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quinta-feira, 26 de março de 2026

Lost In Desire: I Am You (Apoptygma Berzerk remix)


Melhor som aqui
O Apoptygma Berzerk apenas fez o remix da música "I Am You" para o álbum de remixes do Lost In Desire chamado Reborn From The Ashes (lançado em 2011).

Letra

Feel my heart beating
Forever in your soul
Feel my heart seizing
Forever out of control

See my heart bleeding
Dripping down the hole
Feel despair breeding
Forever unstoppable

I wanna be with you
I wanna feel with you
I wanna be like you
I'm becoming you
I'm becoming you
I'm becoming you

Feed when I'm feeding
Anger on the whole
Grieve when I'm grieving
On there goes the show

See what I'm seeing
Together on we go
Bleed when I'm bleeding
Forever I am you

My dear friеnd
You cannot live without me
If I die, you die
I'm your host, you're my parasite
In darkness we live our symbiosis

A canção "I Am You" explora a fusão absoluta entre duas almas, mergulhando num romantismo sombrio onde a individualidade é sacrificada em nome de uma ligação transcendental. A letra funciona como um espelho psicológico, sugerindo que o narrador e o objeto do seu desejo se tornaram uma única entidade; ele não apenas observa o outro, mas habita a sua essência, sentindo as suas dores e refletindo os seus pensamentos.

Existe uma atmosfera de onipresença e devoção quase religiosa, onde o "eu" só encontra sentido e existência através do "outro". Esta interdependência é pintada com as cores típicas do Darkwave: melancolia, entrega total e a aceitação da escuridão como o cenário onde este amor floresce. Em última análise, a música trata da perda das fronteiras do ego, onde o amor deixa de ser uma relação entre duas pessoas para se tornar um estado de ser partilhado — uma simbiose onde um é, literalmente, o reflexo inseparável do outro.

sábado, 7 de março de 2026

Bach - Schweigt stille, plaudert nicht, 'Kaffeekantate' BWV 211 (Cantata do café, de Bach)

On Bach’s day, drinking coffee was certainly not without controversy. The text in this Kaffeekantate 'Schweigt stille, plaudert nicht', here performed by the Netherlands Bach Society for All of Bach, tells of a girl who is addicted and of women who know their own mind, and sexual innuendo is never far away. If Bach had written an opera, then it could have looked like this. 

Recorded for the project All of Bach on 17th May 2019 at Radio Kootwijk. 

This recording was made possible by the support of the Eleven Floawers Foundation. 

For more information on BWV 211 and this production go to All of Bach is a project of the Netherlands Bach Society / Nederlandse Bachvereniging, offering high-quality film recordings of the works by Johann Sebastian Bach, performed by the Netherlands Bach Society and its guest musicians. 

Visit our free online treasury for more videos and background material


Netherlands Bach Society 
Shunske Sato, violin and direction 
Lucie Chartin, soprano 
Marc Pantus, theatre concept, direction and design

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sloe Noon - Last One Home

Sloe Noon – Last One Home

intro musical
[verse 1]
Fucker is a freakshow
I don’t get it
Got other things on my mind
Don’t forget it

And I don’t like the way it goes
Last response two days ago
Something in the way he unsaid it
I’m so mad

[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unintentional
I stay with you until the last hour
That’s why I’m always the last one home

[verse 2]
Fucker’s always on my mind
Feel light-headed
In a different lifetime
I might have him
But I don’t like the way it goes
Something in the way it shows:
Eurydice and Orpheus in love

Always go, always go, always go home
Last one to leave, but I’m never alone
Want you to, want you to, want you to know
You make an hour feel like a lifetime
I go aaah, aaaaah, HA

[Chorus]
Get a drink, forget to let it go
Make it look unemotional
I stay with you after the zero hour
Wanna know, wanna know what you’re thinking
Wanna go, wanna go, but don’t know how
Good intentions, no discipline
Archille’s heel, no medicine
Guess I’ll always be the last one home

A letra de "Last One Home" afasta-se do minimalismo contemplativo para mergulhar numa narrativa visceral sobre a obsessão, a frustração romântica e a erosão do auto-controlo. Através de uma linguagem crua e impulsiva, a canção explora o conflito interno de quem se sente ignorado — evidenciado pelo silêncio de dois dias sem resposta e pela frieza do outro — mas que, ainda assim, não consegue desligar-se da situação. O título ganha aqui um novo significado: ser a "última a chegar a casa" não é um ato de isolamento pacífico, mas sim o resultado de uma espera desesperada e deliberada, onde a protagonista tenta mascarar a sua carência como algo não planeado ("make it look unintentional").

A inclusão de referências à mitologia grega, como o amor trágico de Orfeu e Eurídice e a vulnerabilidade do Calcanhar de Aquiles, eleva esta dinâmica a uma dimensão de inevitabilidade fatalista, sugerindo que a relação está condenada ou que a pessoa amada é uma fraqueza para a qual não existe remédio. Em última análise, o texto descreve a "ressaca" emocional de quem reconhece a própria falta de disciplina e dignidade ao permanecer num lugar (ou numa relação) até à "hora zero", apenas para captar um vislumbre de atenção de alguém que já nem sequer precisa de falar para ferir, bastando aquilo que deixa por dizer ("something in the way he unsaid it").

Anna Olivia Böke é a força criativa que compõe, canta e toca guitarra, sendo a alma desta sonoridade que discutimos.

A trajetória dela é bastante interessante e ajuda a explicar o estilo dos Sloe Noon.

Raízes alemãs, influência britânica:embora seja alemã, Anna viveu e estudou em Brighton, no Reino Unido. Foi lá que ela absorveu grande parte da estética shoegaze e post-punk que define o som de Sloe Noon.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Placebo - Exit Wounds


[Verse 1]
In the arms of another who doesn't mean anything to you
There's nothing much to discover
Does he shake, does he shiver as he sidles up to you
Like I did in my time?

[Verse 2]
As you wake does he smother you in kisses long and true?
Does he even think to bother?
And at night under covers as he's sliding into you
Does it set your sweat on fire?

[Chorus]
Want you so bad I can taste it
But you're nowhere to be found
I'll take a drug to replace it
Or put me in the ground

[Verse 3]
In the arms of another who doesn't mean anything to you
Do you lose yourself in wonder?
If I could, I would hover while he's making love to you
Make it rain as I cry...

[Chorus]
Want you so bad I can taste it
But you're nowhere to be found
I'll take a drug to replace it
Or put me in the ground

[Instrumental Break]

[Chorus]

[Outro]
Put me in the ground

Dor e obsessão após o término em “Exit Wounds” do Placebo
A música “Exit Wounds”, do álbum Loud Like Love (2013) do Placebo aborda de forma direta o sofrimento causado pelo amor não correspondido, especialmente quando o ex-parceiro já está envolvido com outra pessoa. Um ponto central da letra é o desejo do eu lírico de presenciar, como um espectador invisível, a intimidade do novo casal. Isso fica claro nos versos: “If I could, I would hover / While he's making love to you / Make it rain as I cry” (Se eu pudesse, eu pairaria / Enquanto ele faz amor com você / Faria chover enquanto eu choro). Essa imagem reforça o sentimento de impotência e obsessão, mostrando que a dor não vem só da perda, mas também da incapacidade de se desligar emocionalmente.

Entrevistas e análises apontam que Brian Molko, vocalista e compositor, constrói a letra de forma ambígua, permitindo diferentes interpretações, mas sempre centradas num sofrimento intenso. O protagonista oscila entre o desejo (“Want you so bad I can taste it” – Quero tanto você que posso sentir o gosto) e a busca desesperada por alívio, seja por meio de drogas ou até mesmo da morte (“I'll take a drug to replace it / Or put me in the ground” – Vou tomar uma droga para substituir isso / Ou me coloque debaixo da terra). Essa dualidade entre fuga e autodestruição é uma marca do Placebo e, nesta faixa, é intensificada pela sonoridade electrónica, que contribui para o clima de alienação e desespero. “Exit Wounds” retrata não só a dor do fim de um relacionamento, mas também a dificuldade de seguir em frente quando a ausência do outro se torna insuportável.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Smashing Pumpkins - Ava Adore


Ainda com a musa D'Arcy Wretzky

Realizado por Dom e Nic, o videoclipe de "Ava Adore" ganhou o prémio de "vídeo mais elegante" nos VH1 Fashion Awards de 1998

Ava Adore
The Smashing Pumpkins

It's you that I adore
You'll always be my whore
You'll be the mother to my child
And a child to my heart

We must never be apart
We must never be apart

Lovely girl
You're the beauty in my world
Without you, there aren't reasons left to find

And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me
You'll be a lover in my bed
And a gun to my head

We must never be apart
We must never be apart

Lovely girl
You're the murder in my world
Dressing coffins for the souls I've left to die
Drinking mercury
To the mystery of all that you should ever leave behind
In time

In you, I see dirty
In you, I count stars
In you, I feel so pretty
In you, I taste God
In you, I feel so hungry
In you, I crash cars

We must never be apart

Drinking mercury
To the mystery of all that you should ever seek to find
Lovely girl
You're the murder in my world
Dressing coffins for the souls I've left behind
In time

We must never be apart

And you'll always be my whore
'Cause you're the one that I adore
And I'll pull your crooked teeth
You'll be perfect just like me

In you, I feel so dirty
In you, I crash cars
In you, I feel so pretty
In you, I taste God

We must never be apart

Contradições do amor obsessivo em “Ava Adore” dos Smashing Pumpkins
Em “Ava Adore”, do The Smashing Pumpkins, a letra explora a linha tênue entre devoção e possessividade. O eu lírico alterna entre declarações de adoração intensa, como “It’s you that I adore” (“É você que eu adoro”), e imagens sombrias, como “You’ll always be my whore” (“Você sempre será minha prostituta”) e “You’ll be a lover in my bed / And a gun to my head” (“Você será um amante na minha cama / E uma arma apontada para minha cabeça”). Essas frases mostram como amor e obsessão podem se misturar, criando relações apaixonadas, mas também destrutivas. Metáforas provocativas, como “pull your crooked teeth” (“arrancar seus dentes tortos”), sugerem um desejo de controlar ou moldar o outro, revelando traços de idealização e dominação.

O título “Ava Adore” traz um duplo sentido: além de ser um nome feminino, faz referência à frase francesa “il va adorer” (“ele vai adorar”), reforçando a ideia de adoração quase ritualística. A influência das vogais francesas, inspirada por Françoise Hardy, contribui para o tom etéreo e misterioso da música. A letra também destaca a dualidade da amada, vista como fonte de beleza e destruição: “You’re the beauty in my world” (“Você é a beleza no meu mundo”) e “You’re the murder in my world” (“Você é o assassinato no meu mundo”). Imagens como “drinking mercury” (“bebendo mercúrio”) e “dressing coffins for the souls I’ve left to die” (“preparando caixões para as almas que deixei morrer”) intensificam o clima sombrio, sugerindo sacrifício, culpa e a presença constante do fim. A repetição de “We must never be apart” (“Nunca devemos nos separar”) funciona como um mantra obsessivo, reforçando o medo da separação e a busca por fusão total. Assim, “Ava Adore” se destaca como um retrato intenso das contradições do amor obsessivo, marcado por ambiguidade e tensão.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Slowdive - Crazy For You


O single "Crazy for You" (1990) é uma das suas faixas mais icónicas do shoegaze, caracterizada por guitarras etéreas, vocais suaves e camadas sonoras densas.

A letra, composta por uma única frase repetida várias vezes, 'Crazy for lovin' you', transmite uma sensação de obsessão e fixação emocional. A repetição incessante da frase sugere um estado mental onde o amor se torna uma força avassaladora, quase sufocante, que domina todos os pensamentos e sentimentos do eu lírico.

A simplicidade da letra contrasta com a complexidade da música, destacando a profundidade do sentimento de amor obsessivo.

A escolha de repetir a mesma frase inúmeras vezes pode ser vista como uma metáfora para a natureza cíclica e inescapável do amor obsessivo. O eu lírico está preso em um loop emocional, incapaz de pensar em qualquer outra coisa além do objeto de seu afeto. Essa abordagem minimalista e repetitiva é eficaz em transmitir a intensidade e a singularidade do sentimento, fazendo com que o ouvinte sinta a mesma fixação e intensidade emocional que o eu lírico experimenta.
Filmagens de A Swedish Love Story 1970, por Roy Anderson

Adoro passear com pessoas que me dizem "olha aquela nuvem"!

Ulrich Schnauss rework

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Siouxsie & The Banshees - Dizzy


“Dizzy” dos Siouxsie & The Banshees tem uma história curiosa.
Foi gravada em 1994, numa fase já tardia da banda, mas só lançada oficialmente em 1995 na colectânea The Best of Siouxsie and the Banshees. Por isso, muitos fãs a veem como uma espécie de “canto do cisne” do grupo.

Significado da canção
A letra de “Dizzy” gira em torno de um estado emocional instável — uma mistura de fascínio, desorientação e vertigem (daí o título). O “dizzy” aqui pode simbolizar:
  1. A sensação de estar inebriado por alguém ou algo – o amor, a paixão, mas também a obsessão.
  2. Um estado de vulnerabilidade – deixar-se levar por forças que não se controlam totalmente.
  3. A linha ténue entre prazer e perigo – típica nas letras de Siouxsie, onde o fascínio e o risco coexistem.
Musicalmente, tem uma atmosfera mais melódica e luminosa do que o habitual no Banshees, quase pop, o que contrasta com o tom hipnótico e enigmático da letra. Alguns críticos dizem que essa dicotomia reforça a ideia de “tontura” — algo doce e sedutor, mas também instável.

Em resumo: “Dizzy” fala da vertigem emocional causada pela intensidade de um relacionamento ou de uma experiência, algo que nos tira do eixo entre prazer e desequilíbrio.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Por que as crianças gostam de ver o mesmo filme várias vezes?


Frozen, Ratatouille, Meu Malvado Favorito, Procurando Nemo… As crianças gostam de ver o mesmo filme várias vezes sem se cansar e, às vezes, sem nem piscar. Sempre é um bom momento para colocar um filme e deixar a criança na frente da televisão. Eles ficam hipnotizados, extasiados de puro prazer e diversão. Os pais, esgotados, adoram o momento mas frequentemente se perguntam o que está por trás dessa estranha obsessão.

Há apenas alguns meses muitas pessoas se surpreenderam com uma notícia muito curiosa. Um usuário do Netflix havia visto o mesmo filmes 357 vezes ao longo de um ano. A maioria ansiava pela resposta para duas perguntas: de que filme estavam falando e quem era essa pessoa obcecada. Finalmente, a famosa plataforma de filmes contatou o usuário para poder conhecê-lo e poder então divulgar sua história.

Uma criança pode ter visto um filme pelo qual tem grande predileção mais de 100 vezes. No entanto, independentemente de quantas vezes já o tenha assistido, seu nível de atenção será o mesmo da primeira vez.


As crianças gostam de ver o mesmo filme várias vezes porque seu cérebro precisa disso

A história dessa usuária do Netflix e seu filhos pode nos surpreender talvez pela idade do protagonista. Nós sabemos que as crianças de hoje em dia têm um contato com o mundo audiovisual desde muito cedo. As imagens em movimento, as cores, a música e as vozes são estímulos muito atraentes para o cérebro dos pequenos. Quando as crianças assistem ao mesmo filme várias vezes, no entanto, há algo mais do que essa mera atração sensorial.

Estamos esquecendo por um momento de olhar para trás, para nossa própria infância. Nós também tivemos nosso filme favorito, e tínhamos também, como esquecer, nosso conto favorito. Aquele que sempre queríamos ler ou que esperávamos que nossa mãe ou nosso pai nos contasse a cada noite antes de dormir. Adorávamos também que nossos avós nos contassem uma história ou conto toda vez que fôssemos visitá-los. Ficamos encantados ao estar ao redor de narrações conhecidas, previsíveis, familiares…

A repetição como um meio de aprendizagem

O cérebro da criança aprende e consolida a informação através da repetição. Por isso, não é estranho que as crianças vejam o mesmo filme várias vezes e que nos peçam para cantar sempre a mesma música, ou que queiram sempre o mesmo livro ou história na hora de dormir. Nesse sentido, estudos como o publicado no ano de 2011 pela Universidade de Sussex, em Brighton, no Reino Unido, demonstram que as crianças integram essas histórias como uma padrão. São cadeias de significado que se tornam cada vez melhores.

À medida que isso acontece, a criança melhora sua linguagem, descobre novas palavras, compreende melhor os argumentos, decifra cada vez mais os detalhes, conseguindo com isso uma maior satisfação pessoal.


A repetição traz comodidade e segurança

As crianças precisam de hábitos, regras e rotina. Desse modo, não apenas conseguem se organizar melhor para descobrir seu mundo, mas também conseguem fazer isso em um cenário pautado pela sensação de segurança. Por isso, não devemos ficar surpresos quando as crianças assistem ao mesmo filme várias vezes e mesmo assim experimentam um grande prazer e bem-estar.

Saber o que vai acontecer a seguir permite que elas validem suas expectativas, reforçando seu cérebro e trazendo relaxamento. Não há imprevistos que devem ser imediatamente processados, não há informações contraditórias para botar a criança em alerta. Ao ter diante deles esse filme já conhecido, esse conto ou esse livro já tão lido ou tão escutado, o que ocorre é uma ajuda no alcance da segurança tão prazerosa e na sensação de estar sob controle.
Melhora o pensamento lógico

O pensamento lógico faz referência a relações que fazemos entre dois ou mais objetos ou situações. É fazer comparações, inferir informações, combinar e obter conclusões a partir de elementos separados. Esse importante processo cognitivo do qual Piaget nos falou em sua teoria é um ponto chave para o desenvolvimento intelectual das crianças.

Desse modo, poder dispor de um marco, como um filme com uma história determinada, permitirá que a criança vá encontrando essas mesmas relações, ajudando-a a estabelecer relações de causa e efeito, vínculos entre fatores, entre estímulos, pequenas histórias, gestos, palavras, personagens, comportamentos, etc.


Para concluir, ainda que nós, como adultos, vejamos essas experiências repetitivas como agonizantes e fiquemos até cansados, precisamos saber que as crianças precisam delas. Quando as crianças veem o mesmo filme várias vezes, estão amadurecendo. Não estão apenas aproveitando, estão também crescendo.

Sentem-se competentes ao fazer previsões, adoram estar diante desses estímulos tão familiares. Permitamos então que elas aproveitem seus filmes preferidos, pois chegará o momento em que vão querer experiências novas, fora daquilo que já conhecem tão bem.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

J. S. Bach "Coffee Cantata" BWV 211: Schweigt stille, plaudert nicht


The Philharmonia Baroque Orchestra led by Richard Egarr
Nola Richardson - Soprano
James Reese - Tenor
Cody Quattlebaum - Bass-Baritone
Stephen Schultz, Flute

A Cantata do Café (Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211) é uma das obras mais invulgares e fascinantes de Johann Sebastian Bach, revelando um lado humorístico e mundano do compositor que muitos desconhecem. Escrita por volta de 1734, em Leipzig, esta peça não é uma obra religiosa para ser tocada numa igreja, mas sim uma cantata secular composta para ser apresentada no Café Zimmermann, um ponto de encontro popular da época onde Bach dirigia o Collegium Musicum.

O enredo gira em torno de uma sátira social sobre a "obsessão" pelo café, que no século XVIII era a grande novidade na Europa e vista por muitos conservadores como um vício perigoso. A história apresenta-nos Schlendrian, um pai austero e resmungão, que tenta desesperadamente convencer a sua filha, Lieschen, a abandonar o hábito de beber café. Schlendrian utiliza todas as táticas de pressão possíveis, ameaçando proibir a filha de sair de casa, de comprar vestidos novos ou de usar fitas de luxo no cabelo.

Lieschen, no entanto, permanece firme e canta uma das árias mais célebres da obra, onde descreve o café como sendo "mais doce que mil beijos e mais suave que o vinho moscatel". O conflito só parece resolver-se quando o pai lhe faz uma última ameaça: ela nunca poderá casar-se se não parar de beber a bebida. Perante a perspetiva de ficar solteira, Lieschen finge ceder, mas a história termina com uma reviravolta astuta. Enquanto o pai sai à procura de um noivo, ela faz saber secretamente que só aceitará um marido que inclua uma cláusula no contrato de casamento permitindo-lhe preparar o seu café sempre que desejar.

O significado da obra vai além da simples comédia; é uma celebração da liberdade individual e uma crítica bem-humorada ao choque de gerações. Bach utiliza a música para humanizar as personagens e mostrar que, tal como diz o coro final, "o hábito de beber café é impossível de abandonar", comparando-o a instintos naturais. Esta cantata prova que Bach, apesar da sua profunda religiosidade, estava perfeitamente sintonizado com os prazeres e as polémicas do quotidiano da sua cidade.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Encontros Improváveis: Rick Robin- Tempest e Eugénio de Andrade - Fragmento do Homem

Throwing Snow feat. Adda Kaleh - The Tempest
Fragmento do Homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.


E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? 

Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão. 

Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'

domingo, 23 de dezembro de 2012

The Jesus and Mary Chain - Nine million rainy days - Live Detroit 1987


Nine million rainy days
Have swept across my eyes thinking of you
And this room becomes a shrine thinking of you
And the way you are sends the shivers to my head
You're gonna fall, you're gonna fall down dead

As far as I can tell
I'm being dragged from here to hell
All my time in hell is spent with you

I have ached for you
I have nothing left to give for you to take
I have no more empty heart or limbs to break
And the way you are sends the shivers to my head
You're gonna fall, you're gonna fall down dead

As far as I can see
There is nothing left of me
All my time in hell was spent with you

Shoot, shoot

I'm gonna die

You're gonna fall


A Dor e a Desolação em 'Nine Million Rainy Days'
A música 'Nine Million Rainy Days' da banda The Jesus And Mary Chain é uma poderosa expressão de dor, desolação e desespero. A letra começa com a imagem de 'nove milhões de dias chuvosos' que varreram os olhos do narrador, uma metáfora para o sofrimento prolongado e incessante que ele sente ao pensar em alguém. A sala se torna um santuário, um lugar de adoração e dor, onde a presença dessa pessoa é tão intensa que provoca calafrios na cabeça do narrador. A repetição da frase 'you're gonna fall, you're gonna fall down dead' sugere uma premonição ou um desejo sombrio de que essa pessoa também sofra ou encontre um fim trágico.

O segundo verso aprofunda ainda mais o sentimento de desespero. O narrador sente que está sendo arrastado para o inferno, e todo o seu tempo nesse lugar de tormento é passado com essa pessoa. A dor física e emocional é palpável, com o narrador afirmando que não tem mais nada a oferecer, nem mesmo um coração vazio ou membros para serem quebrados. A repetição da sensação de calafrios na cabeça reforça a intensidade do sofrimento. A frase 'you're gonna fall, you're gonna fall down dead' é repetida, enfatizando a inevitabilidade de um fim trágico.

A música culmina em uma repetição quase maníaca de 'shoot, shoot' e 'I'm gonna die', que pode ser interpretada como um grito de desespero final. A repetição de 'you're gonna fall' no final da música sugere uma obsessão com a queda e a destruição, tanto do narrador quanto da pessoa que ele está pensando. A música, com sua melodia sombria e letras intensas, captura a essência do sofrimento humano e a sensação de estar preso em um ciclo interminável de dor e desespero.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Sistema Irracional - Sociedade do Trabalho ou da Preguiça


O trabalho é a palavra que tomou conta dos discursos e das preocupações das pessoas. Aqueles que o não têm gritam pelo direito ao trabalho, aqueles que o têm gritam pela sua manutenção, por um trabalho a tempo inteiro e para a vida. As pessoas vivem cada vez mais em função do trabalho, deixaram de ter tempo para si próprias e esqueceram-se de si mesmas. A necessidade da manutenção e da defesa dos seus postos de trabalho tornaram-se no melhor polícia de cada um, fizeram com que cada vez mais as pessoas se calem, mantem a constestação social com rédea curta. A automatização tomou conta das pessoas e a ideia dos quase robôs nas cadeias de montagem, como mostrou Chaplin nos Tempos Modernos, já esteve mais longe.

Entramos numa tal engrenagem que os tempos livres nos assustam porque não sabemos o que fazer com eles, porque a única coisa que sabemos fazer é matar o tempo daquilo que não é mais tempo livre, mas tempo de recuperação de energias para voltarmos ao tempo do trabalho .Por isso há toda uma indústria do tempo livre organizada para nos entreter, para manter o barulho à nossa volta, para não deixar que o silêncio nos perturbe, pois temos horror do silêncio, para que o tempo de contemplação, de troca de ideias, de vagabundagem, o tempo dos eurekas de que falam os grandes inventores, não possa acontecer.

O trabalho tornou-se o deus que comanda cada vez mais esta sociedade, tornou-se uma verdadeira obsessão, e a verdade é que começamos a tomar consciência que nunca mais haverá trabalho a tempo inteiro para tanta gente. Diminuir o tempo de trabalho era a ideia e o objetivo de que presidia aos visionários que inventaram e hoje inventam as máquinas cada vez mais sofisticadas para fazerem o nosso trabalho, para nos aumentar o bem estar e diminuir e redistribuir o tempo de trabalho.

Se vivêssemos num tempo em que as tomadas de decisão tivessem um mínimo de lógica, hoje o tempo de trabalho era muito mais curto, haveria efetivamente mais tempos livres, mais tempos de lazer, estaríamos a assistir ao fim de uma sociedade centrada no trabalho e ao nascimento de um tempo onde o trabalho ocuparia menos tempo da nossa vida, um tempo onde onde o direito à preguiça, porque tempo de criação e invenção, fosse incentivado, numa sociedade da espiritualidade, do novo renascimento. Uma consciência antiga pois já em 1902 Paul Lafargue defendia o direito à preguiça, o direito a uma sociedade do lazer, e, em 1930, John Keynes, em plena crise, dizia que antes do fim do século necessitaríamos só de 3 horas de trabalho produtivo para que a sociedade pudesse responder às suas necessidades.

Pelo contrário, este sistema irracional perpetua o modelo da ainda revolução industrial, do tempo de sermos escravos do dinheiro e do consumo, onde nos esquecemos de nós próprios e do nosso bem. Um sistema que produz uma legião de inúteis, como os donos do mundo chamam aqueles que não têm trabalho, que cada vez mais estão a engrossar, levando a que aos poucos a maior parte deles acabem por desistir da própria vida.

Mas, ao mesmo tempo que estamos a viver um tempo que parece sem saída, um tempo de bloqueios, se trabalharmos no interior da contradição, percebemos que esta sociedade, este modo de vida, tem dentro dela os vírus que a vai destruir e vai abrir espaço para a entrada num tempo onde o direito à preguiça deve ter todo o espaço do mundo, um tempo onde o lazer deve ser uma realidade, um tempo onde temos todo o tempo do mundo para a vagabundagem, tempo por excelência onde as invenções se concretizam. onde estamos livres para as novas ideias aparecerem.: Só agora, continuemos a ouvir Agostinho da Silva , com uma economia capitalista há riqueza e saber para se conseguir o desenvolvimento pleno, para acabar com a carência que vem de tão longe, para chegar a um ponto em que haja tudo para todos, tal como na Ilha dos Amores, que Camões tão bem contou nos Lusíadas, em que toda a economia desaparecerá. Economia que será uma recordação do passado, como queriam os tais portugueses do século XIII, onde o Homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, de ser poeta do mundo, de tal forma que ninguém se preocupe por fazer tal e tal obra, mas por ser único no mundo, entre os tais biliões que existem.

Vamos entrar numa coisa parecida como a que os portugueses e alguns italianos intitulavam de Idade do Espírito Santo, a Idade em que as crianças cresceram tanto que a sua espontaneidade e capacidade de sonhar nunca se extinguisse e um dia dia fossem capazes de dirigir o mundo.

Interessa-nos hoje que os tempos de criação e fruição, os tempos de lazer e gratuitidade de que falámos atrás, sejam não só um espaço-tempo de respiração que liga dois tempos afogueados, mas também um espaço-tempo de concepção de projectos que permitam e criem condições para o desenvolvimento e a afirmação das capacidades criativas de cada indivíduo, onde se pode ter todo o tempo do mundo para pensar, desenvolver projectos, experimentar soluções. Efetivamente, procuramos configurar algo que possa potenciar ideias e estratégias capazes de conduzirem à transformação do tempo chamado de trabalho num tempo que estimule a participação e a criatividade de cada indivíduo e que seja factor de desenvolvimento e de realização pessoal.

Procuramos no fundo romper as fronteiras entre os tempos chamados de trabalho e de lazer, e isto porque temos consciência que a própria transformação interna do mundo chamado do trabalho, que passará a exigir outras qualificações das pessoas e uma redistribuição mais solidária, vai implicar não só um aumento dos tempos livres, mas que estes tempos livres sejam não um tempo de fuga mas sim um espaço de afirmação de novas qualificações e de novos desafios. A diferença que passará a haver entre estes dois tempos traduzir-se-á, a nosso ver, no facto de que no trabalho tudo se deverá centrar no produto e na planificação dos tempos de criação-produção desse produto, enquanto que no lazer haverá uma outra liberdade para experimentar os processos e para perder tempo a descobrir outras soluções, para vagabundear tal como Umberto Eco quando se perdia nas bibliotecas em busca do livro que desconhecia, ou melhor, em busca do conhecimento. [Fonte: Carlos Fragateiro]

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Smashing Pumpkins - Lilly (My one and only)


Lily (My One And Only)
The Smashing Pumpkins

Lily, my one and only
I can hardly wait 'til I see her
Silly, I know I'm silly
'Cause I'm hanging in this tree
In the hopes that she will catch a glimpse of me

And through her window shade
I watch her shadow move
I wonder if she

Lily, my one and only
Love is in my heart and in your eyes
Will she or won't she want him?
No one knows for sure
But an officer is knocking at my door

And through her window shade
I watch her shadow move
I wonder if she could only see me

And when I'm with her I feel fine
If I could kiss her I wouldn't mind the time it took to find my

Lily, my one and only
I can hardly wait till I see her
Oh, Lily, I know you love me
'Cause as they're dragging me away
I swear I saw her raise her hand and wave
Goodbye

A Obsessão Romântica em 'Lily (My One And Only)' dos Smashing Pumpkins
A música 'Lily (My One And Only)' da banda The Smashing Pumpkins, lançada no álbum Mellon Collie and the Infinite Sadness, de 1995, aborda o tema da obsessão romântica de uma maneira peculiar e um tanto sombria. A letra narra a história de um personagem que está profundamente apaixonado por Lily, a ponto de se esconder numa árvore para observá-la através da janela. Essa atitude, embora possa parecer romântica à primeira vista, revela um comportamento obsessivo e invasivo, destacando a linha tênue entre amor e obsessão.

O personagem principal da música parece estar ciente de sua própria tolice, como indicado pela linha 'Silly, I know I'm silly'. No entanto, ele continua a espiar Lily, esperando que ela o veja e retribua os seus sentimentos. A presença de um policial batendo à sua porta sugere que suas ações foram descobertas e que ele está prestes a enfrentar as consequências legais de seu comportamento. Esse elemento adiciona uma camada de tensão e urgência à narrativa, mostrando que o amor não correspondido pode levar a ações desesperadas e potencialmente perigosas.

No final da música, enquanto o personagem é levado embora, ele acredita ver Lily acenando para ele, o que pode ser interpretado como uma ilusão ou um último gesto de esperança. Essa cena final encapsula a tragédia da obsessão: o personagem está tão consumido por seu amor não correspondido que ele interpreta qualquer pequeno gesto como um sinal de reciprocidade. A música, portanto, serve como um comentário sobre os perigos da idealização e da obsessão, mostrando como esses sentimentos podem distorcer a realidade e levar a comportamentos autodestrutivos.