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domingo, 29 de março de 2026

clubdrugs - Heart 2 Break


A banda clubdrugs é um duo originário de Chicago, nos Estados Unidos, composto pelos músicos Maria Reichstadt e John Regan. Fundado oficialmente por volta de 2019, o projeto consolidou-se rapidamente na cena underground norte-americana. O seu estilo musical é uma fusão magnética de Goth Pop, Darkwave e Synthpop, caracterizado pelo uso de sintetizadores densos, batidas eletrónicas pulsantes e vocais etéreos que evocam uma nostalgia sombria dos anos 90.
Após alguns anos a lançar singles independentes e a construir uma base de fãs sólida em festivais de música alternativa, a banda atingiu um marco importante na sua carreira no início de 2026. Com o lançamento do seu álbum de estreia, "Lovesick", em março desse mesmo ano pela editora Artoffact Records, os clubdrugs afirmaram-se como uma das vozes mais promissoras da música eletrónica gótica contemporânea, equilibrando temas de melancolia e desejo com uma estética visual e sonora polida.
Melhor som do álbum Lovesick (2026) aqui

Curiosidade (e talvez crítica social por parte da banda)
O termo "club drugs" é muito utilizado para se referir a substâncias recreativas comuns em raves (como MDMA ou Ketamina)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo

Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim 

Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.

Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.

E-Livro completo aqui

A. Introdução

A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.

É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.

O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.

No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.

A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.

É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.

Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.

Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.

Conclusão

Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.

A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Feliz Dia do Amor - Jakub Józef Orliński sings "L'amante consolato"


Son tanto ito cercando
che pur alfin trovai
colei che desiai
duramente penando,
Oh questa volta sì ch'io non m'inganno,
s'io non godo mio danno!

Son tali quei contenti
che pur alfin io provo
che tutto mi rinovo
doppo lunghi tormenti.
Ma tutti com'io fo far non sapranno
chi non gode suo danno.


English
I searched for so long
that I finally found
the one that I desired,
after rigorous suffering.
Oh, this time let me not fool myself,
let me not be rejoicing in my own downfall.

The delights that I feel
at last are such
that everything renews me,
after prolonged agony.
But not everyone would be able to do as I do,
not being able to rejoice in their own downfall.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

The Jesus and Mary Chain - Here Comes Alice


Here she comes walking down the street
She's got something you would love to meet
It's her heart and her heart is black
Think of ice cream sliding into a crack

The heat sticks to summer's heavy sweat
Hang around it'll get hotter yet
You got the shakes and it's gonne get worse
Don't you know it's all a part of the curse

She's got the hit that takes you into space
Suck mud and make a deal for that taste
You got nothing but you're riding on a star
You couldn't guess that she could take you that far

Some things are so hard to say
Even though you'd say them every day
Don't let your life be the butt of a joke
Get your lips round a cool black Pepsi Coke

Here she come

"Here Comes Alice", foi lançada no álbum Automatic (1989). Melhor som aqui

Em "Here Comes Alice", do The Jesus And Mary Chain, Alice surge como uma figura envolvente e ameaçadora. Logo no início, a descrição "her heart is black" (seu coração é negro) indica não só mistério, mas também uma natureza destrutiva. As imagens presentes na letra, como "Think of ice cream sliding into a crack" (pense em sorvete escorrendo por uma fenda) e "The heat sticks to summer's heavy sweat" (o calor gruda no suor pesado do verão), criam um clima sensual e sufocante, sugerindo um desejo intenso que pode ser tanto emocional quanto físico. Muitos interpretam essas metáforas como alusões ao uso de drogas, especialmente quando a música diz "She's got the hit that takes you into space" (ela tem a dose que te leva para o espaço) e "make a deal for that taste" (faça um acordo por esse gosto), reforçando a ideia de Alice como símbolo de uma tentação viciante, seja uma pessoa, experiência ou substância.

A "Femme Fatale": Alice é retratada como uma figura magnética, mas perigosa. Ela "anda como se estivesse em um filme" e "vende o que você não pode comprar". Ela personifica aquela pessoa que domina o ambiente pela sua aura de mistério e autodestruição.

Fuga e Entorpecimento: A repetição de "Here she comes" (Lá vem ela) sugere uma inevitabilidade. Muitos interpretam as figuras femininas nas músicas dos irmãos Reid como metáforas para vícios ou estados de transe. É uma música sobre observação, desejo e o vazio existencial da vida noturna.

Estética "Noir": A letra evoca imagens de ruas escuras, luzes de neon e uma certa elegância decadente. Não é uma música sobre felicidade, mas sobre a beleza que existe no sombrio.

Curiosidade: A música fez parte da trilha sonora do filme The Crow (O Corvo), o que faz todo o sentido, já que a estética gótica e urbana do filme casa perfeitamente com o som da banda.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A era das relações tóxicas


“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.

É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).

O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.

O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.

O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.

O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.

A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.

No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.

O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.

Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.

A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.

A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.

Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.

A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.

O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.

Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.

Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Siouxsie & The Banshees - Dizzy


“Dizzy” dos Siouxsie & The Banshees tem uma história curiosa.
Foi gravada em 1994, numa fase já tardia da banda, mas só lançada oficialmente em 1995 na colectânea The Best of Siouxsie and the Banshees. Por isso, muitos fãs a veem como uma espécie de “canto do cisne” do grupo.

Significado da canção
A letra de “Dizzy” gira em torno de um estado emocional instável — uma mistura de fascínio, desorientação e vertigem (daí o título). O “dizzy” aqui pode simbolizar:
  1. A sensação de estar inebriado por alguém ou algo – o amor, a paixão, mas também a obsessão.
  2. Um estado de vulnerabilidade – deixar-se levar por forças que não se controlam totalmente.
  3. A linha ténue entre prazer e perigo – típica nas letras de Siouxsie, onde o fascínio e o risco coexistem.
Musicalmente, tem uma atmosfera mais melódica e luminosa do que o habitual no Banshees, quase pop, o que contrasta com o tom hipnótico e enigmático da letra. Alguns críticos dizem que essa dicotomia reforça a ideia de “tontura” — algo doce e sedutor, mas também instável.

Em resumo: “Dizzy” fala da vertigem emocional causada pela intensidade de um relacionamento ou de uma experiência, algo que nos tira do eixo entre prazer e desequilíbrio.

domingo, 24 de março de 2024

Música do BioTerra: Chelsea Wolfe - Everything Turns Blue


I've been living without you here and it's alright
I'd been looking for a way out a long time
I've been living without you here and I can fight
I've been living softly my whole life

To smoke, to dance, to fly
To breathe into the night
It falls and everything turns blue
To fuck, to feel the same in the end
To hurt, to steal
You were so unreal

I've been thinking about you, heavy on my mind
I've been losing days here, do you know what that's like?
I've been thinking about you, fucked me up in my dreams
What do I have to do to heal you out of me?

You were, you were so unreal
You were, you were, you were so unreal

A música "Everything Turns Blue" faz parte do álbum She Reaches Out to She Reaches Out to She (2024)
A canção foi inspirada no processo de cura após o fim de relacionamentos tóxicos, o que explica a sensação de "renascimento" misturada à melancolia da letra.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

MDMC - Pegasus


verse
Ich riech die junge Seele von Kurt Cobain
Sie kriecht schon durch die Vene, entertained meinen Pain
Begiesst ödes Leben mit fake Champagne
Es pikst und ein Beben erweckt das Brain

pre-chorus
Oh Pegasus schiess mich zur Venus
Gib mir nen Schuss Luxus und Genuss
Oh Pegasus schiess mich zur Venus
Come and rock meine Welt bis sie auseinander fällt

chorus
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus c′mon (c'mon)
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus yeah (oh yeah)
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus c′mon (c'mon)
Come and rock meine Welt
Bis sie auseinander fällt

verse
Süss ist die Vergiftung, Madman Choco
Sündige Fiktion, lach mit Bozo
Weiss-blasse Schimmel galoppieren bis zu Eskapaden
Reissen mich in den Graben, oh ja ich will mit mit Whitney baden
Im River voll Vipern die von VIP Venen naschen
Doch der Phoenix bleibt liegen in der Asche
Die ich immer wieder erhasche und verprasse
Für Kroks aus Russia die Knochen crushen
Bam bam Bombido ballern im Klo
Moskitos zehren zehn Kilo von der Libido
In den Fängen von den Golden Girls aus Mexiko
Bleib ich hängen, schizo bis zur Endstation Zoo

pre-chorus

chorus
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus c'mon (c′mon)
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus yeah (oh yeah)
Come and rock meine Welt
Rock me Pegasus c′mon (c'mon)
Come and rock meine Welt
Bis sie auseinander fällt
Come and rock meine Welt (rock meine Welt)
Bis sie auseinander fällt (auseinander fällt)
Come and rock meine Welt (rock meine Welt)
Bis sie auseinander fällt
Now come and rock me Pegasus (let′s rock)

outro
Come and rock meine Welt
Come and rock meine Welt
Come and rock meine Welt bis sie auseinanderfällt
A música utiliza a figura mitológica do cavalo alado Pegasus como uma metáfora para "escapismo" ou uma viagem sensorial (mencionando Vénus, luxo e prazer).

Composição: a letra foi escrita pelo próprio artista, Marcus Domenico.

Produção: A batida, que mistura elementos de Hip Hop e música eletrônica, foi produzida por Artem Maimeskul (aka skyfall beats)

domingo, 25 de setembro de 2016

Música do BioTerra: Kristin Hersh feat. Michael Stipe - Your Ghost (1994)


If I walk down this hallway
Tonight it's too quiet
So I pad through the dark
And call you on the phone
Push your old numbers
And let your house ring
'Til I wake your ghost

Let him walk down your hallway
It's not this quiet
Slide down your receiver
Sprint across the wire
Follow my number
Slide into my hand

It's the blaze across my nightgown
It's the phone's ring

I think last night
You were driving circles around me
I think last night
You were driving circles around me
I think last night
You were driving circles around me

I can't drink this coffee
'Til I put you in my closet
Let him shoot me down
Let him call me off
I take it from his whisper
You're not that tough

It's the blaze across my nightgown
It's the phone's ring

You were in my dream (I think last night)
You were driving circles around me

domingo, 21 de setembro de 2008

Dia da Paz : Philippe Jaroussky -Vedro con mio diletto - Vivaldi


Espero que apreciem a minha escolha para celebrarmos este dia tão importante!


Dois Apelos internacionais:
International Day against Tree Monocultures (também em 21 de Setembro)
Ruahines threatened: Stop the destruction! (Nova Zelândia)


Há momentos musicais que sinto obrigação de partilhar. "Vou Me Encontrar Com Meu Querido". Vivaldi e Philippe Jaroussky levam-me às lágrimas. O público assiste com enorme respeito perante todo este soberbo pedaço de música.

"Vedrò con mio diletto" (que em português se traduz livremente para algo como "Vejo com o meu deleite" ou "Com prazer verei") é, na verdade, uma famosa ária da ópera "Il Giustino" (1724), composta por Antonio Vivaldi.

Aqui estão alguns pontos interessantes sobre a sua "história":

Contexto na Ópera: A ária é cantada pela personagem Anastasio no primeiro ato. Ele expressa o seu profundo amor e a ansiedade doce de reencontrar a sua amada, Arianna. É um momento de introspeção e lirismo puro, contrastando com as partes mais agitadas da ópera.

O Estilo de Vivaldi: Embora Vivaldi seja mais conhecido hoje pelos seus concertos (como "As Quatro Estações"), ele foi um compositor de óperas prolífico e muito bem-sucedido no seu tempo. "Vedrò con mio diletto" mostra a sua mestria em criar melodias vocais expressivas e carregadas de emoção.

Renascimento Moderno: Como muitas obras barrocas, esta ópera caiu no esquecimento por séculos. A ária tornou-se extremamente popular nas últimas décadas, sendo interpretada por grandes contratenores e sopranos (como Philippe Jaroussky ou Cecilia Bartoli), tornando-se uma das peças vocais mais queridas de Vivaldi.

Vedrò con mio diletto
L'alma dell'alma mia
Il core del mio cor
Pien di contento

Vedrò con mio diletto
L'alma dell'alma mia
Il core del quisto cor
Pien di contento

E se dal caro oggetto
Lungi convien che sia
Sospirerò penando ogni momento

Vedrò con mio diletto
L'alma dell'alma mia
Il core del mio cor
Pien di contento


Vou Me Encontrar Com Meu Querido

Vou me encontrar com meu querido
Que é alma de minha alma
O coração de meu coração
Cheio de alegria

Vou me encontrar com meu querido
Que é alma de minha alma
O coração deste meu coração
Cheio de alegria

E, se desse ser querido
Distante convenha que eu esteja
Suspirarei, sofrendo, todo o tempo

Vou me encontrar com meu querido
Que é alma de minha alma
O coração de meu coração
Cheio de alegria

Em “Vedrò Con Mio Diletto”, Philippe Jaroussky interpreta uma das árias mais conhecidas da ópera “Il Giustino”, de Vivaldi. A letra expressa um amor intenso e idealizado, como fica claro na frase “l’alma dell’alma mia, il core del mio cor” (“a alma da minha alma, o coração do meu coração”). Aqui, o amado é visto como parte essencial da existência do protagonista, mostrando uma fusão emocional profunda e rara.

A música alterna entre a alegria antecipada do reencontro e a dor da separação. Isso aparece em versos como “E se dal caro oggetto lungi convien che sia, sospirerò penando ogni momento” (“E se do objeto querido for preciso estar longe, suspirarei sofrendo a cada momento”). O contraste entre o contentamento ao lado do amado e o sofrimento na ausência dele é central para a ária, reforçando o tema do amor paciente e da esperança. A interpretação delicada de Jaroussky, marcada pela suavidade e emoção, destaca a atmosfera de ternura e saudade, características do barroco e da tradição musical veneziana. Assim, a canção se torna uma celebração lírica do amor idealizado e da espera, sentimentos universais que atravessam o tempo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Carnaval - Entre o riso e o sagrado


Carnaval e Festa dos Loucos

É discutido o étimo de Carnaval. Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar.

O étimo mais aceite é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).

Quando se procura as raízes históricas do Carnaval, há quem vá até às festas em honra de Ísis e Osíris, no Egipto. Entre os gregos e os romanos, havia grandes festejos, com cantos, sexo e vinho, em honra de Dioniso e Saturno, para celebrar a entrada da Primavera. Os germanos celebravam o solstício do Inverno, homenageando os deuses e expulsando os demónios maus.

Foi tardiamente que os cristãos aceitaram os festejos carnavalescos às portas dos rigores quaresmais. Apesar das tentativas da Igreja oficial para travá-los, eles continuaram e impuseram-se.

O homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens: sapiens sapiens e demens demens (duplamente sapiente e duplamente demente). Por mais que a sociedade tente "normalizar" comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras.

Trata-se de uma espécie de necessidade catártica, numa terapia colectiva, como se tudo se invertesse ou voltasse ao caos originário, para ser possível regressar à ordem.

Há um texto da Faculdade de Teologia de Paris, que, em 1444, assim quer justificar a Festa dos Loucos: "Os nossos eminentes antepassados permitiram esta festa. Porque haveria ela de ser-nos interdita? Os tonéis do vinho rebentariam, se de vez em quando se não abrisse o batoque para arejá-los. Ora, nós somos velhos tonéis mal ajustados que o vinho da sabedoria rebentaria, se o deixássemos ferver numa devoção contínua ao serviço divino. É por isso que dedicamos alguns dias aos jogos e à palhaçada, a fim de voltarmos em seguida com mais alegria e fervor ao estudo e aos exercícios da religião."

Precisamente a Festa dos Loucos leva-nos a reflectir sobre a relação entre o riso e o sagrado.

Nos Evangelhos, de Jesus diz-se que ele se admirava, comentando Tomás de Aquino que essa é a prova da sua humanidade, pois é próprio do homem espantar-se (não é o espanto o princípio da Filosofia?), e também se afirma que chorou, nunca se referindo, porém, nem o sorriso nem o riso.

Por isso, no quadro da desconfiança ascética face ao riso, que chegou a ser considerado demoníaco, generalizou-se a ideia de que nunca se riu. Mas é evidente que Jesus sorriu e riu, pois sorrir e rir são características distintivas do homem. Ai do homem incapaz de rir-se de si mesmo!

Por outro lado, só nas ditaduras é que não é permitido fazer humor nem rir dos poderes instituídos.

Há testemunhos das Festas dos Loucos desde finais do século XII e eram promovidas pelo baixo clero. Elegia-se, entre os subdiáconos, um senhor da festa, designado por "Bispo". Na transmissão simbólica do "báculo", entoavam -se os versículos do Magnificat: "Depôs os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes", apontando assim para a utopia da igualdade e a inversão da ordem vigente na realização do Reino de Deus.

Chegava-se a colocar o clérigo feito "Bispo" sobre um burro, avançando para o altar com o rosto voltado para a cauda. Durante a liturgia, em momentos fundamentais, o celebrante e os assistentes zurravam.

Neste descalabro burlesco, seria possível, ver, no limite, a urgência de não confundir o sagrado em si com as mais variadas formas idolátricas que os crentes lhe emprestam. Pode perguntar-se com Paulo A. Borges se "nesta cáustica e caótica violação e suspensão de todos os respeitos", não se tratará de estender ao sagrado e ao divino "aquele libertador iconoclasmo do espírito que se recusa a aceitar, como dignos de veneração e culto", "os mais dissimulados ídolos que acima de tudo importa reconhecer e desconstruir".

Quem pode imaginar o ridículo de certas imagens de Deus na inteligência e no coração de alguns crentes? Um Deus que não chega às máquinas multibanco, que "dão" dinheiro!