Mostrar mensagens com a etiqueta Sexualidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sexualidade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TR/ST - Gloryhole

Melhor som aqui
Letra

Warmth of your shiny breast
This season gives you white
Persistence and practice
My begging mother
Please hold me tight

[refrão] 2X
Wasted youth is smoldering
Our lust fell in from stars
Shall only pass this once
Devote only so far
Warmed as your season
Consistently white
Expensive swallow fills my throat
Warned off the preaching in wavering white
Lost in glossy now I know

"Gloryhole" dos TR/ST: significado, estética Queer e música de Intervenção
Apesar de surgir num contexto de música eletrónica de clube e de estética soturna, Gloryhole pode ser interpretada sob o prisma da música de intervenção, ainda que distanciada dos moldes tradicionais do protesto político direto. Em vez de utilizar panfletos ideológicos ou palavras de ordem explícitas, a canção atua como uma forma de intervenção social, corporizada e existencial ao dar voz à margem, ao anonimato e ao desejo dissidente. O próprio termo refere-se a um buraco numa divisória, habitualmente em casas de banho públicas ou espaços clandestinos, projetado para práticas sexuais anónimas sem contacto interpessoal direto. Enquanto a música de intervenção clássica se foca na denúncia de instituições, na crítica económica ou no combate a regimes, o TR/ST opera no plano da política do corpo. Ao centrar a narrativa no erotismo anónimo, no desejo visceral e nos espaços subterrâneos da subcultura queer, a canção recusa a higienização e a assimilação da identidade por parte das normas heteronormativas e da moralidade burguesa. Reivindicar a obscuridade, a abjeção e o perigo do desejo cru torna-se uma tomada de posição subversiva que nega a necessidade de pedir licença para existir.

O conceito do gloryhole representa uma arquitetura da clandestinidade que, historicamente, nasceu da sobrevivência e da fuga à perseguição policial e social. Ao trazer esta realidade erótica e marginal para o centro da obra, a música intervém no espaço público e força o ouvinte a confrontar geografias subterrâneas de prazer e dor que a sociedade prefere invisibilizar, transformando o estigma num espaço de validação da memória e de libertação. Esta dimensão de protesto cultural é amplificada pela popular associação visual ao filme Funeral Parade of Roses, de Toshio Matsumoto, conectando a sonoridade de TR/ST à história da contracultura queer dos anos 60 e à luta pelo direito à existência fora dos padrões impostos.

Neste cenário, o hedonismo sombrio e os versos que evocam uma juventude desperdiçada funcionam como uma resposta existencial ao desespero do mundo contemporâneo. Perante um futuro incerto ou sufocante, entregar-se ao efémero e encontrar beleza no que é rotulado de impróprio torna-se uma ferramenta de sobrevivência imediata, afirmando que o corpo e a vida pertencem ao indivíduo e não ao controlo social. A nível sonoro, a fusão de darkwave e EBM com vocais guturais atua como um manifesto contra a sonoridade comercial genérica, criando no espaço do clube subterrâneo um santuário de transe coletivo onde o trauma, a solidão e a vergonha são expurgados através da dança. Assim, a intervenção aqui não é partidária, mas sim profundamente política na forma como usa o corpo, o desejo e a transgressão estética para resistir à norma e resgatar a liberdade individual.

Mais info:
TR/ST (Album) wikipedia

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Allen Ginsberg faria hoje 100 anos


"We're beautiful golden sunflowers inside, blessed by our own seed and golden hairy, naked accomplishment-bodies, growing into mad black formal sunflowers in the sunset, spied on by our own eyes, under the shadow of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tin can evening sit down vision. " - Allen Ginsberg

Allen Ginsberg (1926–1997) foi a voz mais estridente, célebre e provocadora da Geração Beat — o movimento literário dos anos 50 que funcionou como o rastilho para a contracultura hippie dos anos 60. Poeta, ativista budista e provocador profissional, ele passou a vida a implodir os valores conservadores da América do pós-guerra.

Allen Ginsberg, a força motriz da poesia contracultural. Fonte: Wikipedia
Uma Vida na Vanguarda
Nascido em Nova Jérsia numa família judia, Ginsberg cresceu marcado pela doença mental da mãe (uma comunista convicta) e pela poesia do pai. Na Universidade de Columbia, nos anos 40, conheceu Jack Kerouac e William S. Burroughs. Juntos, formaram o núcleo do que seria a Geração Beat: um grupo focado na espontaneidade, na rejeição do materialismo e na exploração da consciência.

Ginsberg tornou-se o "ministro das relações públicas" do grupo, unindo a literatura ao ativismo político e social até à sua morte em 1997.

Os Factos Mais Polémicos e Contraculturais
O que tornou Ginsberg uma figura magnética (e profundamente odiada pelo establishment) foi a sua recusa absoluta em esconder quem era ou o que pensava.

1. O Julgamento por Obscenidade de "Uivo" (Howl)
Em 1955, Ginsberg leu em público o seu poema mais famoso, "Uivo" (Howl), em São Francisco. O poema abre com o lendário verso: "Eu vi os melhores cérebros da minha geração destruídos pela loucura...".

A polémica: quando o poema foi publicado pelo editor (e também poeta) Lawrence Ferlinghetti, as autoridades apreenderam o livro. O teor explicitamente homossexual e as referências a drogas levaram a um julgamento histórico por obscenidade em 1957.

O desfecho: o juiz declarou que a obra tinha "valor social redentor", transformando o livro num manifesto contracultural e dando a Ginsberg uma plataforma nacional.

2. Homossexualidade Aberta e a NAMBLA
Numa época em que a homossexualidade era considerada crime e doença mental nos EUA, Ginsberg vivia abertamente com o seu parceiro de uma vida, Peter Orlovsky. Ele usava a sua poesia para celebrar o sexo gay e desafiar a hipocrisia puritana.

A maior mancha no seu legado: anos mais tarde, o seu compromisso radical com a liberdade de expressão levou-o a defender e a afiliar-se à NAMBLA (North American Man/Boy Love Association), uma organização que defendia a legalização de relações sexuais entre homens e menores. Embora Ginsberg argumentasse que defendia apenas o direito à livre expressão e ao debate, esta posição continua a ser o ponto mais sombrio e indefensável da sua biografia.

3. O "Evangelista" do LSD e das Drogas Psadélicas
Ginsberg não consumia drogas apenas por recreação; ele via-as como ferramentas de expansão espiritual e política.
Participou nas primeiras experiências científicas com psilocibina em Harvard com Timothy Leary.
Defendeu publicamente o uso do LSD para "libertar a mente humana do controlo do Estado".

Foi deportado de Cuba em 1965 por chamar "atraente" a Che Guevara e criticar a perseguição do regime castrista aos homossexuais. No mesmo ano, foi expulso da Checoslováquia comunista após ser eleito "Rei de Maio" (Královna Máje) pelos estudantes de Praga, por ser considerado uma ameaça corruptora para a juventude.

4. Ativismo Político e o Conceito de Flower Power
Ginsberg esteve na linha da frente dos protestos contra a Guerra do Vietname. Durante os violentos protestos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, ele passou horas a entoar o mantra budista "Om" para tentar acalmar a tensão entre os manifestantes e a polícia militarizada.

Ele foi o criador do termo Flower Power (Poder das Flores), uma estratégia que desenhou em 1965 sugerindo que os manifestantes anti-guerra distribuíssem flores aos polícias e jornalistas para transformar os protestos políticos em espetáculos de paz e teatro visual.

O Vigilante do FBI: J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, considerava Ginsberg uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA. O FBI manteve um ficheiro detalhado sobre o poeta com centenas de páginas, vigiando de perto os seus passos e as suas ligações à esquerda radical.

Ginsberg conseguiu a proeza rara de começar a carreira no submundo literário, ser perseguido pela polícia e terminar a vida como um membro consagrado da Academia Americana de Artes e Letras, sem nunca ter pedido desculpa por chocar o mundo.

terça-feira, 10 de março de 2026

A Naifa - Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto


Poema original e o álbum aqui 

Poema escrito e cantado em 1992 [1] e infelizmente continua a ser assim
Este poema de António Lobo Antunes é uma das peças mais cortantes da literatura contemporânea portuguesa, servindo como uma autópsia da hipocrisia burguesa e da profunda desigualdade social. A narrativa centra-se num homem que se descreve como alguém extremamente sensível — "eu que me comovo por tudo e por nada" — mas que, na prática, revela uma frieza absoluta e uma capacidade de desumanização assustadora. Ao longo do texto, assistimos à descrição de um encontro sexual pago com uma adolescente, entre os quinze e os dezassete anos, cujo corpo é tratado como um objeto descartável: ele "usa", "paga", "esquece o nome" e "limpa-se com o lenço".

A crueza do relato é acentuada pelos detalhes da miséria da rapariga, que cheira a "mato", à "sopa dos pobres" e ao "suor" da carência, contrastando com a transação clínica de quinhentos escudos. O autor utiliza a metáfora da "coxa em semifusa" e do "rosto de aguarela" para sublinhar a fragilidade e a rapidez com que aquela vida é consumida e deixada para trás, "parada na berma da estrada", enquanto o narrador retoma a sua existência de classe média.

O clímax do poema reside no regresso a casa. O narrador veste a máscara da normalidade, mente à mulher e ao filho dizendo que "fez serão" (trabalhou até tarde), janta calmamente e deita-se. Contudo, a imagem da jovem não o larga. O final sugere que a sua suposta sensibilidade não é empatia, mas sim uma obsessão perturbadora ou um remorso estéril. Ele está na segurança do seu lar, mas o seu pensamento permanece naquele corpo explorado, reforçando a ideia de uma sociedade que se comove com abstrações ou sentimentalismos baratos, mas que é capaz de conviver com a exploração e a degradação humana mais abjeta sem perder o apetite ou o sono.

[1] Nota Linguística: o poema utiliza termos muito específicos do quotidiano português do século XX, como o "alcatrão" (asfalto), o "serão" (trabalho noturno) e os "escudos". É uma crítica social feroz à "boa sociedade" que, por trás das portas, explora a miséria mais profunda.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Chelsea Wolfe - Feral Love


[Verse]
Run from the light
Your eyes, black like an animal
Deep in the wander
And care for no one but the offspring of your might

Run from the one who comes to find you
Wait for the night that comes to hide

Your eyes, black like an animal
Black like an animal
Crossing the water
Lead them to die

[Chorus]
We press for the water
Press for the river, press for the rain

"Feral Love" é a primeira faixa do álbum Pain is Beauty (2013) de Chelsea Wolfe. A música foi utilizada no trailer da quarta temporada de Game of Thrones.

Conflito primal e desejo de liberdade em “Feral Love”
Ao abrir o álbum "Pain Is Beauty" com "Feral Love", Chelsea Wolfe destaca o conflito entre instinto selvagem e as regras da civilização, tema inspirado no romance "Sons and Lovers" de D.H. Lawrence. A repetição do verso “Your eyes, black like an animal” (Seus olhos, negros como os de um animal) enfatiza a animalidade e a recusa em se submeter à luz, que simboliza exposição, controle social e racionalidade. O trecho “Run from the light” (Fuja da luz) reforça essa fuga consciente do que é civilizado em direção ao que é primal e instintivo.

O refrão “We press for the water, press for the river, press for the rain / We press for the water, press for the river, press for the pain” (Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a chuva / Buscamos a água, buscamos o rio, buscamos a dor) mostra uma busca intensa por algo essencial, mas também perigoso e doloroso. A água pode simbolizar vida e renovação, mas também travessia e risco, sugerindo a vontade de ultrapassar limites em busca de liberdade, mesmo que isso traga sofrimento. O videoclipe e o filme “Lone” ampliam essa interpretação, ligando a música a temas de natureza, sexualidade e mortalidade, onde o desejo de fuga e autopreservação se mistura à dor inevitável. A presença da faixa em “Game of Thrones” reforça o clima sombrio e a luta pela sobrevivência em ambientes hostis, intensificando o tom da composição.
Versão [espectacular]
Ao vivo - aqui e aqui

terça-feira, 1 de julho de 2025

O Mundo de Edena


Antes de entrar na obra em si, cabe falar um pouco sobre o autor, Jean “Moebius” Giraud. Foi um artista francês que trabalhou com quadrinhos e também cinema. Começou a sua carreira desenhando um faroeste chamado Blueberry poduzido em parceria com Jean-Michel Charlier. Sua obra de maior reconhecimento, O Incal, foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky.

"O Mundo de Edena" (no original, Le Monde d'Edena) destaca-se pelo seu visual onírico, simbolismo filosófico e abordagem existencialista, sendo considerada uma das obras-primas do autor.

📘 Visão geral da série
Autor: Moebius (Jean Giraud)
Género: Ficção científica, espiritualidade, aventura, utopia/distopia
Publicação inicial: 1983 (como álbum completo em 1988 e uma republicação em 2022)

Volumes: 6 principais
📚 Livros da série
  1. Na Estrela (Sur l'Étoile) – Introdução ao universo de Edena
  2. Os Jardins de Edena (Les Jardins d’Edena) – Primeiras explorações do planeta
  3. A Deusa (La Déesse) – Transições psicológicas e metafísicas
  4. Estrela (Stel) – Mudanças interiores e busca de sentido
  5. Sra. (Sra) – Reflexões sobre identidade e género
  6. Os Consertadores (Les Réparateurs) – Última fase da jornada
🧑‍🚀 Enredo
A história segue Stel e Atan, dois viajantes espaciais que caem num planeta desconhecido. À medida que exploram Edena, são forçados a abandonar a tecnologia e confrontar a natureza, os seus corpos e a própria consciência. Ao longo da saga, Moebius aborda temas como:
  1. Regresso à natureza
  2. Sexualidade e identidade
  3. Autoridade e opressão
  4. Iluminação espiritual
🎨 Estilo artístico
Moebius usa um traço claro e detalhado, com cores suaves e paisagens surreais que evocam tanto o maravilhamento quanto a estranheza. A arte é simbólica e muitas vezes onírica, convidando o leitor a interpretações múltiplas.

💡 Curiosidades
A série foi inspirada por experiências pessoais de Moebius com meditação, dieta macrobiótica e busca espiritual.
Edena começou como uma história promocional para a Citroën (!), mas foi rapidamente expandida numa saga ambiciosa.
A personagem Stel representa o Eu espiritual e consciente; Atan representa o Eu condicionado e apegado à norma.

📚 Edições em português
A série foi publicada em português por diferentes editoras, como a ASA (Portugal) e outras no Brasil. Em anos recentes, algumas editoras lançaram edições integradas com todos os volumes.

Biografia completa aqui

sábado, 13 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zanias - Unraveled


I had you done,
I had you figured out.
Are you too full of fear for me now? 
Are you too full of fear for me now? 
I wish I could be what you need
to feel alive for a change.
I think I might be everything you're running from. 

I wish you could see what I see,
to feel what I feel.

If only I were enough
to deserve your wounded love. 
If only I were enough.

Interpretação geral
  1. Conflito emocional: A letra reflete o peso da expectativa de atender às necessidades do outro e a frustração de se sentir inadequado.
  2. Medo e fuga: "I think I might be everything you’re running from" indica uma dinâmica em que o medo do parceiro provoca distanciamento, talvez por esse sentir-se “demais” ou assustador.
  3. Crise interna: O refrão repetido “If only I were enough” simboliza o autoquestionamento e a autocrítica, típicos de alguém que se sente emocionalmente insuficiente.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor


São Valentim
São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao Dia dos Namorados em muitos países, onde o celebram como Dia de São Valentim. O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.

A história que se conta atualmente é que o imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. O seu nome era Valentim e as suas cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens atiravam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que escreveram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim, depois da condenação de morte, foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.

Contudo, consultando o Martirilógio Romano vê-se que existiram dois Valentim, um bispo, que curou um jovem com um problema de nascença, e outro Valentim que era sim cristão convicto e se apaixonou por Artérias, filha de um nobre romano e não de um carcereiro.

Desde 1969 a sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas.

Dia dos Namorados
O dia 14 de fevereiro é considerado em muitos países como o Dia dos Namorados. Porém, no Brasil, João Doria, publicitário brasileiro, pretendendo alavancar as vendas do comércio no mês de junho, criou um dia dos namorados à brasileira, no dia 12 de junho, véspera de Santo António, conhecido santo casamenteiro na cultura portuguesa.

Há momentos musicais que sinto obrigação de partilhar. "Vou Me Encontrar Com Meu Querido". Vivaldi e  Philippe Jaroussky levam-me às lágrimas. O público assiste com enorme respeito perante todo este soberbo pedaço de música.


Agora estrelando com Jakub Orlinski!

Esta interpretação é pungente e muito bela!

domingo, 20 de agosto de 2023

Música do BioTerra: Clan of Xymox - Medusa

Medusa

Finally
I have seen the lights in your eyes
And now
I am glorifying my tragic destiny
Dreams can be wholesome for me
Life is a tormented dream for me

Mesmerize me, enchant me
Mesmerize with your eyes, now

Enchant me, hypnotize me
Enchant me, mesmerize me
Enchant me, hypnotize me
I found the lies in your words
And now
I am glorifying my tragic destiny

Dreams can be hard and mean
I still wonder if you are aware of this
Dreams can be hard and mean
Life is a tormented time, now

Medusa, Medusa
Medusa
Enchant me, mesmerize me

My digital art is based in Medusa song by Clan of Xymox


Ouvir também:
Capicua - "Medusa" com Valete (Beat: Roger Plexico) - Letra Video

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Música do BioTerra: Clan Of Xymox - There´s No Tomorrow

Official clip

Studio version

Live version

I wake up in the dark, there's no tomorrow
Someone said, we are lost
I wake up in the dark, there's no tomorrow
Someone said, we are lost
I look up at the stars they portent my sorrow

A thousand miles we drift apart
Can't you see I'm all broken hearted
All our love fades away
Carry the torch for me and give me something new
You said you wanted to but it's now long overdue
At the summit of perception a blackness starts to rise
At the summit of deception I look into your eyes
I gave you all my love, where did you follow?

I see no light in dark, there's no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I lost you on the way, all seems so hollow
In the twilight of our dreams, as bad as it seems
Sorrow 's hanging over me, the way it used to be
If only I could change the course, a change in degree

Take a look at your own life, the way you used to be
Carry the torch for me and give me something new
You said you wanted to but it's now long overdue
At the summit of perception a blackness starts to rise
At the summit of deception I look into your eyes
I gave you all my love, where did you follow?

I see no light in dark, there's no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I lost you on the way, all seems hollow
Can't you see? all comes back
Can't you see?, we don't connect
I gave you all my love, where did you follow?
I see no light in dark, there's no tomorrow
I see the way ahead where love lies fallow
I gave you all my love, where did you follow?

O trecho inicial é do filme  Bitter Moon de Roman Polanski

terça-feira, 23 de maio de 2023

Música do BioTerra: Nico - Femme Fatale


Nico - Femme Fatale (Live at the Preston Warehouse, UK, 1982)

Here she comes
You better watch your step
She's going to break your heart in two
It's true

It's not hard to realize
Just look into her false colored eyes
She builds you up to just put you down
What a clown

'Cause everybody knows
(She's a femme fatale)
The thing she does to please
(She's a femme fatale)
She's just a little tease
(She's a femme fatale)
See the way she walks
Hear the way she talks

You're put down in her book
You're number thirty-seven, have a look
She's going to smile to make you frown
What a clown

Little boy, she's from the street
Before you start, you're already beat
She's gonna play you for a fool
Yes, it's true

Biografia e discografia

Youtube

sábado, 20 de agosto de 2022

Curta-Metragem: Beauty, de Rino Stefano Tagliafierro



BEAUTY é uma pequena história das emoções mais importantes da vida, desde o nascimento até a morte, o amor e a sexualidade através da dor e do medo. É uma homenagem à arte, à vida e à sua beleza desarmante. Pinturas do Museu do Prado - Espanha

BEAUTY is a short story of the most important emotions of life, from birth to death,love and sexuality through pain and fear. It is a tribute to art, to life and their disarming beauty. Paintings from Museu do Prado - Spain

Transforming powerful paintings by artists such as William-Adolphe Bouguereau, Ivan Shishkin, Luis Ricardo Falero, Caravaggio, and more, into truly touching and literal moving works of arts, Italian director Rino Stefano Tagliafierro’s short film “Beauty” is a stunning, captivating, breathtaking, and haunting depiction of the beautiful and horrid through pieces captured during the age of romanticism and realism of the early 1800s.

O que conhecemos como "Beauty" é um curta-metragem experimental de 2014 que se tornou viral, onde ele utiliza a técnica de 2.5D animation para dar movimento a pinturas clássicas famosas (do Renascimento ao Romantismo). A música que ouvimos em Beauty foi composta pelo músico italiano Enrico Ascoli.

Entrevista a Rino Stefano Tagliafierro

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Naturismo e Religião


A relação entre o naturismo e a religião é, historicamente, um campo de tensões profundas e, simultaneamente, de convergências inesperadas. No contexto da cultura ocidental, fortemente marcada pela tradição judaico-cristã, a nudez foi frequentemente associada à queda, ao pecado e à vergonha. Todavia, uma análise mais detalhada revela que a prática naturista pode ser entendida não como uma afronta ao sagrado, mas como um esforço de regresso a uma pureza primordial, despida das convenções sociais e materiais que afastam o ser humano da sua essência e do seu Criador.

Do ponto de vista teológico, a narrativa do Génesis é o ponto de partida inevitável. A "nudez inocente" de Adão e Eva antes da queda representa um estado de plena harmonia com a divindade e com o cosmos. Para muitos defensores de um naturismo cristão, a prática de estar nu em comunhão com a natureza não é um ato de exibicionismo, mas sim um exercício de humildade e de aceitação da obra divina tal como ela foi criada. Neste sentido, o vestuário é interpretado como uma construção artificial que mascara a igualdade fundamental entre os indivíduos perante Deus. Ao remover a roupa, removem-se também os símbolos de estatuto e as barreiras que alimentam a vaidade, promovendo uma fraternidade mais autêntica.

Por outro lado, em religiões de matriz panteísta ou em espiritualidades contemporâneas de cariz pagão, o naturismo é visto como uma via direta de ligação à "Mãe Terra". Aqui, o corpo não é um recipiente de pecado, mas uma extensão do ecossistema. A exposição direta aos elementos — o sol, o ar, a água — funciona como um ritual de purificação e de reafirmação da pertença ao mundo natural. O naturismo, nestas vertentes, assume uma dimensão quase litúrgica, onde o silêncio e o contacto físico com o ambiente natural substituem os templos de pedra.

Contudo, a oposição religiosa ao naturismo não pode ser ignorada. Muitas instituições religiosas argumentam que a nudez pública, mesmo em contextos controlados, atenta contra a "modéstia" e a "dignidade da pessoa humana", podendo conduzir à objetificação do corpo. Esta visão pressupõe que o vestuário cumpre a função de proteger a sacralidade da intimidade. O debate, portanto, reside na definição de onde termina a liberdade individual e onde começa a responsabilidade moral perante a comunidade.

Em conclusão, o naturismo e a religião, embora pareçam opostos num olhar superficial, partilham uma busca comum pelo sentido da existência e pela verdade do ser. Enquanto a religião procura frequentemente essa verdade através da norma e do rito, o naturismo procura-a através da desconstrução do artifício. Em última análise, ambos podem convergir na ideia de que o corpo humano é uma manifestação do sagrado que merece ser respeitada, cuidada e compreendida na sua totalidade, sem as amarras do preconceito.

Referências Bibliográficas
Para um aprofundamento sobre os temas da corporeidade, ética e espiritualidade, sugerem-se as seguintes obras de referência:

Foucault, Michel (1984). História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Lisboa: Relógio D'Água. 
Moltmann, J. (1985). Deus na Criação: Uma doutrina ecológica da criação. São Paulo: Vozes. 
Ponte, A. (2010). Naturismo em Portugal: História e Perspetivas. Lisboa: Edições Colibri. 
"Este é o meu Corpo" (2016, Afrontamento): Organizado por José Tolentino Mendonça e Alfredo Teixeira.
Williams, Rowan (2007). Grace and Necessity: Reflections on Art and Love. London: Bloomsbury. 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Música do BioTerra: Low - Words


Best Quality sound

I listened to this endlessly when I was grieving for my wife who committed suicide 2 years ago. Listening to it was this painful, comforting, wonderfully horrible embrace...We need tunes like this!

Song's called "Words"
One, two, three, four
Three inches above the floor
Man in a box wants to burn my soul
And I'm tired
"Is that the truth", he says
"The pain is easy"
Too many words, too many words
And I can hear 'em
And I can hear 'em
You better think about it, baby
If you're hearing screams
Come back child, come back
My hands are dry
You better think about it one more time
Words, too many words
And I can hear 'em
And I can hear 'em
You better think about it, baby
I can hear 'em
Oh baby, I can hear 'em
And I can hear 'em
And I can hear 'em
Song called "Turn"
One, two, three, four

domingo, 25 de setembro de 2016

Música do BioTerra: Kristin Hersh feat. Michael Stipe - Your Ghost (1994)


If I walk down this hallway
Tonight it's too quiet
So I pad through the dark
And call you on the phone
Push your old numbers
And let your house ring
'Til I wake your ghost

Let him walk down your hallway
It's not this quiet
Slide down your receiver
Sprint across the wire
Follow my number
Slide into my hand

It's the blaze across my nightgown
It's the phone's ring

I think last night
You were driving circles around me
I think last night
You were driving circles around me
I think last night
You were driving circles around me

I can't drink this coffee
'Til I put you in my closet
Let him shoot me down
Let him call me off
I take it from his whisper
You're not that tough

It's the blaze across my nightgown
It's the phone's ring

You were in my dream (I think last night)
You were driving circles around me

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

António Lobo Antunes - Acha que falo mal das Mulheres?


António Lobo Antunes detesta a palavra “viral”, fica arrepiado quando lhe fazem o gesto das aspas com dois dedinhos no ar. No seu último romance, Natureza dos Deuses, em que acompanha a ascensão e queda de uma família de banqueiros que prefere nunca nomear (o leitor se quiser pode adivinhar), Antunes vinga-se. Até da clareza, da cronologia clássica, dos cânones da sintaxe. A força torrencial da linguagem alaga tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num “delírio caótico”. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Ou como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele que nem sabe abrir um computador (continua a escrever em caligrafia de formigueiro miniatural) e recusa o telemóvel. Porque, como dizia o (Umberto) Eco: “O telemóvel só serve a três classes de pessoas: os médicos ou os bombeiros; as pessoas portadoras de doenças, como diabetes; e os adúlteros.”

Costuma ser o escritor da marquise e do naperon, mas desta vez detém-se numa família de milionários. Porquê?
Como dizia Flaubert, “é preciso vasculhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, visto que o romance é a história privada das nações”.

Vasculhou muito?
Não, porque não sou do século dele.

Os ricos do seu livro são tratados como sádicos na cama, que fazem das mulheres “os seus palhaços” e os empregados emprestam a mulher ao patrão…
Eu assisti tanto a isso na vida real, sobretudo no mundo dos ricos. Homens a oferecerem as próprias mulheres. Fitzgerald dizia a Hemingway que os ricos eram uma “espécie diferente”, e o Hemingway “pois são, têm mais dinheiro”. Mas não é só isso…

O desprezo?
Não desprezam, ignoram… Aqueles a que eles chamam “as criaturas”… A ambição de poder sempre me assombrou. Eu só queria fazer livros bons.

Onde se sentiu mais em casa: nos meios intelectuais, nos salões literários, na tropa, no hospital, quando era médico?
Sei lá. Faz-me cada pergunta… Frequento pouco os meios literários… Mas é quando estou com pessoas de quem gosto. Passei a infância num bairro pobre que era Benfica. Estou muito ligado a essas pessoas. Mais do que supunha. Apanhei uma tuberculose porque passava os dias em casa do sapateiro e de uns vizinhos que nós tínhamos. Era gente muito pobre. A minha mãe dizia que tinha herdado isso do meu pai: só gostava dos pobres, mas sentia-me tão bem com eles. Quando ia para a Beira Alta e se tomava banho numa selha, era tão bom… Eu estava sempre a transbordar de ternura, ainda estou, só que escondo. Gosto de pessoas que tenham gostos diferentes de mim. Custa-me quando são do Sporting, mas enfim, ninguém é perfeito…

Passou pela guerra, por três cancros, agora a morte de um irmão e da sua mãe… E reverteu muito do seu sofrimento para a escrita?
A gente não inventa nada. Estes dois anos foram terríveis, e agora o cancro do meu irmão João, que aguenta tudo com uma dignidade, uma coragem, que eu sempre encontrei nos cancerosos, sem uma única queixa… Quando passei 19 dias no hospital lembrava-me do Proust, sempre a olhar para a janela à espera que fosse dia como se o dia me viesse salvar de alguma coisa, não me salvava de nada. Tenho passado muito. Mas começamos a relativizar muita coisa… Eu tenho uma ideia sobre o meu trabalho… 
Posso dizer em off?

Preferia que dissesse em on…
Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal. Mas é só uma opinião.

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor ? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

Pessoa e Eça são intocáveis?
Pois, e isso é extraordinário. Achava Eça um romancista extraordinário, já não acho. Tenho admiração pelo Antero e pelo Herculano. O meu pai citava Herculano: “Por meia dúzia de moedas Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita.” Não é bonito?

É.
Era um foco de discussão entre mim e o Zé [Cardoso Pires], ele achava que o Herculano era um chato. O que se faz agora é muito fraco, nem no estrangeiro há grandes escritores.

Os génios aparecem ciclicamente?
Pois, aparecem assim por revoadas. O milagre do século XIX, a quantidade de génios… só na Rússia havia dez ao mesmo tempo… [desfia os nomes com pronúncia russa], como em França e em Inglaterra. Agora não há. No século XX: Faulkner, Hemingway, Proust, Céline, Fitzgerald. O Thomas Mann é bom, mas chateia-me. O Musil chateia-me…

E o Joyce?
Admiro a proeza, mas às vezes penso se não será a proeza pela proeza.

O que encontra num livro bom?
O charme. Qualquer coisa indefinível que certos livros têm, certos homens têm, certas mulheres têm. É que não é ser bom tecnicamente. Têm que ter charme, não sei explicar. É qualquer coisa que nos faz tornar no verso do Neruda, “como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo”. E depois como se racionaliza sobre emoções? Gosto porque gosto, porque era ele, porque era eu. As amizades são assim, como o amor. A gente conhece uma pessoa e fica amiga de infância. As minhas amizades foram sempre fulminantes, e depois duram para a vida, depois morrem antes de mim. É uma traição horrível um amigo morrer.

No seu livro diz: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado”…
Tem a ver com a memória. E sem memória não há imaginação. Aquilo que as pessoas chamam imaginação não é mais do que a maneira como nós arranjamos e desarranjamos os acontecimentos da vida. Nada se inventa. Pode-se misturar as coisas, ou mostrar só metade, mas todos os livros falam da mesma coisa. E todos os escritores são uniformemente infelizes. Porque se fossem felizes não tinham necessidade de passar 16 horas por dia a escrever. Há uma dor com que se nasce… Os artistas sofrem muito.

Não é uma pessoa alegre?
Conhece pessoas alegres?

Conheço. Do seu livro, também: “Este atraso mental das pessoas felizes que dá vontade de corrigir ao estalo, o que vale é que passa depressa.”
Isso é alguém a falar lá dentro. Não tenho de subscrever isso [risos]. As taxas de suicídio entre os humoristas são muito grandes… Um sorriso é a tal lágrima entre parêntesis.

Já o vi a dançar, a cantar alto, pareceu-me feliz…
Estava a fazer muita cerimónia. É tão raro não haver inveja neste meio. No mundo provinciano, pequeno e saloio como é o meio literário em Portugal. Há muito poucas pessoas que me possam interessar e respeitar aqui. Tirando o Eduardo Lourenço. Rimo-nos imenso, ele tem muito humor. O Zé também, mas havia nele sempre uma amargura.

Uma vez disse que ninguém podia fazer um bom livro antes dos 24…
Ai, isso também gerou polémica?

Um bocadinho.
É verdade, não se pode escrever um bom romance antes de ter vivido. Poesia pode ser. Olhe, eu com essa idade só escrevia merda. Nunca tive pressa em publicar. Essa qualidade eu tenho. Não percebo porque isso causa polémica… mas cada vez que abro a boca…

Mas não faz de propósito?
Claro que não. Agora tudo tremelica. Há para aí umas criaturas, por causa das relações sexuais e poesias, ficaram insultuosos. Não era nada disso, aquilo passou-se num contexto diferente, quero lá saber se o homem fodeu ou não…

Tem teorias acerca disso?
Tenho lá… Olhe a Santa Teresa d’Ávila…

Também era virgem.
Não sei o que é pior, se isso, se aturar um homem… Deve ser terrível. Os homens não merecem as mulheres, reduzem tudo à genitalidade. Quando lhes deveria dar muito mais prazer estar sentado no sofá, de mãos dadas, a ver uma novela, do que um em cima do outro a esbracejar. O verdadeiro prazer vem do amor, que é uma coisa em que ninguém é bom, ninguém é mau. Tive de fazer muita sexologia… E o medo que os homens têm das mulheres? E como nós, homens, ligamos tudo à potência… Já comeste aquela gaja, e esta, e a outra?

Nunca entrou nesse registo?
Provavelmente entrei, não sou melhor que os outros. E no fundo os homens andam sempre à procura de uma outra coisa, andam tão perdidos como elas, querem ser amados, querem ser protegidos, gostados. Temos a ilusão de que assim afastamos a morte, porque ninguém está preparado para morrer.

Houve um cirurgião que lhe agarrou a mão durante a anestesia…
Foi um ato de amor, nem imagina como foi importante para mim. Há mãos de homem que apertam bem. As mulheres são muito mais exigentes. “O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?” Se os homens conseguissem não abandonar a irmã gémea ao nascer… O sexo não é o mais importante numa relação. A gente entrar um no outro numa relação, sem precisar de recorrer a esse apêndice. Eu já não sou um homem bonito.

Dá assim tanta importância a isso?
Ai, eu gostava de ser bonito. Fazer uma cara sorrir para mim. Mas sob esse aspeto convivo bem comigo. O meu medo é começar a escrever porcarias e não ter consciência disso, o Simenon chegou aos 70 e, como ele dizia, resolveu partir o lápis.

Continua a ler muito?
Claro. Olhe, o primeiro livro que me fez chorar foi o Love Story [de Erich Segal], emprestado por um sargento, na guerra. Chorei como uma Madalena. Porque todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos.

Mas ainda lê os livros que a criada de servir que tem dentro de si lhe pede?
Às vezes, não sei se são bons ou maus. Um meu editor francês citava muitas vezes a frase de um general veneziano do século XVI: “É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mas não esquecer que ela é careca.” A gente a escrever é assim, eu sinto-me um pobre… Gosto muito de ler, é um prazer enorme. O meu pai estimulou muito a leitura aos filhos e a minha mãe deve ser a única mulher que eu conheço que leu o Proust duas vezes.

Porque não disse a “única pessoa”? Dito assim pode parecer um comentário misógino…
Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: “Quero a minha mãe!” Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: “quero a minha mãezinha”. Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário.

Mas uma coisa são ‘as mulheres’, outra as nossas mães, irmãs…
Não tenho ideia de as tratar mal. Só tenho filhas, as pessoas que mais me marcaram foram todas mulheres, como é que eu poderia? O livro que estou a escrever agora anda todo à roda de uma mulher com Alzheimer, é também um desafio técnico, como é que eu vou descrever uma mulher que vai perdendo a memória? Sinto-me mais à vontade com mulheres. Ou então são elas que vêm ter comigo nos meus livros, sentam-se à boca de cena e começam a falar.

Dá ideia de que tem um ouvido absoluto para captar as marcas de oralidade, mas também repara tanto nos detalhes, nos pequenos pormenores… Também deve ter um espécie de olhar absoluto…
É só trabalho. Sou capaz, sem olhar para si, de dizer como está vestida, de cima abaixo. Se se tiver aberto aos outros, as coisas entram dentro de nós. E as pessoas são tão interessantes, mas depois há os chatos.

Fala dos políticos?
Fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual.

Ficou contente com o acordo da esquerda?
Então não fiquei? Não pertenço a nenhum partido, mas estou mais à esquerda do partido socialista. Mas isso também não é importante: o pai do meu pai era conservador, salazarista, monárquico e era a pessoa mais democrata, bondosa e tolerante que eu conheci. Continuo a simpatizar com o Louçã. Gostei do Álvaro [Cunhal], era um homem irresistível, exceto quando se punha a falar de política, aí era impossível. Mas a falar de Bruegel era fascinante. A Catarina Martins tem uma inteligência cândida, que é uma coisa de que eu gosto. Uma cara, um ar e convicção que me é agradável. Parece-me a mim pureza. Oxalá não esteja enganado.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

An Elegy for Allen Ginsberg


O vídeo é um documentário biográfico intitulado "An Elegy for Allen Ginsberg" (Uma Elegia para Allen Ginsberg). O filme reconta a trajetória pessoal, a obra literária, o ativismo político e a busca espiritual de um dos poetas mais influentes da Geração Beat americana, Allen Ginsberg.

Ginsberg nasceu e cresceu em Patterson, na Nova Jérsia, no seio de uma família com uma forte vertente política: o pai era professor do ensino secundário e poeta socialista, e a mãe, Naomi, era uma imigrante russa e comunista convicta. Desde a infância e adolescência, Allen já demonstrava interesse pela poesia, escrevendo os seus primeiros versos por volta dos nove anos de idade, enquanto vivia uma juventude tímida e guardava em segredo a sua homossexualidade no ambiente escolar. Mais tarde, ao ingressar na Universidade de Columbia, teve encontros fundamentais que moldaram a sua visão artística. Um deles foi com o já consagrado poeta William Carlos Williams, que o incentivou a extrair poesia das suas anotações diretas e quotidianas. Outro marco decisivo foi conhecer Jack Kerouac, que o introduziu ao método da associação espontânea e da escrita sem autocensura, sintetizado no famoso lema de que o primeiro pensamento é sempre o melhor pensamento. Além disso, em 1948, Ginsberg vivenciou uma experiência mística em Harlem, na qual teve uma alucinação auditiva com a voz do poeta William Blake, o que determinou o trabalho da sua vida como a missão de transmitir essa consciência espontânea à humanidade.

Em meados dos anos 1950, Ginsberg mudou-se para São Francisco, onde conheceu Peter Orlovsky, que se tornaria o grande amor da sua vida e o seu companheiro inseparável. Naquela época, sob a influência do ambiente boémio da Costa Oeste, uniu-se a poetas como Gary Snyder, Philip Whalen e Kenneth Rexroth, iniciando o chamado Renascimento da Poesia de São Francisco e o movimento Beat num sentido mais amplo. O termo "Beat", conforme explicado no documentário, carregava múltiplos significados: desde o sentimento de estar socialmente derrotado ou reduzido ao nível mais baixo, passando pelo ritmo do jazz, até à definição de "beatífico", que representava uma iluminação espiritual alcançada por quem já não tinha mais nada a perder. Foi nesse cenário que Ginsberg escreveu e leu publicamente pela primeira vez o seu poema mais célebre, "Howl" (Uivo), numa noite histórica e caótica na Six Gallery. A obra provocou um enorme impacto e acabou por ser apreendida pela alfândega e pela polícia em 1957 por obscenidade. O julgamento por censura que se seguiu centrou-se no uso de termos considerados vulgares e na abordagem aberta que o autor fazia da homossexualidade e do consumo de drogas. O veredicto do juiz acabou por absolver o livro, determinando que, para ser considerada obscena, uma obra deveria ser totalmente desprovida de importância social redentora, o que impulsionou a fama internacional do poeta.

Outro ponto central na vida e na obra de Ginsberg foi a relação com a mãe, Naomi. Ela sofria de graves e intermitentes esgotamentos nervosos desde a década de 1930, alternando períodos de aparente normalidade com descidas profundas na paranoia e na loucura, o que a levou a frequentar diversos hospitais psiquiátricos e a passar por procedimentos médicos severos, como a lobotomia. Após o falecimento de Naomi, Allen canalizou a sua dor e o luto na criação de "Kaddish", um longo e doloroso poema elegíaco. Este texto não apenas expunha o sofrimento e a decadência mental da mãe, mas também simbolizava o idealismo político frustrado de uma geração de imigrantes que chegou à América em busca de uma utopia democrática, terminando em desilusão.

Ao longo dos anos 1960 e seguintes, Ginsberg consolidou o seu papel como uma figura central do ativismo e da contracultura. Viajou pelo mundo, experimentou substâncias como o LSD e anfetaminas como ferramentas de expansão mental e participou ativamente em protestos políticos, como as manifestações contra a Guerra do Vietname e os tumultos durante a Convenção Democrata de Chicago em 1968. Nesses episódios de confronto, utilizava mantras e cânticos budistas para tentar pacificar a multidão e acalmar as tensões diante da forte repressão policial. A sua constante busca espiritual levou-o a aprofundar-se no budismo tibetano após conhecer o mestre Chögyam Trungpa Rinpoche em Nova Iorque. Dessa forte ligação nasceu a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, um departamento de escrita fundado no Naropa Institute, em Boulder, no Colorado, onde Allen passou a ensinar poesia e meditação.

Mesmo na velhice, enfrentando diagnósticos de diabetes, paralisia de Bell e insuficiência cardíaca congestiva, Ginsberg manteve um ritmo de trabalho exaustivo. Era um arquivista obsessivo da sua própria existência, guardando diários de sonhos, registos telefónicos, recortes de jornais e anotações em guardanapos que documentavam a sua passagem pelo mundo. Perto do fim da vida, refletia frequentemente sobre a morte e sobre o desapego material e emocional, questionando como conseguiria deixar o próprio corpo estando cercado por tantas memórias, livros e amores. Allen Ginsberg faleceu pacificamente na madrugada de uma sexta-feira, aos 70 anos, no seu apartamento, rodeado por amigos próximos, poetas e monges budistas fiéis que recitavam preces tradicionais para guiar a sua consciência em direção à iluminação ou a um renascimento favorável. O documentário conclui ressaltando que a grande tarefa da poesia de Ginsberg foi a de revelar abertamente o mundo interior e os desejos humanos mais profundos que a sociedade costuma reprimir ou ignorar, unindo as dores de indivíduos de realidades completamente distintas numa única identidade coletiva.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ted Talk - Helen Fisher conta-nos porque é que amamos e traímos


A antropóloga Helen Fisher escolheu um tópico complicado - o amor - e explica-nos a sua evolução, as suas bases bioquímicas e a sua importância social. Conclui deixando-nos um aviso sobre o potencial desastre inerente ao abuso de antidepressivos. 

Anthropologist Helen Fisher studies gender differences and the evolution of human emotions. She's best known as an expert on romantic love, and her beautifully penned books -- including Anatomy of Love and Why We Love -- lay bare the mysteries of our most treasured emotion.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Desconstruindo o nu artístico: fotógrafo explora relação das pessoas com seu sexo em ensaio lúdico (FOTOS)


Sem tabus.Mas também sem genitálias.

A experiência de nu artístico, compartilhada por modelos, artistas plásticos e fotógrafos, geralmentecontempla o corpo em total liberdade.

Corpo desnudo, sem nada a esconder, tudo para fora.As intimidades são desveladas para o público consumidor da arte. O que o fotógrafo cearense Daniel Fama, 39 anos, quis fazer foi dar um passo além.

Se a nudez é a liberdade, então não só corpo tem que estar livre, mas a alma, o espírito, a mente.

Daniel quis clicar como as pessoas veem o próprio sexo. No lugar de vagina ou pênis, seios ou bunda, o modelo escolhia um objeto para representá-lo.

“A questão é: como as pessoas se veem simbolicamente? Como elas se reconhecem? O ensaio mostra uma relação simbólica com o corpo”, explica o fotógrafo, radicado há 20 anos em Brasília.

nudez
Daniel recorreu ao produtor Josuel Júnior, da Fábrica de Teatro do Distrito Federal, para selecionaos modelos do projeto [Nu] Objeto.
No total, foram 50 pessoas clicadas, entre atores, pintores, dançarinos, alguns habitués da cena cultural da capital federal e brasilienses anônimos.
“[Josuel e eu] tivemos a preocupação de conseguir uma diversidade de corpos, idades e estéticas”, conta o fotógrafo. “Quando se fala de nu, de fotografias de pessoa sem roupa, pensamos no estereótipo da pessoa perfeita, sem nenhuma marquinha de pele; nós quisemos mostrar a pessoa como ela é, sem tratamento de imagem para mudá-la”, revela.
nudez
Posaram para as lentes de Daniel Fama homens e mulheres, altos, baixos, gordos, magros, brancos, negros, peludos, sem pelos, jovens e idosos.
O resultado: um ensaio lúdico repleto de objetos inusitados. “Cada objeto não foi escolhido de forma aleatória, mas sim porque fazia referência ao modelo, era como ele se representava”, descreve o fotógrafo.
A seguir, algumas das imagens do ensaio e mais declarações de Daniel ao HuffPost Brasil aqui

sábado, 23 de junho de 2012

Deuxvolt - Blackheart


Letra

Girl: Why do not you call me love?
Boy: What is love? Is just a chemical reaction...

Drowning... deceiving and bleeding
Best wishes, your words or lies?
Feelings are chemical processes
Love works with dopamine from the brain

When trust was blind
For you it was not good enough [Can’t see the light?]
Don’t play with my mind
Black winter will come inside [Can’t stop the pain?]

The night will come down
Taking now this broken wings [You blackheart!]
The days will pass by
Wishing what can never be [You blackheart!]
The smoke will drift up
From ashes of a shattered dream [You blackheart!]
The past is gone with
Just another dark piece...
...of Blackheart

Break me and shake me ...to hate me!
Deal with it: there’s no love in there
Whispering voices creep all around
Cardiac pulse just pumps your blood alive

I've done my time
Retracing mistakes on and on [Can’t see the light?]
You want to go back
But memories fade to a black hole [Can’t stop the pain?]

I’m killing now my romance
I only need to stay away from you...
I’m killing now my romance
I’m done with dreaming that never comes true...
I’m killing now my romance
The feeding of illusion’s over soon
I’m killing now my romance
I only need to stay away from you...

Amleto: "...I loved you once."
Ofelia: "Indeed, my lord, you made me believe so"
Amleto: "You should not have believed me [...] I loved you not."

O video da música "Blackheart", da banda italiana Deuxvolt, combina uma explicação científica e biológica sobre o amor com a sonoridade agressiva do metal industrial e do aggrotech. Ao longo do vídeo, é explicado que o amor, do ponto de vista puramente físico, não passa de uma reação química fria desencadeada no cérebro. Através do toque, que ativa milhares de unidades táteis nas mãos, e da libertação de neurotransmissores e hormonas como a oxitocina, a dopamina e a fenetileamina, o corpo gera a sensação de infatuação inicial. O video desmistifica a ideia romântica do coração, lembrando que este órgão serve apenas para bombear sangue e não tem emoções, enquanto o hemisfério direito do cérebro processa o sentimento. Esta visão puramente clínica contrasta fortemente com o visual e a estética gótica da banda, cujas principais influências vêm de clássicos do cinema e da literatura de terror, como o livro "Dracula" de Bram Stoker e os filmes "Entrevista com o Vampiro", "A Rainha dos Condenados" e "O Corvo", criando um ambiente de "dark romance" onde a paixão é tratada como uma força visceral, sombria e inevitavelmente temporária.
Toda esta dinâmica serve de pano de fundo para a metáfora de Amleto e Ofelia (Hamlet e Ofélia), o pináculo do romance trágico de Shakespeare. Enquanto Ofélia representa a infatuação levada à loucura e à autodestruição, Hamlet encarna a frieza analítica e cínica, criando um ambiente de "dark romance" onde a paixão e a tragédia literária são explicadas como um curto-circuito biológico, visceral, sombrio e inevitavelmente temporário.