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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Pequenas Cidades No Tempo. O Ambiente e Outros Temas


Este livro integra textos escolhidos do colóquio de 2019 sobre Pequenas Cidades e Ambiente. Iniciando-se com o repto lançado pelo Professor Jean-Luc Fray, seguem-se as respetivas respostas, ordenadas nas seguintes subsecções:
  1. A interpretação de sistemas socioecológicos sob perspectivas de conjunto; 
  2. A observação de sistemas socioecológicos através dos testemunhos materiais; 
  3. A análise pormenorizada de fenómenos de antropização; 
  4. O estudo da regulação societária de recursos e problemas ambientais.
A segunda parte do livro, sobretudo constituída por textos apresentados num encontro de 2017, corporiza várias categorias de estudos sobre as pequenas cidades, nomeadamente,  a  monografia,  a  articulação  de  povoados,  as  hierarquias  urbanas,  as  leituras  do  espaço  urbano,  as  materialidades,  as  redes  de  poder  e,  não  menos  importante, a intervenção societária. 

Por fim, as conclusões pretendem, para além de sintetizar algumas linhas gerais transmitidas pelo conjunto de artigos, enfrentar os “problemas irritantes” (nas palavras do Professor Jean-Luc Fray) levantados pela classificação  dos  núcleos  urbanos  de  pequena  dimensão  e,  também,  valorizar  a  acuidade da pesquisa sobre as pequenas cidades no tempo

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Prioridades ambientais para as Legislativas 2025

Os efeitos das alterações climáticas já são sentidos em todo o mundo e constituem ameaças reais à segurança e bem-estar das pessoas. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental, que seguem a um ritmo acelerado, agravam ainda mais esta realidade. Para garantir que os líderes que estarão à frente das decisões em Portugal estejam comprometidos em reverter este cenário, a Coligação C7 destaca as seguintes medidas prioritárias que devem ser incluídas nos programas das Eleições Legislativas que se aproximam:

Conservação e Restauro da Natureza, dentro e fora de Áreas Classificadas:
  1. Retorno da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e da pasta das Florestas ao Ministério do Ambiente.
  2. Reverter a alteração à lei dos solos que veio permitir construção em solos rústicos.
  3. Garantir o cumprimento da meta de proteção de 30% do território terrestre e marinho até 2030, incluindo os 10% de proteção estrita, através de uma rede eficaz de Áreas Protegidas ecologicamente representativas, conectadas e bem geridas - necessidade de cumprir as metas definidas na Lei do Restauro;
  4. Garantir a implementação da Rede Natura 2000 (nomeadamente, a conclusão da elaboração dos planos de gestão e a ampliação desta rede ecológica em Portugal) e a efetiva aplicação da legislação, da regulamentação e de iniciativas de conservação, monitorização e fiscalização em todo o Sistema Nacional de Áreas Classificadas;
  5. Garantir financiamento para a elaboração e implementação do Plano Nacional de Restauro, para promover o restauro ecológico à escala da paisagem e dos ecossistemas degradados, reabilitar o equilíbrio ecossistémico e reverter a perda de biodiversidade;
  6. Promover o restauro dos rios através da remoção de barreiras fluviais obsoletas, em linha com o Regulamento do Restauro da Natureza e o objetivo do Pacto Ecológico Europeu de libertar 25 mil km de rios;
  7. Repensar a estratégia nacional para a gestão da água apostando em soluções baseadas na natureza, enquanto alternativas mais sustentáveis e de baixo custo, como o restauro de zonas húmidas, proteção de aquíferos e o uso de tecnologias de armazenamento alternativas, como reservatórios naturais ou infiltração de água no solo, em detrimento da construção de novas grandes barragens e transvases;
  8. Aumentar em pelo menos 50% o financiamento disponível (quer em Orçamento de Estado, quer no Fundo Ambiental quer no Fundo Azul) para ações de conservação da natureza, que deverá ser plurianual, de forma a garantir o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos, nomeadamente o Global Biodiversity Framework da Convenção da Diversidade Biológica;
  9. Reforçar a proteção do lobo ibérico ao nível nacional e estimular ativamente a adoção de medidas que promovam a coexistência harmónica, tendo em consideração que a proteção desta espécie será severamente reduzida ao nível europeu;
  10. Criar legislação para a conservação das árvores junto das estradas nacionais e municipais, obrigando as entidades gestoras a fundamentarem publicamente as decisões sobre abates.
Clima e energia:
  1. Garantir a implementação imediata do disposto na Lei de Bases do Clima, atendendo a que o seu calendário de implementação se encontra manifestamente atrasado;
  2. Concretizar a revisão do Roteiro Nacional de Baixo Carbono e a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, previstos para 2025, garantindo a participação efetiva das ONGAs e tendo como ponto de partida uma avaliação completa dos resultados das estratégias anteriormente em vigor;
  3. Garantir a efetiva implementação do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, tendo em consideração a necessidade de compatibilizar as suas ambições com outros objetivos ambientais, como a proteção da biodiversidade, e com a racionalidade económica;
  4. Promover a transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a eliminação de todos os subsídios e apoios públicos aos combustíveis fósseis;
  5. Promover a eficiência energética, nomeadamente garantindo recursos para a implementação da Estratégia de Longo-Prazo para a Renovação dos Edifícios e da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050, e apostar prioritariamente na descentralização e democratização da produção renovável, nomeadamente através do autoconsumo e das comunidades de energia;
  6. Concretizar o processo de seleção de áreas de aceleração de energias renováveis, através de uma Avaliação Ambiental Estratégica, e definir mecanismos para encorajar a localização de projetos de energias renováveis em áreas de menor sensibilidade ambiental (por exemplo, limitar a aplicação do princípio do “interesse público prevalecente” dos projetos de energias renováveis, previsto na REDIII, a estas áreas de aceleração);
  7. Incorporar critérios ecológicos e sociais (critérios não-preço) nos futuros leilões de renováveis (incluindo os leilões para a energia eólica offshore), bem como realizar um planeamento cuidadoso da instalação das infraestruturas de produção e de rede e uma monitorização rigorosa e contínua dos impactos ambientais e sociais dos mesmos;
  8. Maior integração dos aspetos da transição justa, nomeadamente com a elaboração participada do Plano Social Climático de Portugal;
  9. Garantir recursos para apoiar o desenvolvimento e implementação dos planos municipais e regionais de ação climática.
Agricultura e alimentação:
  1. Criar o Plano Nacional de Alimentação Sustentável, que defina de forma participada e transparente os princípios para a alimentação sustentável e os integre de forma sistémica nas políticas de produção, consumo e combate ao desperdício e perdas de alimentos, bem como nas políticas de saúde;
  2. Elaborar a Estratégia Nacional de Promoção do Consumo de Proteínas Vegetais, conforme disposto no PNEC 2030;
  3. Investir na agricultura de baixo impacto, que realiza práticas sustentáveis de uso do solo e da água, com reduzida emissão de gases de efeito de estufa e que beneficia a biodiversidade e que reduz o desperdício agro-alimentar, através de práticas agro-ecológicas;
  4. Promover o uso eficiente e contido da água na agricultura, diversificação e complementaridade entre origens de água nos diversos sistemas de abastecimento, e a regulação do uso de água em todos os sistemas, respeitando sempre os ecossistemas; Promover instrumentos que permitam acabar com a subsidiação pública da água na agricultura de forma a que os agricultores paguem o real custo da água.
  5. Inserir critérios ambientais obrigatórios para as compras públicas de alimentação escolar, garantindo uma alimentação saudável e sustentável nas cantinas, privilegiando cadeias de abastecimento mais sustentáveis e dando escala à implementação da Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas;
Oceanos e Pescas:
  1. Garantir financiamento estrutural que permita o adequado funcionamento dos comités de cogestão das pescarias e a realização de todas as suas funções, de maneira contínua e que dê resposta às singularidades deste modelo de gestão;
  2. Desenvolver de maneira colaborativa e implementar o Plano de Ação Nacional para a Gestão e Conservação de Tubarões e Raias, bem como o Plano de Ação para a Mitigação dos Impactos da Pesca sobre Cetáceos, Aves e Tartarugas;
  3. Criar o Fórum de Carbono Azul em Portugal;
  4. Apoiar a transição para práticas pesqueiras de baixo impacto, direcionando fundos públicos para avaliações que comprovem os impactos das pescarias e eliminando gradualmente os subsídios prejudiciais aos recursos pesqueiros;
  5. Assegurar a implementação eficaz da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha por meio de planos de monitorização assentes na ciência, com financiamento adequado;
  6. Garantir a implementação correta da Política Comum de Pescas, com destaque para o novo Regulamento de Controlo e o Plano de Ação Marinha.
  7. Assegurar a ratificação do Tratado de Alto Mar, para proteção da biodiversidade em áreas para além da jurisdição nacional.
Para além das prioridades temáticas mencionadas, é fundamental assegurar mais espaços formais de participação da sociedade civil no desenvolvimento das políticas públicas, abrangendo todas as suas fases, desde a concepção inicial até a implementação e monitorização. As consultas públicas podem ser agilizadas através da criação de uma plataforma única (semelhante à utilizada pela Comissão Europeia), seguindo enquanto padrão mínimo o disposto na legislação de Avaliação de Impacte Ambiental e garantindo o cumprimento da Convenção de Aarhus sobre o direito à participação. É essencial também salvaguardar e apoiar a ação das organizações da sociedade civil, pela sua importância democrática e papel na defesa da natureza e do bem-estar das pessoas, incluindo através da garantia da continuidade de instrumentos de financiamento centrais, como o programa LIFE.

A C7 considera que estas medidas representam o mínimo necessário para que Portugal possa enfrentar os desafios ambientais globais, cumprir os compromissos internacionais assumidos, e garantir a manutenção dos ecossistemas e a construção de uma sociedade resiliente.

A Coligação C7 é composta pelas seguintes organizações:
FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
WWF Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável

sábado, 28 de dezembro de 2024

MOOCs e Educação Ambiental: a ligação


Os MOOCs (Massive Open Online Courses) têm uma relação direta e estratégica com a Educação Ambiental, sobretudo porque ambos partilham o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento e promover mudanças de valores, atitudes e comportamentos face aos desafios ambientais contemporâneos. Num contexto marcado por crises globais como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas, torna-se essencial que a educação ambiental ultrapasse os limites da escola formal e alcance públicos mais amplos, algo que os MOOCs permitem de forma eficaz.

Ao serem cursos online, abertos e acessíveis a um número elevado de participantes, os MOOCs possibilitam a difusão de conteúdos científicos e educativos sobre sustentabilidade, conservação da natureza, ecologia e cidadania ambiental a pessoas de diferentes idades, formações e contextos socioculturais. Esta característica reforça o carácter inclusivo da Educação Ambiental e contribui para a construção de uma consciência ecológica global, ao mesmo tempo que valoriza experiências e realidades locais partilhadas entre participantes de diferentes regiões do mundo.

Os MOOCs assumem também um papel relevante na formação contínua de professores, educadores ambientais e técnicos da área do ambiente, permitindo atualização científica permanente e contacto com novas abordagens pedagógicas. Quando bem estruturados, podem integrar metodologias ativas, como estudos de caso, projetos comunitários, desafios práticos e fóruns de debate, favorecendo uma aprendizagem crítica e reflexiva, essencial para a Educação Ambiental transformadora.

Contudo, é importante reconhecer que os MOOCs apresentam limitações, como elevadas taxas de abandono, desigualdades no acesso à internet e a dificuldade em promover experiências diretas com a natureza. Por essa razão, devem ser encarados como ferramentas complementares, e não substitutas, das práticas educativas presenciais e das ações locais de educação ambiental.

Em síntese, os MOOCs constituem um importante instrumento de apoio à Educação Ambiental, ao ampliarem o alcance do conhecimento, fortalecerem redes de aprendizagem e contribuírem para a formação de cidadãos mais conscientes e participativos, desde que articulados com práticas pedagógicas críticas e orientadas para a ação sustentável.

Referências bibliográficas
  1. DOWNES, S. (2008). Places to go: Connectivism & connective knowledge. Innovate: Journal of Online Education, 5(1).
  2. FREIRE, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.
  3. HODGSON, V.; MCDONALD, J. (2019). Postdigital learning and the marginalisation of MOOCs. International Journal of Educational Technology in Higher Education, 16(1), 1–15.
  4. HOLLANDS, F. M.; TIRTHALI, D. (2014). MOOCs: Expectations and reality. New York: Center for Benefit-Cost Studies of Education, Teachers College, Columbia University.
  5. SIEMENS, G. (2005). Connectivism: A learning theory for the digital age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2(1).
  6. SIEMENS, G.; DOWNES, S. (2008). Connectivism and connective knowledge. National Research Council Canada.
  7. UNESCO (2017). Education for Sustainable Development Goals: Learning objectives. Paris: UNESCO.
  8. UNESCO (2020). Education for sustainable development: A roadmap. Paris: UNESCO.
  9. WALS, A. E. J. (2010). Mirroring, gestaltswitching and transformative social learning: Stepping stones for developing sustainability competence. International Journal of Sustainability in Higher Education, 11(4), 380–390.
  10. YUAN, L.; POWELL, S. (2013). MOOCs and open education: Implications for higher education. CETIS White Paper.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Autocracy Inc, descreve a rede de autocratas que procuram minar a democracia, dentro dos seus países e nos EUA

NEW YORK TIMES BESTSELLER • An Economist Best Book of 2024 • A Financial Times Best Book of 2024 • From the Pulitzer-prize winning author, an alarming account of how autocracies work together to undermine the democratic world, and how we should organize to defeat them

“A masterful guide to the new age of authoritarianism… clear-sighted and fearless.”—John Simpson, The Guardian • “Especially timely.“—The Washington Post

We think we know what an autocratic state looks like: There is an all-powerful leader at the top. He controls the police. The police threaten the people with violence. There are evil collaborators, and maybe some brave dissidents.

But in the 21st century, that bears little resemblance to reality. Nowadays, autocracies are underpinned not by one dictator, but by sophisticated networks composed of kleptocratic financial structures, surveillance technologies, and professional propagandists, all of which operate across multiple regimes, from China to Russia to Iran. Corrupt companies in one country do business with corrupt companies in another. The police in one country can arm and train the police in another, and propagandists share resources and themes, pounding home the same messages about the weakness of democracy and the evil of America.

International condemnation and economic sanctions cannot move the autocrats. Even popular opposition movements, from Venezuela to Hong Kong to Moscow, don’t stand a chance. The members of Autocracy, Inc, aren’t linked by a unifying ideology, like communism, but rather a common desire for power, wealth, and impunity. In this urgent treatise, which evokes George Kennan’s essay calling for “containment” of the Soviet Union, Anne Applebaum calls for the democracies to fundamentally reorient their policies to fight a new kind of threat.

sábado, 9 de março de 2024

Ensaio: A Economia como Expansão de Liberdades



A obra de Amartya Sen representa uma rutura com a economia ortodoxa, que durante décadas mediu o bem-estar social apenas através de métricas monetárias. Para Sen, o desenvolvimento não é um fim em si mesmo, mas sim um meio para a expansão das liberdades reais de que os indivíduos desfrutam.

1. O Capability Approach (Abordagem das Capacidades)
O conceito central de Sen é a distinção entre meios e fins. Enquanto a economia clássica foca-se nos bens (rendimento), Sen foca-se no que as pessoas conseguem fazer com esses bens. Ele introduz dois termos técnicos essenciais:
  1. Funcionamentos (Functionings): são os estados e ações que uma pessoa consegue realizar (ex: estar nutrido, ter boa saúde, participar na vida da comunidade).
  2. Capacidades (Capabilities): representam a liberdade substantiva de alcançar esses funcionamentos. É o "conjunto de vetores" de opções que uma pessoa tem à sua disposição.
2. Pobreza como Privação de Capacidades
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação de capacidades básicas. Um exemplo clássico que ele utiliza é o de uma pessoa com uma deficiência motora. Mesmo que ela tenha o mesmo rendimento que uma pessoa sem deficiência, a sua "capacidade" de se deslocar ou de participar no mercado de trabalho é menor, a menos que o Estado ou a sociedade compensem essa limitação com infraestruturas adequadas. Portanto, a igualdade de rendimentos não garante a igualdade de oportunidades.

3. Liberdades Instrumentais
Sen identifica cinco tipos de liberdades que se reforçam mutuamente para promover a capacidade individual:
Liberdades políticas: direitos civis e democracia.
Facilidades económicas: oportunidades de utilizar recursos para consumo ou produção.
Oportunidades sociais: acesso a educação e saúde.
Garantias de transparência: o direito à informação e ao combate à corrupção.
Segurança protetora: redes de segurança social para os mais vulneráveis.

Referências e Ligações Úteis
Para aprofundar o estudo sobre Amartya Sen, recomendo os seguintes recursos oficiais:
Página Oficial do Prémio Nobel - Amartya Sen: Inclui a biografia e a palestra de aceitação do prémio em 1998.

Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD): O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado por Mahbub ul Haq com a colaboração direta de Sen, aplicando as suas teorias na prática.

Harvard University - Amartya Sen: Perfil académico com acesso a publicações recentes.

Referência Bibliográfica Principal
SEN, Amartya (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press. (Edição em Portugal: O Desenvolvimento como Liberdade, Gradiva, 2003).

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Teias de aranha capturam DNA ambiental de vertebrados terrestres


A rica tapeçaria da vida na Terra está a desgastar-se, em grande parte devido à perda de habitat causada pelo homem e às alterações climáticas. À medida que mais espécies desaparecem, os investigadores correm para acompanhar este declínio global da biodiversidade para compreender as suas consequências e combatê-lo através de iniciativas de conservação.

Esses esforços dependem de uma monitorização precisa dos animais, o que pode ser difícil, demorado e caro. Agora, numa nova investigação publicada na revista iScience, os investigadores apresentam evidências de uma nova ferramenta não invasiva e de baixo custo que pode ser usada para monitorizar animais: as teias de aranha.

Veja como as coisas funcionaram por um tempo: se você quisesse saber quais animais estavam em um determinado lugar, você caminharia ou entraria em seu habitat e esperaria para vê-los ou ouvi-los. Mas essa abordagem pode ter suas desvantagens.

“Se você entrar em um ambiente inóspito várias vezes para fazer pesquisas visuais”, diz Josh Newton, Ph.D. estudante de biodiversidade genética na Curtin University em Perth, Austrália, "isso é um pouco complicado".

Outro problema do monitoramento tradicional é que ele pode envolver a captura de animais. “Isso coloca estresse nos animais”, diz Newton. “Especialmente se você está procurando uma espécie rara e ameaçada de extinção, isso não é uma grande coisa – não é algo que você queira fazer.”

O DNA está em toda parte
Nos últimos anos, os cientistas recorreram a uma forma diferente de monitorizar a biodiversidade. Eles estão usando DNA ambiental, ou eDNA, que é simplesmente DNA de diferentes criaturas espalhadas pelo ambiente. Você pode pensar nisso como a versão ecológica de "tudo em todos os lugares ao mesmo tempo".

“Todas as espécies que existem num determinado ambiente, num determinado ecossistema – podem estar a morrer, a decompor-se, a urinar, a defecar, a respirar, o que quer que seja”, diz Morten Allentoft, biólogo evolucionista da Universidade Curtin. E esse conjunto de processos “facilita a liberação de células no meio ambiente, e todas as células contêm DNA”.

Os pesquisadores retiraram o eDNA de folhas e flores, filtraram-no da água, retiraram-no do ar e até o coletaram nas entranhas de besouros de esterco e nas refeições de sangue de sanguessugas.

Um dia, enquanto Allentoft caminhava ao redor do Lago Bibra em sua casa em Perth, ele notou nas árvores montes de teias gigantes que foram formadas por aranhas tecendo orbes douradas.

“Nos meus tempos de biologia, disseram-me que as teias de aranha [são] pegajosas”, diz ele com uma risada. "Você pode ver que eles estão bagunçados, estão sujos. E eu estava pensando comigo mesmo: 'Talvez essas teias de aranha [sejam] grandes filtros de ar passivos. Eles ficam lá por dias ou semanas - meses até. Eles podem muito bem estar capturando o DNA que [está] flutuando.'"

Trabalhos anteriores mostraram que as teias são boas fontes de DNA de insetos, incluindo o que as aranhas comem. Mas Allentoft e Newton queriam ver se as teias também retinham ADN de animais vertebrados, talvez levados para lá pelo vento ou depositados por insectos.

Cangurus e cangurus e outros animais.Meu Deus!
Então Newton dirigiu até o Karakamia Wildlife Sanctuary, uma floresta a cerca de 48 quilómetros de Perth, e coletou teias de aranha nos galhos e arbustos. “Se você olhar para Shrek, onde a princesa Fiona coleta fio dental de teia de aranha para Shrek, é muito semelhante a esse processo”, diz Newton. "Basta pegar um pedaço de pau e envolvê-lo."

Nenhuma aranha foi ferida ou coletada, mesmo que suas teias tenham sido desmanteladas. “Nós simplesmente os retiramos da web”, diz Newton.

É claro que não está claro o que as aranhas pensaram dessa abordagem.

“Então, quando dizemos que isto não é invasivo”, acrescenta Allentoft com um sorriso, “bem, as aranhas podem realmente não pensar isso”.

De volta ao laboratório, Newton amplificou as pequenas quantidades de DNA das teias. Eles estavam cheios de material genético de animais de Down Under.

“Foi maravilhoso”, diz Allentoft. "Podíamos ver esses cangurus [e] cangurus." Havia outros nove mamíferos, 13 espécies de pássaros, o sapo motociclista e o lagarto-olho-de-cobra. A análise da floresta também foi capaz de coletar DNA da raposa vermelha, do rato doméstico e do rato preto – espécies invasoras que não pertencem à Austrália.

Para confirmar que as teias estavam captando DNA de animais locais, Newton também coletou amostras no Zoológico de Perth. E essas teias continham DNA de 21 aves, cinco répteis, dois anfíbios e 33 mamíferos, incluindo girafas, elefantes, rinocerontes, orangotangos, lémures e suricatos.

Por outras palavras, a técnica funcionou. Representa uma nova forma de rastrear a biodiversidade animal e de nos alertar quando devemos intervir para conservar as espécies nativas e intensificar os esforços para eliminar as invasoras.

“Acho que é inteligente e fofo”, diz Elizabeth Clare, ecologista molecular da Universidade York, em Toronto, que não esteve envolvida no estudo. "É uma boa forma não invasiva de amostragem de vertebrados terrestres. Existem milhares de documentos em papel que estão a  estudar o movimento do DNA através da água e muito poucos na terra. E por isso precisamos realmente de mais explorações como esta para começar a diminuir a distância que o material viaja, como se acumula e quanto tempo duram estes sinais."

Por exemplo, Newton não sabe se as teias que coletou estavam no lugar há dias, semanas ou meses. Mas existem certas aranhas orbe que constroem uma nova teia todas as noites antes de destruí-la pela manhã. “Imagine que você pode obter DNA dessas teias de aranha”, diz Allentoft. “Então eles capturariam, em um momento muito preciso, quais espécies realmente existem no momento”.

A seguir, Newton e Allentoft investigarão o que a localização e a vida útil das teias de diferentes espécies de aranhas podem lhes dizer sobre quais animais estão rondando nas proximidades. É a versão deles da rede mundial de computadores – não menos cheia de informações importantes.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis: Death in June e Rui Nunes


If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.

Let’s break bread together,
Our honesty moves more than lies.
What do you mean “I need”?
In suffering you breed.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.

I can hear the kiss fill me
Through the minds and warning signs.
Sounds of ghosts go further,
If you engage in a coven with crows.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

So if we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

I can hear the kiss fill me
Through the minds and warning signs.
Sounds of ghosts go further
If you engage in a coven with crows.

If we don’t neutralize decay,
We may run out of tomorrows.
Time tryeth truth,
And truth was found and fined.[2X]

"Qualquer palavra maligniza-se:
basta deixá-la crescer 
e tornar-se-á a palavra única do mundo: 
um fungo, um vírus." - Rui Nunes

Uma grande verdade. Muito isto que sinto, não tanto no Facebook, mas muito na rede X. Para isso nos alertou Laurie Anderson, com o seu tema fabuloso "Language is a virus".

As imagens deste vídeo são da obra-prima: Naqoyqatsi

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

COP será presidida novamente por homem com carreira no petróleo

Mukhtar Babayev
Um homem com carreira no setor do petróleo vai voltar a presidir à conferência do clima da ONU, já que o Azerbaijão nomeou o seu ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais como presidente da COP29 de novembro.

“Sua Excelência Mukhtar Babayev foi nomeado presidente designado da 29.ª sessão da conferência das partes” da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, segundo informação do ministério enviada hoje à agência France Presse sobre a nomeação do ex-funcionário da petrolífera Socar.

Os Emirados Árabes Unidos tinham escolhido para presidente o sultão Al Jaber, dirigente da empresa nacional Adnoc, para presidir a conferência da ONU do clima, que terminou em dezembro em Dubai com um apelo histórico inédito para uma “transição” afastada dos combustíveis fósseis.

A presidência da COP28 já felicitou Babayev, que representou o Azerbaijão nas negociações do Dubai, através de uma mensagem na rede social X: “Vamos trabalhar com as presidências da COP29 e COP30 (no Brasil), bem como com a ONU para o Clima, para concretizar o sucesso histórico e transformador da COP28 e manter a meta de 1,5°C ”.

O novo presidente da COP tem no seu currículo, entre 1994 a 2003, funções no departamento de relações económicas externas da Socar, a empresa nacional de petróleo e gás, antes de passar para a área de marketing e operações económicas.

Entre 2007 e 2010, foi vice-presidente responsável pela ecologia da empresa de petróleo e gás e é ministro da Ecologia e Recursos Naturais desde 2019.

Historicamente, os presidentes da COP foram ministros ou diplomatas, com exceção do ano passado com Sultan Al Jaber, que é presidente da Adnoc, um dos maiores produtores de gás e petróleo do Golfo, e representou o seu país em várias COP’s e afirmou-se como líder da empresa de energia renovável Masdar.

O governo azeri nomeou o vice-ministro dos Negócios Exteriores, Yalchin Rafiyev, como negociador-chefe da COP29.

O anfitrião anual da COP é escolhido por consenso pelos países da região designada. Em 2023, os países asiáticos designaram os Emirados Árabes Unidos, e este ano, após meses de bloqueios, foi definido o Azerbaijão pelos países da Europa de Leste, que incluem a Rússia.

Este ano será Baku a receber a COP e poderá fazer recordar a edição anterior, já que foi uma das capitais mundiais do petróleo no início do século XX, como apontou à AFP Francis Perrin, especialista em energia do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, “com os interesses russos, da Shell e dos irmãos Nobel da época”.

O país desenvolveu grandes depósitos de petróleo e gás no Mar Cáspio desde a década de 1990, acrescentou.

Atualmente, o gás tornou-se mais importante do que o petróleo para este membro da OPEP+, exportado principalmente para a Europa.

“O país continua hoje muito dependente dos hidrocarbonetos, que representam pouco menos de 50% do seu PIB, pouco mais de 50% das suas receitas orçamentais e pouco mais de 90% das suas receitas de exportação”, analisou Perrin.

sábado, 18 de novembro de 2023

Corrupção, desastres ambientais e conflitos: organizações cívicas e cientistas alertam Bruxelas para cancelar mineração de matérias-primas críticas

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Bruxelas recebeu uma carta aberta, assinada por cerca de 1.000 organizações cívicas e 130 cientistas, no qual é requerido o cancelamento do Regulamento Europeu sobre as Matérias-Primas Críticas: a missiva, dirigida à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou os casos de corrupção e de incumprimento sócio-ambiental relacionados com diversas minas pela Europa. De acordo com os especialistas, a atual política de matérias-primas é insuficiente e inviável face à crise climática.

O Regulamento sobre as Matérias-Primas Críticas foi anunciado na passada segunda-feira, depois de um acordo político entre o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu: nesta proposta, Bruxelas pretende assegurar a segurança do aprovisionamento de 34 matérias-primas consideradas críticas para a transição energética. Para assegurar o objetivo, foram estabelecidas duas vertentes: o abastecimento a partir de novas parcerias estratégicas e novas explorações na Europa, que beneficiariam de um licenciamento acelerado.

No entanto, casos como a ‘Operação Influencer’, que provocou a queda do Governo português, sublinharam os grupos cívicos e cientistas, são sintomáticos em relação às deficiências da indústria extrativa e da sua governação, sobretudo em relação a riscos ambientais e sociais, bem como no que diz respeito ao incumprimento da legislação existente e à corrupção.

Na missiva, foram citados mais de 30 casos de corrupção e de desastres ambientais ligados à exploração e transformação mineira na Europa nos últimos 20 anos, em países como Espanha, Finlândia, Hungria, Macedónia, Portugal, Roménia, e Suécia.

“Infelizmente, o incumprimento parece ser a norma em Portugal, mesmo em casos bem documentados e conhecidos das autoridades. A tragédia de Borba, os rejeitados da mina da Panasqueira e, desde a semana passada, as águas ácidas em Aljustrel testemunham também o estado precário das autoridades competentes. A ‘Bolha’ de Bruxelas, que prevê licenciamentos em dois anos, parece muito longe da nossa realidade de projetos que já levam meia década no processo”, referiu Nik Völker, fundador da MiningWatch Portugal.

Na carta dirigida à Comissão, os signatários abordaram também o atual boom de projetos de prospeção e pesquisa e de exploração, causado pelas crises geopolíticas dos últimos anos e pela crescente procura de metais para a transição energética. Segundo os autores, existem cada vez mais conflitos entre modos de vida tradicionais, rurais e indígenas e projetos extrativos.

“O Parlamento Europeu e a Comissão tiveram a oportunidade de ir ao encontro das necessidades das comunidades locais com esta lei e falharam redondamente”, afirmou Bojana Novakovic do movimento contra a exploração mineira de lítio “Mars sa Drine”, na Sérvia. “Estamos fartos de implorar, apelar e negociar. A UE falhou connosco, por isso estamos a enviar uma mensagem clara – retirem a lei ou vão ver-nos nas ruas e em tribunal.”

Entre os 25 projetos listados encontram-se 8 com participação de entidades portuguesas, com um valor global de €56M: EXCEED (Savannah Lithium), GREENPEG (Universidade do Porto, Felmica), INFACT (Associação Portuguesa de Geólogos), S34I (Universidade do Porto), ION4RAW (Universidade de Coimbra), VAMOS (INSEC, Mineralia-Minas Lda, EDM), MIREU (NOVA ID FCT, CCDR-A), SEMACRET (FCIENCIAS / Universidade de Lisboa).

Em Portugal, a carta foi assinada pelas seguintes 28 organizações:
Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela – ASE; Associação Montalegre Com Vida; Associação Povo e Natureza do Barroso – PNB; AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia; Bravo Mundo – Citizens Movement for a Safer Future; Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS) / Associação ALDEIA; Chaves Comunitária; Espaço A SACHOLA – Covas do Barroso; Extinction Rebellion Guimarães; FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade; Grupo de Investigação Territorial (GIT); Grupo pela Preservação da Serra da Argemela (GPSA); IRIS, Associação Nacional de Ambiente; MiningWatch Portugal; Movimento Amarante diz não à exploração de lítio Seixoso-Vieiros; Movimento Contra Mineração Penalva do Castelo, Mangualde e Satão; Movimento ContraMineração Beira Serra; Movimento Não às Minas – Montalegre; Movimento Seixoso-Vieiros: Lítio Não; Movimento SOS Serra d’Arga; Nao as Minas Beiras – Citizens Movement; Rede Minas Não; Rede para o Decrescimento em Portugal; Sciaena – Oceano # Conservação # Sensibilização; SOS – Serra da Cabreira; UDCB – Unidos em Defesa de Covas do Barroso; URZE – Associação Florestal da Encosta da Serra da Estrela.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Os países ricos exportam o dobro de resíduos plásticos para o mundo em desenvolvimento do que se pensava anteriormente


Os países desenvolvidos há muito enviam seus resíduos para o exterior para serem jogados fora ou reciclados – e uma equipa independente de especialistas diz que eles estão inundando o mundo em desenvolvimento com muito mais plástico do que o estimado anteriormente.

De acordo com uma nova análise publicada na semana passada, os dados das Nações Unidas sobre o comércio global de resíduos não contabilizam plásticos “ocultos” em têxteis, fardos de papel contaminados e outras categorias, levando a uma subestimativa anual dramática de 1,8 milhão de toneladas métricas. da quantidade de plástico que sai da União Europeia, Japão, Reino Unido e Estados Unidos para os países pobres. Os autores destacam os riscos ambientais e de saúde pública que as exportações de plástico representam no mundo em desenvolvimento, onde os importadores frequentemente despejam ou incineram um excesso incontrolável de resíduos plásticos.

“Os produtos químicos tóxicos desses plásticos estão envenenando as comunidades”, disse Therese Karlsson, consultora técnica e científica da Rede Internacional de Eliminação de Poluentes, ou IPEN, sem fins lucrativos. O IPEN ajudou a coordenar a análise junto com uma equipe internacional de pesquisadores da Suécia, Turquia e Estados Unidos

Muitas estimativas da escala do comércio de resíduos plásticos fazem uso de um banco de dados da ONU que rastreia diferentes tipos de produtos por meio de um “sistema harmonizado de descrição e codificação de mercadorias”, que atribui a cada categoria de produto um código que começa com as letras HS. A HS 3915 — “resíduos, aparas e sucata” de plásticos — costuma ser considerada por pesquisadores e formuladores de políticas como a descrição do volume total de plástico comercializado globalmente. Mas a nova análise argumenta que isso é apenas “a ponta do iceberg dos resíduos plásticos”, já que o HS 3915 deixa de lado grandes quantidades de plástico incluídas em outras categorias de produtos.

Roupas descartadas, por exemplo, podem ser rastreadas como HS 5505 e não contabilizadas como lixo plástico, embora 60 a 70 por cento de todos os têxteis sejam feitos de algum tipo de plástico. E outra categoria chamada HS 6309 – roupas e acessórios usados ​​– é considerada pela ONU como reutilizada ou reciclada e, portanto, não é considerada resíduo, embora cerca de 40% dessas roupas exportadas sejam consideradas inaproveitáveis ​​e acabem sendo despejadas em aterros sanitários. .

A contaminação plástica em fardos de papel – as enormes pilhas de papel não classificado que são enviadas para o exterior para serem recicladas – também tende a ser negligenciada nas estimativas do comércio internacional de resíduos plásticos, embora esses fardos possam conter de 5 a 30 por cento de plástico que deve ser removido e descartado.

A contabilização de plástico apenas dessas duas categorias de produtos aumenta as exportações de resíduos plásticos de todas as regiões analisadas em até 1,8 milhão de toneladas métricas por ano - 1,3 milhão de fardos de papel e meio milhão de têxteis. Isso é mais do que o dobro do plástico contabilizado quando apenas “resíduos, aparas e sucata” de plástico são analisados.

Categorias de produtos adicionais, como eletrónicos e borracha, agregam ainda mais ao comércio global de resíduos plásticos, embora Karlsson tenha dito que a falta de dados torna difícil quantificar sua contribuição exata. Todo esse plástico sobrecarrega a infraestrutura de gerenciamento de resíduos dos países em desenvolvimento, fazendo com que grandes quantidades de resíduos plásticos acabem em lixões, aterros sanitários ou incineradores. A queima desses resíduos causa poluição do ar perigosa para as comunidades próximas, e lixões e aterros sanitários podem libertar produtos químicos como PCBs – um grupo de compostos que podem causar cancro em humanos – no solo e no abastecimento de água.

Mais de 10.000 produtos químicos são usados ​​na produção de plástico, e um quarto deles foi sinalizado por pesquisadores por sua toxicidade e potencial de acúmulo no meio ambiente e no corpo das pessoas. O relatório pede maior transparência das indústrias de plástico e petroquímica sobre os produtos químicos que colocam em seus produtos de plástico e que os reguladores exijam que usem menos produtos químicos não tóxicos.

Karlsson também pediu a proibição total do comércio global de resíduos plásticos, juntamente com limites aplicáveis ​​à quantidade de plásticos que o mundo produz em primeiro lugar. “Independentemente de como lidamos com o lixo plástico, precisamos diminuir a quantidade de plástico que geramos”, ela disse a Grist, “porque a quantidade de lixo plástico produzida hoje nunca será sustentável”.

Sem uma ação agressiva para reduzir gradualmente a produção de plástico, o mundo está a caminho de produzir 26 biliões de toneladas métricas de resíduos plásticos até 2050 , a maioria dos quais será incinerada, despejada ou enviada para aterros sanitários.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O seu espaço de “Coworking” pode estar a matar a sua criatividade


Os espaços de trabalho partilhados têm vindo a aumentar nos últimos anos. Mas embora a ideia seja a de que poderiam fomentar a colaboração e a inovação criativa através de ideias partilhadas entre start-ups, estudos de casos recentes sugerem que durante períodos mais longos, poderá suceder o oposto.

Haefliger e o seu colega Ghassan Yacoub, professor de inovação e estratégia na Escola de Gestão do IESEG, investigaram as colaborações emergentes no espaço de coworking num dos maiores centros dedicados da Europa, o nível 39. Construíram um caso de estudo em torno das sete empresas de tecnologia financeira em fase de lançamento utilizando este espaço, através de entrevistas, material de arquivo e observações.

“Apesar da emergência de espaços de coworking como novas práticas de trabalho, pouco se sabe sobre a formação de colaboração e especificamente sobre a emergência de práticas de colaboração, atendendo a estes espaços de trabalho abertos e flexíveis para encontrar e interagir com empregados de outras organizações”, escreveu a dupla no seu artigo.

Um sentido de comunidade e abertura são processos bem conhecidos para encorajar a produtividade, a colaboração e, por sua vez, a inovação. Por isso, parece contraditório que a equipa tenha encontrado, ao longo do tempo em que trabalhou neste ambiente partilhado, dificuldades nas práticas de colaboração entre as empresas que poderiam semear a inovação.

Inicialmente, os espaços partilhados ajudaram a fomentar a confraternização entre as start-ups, com interacções informais e planeadas, incluindo eventos, workshops e palestras nas áreas comuns (cozinha comunitária, sala, e áreas de breakout), tudo isto facilitando os primeiros passos de uma prática colaborativa.

Mas quando essas atividades continuaram, também interferiram com as colaborações, com tentativas de organizar o espaço para eventos vistos como distração.

Das sete novas empresas, três acabaram por sair do espaço de coworking, dizendo que os benefícios dos espaços colaborativos não duraram e que as constantes mudanças à medida que mais empresas foram acrescentadas foram perturbadoras.

“Talvez esteja a tornar-se demasiado grande para que todos possam beneficiar igualmente”, especulou um representante de uma empresa.

“Penso que há lá demasiadas empresas e a área principal do salão está superpovoada com membros que se encontram lá, em vez de ser um lugar casual para as empresas permanentes se reunirem e conversarem e se conhecerem umas às outras”, explicou outro grupo.

Com o objetivo da empresa de coworking a ser o de aumentar a escala, a perspetiva dos seus utilizadores que valorizam qualidades baseadas em torno de um crescimento limitado poderá ser vista como um conflito.

Haefliger e Yacoub descobriram que, para que as colaborações continuassem de forma sustentável, precisavam de ser geridas ativamente, mas que existe um equilíbrio ténue entre o incentivo à inovação e a sua asfixia.

“É da responsabilidade do anfitrião do espaço e daqueles que o utilizam para fazer dele um cenário que possa ver parcerias florescentes e um viveiro de ideias da próxima geração”, explica Haefliger.

Este é, naturalmente, apenas um exemplo das experiências de coworking que agora acontecem em todo o mundo, com base em sete empresas de tecnologia financeira. Outras indústrias, como as criativas ou sem fins lucrativos, podem achar que o processo de coworking difere para elas, salientam os investigadores, mas as suas descobertas podem fornecer uma comparação útil para futuras pesquisas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Infodemia - uma nova crise do séc. XXI



Umberto Eco foi um daqueles homens que se pode designar como um polímata, isto é, como alguém é proficiente em mais do que uma área do saber. A nossa civilização está sequiosa de intelectuais. De construção sólida de conhecimento. Caso semelhante e em Portugal vejo em Pacheco Pereira. Nós crescidos passamos horas e horas "sagradas" a desconstruir as inverdades dos influencers digitais, mesmo na área da saúde e alimentação. Muitos mitos. Por outro lado são cada vez são menos os alunos que gostam da escola. Ano após ano o número de alunos que gostam da escola tem diminuído vertiginosamente. Atualmente estima-se que em média, um aluno gostará da escola e dos professores, em cada 23/25 por turma. É uma tragédia. Para além das várias crises, temos esta a da propagação de influencers com seguidores "fanáticos"...só escutam a eles e mais ninguém. Exercem sobre quem os ouve uma manipulação muito profunda, que depois para "re-educar" é uma tarefa herculiana.

No Youtube a Associação 25 de Abril tem apenas 3,44 mil subscritores. Jordan Peterson, um doente mental, homofóbico, de (extrema) direita, céptico climático tem 6,13 milhões de subscritores!! Prager U, um canal informativo de (extrema) direita norte-americano tem 3 milhões de subscritores. Outro exemplo. Os professores de Biologia nacionais têm que explicar aos alunos que a matéria de Biologia no Brasil é diferente de cá. Os conceitos são diferentes. Mil vezes a mesma tecla. Só o Samuel Cunha tem 1,06 milhões de subscritores (!!!) Mas há mais brasileiros a contrariar as nossas aulas- Guilherme Goulart, com 349 mil subscritores e Andrey "Tubarão", com 79,3 mil subscritores.

Excesso de informações e de influencers traz consequências para a saúde e prejudica o trabalho independente e científico dos próprios jornalistas. 
Interfere e muito na actividade pedagógica de académicos e professores em várias matérias.

É isso que Umberto Eco denuncia: muita informação e pouca ética.

E não é só o Youtube. O jornalista e professor da Fundação Cásper Líbero, Rodrigo Ratier, estudioso das media sociais, adverte que o WhatsApp, por sua própria natureza, “ não permite o contraditório. Não é uma praça pública digital, como é o Facebook, antes do reino algoritmo e as suas bolhas ideológicas, que um dia ambicionou ser. O WhatsApp é, desde o berço, um condomínio fechado, um clube restrito, uma rodinha de amigos que se esforçam em suas crenças (maluquices? preconceitos? fofocam, conspiram. Um ambiente em que a disputa por atenção privilegia o que parece espetacular, secreto, exclusivo, sensacional. Terreno fértil para boatos, distorções e mentiras de todo tipo”.

Uma das soluções viáveis, na minha perspectiva, é o aumento de imprensa local (mais de um quarto dos concelhos em Portugal não tem cobertura noticiosa frequente- dados de 2022) e a implementação de cidades dos 15 minutos. Cidades, aglomerados mais sólidos, com interações sociais mais ricas, reduzindo o ruído da desinformação e contribuindo para mitigação da pegada ecológica, maior sensibilidade para a conservação da natureza e para a preservação da biodiversidade.

Falhar melhor. O temperamento de cada um ditará se há na expressão de Samuel Beckett pessimismo, optimismo ou resignação. Ela é de tal modo poderosa, que corre o risco de vir a banalizar-se. Talvez já esteja à beira do lugar-comum. Dá bons títulos. É preciso voltar a lê-la no contexto em que nos foi oferecida pelo escritor irlandês em Worstward Ho, um dos seus últimos trabalhos. "Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importar. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor."

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