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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Bohumil Hrabal - Uma Solidão Demasiado Ruidosa

Reler "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", originalmente publicada em 1976 e reeditada com uma excelente tradução de Ludmila Dismanová, é recordar que trabalhar numa cave a prensar livros ensina uma lição rápida: o papel tem peso, cheiro e poeira, poesia, absurdo, tragédia, comédia, esforço intelectual. Esta obra não é uma história limpinha, estruturada com princípio, meio e fim para entreter a cabeça numa viagem de comboio. É o monólogo sufocante, poético e ligeiramente alcoólico de Haňta, um homem que passa trinta e cinco anos metido num buraco em Praga a desmarcar papel velho, refugos de tipografias e bibliotecas inteiras proibidas pelo regime. O interior do livro é um turbilhão onde a máquina não para, o barulho é infernal e a cerveja ajuda a suportar a sujidade e o mofo. Só que, ao longo de três décadas a destruir cultura, Haňta faz o oposto: bebe as palavras. Salva edições raras do monte de lixo, lê frases soltas de Kant, Spinoza, Hegel ou Lao-Tsé no meio de papéis ensanguentados do talho e guarda-as na cabeça, transformando a sua mente num arquivo vivo de tudo o que o poder quis apagar.
Esta narrativa é profundamente autobiográfica e reflete de forma direta o percurso e a filosofia do próprio Bohumil Hrabal. Doutorado em Direito pela Universidade Carolina de Praga, o autor foi impedido de exercer a profissão pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente ascensão do regime comunista. Remetido para a margem como intelectual indesejado, trabalhou como ferroviário, operário siderúrgico e, entre 1954 e 1958, como empacotador de papel na rua Spálená. Da sua rotina diária extraiu as descrições mecânicas da prensa e o ambiente da cave onde assistiu ao abate massivo de livros confiscados. Assim como a sua personagem, Hrabal tornou-se um "sábio involuntário", resgatando do lixo e devorando a grande literatura e filosofia ocidental.
A própria trajetória do livro espelha o contexto político em que o autor viveu. Após o fim da Primavera de Praga em 1968, Hrabal foi banido das edições oficiais, pelo que a obra teve de circular clandestinamente em edições samizdat - cópias dactilografadas em segredo - antes de ver a luz do dia no estrangeiro e, mais tarde, na Checoslováquia. O consumo de cerveja por parte de Haňta reflete também a vivência do escritor nas cervejarias de Praga, como a famosa U Zlatého tygra, onde aperfeiçoou o estilo pábení: uma narrativa fluida e sem pausas que cruza a filosofia erudita com a conversa banal de botequim. Reescrevendo o texto três vezes até atingir o tom lírico definitivo, Hrabal considerava este romance o cume da sua criação e o seu testamento vital, tendo chegado a confessar que tinha vindo ao mundo apenas para o escrever.

Porque é importante ler este romance?
Uma inteligência artificial pode cruzar milhões de dados para pintar um quadro no estilo de Rembrandt ou compor uma sinfonia ao modo de Beethoven, ou elaborar um texto camiliano em segundos mas esse processo é uma simulação estatística, desprovida de biografia, sofrimento ou necessidade de expressão. A arte humana não nasce num vácuo de dados, mas sim do conflito do artista com a sua própria mortalidade, com o contexto histórico e com as suas contradições internas. Quando a sociedade passa a valorizar a arte apenas pela velocidade de produção ou pela sua capacidade de gerar estímulos visuais rápidos, o público arrisca-se a consumir um subproduto industrializado e esteticamente homogéneo. O verdadeiro valor da pintura, da música, da literatura ou do cinema reside no facto de serem canais de comunhão entre duas consciências: quem cria deposita ali a sua mundividência, e quem observa reconstrói esse sentido através da sua própria experiência de vida. Proteger a arte na era digital significa, por isso, resgatar o direito ao erro, à imperfeição e à intencionalidade, elementos que nenhuma prensa ou algoritmo consegue programar.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Dave Eggers - "O ChatGPT está a silenciar uma geração inteira"


O CEO da OpenAI, Sam Altman, convidou o escritor e jornalista norte-americano, Dave Eggers, a falar perante os funcionários da empresa e, fiel ao que tem sido o seu percurso, o autor não perdeu a oportunidade para tecer duras críticas à Intenligência Artificial enquanto tecnologia.

Eggers, conhecido sobretudo pelo romance “The Circle” de 2013 onde faz críticas à indústria tecnologia, declarou que os textos gerados pelo ChatGPT, o resultado é uma “colagem sem sentido” - argumentando que ninguém terá interesse em ler livros criados com Inteligência Artificial.

Contou Eggers ao Financial Times que estas críticas levaram Altman a convidá-lo para uma pequena palestra na OpenAI, uma oportunidade que aproveitou para afirmar que a Inteligência Artificial seria devastadora para toda uma geração de jovens.

“O efeito que o ChatGPT está a ter na vida dos educadores é catastrófico”, declarou Eggers. “Intencional ou não, tornaram a vida de todos os professores infinitamente mais difícil do que era há dois anos. Pensem nisso.Se os estudantes estão a usar [o ChatGPT] para escreverem, que é uma grande tragédia, nunca aprenderão a escrever. E a voz ser-lhes-á roubada. Nunca terão a capacidade para comunicarem as suas verdades e contarem as suas próprias histórias. E isso é silenciar uma ou duas gerações inteiras”.

A afirmação de Eggers deve ser classificada como um aviso preventivo contra a dependência cognitiva.

Ele não está necessariamente a prever o fim da civilização, mas sim a questionar se estamos dispostos a trocar a dificuldade (e a beleza) do pensamento humano pela conveniência (e esterilidade) da resposta algorítmica. É uma crítica que serve de "freio" necessário num momento de euforia tecnológica desmedida, lembrando-nos de que a tecnologia, se mal utilizada, pode tornar-nos espectadores, em vez de criadores.

Para além de Dave Eggers, o debate contemporâneo sobre os impactos profundos da Inteligência Artificial conta com vozes influentes que abordam o tema sob prismas filosóficos, sociais e científicos. O historiador Yuval Noah Harari, por exemplo, foca-se no perigo existencial da perda de agência cultural, argumentando que a IA é a primeira tecnologia da história capaz de criar conceitos, narrativas e arte de forma totalmente autónoma. Para Harari, ao dominar a linguagem, a tecnologia adquire a capacidade de "hackear" o sistema operativo da própria civilização, o que pode resultar na manipulação em massa e no colapso da confiança nas instituições democráticas. Numa linha de pensamento focada na natureza da mente e do conhecimento, o linguista Noam Chomsky adota uma postura cética quanto à suposta inteligência destes sistemas, classificando a IA generativa como uma forma de plágio de alta tecnologia. Chomsky defende que os modelos de linguagem funcionam apenas com base em correlações estatísticas e probabilidades, carecendo de uma compreensão real sobre a moralidade, a verdade ou as relações de causa e efeito, o que os afasta irremediavelmente da verdadeira capacidade de pensamento crítico e criatividade do ser humano.

Noutro espectro da crítica encontram-se os cientistas que ajudaram a construir as bases desta revolução tecnológica e que hoje manifestam profundos arrependimentos. Geoffrey Hinton, frequentemente apelidado de um dos padrinhos da IA devido ao seu trabalho pioneiro em redes neuronais, demitiu-se do seu cargo na Google para poder alertar o mundo livremente sobre os riscos iminentes da tecnologia. Hinton manifesta um temor genuíno de que a inteligência digital ultrapasse a biológica muito mais cedo do que a comunidade científica previa, criando cenários propícios para a disseminação descontrolada de desinformação e para o desenvolvimento de armas autónomas letais. Alinhado no ceticismo tecnológico, o pioneiro da realidade virtual Jaron Lanier critica a própria designação de Inteligência Artificial, considerando-a um mito comercial perigoso que mascara a realidade. Para Lanier, estes sistemas são, na verdade, ferramentas de colaboração social massiva que extraem e reconfiguram o trabalho de milhões de criadores humanos reais, alertando que a humanização das máquinas resulta inevitavelmente na desvalorização do esforço e da singularidade das pessoas.

Por fim, as correntes focadas na justiça social e na ética prática expõem os danos imediatos e palpáveis que a IA já está a causar no quotidiano. A investigadora Timnit Gebru, antiga líder da equipa de ética da Google, cunhou o termo papagaios estocásticos para descrever os grandes modelos de linguagem, demonstrando que estes sistemas se limitam a repetir padrões linguísticos de forma mecânica e sem consciência. Gebru e os seus pares alertam para o facto de estes modelos refletirem, amplificarem e perpetuarem os preconceitos raciais, de género e de classe já presentes nos dados históricos da internet, servindo os interesses financeiros de grandes monopólios tecnológicos enquanto prejudicam as populações marginalizadas. Assim, quer seja através do medo da obsolescência cognitiva partilhado por Eggers e Chomsky, do alarmismo existencial de Hinton e Harari, ou da denúncia política de Gebru e Lanier, o pensamento crítico atual converge na ideia de que a IA exige uma regulação urgente e uma reflexão profunda sobre os limites que a humanidade deve impor às suas próprias criações.

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O 'bicho-de-sete-cabeças' que não é: como uma loja online unificada salvaria os museus públicos

Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.

Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.

O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.

Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.

Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa 
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias) 

Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.

Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.

De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.

Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.

Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.

A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas. 

Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

sábado, 23 de maio de 2026

Katerina Papadopoulou - Notio Toxo ft. Chariton Charitonidis


No álbum Notio Toxo (Νότιο Τόξο), lançado pela conceituada cantora de música tradicional grega Katerina Papadopoulou em colaboração com Chariton Charitonidis, a expressão que dá título à obra significa literalmente "Arco do Sul". Neste trabalho, o termo não é apenas uma referência geográfica, mas sim o conceito central e o fio condutor de toda a narrativa musical.

Em termos geográficos e culturais, o Arco do Sul refere-se à rota marítima que engloba as ilhas do sul da Grécia e do Mar Egeu, ligando regiões como Creta, o Dodecaneso e as Cíclades. Historicamente, esta zona funcionou como uma ponte crucial de partilha cultural entre o Ocidente e o Oriente, desenvolvendo uma identidade muito própria e rica.

No plano artístico, os músicos transformam este contorno geográfico numa metáfora para batizar o álbum. A obra funciona como uma verdadeira viagem de navegação, onde cada faixa explora as tradições musicais, os ritmos e as histórias destas ilhas do sul. Através de instrumentos tradicionais como a lira e o alaúde, o álbum resgata a memória dos marinheiros, os sentimentos de saudade e as celebrações destas comunidades piscatórias. Em suma, ao dar o nome de Notio Toxo ao álbum, Katerina Papadopoulou quis criar um mapa sonoro que celebra a alma, a luz e o património cultural do sul do Egeu, unindo o passado da música tradicional ao presente.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Mais umbigos que cabeças

This Incredible Map Tool Reveals Just How Much the Mercator Map Distorts the World [aqui]

Os provérbios são a nossa enciclopédia de bolso, e quando acordamos para o dia com as más notícias do dia anterior convém saber que "deus é grande e o mundo é pequeno". Tão pequeno que cabe num guardanapo. Era esse mesmo o significado que o latim atribuía à palavra mapa, sinónimo de toalha, lenço ou trapo. E era também mapa que chamavam ao pedaço de lona que, no silêncio expectante do circo, dava o sinal de largada para as corridas de bigas, também utilizadas como carros de guerra, como se aqueles cavalos fossem galopar pelos confins, a galgar fronteiras. Foi na superfície dessas telas que os romanos desenharam os limites do universo conhecido.

Os mapas retratam o melhor e o pior da nossa espécie: a curiosidade sôfrega e inquieta, a fome de descoberta, mas também vaidade agressiva e a sede de conquista e dominação. Os mapas fascinam porque contam histórias e revelam paixões. Mas são também os mapas que constroem nossa visão do mundo. As razões pelas quais o Norte nos aparece sempre virado para cima não são científicas, mas estratégicas e até ideológicas: o alto tem conotações positivas, enquanto o baixo é menosprezado. Associamos a pobreza aos países do Sul e a prosperidade aos países do Norte. A famosa imagem da Terra obtida pela Apollo 17, em 1972 -aquela bola azul, em forma de berlinde - foi rodada para efeitos de publicação, pois só sabemos ler o planeta posicionado dessa forma. No entanto, durante séculos o Leste costumava ocupar a posição superior, porque a luz vem do Oriente, lá onde nasce o dia.

Os mapas contam verdades, mas também algumas mentiras. São atlas das mentalidades, medos e ambições das sociedades que os inventaram. Todos sabemos que a terra é aquela bola redondinha, mas a projeção cartográfica mais utilizada ainda hoje, conhecida como Mercator, esconde distorções interessadas. Tão interesseiras como aquela que, em Tordesilhas, levou o nosso D. João II a reclamar como limites da expansão portuguesa as 360 léguas para lá de Cabo Verde. Foi esse desvio no meridiano do mapa do Tratado que permitiu a Portugal explorar as terras onde hoje se encontra o Brasil. Vistos daqui, os mapas-múndi que navegamos com a ponta dos dedos retratam um Ocidente enorme e central, sobredimensionado num hemisfério Norte que ocupa dois terços e relega o Sul a um minúsculo terço inferior. Não é essa, porém, a visão dos mapas que se estudam nas escolas orientais, onde a China e o Japão ocupam posição central, ou nas australianas onde os mapas retratam o nosso mundo de pernas para o ar.

Desde que se começámos a traçar geografias em guardanapos, tendemos a acreditar que somos e estamos no centro do mundo. Ao longo da história, muitos povos sofreram dessa miragem imprópria para habitantes de um planeta esférico. Segundo os gregos antigos, Zeus soltou duas águias nos confins do universo para saber onde ficava o centro da Terra. Inevitavelmente, as aves encontraram-se em Delfos, lugar marcado para a posteridade na pedra oval a que chamaram de "omphalus", ou seja, umbigo - da mesma forma que os chineses da época se julgavam o "império do meio". Ambos acreditavam ser o núcleo cartográfico do Universo e a única cultura civilizada, cada qual a julgar-se no epicentro de tudo. E talvez seja por isso que o mundo ainda tem mais umbigos do que cérebros. O delírio megalómano tem muitas vezes cinzelado geografias a golpes de invasão, guerra e dominação, em nome de purezas remotas e nações triunfantes. A história prova, porém, que pensamento e ciência resultam do cruzamento dos povos, em rotas de viagens, encontros e trocas. Na verdade, aprendemos sobre nós mesmos quando ousamos olhar outras paisagens e ouvir outras vozes. Só os outros nos dizem quem somos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Senda da Altitude

Em tempos perigosos em que cobiça e desumanidade rimam com grosseira desmemória, os povos caminham para o abismo. A voracidade ultraliberal põe o nosso Mundo finito a ferro e fogo, ruína e saque. Nem as riquezas do fundo dos mares escapam agora aos novos ogres (os que chamam a essa rapina dos recursos vitais...«liberdade») ! Sempre a ânsia do lucro para poucos.
Nunca como hoje o sentido de leveza da vida residiu mais na busca da Altitude, individual e colectiva. A partilha, a fraternidade, o amor, a poesia, a arte, a busca de saberes, são o sal na estrada dos homens e mulheres sábios. 
Por isso de novo evoco a pintora Lourdes Castro (1930-2022), nome maior da arte portuguesa, a quem ouvi louvar a desprendida altitude que só se afirma no avançar do nosso caminhar na existência, sem egoísmo, acima de vãs vaidades, sempre na busca e partilhas de brisas essenciais: «Eu não gosto do nome 'velhice' e então inventei outra palavra, que é 'ALTitude' (do alemão 'alt', idade). Quando se entra em altitude é assim» ! 
Numa entrevista conduzida pelo jornalista João Pacheco (Expresso, 1-IX-2019), dizia a artista: «é bonito isto de as coisas na vida se irem transformando, irem gerando outras. Continua-se a respirar». Sim, é isso. Abraçar o Mundo de que fazemos parte ínfima, sentindo as suas misérias e os seus anseios. Com memória. Com utopia. Com altitude.

P.S. Um dos trabalhos da série Sombras Projectadas (Lourdes Castro com René Bértholo): os homens medem-se aos palmos na sua capacidade de solidariedade e leveza.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Boxing Day ou dia de Santo Estevão


Hoje é feriado no Reino Unido, e em vários países europeus. Em terras de Sua Majestade celebra-se o Boxing Day, que coincide com o o dia de Santo Estevão. Na Idade Média, e mesmo nos séculos seguintes, era um dia dedicado à caridade. As famílias abastadas dispensavam os trabalhadores e criados, e ofereciam-lhes comida e dinheiro, como recompensa por terem servido os patrões na Consoada e no dia de Natal. As igrejas abriam as caixas das esmolas, e distribuíam pelos pobres, e as famílias mais carenciadas da comunidade recebiam ofertas dos mais ricos. Pensa-se que este costume já existia no início da Cristandade, no final do Império Romano. No Reino Unido, quando o dia 26 calha a um Sábado ou Domingo, o feriado é transferido para o primeiro dia útil seguinte. O dia de Santo Estevão é celebrado em várias regiões ou países europeus, ou que fizeram parte do Império Britânico (África do Sul, Austrália, Canadá, Chipre, etc).

sábado, 20 de dezembro de 2025

Type O Negative - Red Water (Christmas Mourning)


Enquanto o imaginário Português associa o Natal a um bom velhinho de barba branca que distribui presentes, na região dos Alpes, na Europa Central, existe um personagem bem menos simpático circulando na mesma época do ano. É o Krampus, criatura meio bode, meio demónio, que ficou conhecida como uma espécie de “Pai natal do mal”: em vez de recompensar crianças comportadas, ele pune as que desobedecem.
A palavra Krampus vem de Krampen, palavra para "garra" do alto alemão antigo.

Quem é o Krampus
Na tradição de países como Áustria, Alemanha e partes da Itália e da Eslovênia, o Krampus é o contraponto sombrio de São Nicolau, figura que deu origem ao Pai Natal moderno. Enquanto o santo visita as casas para premiar as crianças que se comportaram bem, o Krampus  acompanha-o,  ou aparece sozinho — para lidar com quem não seguiu as regras.

A aparência é pensada para assustar: chifres curvados, corpo peludo, patas de bode, garras afiadas, língua longa e olhos vermelhos. Em muitas representações, ele carrega correntes que arrasta pelo chão, chocalhos barulhentos e um feixe de varas de bétula, usadas para “corrigir” os pequenos desobedientes. Em versões mais extremas da lenda, o monstro leva as crianças más dentro de um cesto ou saco nas costas, para devorá-las ou arrastá-las para o inferno.

Origem de uma figura sombria
A origem exata do Krampus é motivo de debate entre historiadores e antropólogos. Alguns estudiosos apontam possíveis raízes em rituais pagãos de inverno, ligados a divindades da natureza e a espíritos selvagens que eram “domados” com a chegada do cristianismo. Outros lembram que as primeiras menções claras à criatura surgem apenas a partir do século 16, já em contexto cristão, como um ajudante demoníaco de São Nicolau.

O certo é que, ao longo dos séculos, a Igreja tentou controlar ou até proibir a tradição em alguns momentos, considerando o personagem excessivamente violento ou ligado demais ao paganismo. Mesmo assim, o Krampus resistiu em vilarejos alpinos e, com o tempo, foi-se transformando — de demónio amedrontador em figura folclórica, ainda assustadora, mas encarada hoje com um misto de medo e humor.

Krampusnacht: a noite em que o “anti-Natal” sai às ruas
O ponto alto do calendário do Krampus é a Krampusnacht, a “Noite do Krampus”, celebrada em 5 de dezembro, véspera do dia de São Nicolau. Nessa data, cidades e vilarejos dos Alpes organizam desfiles em que homens — e, cada vez mais, mulheres — se fantasiam de Krampus, com máscaras de madeira esculpidas à mão, peles de animais, chifres, sinos e correntes.

As chamadas Krampusläufe (“corridas do Krampus”) misturam tradição religiosa, carnaval de rua e espetáculo turístico. Os participantes correm, pulam, batem as correntes no chão e fingem perseguir crianças e adultos distraídos, arrancando gritos, risos nervosos e muitas fotos. Em algumas regiões, é costume oferecer um gole de schnapps, aguardente de fruta, às criaturas mascaradas — e a combinação de álcool, fantasia pesada e multidão nem sempre termina bem, com casos registrados de feridos durante desfiles mais tumultuados.

Educação pelo medo
Por trás das chamas, máscaras e correria, a função original do Krampus era bem clara: servir de instrumento de disciplina. Se o Pai Natal recompensa os bons com presentes, o “Pai Natal do mal” deixaria varas, carvão ou, no limite, levaria embora quem se comportou muito mal.

Antigamente, postais de Natal traziam ilustrações de crianças aterrorizadas sendo perseguidas ou arrastadas pelo monstro, em cenas que hoje seriam consideradas pesadas para o público infantil. As imagens, porém, faziam parte da pedagogia da época: mostrar que o mau comportamento teria consequências. Aos poucos, esse tom foi ficando mais leve, e as representações modernas do Krampus tendem a ser mais caricatas — ainda ameaçadoras, mas com pitadas de humor.

Do folclore alpino para o cinema e a cultura pop
Nas últimas décadas, o Krampus saiu dos vilarejos alpinos e invadiu a cultura pop global. Filmes de terror natalino, episódios de séries, banda-desenhada, bonecos colecionáveis e fantasias de Halloween ajudaram a transformar a criatura em um ícone pop do “lado B” do Natal.

A figura também ganhou espaço em festas temáticas e eventos inspirados na Krampusnacht em cidades de fora da Europa, incluindo cidades norte-americanas. 

O que o Krampus diz sobre o Natal
O contraste entre Papai Noel e Krampus ajuda a entender como diferentes sociedades lidam com a mesma data. Em vez de apenas celebrar generosidade e consumismo, a tradição alpina coloca lado a lado recompensa e punição, luz e trevas, lembrando que o Natal também é um tempo de balanço moral.

Para especialistas em folclore, o sucesso recente do Krampus mostra como o público se interessa por narrativas que subvertem ícones consagrados. O “Pai Natal do mal” assusta, mas também diverte — e, no fim das contas, mantém viva uma das funções mais antigas das histórias de Natal: usar fantasia e símbolos fortes para falar sobre medo, culpa, responsabilidade e, quem sabe, a hipótese de ser e se comportar melhor no ano seguinte.

sábado, 22 de novembro de 2025

Caça e tauromaquia - há dinheiro para matar mas não para cuidar


Já não bastava o IVA das touradas a manter-se a 6%, agora temos aprovada descida do IVA da carne de caça de 23% para 6%.
A iniciativa, além de contar com os votos a favor das próprias bancadas que suportam o Governo (PSD e CDS-PP), recebeu o voto favorável do Chega e da IL. O BE, o Livre e o PAN votaram contra. O PS absteve-se. 
A justificação é meia apatetada. O PSD e o CDS-PP sustentam a sua posição informado que : “Atualmente, quase toda a carne da caça maior abatida em Portugal é, imediatamente, transportada para Espanha, onde é transformada, embalada e comercializada, sem gerar qualquer receita fiscal para o nosso país. Acresce que, após a sua transformação em Espanha, grande parte desta carne regressa ao mercado português como produto final, deixando em Espanha todo o valor acrescentado associado à cadeia de valor, desde o processamento à comercialização, e privando as regiões produtoras nacionais dos benefícios económicos e fiscais desta atividade”
Os partidos referem que esta situação “cria uma discriminação fiscal entre carnes, distorce o mercado e penaliza um setor sustentável e com forte impacto económico, em especial, no interior do nosso país” e, por isso, entenderam ser necessário promover uma harmonização da taxa com o que acontece noutros Estados-membros da União Europeia.

O Governo continua do lado errado da história, promovendo a morte e o lóbi de caça à vida selvagem e pratica uma injustiça tremenda ao impor que o IVA da alimentação e da saúde animal fique mais uma vez nos 23%.  

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Of The Wand And The Moon - Lets Take A Ride (My Love)


Oh, my love, help me through the city
It's coming down again, oh Lord, have pity
Oh, my love, let's take a ride
Or wait for me on the other side
I got nothing more to lose
As you know, the harder you struggle, the tighter the noose

And people, they shy away
But we are lost in time anyway, babe
So take my hand and don't let go
Time left behind, it only goes to show
Let's drink up and leave this town
All this emptiness just brings me down
Let's break from path, head out to sea
Leave this place, just you and me
Please


Esta canção faz parte do ábum Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow (2021)

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Cultura agredida e análise da situação crítica em Portugal



A semana passada fui a uma aldeia perto do Fundão e perguntei à Sra de uma tasquinha junto ao rio se tinha pão caseiro, disse-me que não porque a proibiram de vender, "ainda na semana passada vieram cá os GNRs e me vasculharam os papéis todos". Numa aldeia que visito sempre perto de Alcobaça há autênticas rusgas da ASAE a exigir que o café pague a taxa de música, de TV, mesmo que seja o único de toda a aldeia e tenha 4 clientes. Esta semana um sindicato de guardas prisionais diz que quer processar o líder anti racista Mamadou Ba por delito de opinião, que consideram difamação por este ter questionado a violência e morte nas prisões. Pedem 4 milhões de euros. E o Partido Fascista Chega anunciou mesmo, no dia 11  que quer expulsar quem se opõe ao patriotismo e ao nacionalismo, quem viola, dizem, os símbolos nacionais - ou seja, querem perseguir as pessoas pela sua ideologia internacionalista e socialista ou de direitos humanos. Na noite do dia 10, na Barraca, teatro de gentes comunistas e de esquerda, em plena hora de jantar, um actor, que interpretava Camões, no centro da cidade de Lisboa, é atacado, entre outros actores, por 30 neonazis, conhecidos da zona, dizem as reportagens, 30 anos depois de ter sido morto à pancada um negro que ia a passear no Bairro Alto, Alcindo Monteiro. Era para celebrar o dia da pátria, 10 de Junho. Os agressores fazem parte do "Sangue e Honra", uma organização internacional de extrema-direira com representação em Portugal. A principal vítima deste grupo foi o ator Adérito Lopes. Foi agredido - com um soco no olho, provavelmente com uma soqueira ou com anéis. Ficou com rasgões na cara e teve de levar pontos. Os mesmos deixaram um papel na porta "Portugal aos portuguezes (com z))". Tudo se passou a menos de 1 km da Esquadra da PSP da Lapa, à hora em que os actores chegavam ao seu trabalho. E a menos de 500 metros do Parlamento. Às 8 da noite.
Ou saímos à rua em defesa dos direitos, liberdades e garantias, ou podemos dizer adeus à liberdade. Pela via eleitoral, Parlamentar, ou pelo ataque directo, a liberdade, o pensamento e até a vida de quem quer viver em democracia está tudo em risco.
Começaram nos imigrantes no Porto e em Lisboa, agora vão à cultura, seguir-se-ão os lideres sindicais e intelectuais. Ontem Trump mandou prender o Vice Presidente dos Sindicatos de Los Angeles, que representa um milhão de trabalhadores.
Só há um caminho, defender nas ruas a liberdade."

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Petição dirigida à Assembleia da República para o reconhecimento do Estado da Palestina


Numa petição tornada pública esta terça-feira e que pode ser assinada aqui, mais de cem personalidades exigem que o Estado português tome finalmente a decisão de reconhecer o Estado da Palestina. Os promotores entendem que o "reconhecimento do Estado da Palestina por parte de um grande número de países é, hoje, uma forma eficaz de, no plano diplomático, demonstrar a solidariedade para com o povo palestiniano e pressionar o governo israelita a pôr fim à escalada de violência contra as populações de Gaza e da Cisjordânia". E concluem que “apenas o reconhecimento do direito do povo palestiniano a constituir o seu próprio Estado permitirá abrir um horizonte de esperança num futuro de paz para a região”.

"Os abaixo-assinados não admitem ser testemunhas silenciosas ou passivas destes crimes. Ao condená-los, recordam décadas de violência e humilhações contra o povo palestiniano", diz o documento citado pela agência Lusa e que é subscrito por figuras do meio académico e cultural como António Sampaio da Nóvoa, Júlio Machado Vaz, Maria de Lurdes Rodrigues, Teresa Violante, Vital Moreira, Pilar del Rio, Ana Bacalhau, Capicua, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho ou Rui Reininho. No plano político, além de Sampaio da Nóvoa, a lista de promotores conta ainda com outra antiga candidata presidencial, Ana Gomes, os ex-deputados bloquistas Alda Sousa, João Teixeira Lopes e José Manuel Pureza, o ex-presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues e um antigo secretário de Estado do governo de Passos Coelho, Bruno Maçães, entre outros atuais e ex-parlamentares.

O texto diz ainda que os signatários seguem "com crescente preocupação o agravamento das violações de direitos humanos e da lei humanitária internacional, os crimes de guerra e a escalada de violência sobre civis em Gaza e na Cisjordânia". Além do reconhecimento do Estado da Palestina, os signatários querem que Portugal se comprometa com as deliberações do Tribunal Penal Internacional, “nomeadamente apoiando o cumprimento de mandados de captura contra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e Yoav Gallant, ex-Ministro da Defesa de Israel” e que o nosso país “impossibilite o trânsito e o transbordo de material militar destinado a Israel em território português ou águas territoriais portuguesas e adote as políticas necessárias para garantir que entidades jurídicas privadas registadas na jurisdição portuguesa cessem a prestação de serviços utilizados por Israel nas suas operações militares em Gaza”.

Em declarações ao Público, Sampaio da Nóvoa explicou o seu apoio a esta iniciativa, dizendo que “ao longo da História, foi pelo silêncio de muitos, e que tantas vezes foram as vítimas seguintes, que se cometeram as maiores barbaridades. Não podemos ficar em silêncio.”

Noutra iniciativa, que junta 146 “personalidades que, de um ou outro modo, trabalham em ligação com a infância”, na maioria escritores e ilustradores, também se defende que “ante o massacre de milhares de crianças e outros palestinos em Gaza, não seremos cúmplices pelo silêncio”. Segundo a agência Lusa, o abaixo assinado dinamizado pelas ilustradoras Ana Biscaia e Inês Oliveira e pelo escritor João Pedro Mésseder juntou escritores como Alice Vieira, Álvaro Magalhães, Ana Filomena Amaral, António Mota, José Fanha, Luísa Ducla Soares e Rita Taborda Duarte e ilustradores como André Carrilho, Catarina Sobral, Madalena Matoso, Mariana Rio, Rachel Caiano e Yara Kono. “Denunciamos e repudiamos o genocídio”, afirmam os signatários, considerando que “um mundo de paz é possível”.

Outro manifesto divulgado na semana passada juntou mais de 230 escritores de língua portuguesa num apelo ao cessar-fogo imediato na Palestina e em defesa da “entrada urgente de ajuda humanitária nos territórios ocupados”. A iniciativa foi da Fundação José Saramago e juntou nomes como Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Chico Buarque, José Eduardo Agualusa, Mia Couto e Mário Lúcio Sousa. Iniciativas semelhantes ocorreram no Reino Unido e Irlanda e também em França.

Hoje , 4 de junho, o MPPM convoca uma manifestação em solidariedade com a Palestina e pelo fim do genocídio, com ponto de partida às 18h no Largo do Chiado. O protesto seguirá até ao Largo 1.º de Dezembro.

“Ajuda” israelita já matou mais de 100 nas filas
Os massacres da população faminta em Gaza são agora diários, com as tropas de Israel a abrirem fogo sobre os deslocados que se dirigem aos centros de distribuição de alimentos geridos por uma organização patrocinada por Israel e EUA. Na manhã de terça-feira, os disparos fizeram pelo menos 27 mortos e dezenas de feridos num desses pontos em Rafah.

Um porta-voz da Cruz Vermelha disse à Reuters que o seu hospital de campanha recebeu 184 vítimas, dos quais 19 foi declarado o óbito à chegada, tendo outros oito morrido pouco depois devido aos ferimentos. As autoridades de Gaza elevam para 102 o número de mortos nestes pontos de distribuição de alimentos na última semana.

“Atacar os famintos enquanto procuram o seu sustento revela a natureza deste inimigo fascista, que usa a fome e os bombardeamentos como armas de morte e de deslocação, como parte de um plano sistemático para esvaziar Gaza da sua população”, afirmou o Hamas, considerando o processo promovido pelos israelitas e estadunidenses à margem das redes de apoio da ONU e das ONG no terreno como “uma armadilha de morte e humilhação”

domingo, 1 de junho de 2025

O linguista e escritor que acreditava no futuro da língua portuguesa


O linguista, escritor, tradutor, crítico literário e académico português Fernando Venâncio, autor de 'Assim Nasceu uma Língua' (2019), morreu esta sexta-feira em Mértola, aos 80 anos, anunciou a editora Guerra & Paz e noticiou a agência Lusa. Com essa obra, mexeu no passado da língua portuguesa, mas também manifestou "tranquilidade" quanto ao seu futuro.

Em comunicado, Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz, recorda como recebeu um texto de Amesterdão em 2015, um prefácio assinado por Fernando Venâncio. Mais tarde, aconteceu o que o editor classifica como “o milagre: o Fernando aceitou ser meu autor”. Daí sairia 'Assim Nasceu uma Língua' e, em 2022, "O Português à Descoberta do Brasileiro". Fernando Venâncio esteve ligado a vários projectos culturais e em 2020 foi distinguido com o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho pela obra 'Assim Nasceu uma Língua' - Sobre as Origens do Português.

Marco Neves, tradutor, revisor, autor e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha-o como mentor. ​Esta sexta-feira, sublinha ao PÚBLICO que Fernando Venâncio era um linguista mas também um escritor de ficção. E isso foi importante para o sucesso de Assim Nasceu uma Língua, que se tornou um best-seller por ser "um livro que era de um estudioso da língua mas também de alguém que sabe escrever mesmo muito bem".

"É muito raro, diria até que é caso único um livro de linguística que não seja um dicionário ou uma gramática ter um sucesso tão grande e chegar a tantas pessoas" no mercado português, enfatiza, "porque apesar de ser um tema que as pessoas gostam, normalmente não lêem livros de linguística. Teve uma recepção do público extraordinária."

Assim Nasceu uma Língua "é um livro principalmente de divulgação mas é também de investigação. Além de expandir o conhecimento, também cria novo conhecimento. É algo que não é assim tão comum".

Fernando Venâncio considerava que “a linguística portuguesa é muito estranha. Temos óptimos historiadores, óptimos investigadores da gramática e sobretudo da sintaxe, mas não há nenhum interesse na divulgação”, dizia ao Ípsilon em 2022.

Marco Neves lembra que Venâncio "não tinha medo nenhum de usar qualquer canal: Facebook, blogues, redes sociais. Não tinha aquela hesitação que algumas pessoas na academia têm de usar qualquer canal para chegar ao grande público e isso também ajudou a poder comunicar aquilo que o apaixonava – a língua e a literatura".

Na mesma entrevista de 2022, Fernando Venâncio criticava o Acordo Ortográfico de 1990 e o silêncio da comunidade de linguistas sobre um “produto mal-enjorcado, elaborado em cima do joelho, rejeitado por todas as entidades então consultadas” e “tecnicamente inapresentável”. Era, portanto, um crítico do acordo.

Um romancista, cronista e tradutor
Na obra literária, assinou Um Selvagem ao Piano (Peregrinação, 1982), Os Esquemas de Fradique (Grifo, 1999), El-Rei no Porto (Asa, 2001), Beijo Técnico e Outras Histórias (Ulisseia, 2015), Último Minuete em Lisboa (Assírio & Alvim, 2008), Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 2002) ou Só o Meu Computador Me Compreende (On y va, 2018). Assinou a colectânea de ensaio Objectos Achados (Caixotim, 2002), compilou uma antologia da Crónica Jornalística – Século XX (Círculo de Leitores, 2004) e editou os seus diários de viagem em Quem Inventou Marrocos (Ausência, 2004). José Saramago: a luz e o sombreado (Campo das Letras, 2000) é outra das suas obras, além da colectânea de polémicas Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 2015).

Mas é com Assim Nasceu uma Língua, que em 2023 já ia na 7.ª edição, com a editora Guerra & Paz, que se assinala o ponto alto da sua carreira – um linguista à procura das origens de uma língua que depois se espalharia pelo mundo. Aliás, em 2022, assinou também O Português à Descoberta do Brasileiro, pela mesma Guerra & Paz, acerca da influência do português do Brasil sobre a escrita em Portugal a partir de finais da década de 1970, além de se ter dedicado a construir gramáticas de português para a sua língua de tradução de eleição, o neerlandês, ou de ter feito a investigação Concepções de Língua Literária em Portugal na Época de Castilho (1835-1875).

Lançado em 2019, Assim Nasceu uma Língua é a obra de referência de um homem nascido em Mértola em 1944 e que viveu em Lisboa desde os dois anos, depois em Braga desde os dez e foi para Amesterdão aos 26 anos, onde se formou em Linguística Geral e onde viveu e leccionou, nomeadamente na Universidade de Amesterdão sobre Problemática e Legislação das Línguas Minoritárias na Europa – mas também deu aulas e ocupou cargos directivos em universidades de Amesterdão, Roterdão e Haia, como refere uma sua biografia da Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas. "Assim Nasceu uma Língua" é aliás, nas palavras do jornalista e cronista do PÚBLICO Nuno Pacheco, “a obra de uma vida”.

Nela, Venâncio investiga e vasculha uma língua nascida de uma língua única junta com o galego e que se separou a partir de 1400 para uma independência que, na opinião do linguista, não devia esquecer a sua origem. “Portugal utilizou a língua que herdara ao fazer-se independente: o galego”, lê-se nessa obra. Fruto da sua “curiosidade” e da “vontade de ir até onde ninguém tinha ido” como disse ao Ípsilon em 2019, levou-o a fixar por escrito a fortíssima ligação ao galego, depois a absorção de algo do espanhol, e a ilusão da “língua lusitana” – “Quando a Galiza deixou de ser referência, Portugal procurou uma referência mais a sul, no povo lusitano. E Camões consagrou isso”, disse ao Ípsilon na mesma entrevista.

A obra “conquistou Portugal, seduziu os nossos vizinhos galegos, bem como gerou controvérsia no Brasil”, recorda o editor Manuel S. Fonseca na mesma nota enviada às redacções. "Houve alguma polémica no Brasil, é verdade, por vários motivos", completa Marco Neves ao PÚBLICO. "Porque o livro fala da questão do português de Portugal e do português do Brasil. Mas levantou também discussões infindas sobre a relação do português com o galego ao tentar mostrar que o português nasce da língua medieval a que ele chamava directamente galego; se para os portugueses pode parecer uma questão pouco importante, marcar uma posição a dizer que neste momento o galego e o português já não são a mesma língua é uma questão bastante ainda acesa e polémica entre muitos e muitos sectores da sociedade na Galiza."

Ainda assim, diz Marco Neves, na altura da morte de Fernando Venâncio, entre aqueles que concordavam ou discordavam do académico português, "todos são unânimes em dizer que foi importantíssimo para as relações entre Portugal e Galiza".

A Guerra & Paz reeditou este ano "Os Esquemas de Fradique" e o seu editor acredita que ali, naquele romance de há décadas, é que serão descobertas “paixões doidas – ‘sabem tão bem!’ – um cientista gatuno (‘gatuno, mas um tipo porreiro’) e muito whisky divino”. É a obra que Manuel S. Fonseca destaca, a par do legado para a linguística, do autor de quem se despede esta sexta-feira.

Ao nível pessoal, Manuel S. Fonseca descreve uma “voz cheia de entusiasmo”, “o tão bom humor”, ácido por vezes, escrutinador do “grande circo da pretensão, pompa e circunstância”.

“Tento contar uma história, com a reserva que a história impõe sempre”, dizia Fernando Venâncio. “E a verdadeira história é que o português é, historicamente, um fenómeno tardio. Há toda uma história anterior. Ao mesmo tempo, isso dá-nos uma grande tranquilidade. Porque o português sobreviveu até hoje, da melhor maneira, e tem o futuro pela frente, seja em que forma for.”