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terça-feira, 1 de julho de 2025

O Mundo de Edena


Antes de entrar na obra em si, cabe falar um pouco sobre o autor, Jean “Moebius” Giraud. Foi um artista francês que trabalhou com quadrinhos e também cinema. Começou a sua carreira desenhando um faroeste chamado Blueberry poduzido em parceria com Jean-Michel Charlier. Sua obra de maior reconhecimento, O Incal, foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky.

"O Mundo de Edena" (no original, Le Monde d'Edena) destaca-se pelo seu visual onírico, simbolismo filosófico e abordagem existencialista, sendo considerada uma das obras-primas do autor.

📘 Visão geral da série
Autor: Moebius (Jean Giraud)
Género: Ficção científica, espiritualidade, aventura, utopia/distopia
Publicação inicial: 1983 (como álbum completo em 1988 e uma republicação em 2022)

Volumes: 6 principais
📚 Livros da série
  1. Na Estrela (Sur l'Étoile) – Introdução ao universo de Edena
  2. Os Jardins de Edena (Les Jardins d’Edena) – Primeiras explorações do planeta
  3. A Deusa (La Déesse) – Transições psicológicas e metafísicas
  4. Estrela (Stel) – Mudanças interiores e busca de sentido
  5. Sra. (Sra) – Reflexões sobre identidade e género
  6. Os Consertadores (Les Réparateurs) – Última fase da jornada
🧑‍🚀 Enredo
A história segue Stel e Atan, dois viajantes espaciais que caem num planeta desconhecido. À medida que exploram Edena, são forçados a abandonar a tecnologia e confrontar a natureza, os seus corpos e a própria consciência. Ao longo da saga, Moebius aborda temas como:
  1. Regresso à natureza
  2. Sexualidade e identidade
  3. Autoridade e opressão
  4. Iluminação espiritual
🎨 Estilo artístico
Moebius usa um traço claro e detalhado, com cores suaves e paisagens surreais que evocam tanto o maravilhamento quanto a estranheza. A arte é simbólica e muitas vezes onírica, convidando o leitor a interpretações múltiplas.

💡 Curiosidades
A série foi inspirada por experiências pessoais de Moebius com meditação, dieta macrobiótica e busca espiritual.
Edena começou como uma história promocional para a Citroën (!), mas foi rapidamente expandida numa saga ambiciosa.
A personagem Stel representa o Eu espiritual e consciente; Atan representa o Eu condicionado e apegado à norma.

📚 Edições em português
A série foi publicada em português por diferentes editoras, como a ASA (Portugal) e outras no Brasil. Em anos recentes, algumas editoras lançaram edições integradas com todos os volumes.

Biografia completa aqui

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Música do BioTerra: Siouxsie and The Banshees - 92 Degrees


The day drags by like a wounded animal
The approaching disease, 92 degrees
The blood in our veins and the brains in our head
The approaching unease, 92 degrees

Long ago in the headlines, they noticed it too
But too late for the loved ones and nearly for you...

Shaky lines - on the horizon
Snaky thoughts - invade each person
Watch the red line - creeping upwards
Watch the sanity line weaken
The volcanic depths of Hades' ocean
Bubble under, these crazed eruptions
It wriggles and writhes and bites within,
Just below the sweating skin

I wondered when this would happen again
Now I watch the red line, reach that number again
The blood in our veins and the brains in our head...

Drink the water with jagged glass
Eat the cactus with bleeding mouth
Not 91 or 93, but 92 Fahrenheit degrees

Shaky lines - on the horizon
Snaky thoughts - invade each person
Not 91 or 93, but 92 Fahrenheit degrees


Letra
[Sample: "It Came from Outer Space" (1953)]
Did you know that more murders are committed at ninety-two degrees Fahrenheit than any other temperature? I read an article once
Lower temperatures, people are easy-going. Over ninety-two, it's too hot to move
But just ninety-two, people get irritable!

[Verse 1]
The day drags by like a wounded animal
The approaching disease, ninety-two degrees
The blood in our veins and the brains in our head
The approaching unease, ninety-two degrees

[Verse 2]
Long ago in the headlines, they noticed it too
But too late for the loved ones, and nearly for you

[Verse 3]
Shaky lines on the horizon
Snaky thoughts invade each person
Watch the red line creeping upwards
Watch the sanity line weaken
The volcanic depths of Hades' ocean
Bubble under, these crazed eruptions
It wriggles and writhes and bites within
Just below the sweating skin

[Verse 4]
I wondered when this would happen again
Now I watch the red line, reach that number again
The blood in our veins and the brains in our head

[Chorus]
Drink the water with jagged glass
Eat the cactus with bleeding mouth
Not ninety-one or ninety-three
But ninety-two Fahrenheit degrees
Drink the water with jagged glass
Eat the cactus with bleeding mouth
Not ninety-one or ninety-three
But ninety-two Fahrenheit degrees

[Verse 5]
Shaky lines on the horizon
Snaky thoughts invade each person

[Chorus]
Not ninety-one or ninety-three
But ninety-two Fahrenheit degrees


O álbum Tinderbox (Caixa de fósforos) foi batizado justamente por causa dessa temática de calor, aridez e coisas prontas para pegar fogo ao menor sinal de faísca.
Aquele início enigmático e perturbador traz a voz de uma mulher a falar sobre o clima de forma quase robótica e desespero iminente. Trata-se de um sample de um filme de ficção científica do filme "Veio do Espaço" It Came from Outer Space (1953)

A canção "92 Degrees", lançada pela banda Siouxsie and the Banshees no álbum Tinderbox de 1986, funciona como uma metáfora visceral para a fragilidade psicológica e a inevitabilidade de um colapso emocional. O significado central da música repousa na ideia de que o calor extremo actua como um catalisador para a loucura ou para a violência latente. Ao utilizar a temperatura de 92 graus (provavelmente Fahrenheit, equivalentes a cerca de 33°C, uma temperatura comum em ondas de calor que geram desconforto e irritabilidade), Siouxsie Sioux descreve um estado de tensão pré-explosiva onde o ar está pesado e as emoções estão prestes a entrar em ebulição.

A letra sugere um determinismo geográfico e climático, onde o comportamento humano deixa de ser controlado pela razão e passa a ser ditado pelo ambiente sufocante. A repetição da frase "the blood in our veins and the brains in our head"  reforça esse fatalismo, passando a ideia de que, sob certas condições de pressão e calor, o conflito torna-se inevitável, como se o destino estivesse escrito no termómetro. O ambiente descrito é de aridez e desolação, evocando paisagens desérticas e miragens que confundem a percepção da realidade, transformando um relacionamento ou uma situação social numa verdadeira "caixa de fósforos" (em alusão ao título do álbum, Tinderbox) pronta para incendiar.

Musicalmente, a canção utiliza elementos do pós-punk psicadélico para criar uma atmosfera de desorientação. A alternância entre o canto dramático de Siouxsie e as partes faladas, que soam como observações clínicas ou meteorológicas, cria um contraste perturbador entre o caos interno e a frieza dos fatos externos. Em suma, "92 Degrees" é um estudo sobre o ponto de ruptura humano, capturando aquele momento preciso de opressão que precede uma tempestade ou um surto, onde o calor é tanto físico quanto metafórico.

Teoria da Agressão por Calor

A Anatomia do Calor e da Raiva
O Desconforto Físico: o calor extremo aumenta a frequência cardíaca, a testosterona e as reações metabólicas. O corpo entra em um estado de "luta ou fuga".

A "Janela de Atividade": você tem toda a razão sobre o limite superior. Em temperaturas extremas (digamos, 40°C+), o corpo entra em modo de preservação. O esforço físico torna-se exaustivo demais, o que acaba reduzindo a proatividade para conflitos violentos.

Irritabilidade vs. Letargia: Aos 33°C, ainda temos energia suficiente para agir, mas o desconforto é alto o suficiente para reduzir o nosso limiar de paciência. É o clima perfeito para que uma discussão trivial escale rapidamente.

O que diz a Ciência?
Estudos de criminologia e psicologia social (como os de Craig Anderson) mostram que:
  1. Crimes violentos (assaltos, homicídios) aumentam durante meses quentes.
  2. Crimes contra a propriedade (roubo de carros, furtos) não costumam variar tanto com a temperatura, o que sugere que o calor afeta especificamente o impulso emocional e a interação humana.
Um detalhe curioso
Além da biologia, existe o fator social: em dias de calor moderado (como esses 33°C), as pessoas saem mais de casa, frequentam bares e parques, e consomem mais álcool. Ou seja, há mais pessoas interagindo sob condições de desconforto físico, o que aumenta a probabilidade estatística de conflitos.

domingo, 25 de março de 2018

Musica do BioTerra: Death In June - Come Before Christ And Murder Love


Drown me with your sorrow
Taint me with your treason
To find your god is hollow
Brings death to all reason

Wolf grey adonis
A cruel life dawns
Curse me with obessiveness
Fultility and scorn

[Refrão]
Moved to speak?
You made your choice
We had our chance
And lost our voice

Your alleyway, your terror
Glistens in dispair
Dead meat and error
The only crown I'll wear

From the ashes of liars
Grow the flowers of hope
From the steeples and spires
Hang each tear from a rope

[Refrão]

Fonte das filmagens:
Não é um só filme. É uma mistura de vários, mas o principal deles é “A Cor das Romãs” de Sergei Paradzhasnov. Há também cenas de “Rapsódia Ucraniana”, do mesmo diretor; de "Olympia" de Leni Riefenstahl e "Invocação de meu irmão demónio" de Kenneth Anger, entre outros.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Valete - Serviço Público

Verso 1 - Valete

Esta é logo pos vossos top rappers
Com essa musica que fede
Amam hip-hop mas põem-lhe os cornos com pop-rap
É so bling bling os sons que vocês sentem
De rappers que se vendem nem valem 50 cêntimos
C'o valete não há paralelo

Desliga o mic, eu rimo com uma foice e um martelo
A verdade doí eu trago assim incolor
Mas vocês vêm TV só para atenuar a dor
Do cavaquismo, ao guterrismo, até ao socratismo
Mudam o ismos mas a gente continua no mesmo

Vocês ultrajam gays e é de serem machos que se gabam
Mas de quatro em quatro anos votam naqueles que vos enrabam
Legitimam o sistema vilão que nos consome

Quem é o Sócrates para amassar o pão c'a gente come
É só retórica e enrolamento

Que se foda Valete e Sam, os storytellers 'tão no parlamento
Mentores da escola que desinteressa a muitos intelectos
A mesma escola que forma doutores analfabetos
Põem-vos num trabalho para serem explorados com agrado
Vocês são todos escravos e ainda por cima assinam contratos

Sample - Hugo Chavez

"A nosotros nos toca compañeros y compañeras ser el partero de nueva vitoria"
Refrão - Valete

Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor

Verso 2 - Valete
Capitalismo é a religião das massas nos nossos dias
Deixem Jesus em paz, o dinheiro é o vosso Messias
Igrejas são templos de estupidificação
Eu interpreto a vossa bíblia com um isqueiro na mão
Deus é omnipotente, omnipresente
Então vai à casa branca porque Deus está lá dentro
E é seguido por governantes que tens aplaudido

Governantes que deviam ter Lewinsky no apelido
E discursam de boca suja acelerados como Senna
É que o Bush não ejacula esperma, ejacula gasolina

Diz p'a saírem do Iraque e virem ter com o Keidje Lima
Que eu tenho armas de destruição maciça no meu bloco de rimas
Há 10% a engordar com 90% do guito
Põem 90% do people a fazer dietas, o que é que é isso?
É o terrorismo da globalização financeira

Que fode o 3º mundo de G-8 maneiras
E já não há forma de abrandarem (Não)
Eles destroem a Amazónia porque basta petróleo p'a respirarem
Este é o nosso mundo nu e cru
Se Adão soubesse no que isto ia dar só teria fodido a Eva no cu, nigga

Scratch - Hugo Chavez

"No hay imperialismo que haya sobrevivido cuando los pueblos nos decidimos a ser libres"
Refrão - Valete

Traz o teu povo vem combater
Aponta a arma não temos nada a perder
Já faltou mais p'a podermos abater
O opressor

Outro - Selma & Valete
Traz outros manos contigo e vem pró batalhão
Precisamos de mais tropas p'á revolução
Não quero fama nem glória
Só uma t-shirt de Che Guevara

sábado, 26 de julho de 2008

Nova vigília internacional por Tibete Livre



Dia 23 de Agosto, às 21 h locais e em todo o mundo, acenda uma vela por Tibete. Mais informações em Candle4Tibet..
Aqui na página do Youtube, editada pelo mentor deste Projecto, David Califa, podem ficar com uma pequena ideia dos vários vídeos realizados, em todo o mundo, durante a vigília no passado dia 7 de Agosto.Os sons, as músicas e as pessoas que nelas participaram são mais poderosos que quaisquer palavras.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

O Elefante, por Carlos Drummond de Andrade

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis

talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa

O poema "O Elefante", integrante da obra A Rosa do Povo (1945), funciona como uma poderosa alegoria da condição humana e da função da arte em tempos de crise. Escrito sob o peso da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, o texto apresenta um elefante construído com materiais frágeis e quotidianos, como papel e renda, que simboliza a própria criação poética: algo que, embora monumental em intenção, é intrinsecamente vulnerável e artesanal.

Essa criatura desajeitada percorre um cenário urbano marcado pela indiferença e pelo egoísmo, onde o "eu lírico" tenta, sem sucesso, estabelecer uma conexão genuína com os outros. A figura do elefante representa o isolamento do intelectual e do artista que, ao buscar a fraternidade e a compreensão em um mundo endurecido pela rotina e pela violência, acaba encontrando apenas a solidão. No entanto, essa melancolia não se traduz em niilismo; pelo contrário, o poema é um profundo apelo à solidariedade social, tema central da fase "participativa" de Drummond.

O desfecho, marcado pela desintegração física do elefante que "volta para o pó", é o ponto de maior força resiliente da obra. Ao declarar que "amanhã recomeço", o poeta transforma o fracasso imediato num acto de resistência política e existencial. Ele reconhece que, embora a arte possa não transformar o mundo instantaneamente ou ser compreendida pela massa, o esforço contínuo de criação e a tentativa de humanizar o real são tarefas permanentes que definem a dignidade do espírito humano diante da barbárie.