energias fósseis simplesmente por escassez de alternativas, mas pela capacidade que o carvão e o petróleo proporcionavam para disciplinar a força de trabalho e centralizar o poder de produção.

Atualmente, o carbofascismo manifesta-se no bloqueio sistemático da transição energética necessária:
  • Inércia sistémica: apesar de relatórios científicos conclusivos - como os do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) , a infraestrutura fóssil continua a receber subsídios massivos e investimentos estatais.
  • Violência extrativista: a degradação ambiental e as desigualdades do Sul Global são tratadas pelas elites financeiras como externalidades negativas e custos colaterais inevitáveis em nome da estabilidade dos mercados.
  • Autoritarismo fóssil: o recrudescimento da repressão policial e jurídica contra movimentos de justiça climática e ativistas ambientais sinaliza o endurecimento dos Estados para proteger os ativos energéticos corporativos.
4. A Obsolecência da Geometria Política Tradicional: Esquerda e Direita Institucionais
Um dos pontos centrais da análise reside na constatação de que as categorias políticas tradicionais perdem utilidade concetual e prática no contexto atual.

4.1. Limitações da Esquerda e Direita Institucionais
Tanto o centro-esquerda como a direita liberal ou conservadora continuam a operar dentro do paradigma do crescimento económico infinito e da gestão do Estado-Nação do século XIX:
  • A Direita Tradicional atua como facilitadora das exigências do capital financeiro e tecnológico, promovendo a desregulamentação do mercado de dados e da indústria extrativa.
  • A Esquerda Institucional, ao focar a sua ação na redistribuição marginal do rendimento sem questionar as matrizes tecno-energéticas do poder, limita-se a gerir os sintomas do sistema sem confrontar as suas causas estruturais.
4.2. A Incompetência perante o Poder Transnacional
Tanto o complexo Big Tech como o Big Oil funcionam através de redes transnacionais imunes à legislação dos Estados singulares. A representação partidária tradicional promete soberania popular através do voto, mas defronta-se com corporações que determinam os preços da energia, controlam os fluxos de informação e contornam a fiscalidade nacional. O ato eleitoral torna-se, assim, um ritual de legitimação impotente perante lógicas que não respondem ao sufrágio universal.

5. Anestesia Política, Paralisia Social e a Ineficácia das Formas de Luta Clássicas
A convergência do bloqueio ambientalista e da alienação digital resulta num estado de exaustão psíquica e paralisia coletiva.

5.1. A Carga Cognitiva e a Ecoansiedade
O fluxo contínuo de informação catastrófica sobre as crises globais - desde o colapso climático ao avanço desregulado da inteligência artificial - sobrecarrega o sistema nervoso dos indivíduos. Estudos na área da psicologia social e relatórios ambientais indicam que o excesso de alarmismo sem canais eficazes de transformação gera:
  • Ceticismo e cinismo: a perceção de que os problemas são gigantescos conduz à resignação;
  • Burnout político: a energia ativista é gasta em campanhas e petições digitais que pouca incidência têm na estrutura de poder;
  • Ecoansiedade e desespero: a sensação de colapso eminente desmobiliza a ação e incentiva o rali de sobrevivência individual.
5.2. A Perda de Eficácia das Formas de Reivindicação Tradicionais
Historicamente, as grandes conquistas sociais foram obtidas por via da greve, da manifestação de rua, da organização sindical e do debate partidário. Hoje, contudo, observa-se uma desarticulação destas ferramentas:
  • Manifestações de rua: são neutralizadas ou assimiladas enquanto "espetáculo digital", convertidas em conteúdo para redes sociais que gera métricas para as próprias plataformas que se pretende criticar.
  • Sindicatos: foram enfraquecidos pela precarização do trabalho e pela dispersão geográfica impostas pela economia de plataformas (gig economy).
  • Partidos políticos: encontram-se reduzidos a máquinas de marketing eleitoral dependentes dos algoritmos das plataformas digitais para comunicar com o seu eleitorado.
6. Conclusão: Horizontes para Além da Anestesia
O diagnóstico formulado demonstra que o tecnofascismo e o carbofascismo não são desvios temporários, mas a forma consolidada do capitalismo tardio. Eles sustentam-se mutuamente: os ecossistemas digitais dispersam e anestesiam a resistência social necessária para interromper a trajetória de devastação ecológica imposta pelo capital fóssil.

Superar este estado de paralisação exige um reconhecimento claro da falência dos métodos de reforma gradualista. A construção de alternativas políticas eficazes para o século XXI exigirá:
  1. Soberania digital crítica: A criação de redes, infraestruturas de informação e ferramentas algorítmicas de código aberto e propriedade comunitária, desvinculadas das dinâmicas do capitalismo de vigilância;
  2. Ação direta e desobediência civil energética: A transição de um ativismo focado na consciencialização para estratégias de interrupção direta da infraestrutura de reprodução do capital fóssil, tal como preconizado por correntes da ecologia política radical;
  3. Reconfiguração das formas de organização: O abandono da dependência exclusiva das instituições representativas tradicionais em favor de novas formas de poder popular local, regional e transnacional.
Apenas ao confrontar simultaneamente a infraestrutura do carbono e a mediação algorítmica da atenção será possível resgatar a política da sua anestesia atual e devolver ao corpo social a capacidade de autodeterminação.

Shoshana Zuboff explica o Conceito de Capitalismo de Vigilância
Este vídeo é relevante para o ensaio pois conta com a reflexão direta da Professora Shoshana Zuboff sobre como as grandes empresas tecnológicas capturam a experiência humana e alteram comportamentos sociais e políticos.

Referências Bibliográficas
  1. Arora, Arush (2025). Social Media-Driven Polarisation in the United States:Mechanisms, Policy Gaps, and Recommendations
  2. Han, Byung-Chul (2014). Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power. London: Verso.
  3. IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press.
  4. IPCC (2023). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Seventh Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. Geneva: IPCC.
  5. Malm, Andreas (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming. London: Verso.
  6. Malm, Andreas (2021). How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso.
  7. Morozov, Evgeny (2013). To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. New York: PublicAffairs.
  8. Zuboff, Shoshana (2019). The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs.



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