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domingo, 2 de agosto de 2026

Estarão os milhões de espécies de insetos não descritos sujeitos à extinção?


Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Em Insect Conservation and Diversity, os Professores Eméritos Nigel Stork e Roger Kitching do Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar de Griffith trabalharam com investigadores internacionais num estudo que analisou as espécies de insetos e a sua prevalência nos trópicos húmidos da Austrália.

Nos trópicos húmidos da Austrália, o Professor Stork e os coautores descobriram que, entre as 107 espécies de escaravelhos identificadas, 58 não estavam descritas pela ciência.

Tal como se previa, as espécies não descritas eram significativamente mais pequenas, menos abundantes e menos disseminadas do que as espécies descritas, o que as tornava mais difíceis de encontrar e mais propensas à extinção do que as espécies designadas.

“Nos últimos anos, as estimativas do número de espécies de insetos que podem existir na Terra têm variado entre 100 milhões ou mais e apenas 2 milhões”, afirma o Professor Stork.

“Um número consensual de 5 milhões de espécies publicado por mim é agora frequentemente utilizado, apoiado por quatro métodos diferentes de cálculo da riqueza global de espécies”, adianta.

“Uma vez que apenas 1 milhão destas espécies foram nomeadas e descritas até agora nos últimos 240 anos de taxonomia Linnaean, a questão intrigante é: onde estão os outros 4 milhões de espécies que ainda não foram encontradas e nomeadas?”, questiona.

“Como são, qual a probabilidade de serem descobertos e descritos e se são mais vulneráveis à extinção? Os nossos estudos revelam que são mais pequenos, mais raros e mais difíceis de encontrar, para além de serem mais propensos à extinção”, explica.

Apenas 20% das cerca de 5 milhões de espécies de insetos existentes na Terra são descritas e, no entanto, os insetos estão pouco representados nas avaliações das áreas protegidas e o seu declínio é preocupante a nível mundial.

Para aumentar as taxas de descrição das espécies e evitar que a maioria das espécies se extinga antes de ser nomeada, os Professores Stork e Kitching apelam aos taxonomistas para que utilizem novos sistemas de caracteres fornecidos pelos métodos de ADN e pelos avanços no domínio da inteligência artificial em rápido desenvolvimento.

“Os componentes desconhecidos da biodiversidade dos insetos tropicais são provavelmente mais afetados pelas alterações ambientais induzidas pelo homem”, afirma o Professor Kitching.

“Se estes padrões se generalizarem, qual será a precisão das avaliações do declínio dos insetos nos trópicos?”, questiona.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica


Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.

Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.

O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.

O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.

Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.

Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.

Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.

Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?

A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.

Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.

Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.

Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.

Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.

terça-feira, 9 de julho de 2024

A biomimética é infinita – do velcro ao edifício Gherkin

O desenho da Torre Gherkin, em Londres, foi inspirado na esponja de cristal Euplectella aspergillum . Esta esponja especial possui um exoesqueleto em forma de treliça. 

O dicionário Priberam define a biomimética (de bio, “vivo” + mimético, “capaz de imitar”) como uma “área interdisciplinar que pretende utilizar na ciência os conhecimentos da estrutura biológica dos seres vivos”, acrescentando também que “biomimético” é aquele “que imita alguma coisa da natureza ou algum processo natural”. Por outras palavras, a biomimética consiste na aplicação do conhecimento sobre o mundo natural, principalmente ao nível da engenharia ou do design, para solucionar problemas ou suprir necessidades humanas. O termo, que substituiu outros mais antigos, foi cunhado por Otto Herbert Schmitt em 1957, na sua tese de doutoramento que apresentava um aparelho cujo funcionamento era baseado no funcionamento de um nervo de lula.

Desde quando existe a biomimética?
Podemos dizer que a biomimética sempre deve ter existido, pois o homem sempre se inspirou no que via na natureza para resolver problemas práticos. No entanto, a primeira figura que é descrita como tirando inspiração directa da natureza para desenvolver objectos é a figura semi-mitológica chinesa de Lu Ban, do fim da dinastia Zhou, por volta de 500 a.c., a quem é atribuído um sem número de invenções, incluindo a daserra, cuja inspiração seria proveniente de uma planta em que Lu Ban teria cortado acidentalmente a mão na borda em serrilha, percebendo então que poderia usar aquele padrão serrilhado para construir uma ferramenta que mais facilmente lhe permitisse cortar vários materiais.

Mais tarde, durante o Renascimento, Leonardo da Vinci cita explicitamente o voo das aves como inspiração directa para as suas máquinas voadoras, que nunca chegaram a ser construídas, fonte de inspiração essa que dizem ter sido comum também aos irmãos Wright que, no início do século XX, inventaram o primeiro avião controlado por um piloto.

Em 1851, Joseph Paxton cita as folhas dos nenúfares como inspiração para o padrão de vigas de metal cruzadas que suportam a estrutura do Palácio de Cristal construído para a Grande Exibição que ocorre nesse ano.

Quais são alguns exemplos relevantes da biomimética?
Muitos objectos que utilizamos no dia-a-dia tiveram inspiração directa da natureza. Uma das mais famosas é o velcro, uma invenção registada em 1955 pelo suíço Georges de Mestral que consiste em fitas de aspereza distinta que aderem uma à outra quando em contacto. O nome do invento entretanto tornado produto provém do francês velours (veludo) e de crochet (gancho) e teve como origem uma caçada em que o cão do futuro inventor ficou coberto de “ouriços”, pequenas sementes que aderem ao pelo dos animais a fim de se espalharem com mais eficiência. Mestral teve visão e decidiu, com sucesso, imitar o que observou na natureza.

Da mesma forma, um dos edifícios mais conhecidos de Londres, o Gherkin, teve como inspiração directa a esponja Euplectella aspergillum e o seu exoesqueleto silicioso (ver imagem no topo do artigo). Curiosamente, gherkin significa pepininho e a arquitectura do edifício da torre é apodada de neo-futurista, pós-moderna ou hi-tech.

Talvez se lembre também do sucesso da equipa olímpica de natação dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2008, que conquistou 98% das medalhas possíveis, devida em grande parte aos seus fatos desenvolvidos com o apoio da NASA: estes tinham inspiração directa na pele dos tubarões, cujas escamas especializadas criam zonas de baixa pressão que aumentam a sua velocidade na água. Este material apresenta também propriedades físicas que fazem com que seja muito difícil a fixação de bactérias na sua superfície, o que o torna apetecível para, por exemplo, uso em hospitais.

No Zimbabwe, cientistas inspiraram-se nos sistemas de refrigeração naturais das termiteiras para construir edifícios que se autoarrefecem, poupando assim grandes quantidades de energia na refrigeração e, por isso, com efeitos ambientais positivos.

Em 2015, o microbiólogo holandês Henrik Jonkers desenvolveu uma solução inspirada no corpo humano para cimento auto-reparador, recorrendo à adição à massa de bactérias produtoras de calcário, que se tornam activas quando em contacto com água.

Que futuro para a biomimética?
Embora muitas invenções sejam fruto de processos biomiméticos, podemos dizer que ainda estamos no início de uma verdadeira revolução. As aplicações de replicação de processos ou soluções naturais aos problemas humanos são infinitas, e apenas limitadas pelo nosso conhecimento da natureza. No entanto, isto também reforça a importância da preservação da biodiversidade e do seu estudo: quantas soluções para os nossos problemas estarão já presentes na natureza, e quantas já terão desaparecido da face da Terra antes que sequer soubéssemos da sua existência?

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Formigas gostam dos níveis de cafeína das bebidas energéticas e isso pode ajudar a controlar espécies invasoras



As formigas que recebem uma recompensa açucarada com cafeína tornam-se mais eficientes nas suas deslocações ao local da recompensa do que as formigas que apenas recebem açúcar.

Os investigadores relatam, na revista iScience, que as formigas com cafeína se deslocam em direção à recompensa por um caminho mais direto, mas não aumentam a sua velocidade, o que sugere que a cafeína melhorou a sua capacidade de aprendizagem.

O estudo foi realizado com formigas argentinas (Linepithema humile), uma espécie globalmente invasora, e os investigadores afirmam que a incorporação de cafeína em iscos para formigas poderia ajudar nos esforços de controlo das mesmas, melhorando a absorção do isco.

“A ideia deste projeto era encontrar uma forma cognitiva de fazer com que as formigas consumissem mais dos iscos venenosos que colocamos no campo”, diz o primeiro autor e investigador de doutoramento Henrique Galante, biólogo computacional da Universidade de Regensburg.

“Descobrimos que doses intermédias de cafeína potenciam a aprendizagem – quando lhes damos um pouco de cafeína, isso leva-as a ter caminhos mais rectos e a conseguir alcançar a recompensa mais rapidamente”, acrescenta.

As formigas argentinas são uma das espécies invasoras mais prejudiciais do ponto de vista ecológico e mais dispendiosas a nível mundial. Os esforços de controlo, que se centram na utilização de iscos venenosos, têm-se revelado ineficazes, provavelmente devido à baixa absorção e abandono dos iscos.

Os investigadores quiseram testar se a utilização de cafeína, que demonstrou melhorar a aprendizagem das abelhas e dos abelhões, poderia reforçar a capacidade das formigas para aprenderem a localização do isco e guiarem os seus companheiros de ninho até lá.

“Estamos a tentar fazer com que elas consigam encontrar melhor estes iscos, porque quanto mais depressa forem e voltarem a eles, quanto mais trilhos de feromonas colocarem, mais formigas virão e, portanto, mais depressa espalharão o veneno na colónia antes de se aperceberem que é veneno”, diz Galante.

“O teste da cafeína”
No laboratório, os investigadores testaram se diferentes concentrações de cafeína teriam impacto na capacidade das formigas para localizar e deslocar uma recompensa açucarada. Estas desceram por uma ponte levadiça de Lego até uma plataforma de teste – uma folha de papel A4 sobre uma superfície acrílica – na qual os investigadores colocaram uma gota de solução de sacarose com 0, 25 ppm, 250 ppm ou 2000 ppm de cafeína.

“A dose mais baixa que utilizámos é a que se encontra nas plantas naturais, a dose intermédia é semelhante à que se encontra em algumas bebidas energéticas e a dose mais elevada foi definida como a DL50 das abelhas – em que metade destas morrem – pelo que é provável que seja bastante tóxica para elas”, diz Galante.

Os investigadores utilizaram um sistema de rastreio automatizado para monitorizar a velocidade a que as formigas se deslocavam de e para a recompensa e a orientação do seu percurso.

No total, foram testadas 142 formigas, e cada formiga foi testada quatro vezes. Os investigadores também removeram e substituíram o pedaço de papel para que as formigas não pudessem seguir o seu próprio rasto de feromonas até ao local da recompensa.

Sem cafeína, as formigas não aprenderam a deslocar-se mais rapidamente para o local de recompensa nas viagens de procura de alimento subsequentes, o que sugere que não tinham conseguido memorizar a sua localização.

No entanto, as formigas cuja recompensa açucarada continha doses baixas ou intermédias de cafeína tornaram-se mais eficientes na localização da recompensa. O tempo de procura de alimento diminuiu 28% por visita para as formigas que receberam 25 ppm de cafeína e 38% por visita para as formigas que receberam 250 ppm de cafeína, o que significa que, se uma formiga demorou 300 s na sua primeira visita, no ensaio final, deveria demorar 113 s com a dose baixa de cafeína e 54 s com a dose intermédia. Este efeito não foi observado na dose mais elevada de cafeína.

Os investigadores demonstraram que a cafeína reduziu o tempo de procura de alimentos das formigas, tornando-as mais eficientes e não mais rápidas. Não houve efeito da cafeína no ritmo das formigas em qualquer dosagem, mas as que receberam doses baixas a intermédias de cafeína percorreram caminhos menos tortuosos.

“O que vemos é que elas não estão a andar mais depressa, estão apenas mais concentradas no sítio para onde vão”, diz Galante. “Isto sugere que sabem para onde querem ir e, portanto, aprenderam a localização da recompensa”, adianta.

A cafeína não teve qualquer impacto na capacidade de regresso das formigas (a eficiência com que viajaram de volta ao ninho), embora os seus caminhos para casa se tenham tornado menos sinuosos a cada viagem, independentemente da cafeína.

Os investigadores estão optimistas quanto ao facto de a cafeína poder ajudar nos esforços de controlo das formigas argentinas, mas é necessária mais investigação. Estão atualmente a testar iscos com cafeína num ambiente de campo mais naturalista em Espanha e planeiam também investigar se existe alguma interação entre a cafeína e o veneno do isco.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O que é que as formigas nos dizem sobre a biodiversidade nas culturas para biocombustíveis?


Um estudo das comunidades de formigas mostra que a utilização de diversas fontes vegetais para a bioenergia é crucial para proteger os ecossistemas e, ao mesmo tempo, produzir combustíveis mais ecológicos.

Apesar de ser uma fonte de energia renovável, a utilização de biocombustível é controversa, uma vez que o cultivo de poucas culturas altamente produtivas para combustível pode levar à perda de biodiversidade nos sistemas de cultivo onde a biomassa é produzida. Um sistema de cultivo refere-se às culturas, à sua sequência e às práticas de gestão num determinado campo.

Agora, investigadores dos EUA compararam as comunidades de formigas em diferentes tipos de sistemas de cultivo de bioenergia para compreender melhor como estes sistemas moldam as comunidades bióticas e as suas funções. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Conservation Science.

“Encontrámos diferentes comunidades de formigas quando comparámos culturas anuais, sistemas perenes e diversas policulturas perenes com muitas espécies de plantas”, afirmou o primeiro autor, Nathan Haan, que recolheu dados para este estudo na Estação Biológica Kellogg da Universidade Estatal do Michigan e que atualmente investiga a ecologia de insetos como professor assistente na Universidade do Kentucky.

“Os sistemas perenes de cultivo de bioenergia, particularmente aqueles que incorporam maior diversidade de plantas, dão origem a uma comunidade de formigas diferente e mais diversificada do que os sistemas mais simples”, acrescentou.

Formigas e culturas
As formigas são atores abundantes e influentes nos prados e nos agroecossistemas. Podem ser importantes predadores, dispersores de sementes e engenheiros do solo. “Se uma grande parte das nossas paisagens se dedicar ao cultivo de culturas para combustível, as formigas são um candidato de topo para investigar como as comunidades de insetos podem diferir de cultura para cultura”, explicou Haan.

Os investigadores examinaram 10 sistemas de cultivo de bioenergia numa matriz experimental no Michigan. Os sistemas incluíam culturas anuais (milho e dois tipos de milho de vassoura), sistemas perenes simples (plurianuais) e sistemas perenes diversos (pradaria reconstruída, vegetação voluntária em sucessão e um sistema de talhadia de curta rotação com choupos).

Os investigadores capturaram quase 10.000 formigas individuais pertencentes a 22 espécies. Nos ecossistemas complexos, as formigas desempenhavam mais papéis funcionais – por exemplo, predador ou dispersor de sementes – do que nos sistemas simples. A riqueza de espécies era mais elevada nos sistemas diversificados e mais baixa nos sistemas simples. A composição da comunidade também diferiu: algumas espécies comuns de formigas foram encontradas em todos os sistemas de cultivo; espécies mais raras, no entanto, só apareceram em sistemas perenes com diversidade de plantas.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Depois da vespa asiática, a formiga de fogo vermelha chega à Europa


A formiga de fogo vermelha, com o nome científico Solenopsis invicta, é uma espécie invasora de formiga que se estabeleceu nos últimos meses em Itália e poderá chegar rapidamente a outros pontos da Europa, nomeadamente à Península Ibérica e ao Reino Unido, à boleia das alterações climáticas. Portadora de um ferrão poderoso, esta formiga tem a capacidade de danificar plantações e infestar componentes e equipamentos eletrónicos, em carros e computadores, por exemplo.
(...) assim que se estabelecer no continente (europeu), será muito difícil erradicá-la (...)

Esta é já considerada, pela comunidade científica como uma das espécies invasoras mais destrutivas e mais causadoras de prejuízos, de sempre, já que têm a capacidade de criar colónias densamente povoadas num curto espaço de tempo, enquanto ataca invertebrados, vertebrados de maiores dimensões e plantas. Esta “ousadia” acaba por resultar na destruição de plantas nativas e na competição direta (e injusta) com outras espécies de formigas, insetos e herbívoros nativos.

Esta espécie invasora espalha-se através do comércio humano, partindo da América do Sul (local de origem) para vários países, regiões e continentes, como o México, as Caraíbas, a Austrália, os Estados Unidos da América e mesmo a China, causando um prejuízo médio de 6 mil milhões de dólares a cada ano, nesses países.


Ameaça em novos espaços geográficos
Chegando à Itália em primeiro lugar, vindas da China ou dos Estados Unidos, são agora novos espaços geográficos da Europa que estão ameaçados pela presença da formiga de fogo vermelha. Os casos mais flagrantes são o Reino Unido e Espanha, que estão a registar as primeiras colónias desta espécie invasora, com consequências que ainda não estão bem quantificadas. Há, de resto, uma preocupação generalizada com o surgimento desta e doutras espécies de formigas que podem interferir com o normal funcionamento dos ecossistemas nativos do continente europeu.

A formiga de fogo vermelha está numa lista da União Europeia (UE) como uma das espécies mais preocupantes e assim que se estabelecer no continente, será muito difícil erradicá-la (só a Nova Zelândia conseguiu), segundo afirmam os especialistas. A UE foi mais longe e proibiu a exportação de solo do Reino Unido, mas este país não acompanhou estas preocupações e continua a importar solo agrícola, europeu e de outros continentes, fornecendo uma porta escancarada à entrada de espécies invasoras na natureza.

A questão climática também é um fator importante para esta análise, já que a formiga de fogo vermelha é uma espécie que gosta de temperaturas elevadas. Com o aumento da temperatura média que se tem registado em grandes porções do território europeu e em particular da Europa mediterrânica, é natural que Espanha e Portugal sejam os próximos países a serem afetados por esta “praga”. Grandes cidades, como Barcelona, Roma, Londres ou Paris poderão sofrer com a chegada de grandes números desta formiga.

terça-feira, 4 de abril de 2023

O Apocalipse dos Insetos no Antropoceno

Em sete décadas, o modelo de monocultura do capitalismo reduziu a multiplicidade de habitats a zonas de guerras contra os invertebrados. Sem eles, entrarão em colapso a biosfera e o que Marx chamou de “metabolismo universal da Natureza” Por Ian Angus (NOTA: texto dividido em 3 partes; 2 e-books gratuitos e bibliografia no fim)


O Apocalipse dos insetos no Antropoceno, Parte 1 -  A vitória durou pouco
“A questão é se alguma civilização pode travar uma guerra implacável contra a vida sem se auto-destruir e sem perder o direito de ser chamada de civilizada.”[1]

Já se passaram seis décadas desde que Rachel Carson escreveu o seu brilhante livro Primavera Silenciosa, frequentemente descrito como o trabalho fundador do movimento ambientalista moderno. O objetivo de Carson era impedir a matança de insetos e muitas pessoas pensaram que a sua causa tinha terminado com sucesso no momento em que se interrompeu o uso generalizado do DDT.

Quando Primavera Silenciosa foi publicado, a minha família tinha mudado há pouco para uma área rural no leste do estado de Ontário (Canadá). Como era um adolescente, não fiquei feliz por perder a vida social urbana, mas acabei encantando-me com experiências que nunca teria na cidade. Em particular, no verão, um campo perto de nossa casa ficava cheio de borboletas monarcas durante o dia e de vaga-lumes à noite. Passava muitas horas apenas a observar o espetáculo dos insetos.

Lis e eu ainda moramos na mesma casa, e aquele campo ainda está lá, a crescer de forma selvagem, mas não vemos uma borboleta monarca ou um vaga-lume há décadas. O extermínio contínuo de animais de seis patas é hoje maior e mais prejudicial do que qualquer cenário que Rachel Carson possa ter imaginado.

A 3 de fevereiro, um relatório abrangente mostrou que 80% das espécies de borboletas no Reino Unido diminuíram em abundância ou distribuição desde a década de 1970, e metade delas agora está listada como ameaçada ou quase ameaçada.[2] Como as borboletas são, de longe, os insetos selvagens monitorados de forma mais consistente, o seu declínio é como o proverbial canário cujo colapso alertava os mineiros de carvão de que o gás mortal se estava a acumular. Se há menos borboletas, é provável que haja menos insetos de todos os tipos.

No mesmo dia, cientistas da Academia de Ciências Agrícolas da China relataram que, desde 2005, houve um declínio constante nas 98 espécies de insetos voadores que migram todos os anos sobre a baía de Bohai, entre a China e a Coreia. O número de insetos herbívoros diminuiu 8%, e os insetos predadores que os comem caíram quase 20%. Os autores dizem que os dados mostram “um declínio crítico na diversidade funcional (de insetos) e uma perda constante na resiliência ecológica em todo o Leste da Ásia”.[3]

Estes estudos, conduzidos em lados opostos do globo, aumentam a evidência crescente de um rápido declínio mundial da vida dos insetos. Embora a maioria dos grupos de conservação ilustre as suas campanhas de arrecadação de fundos com fotos de pandas, tigres e pássaros raros, o declínio generalizado de insetos representa a maior ameaça a toda a vida no Antropoceno. Scott Black, Diretor Executivo da Xerces Society, uma organização sem fins lucrativos que enfatiza a proteção de insetos e outros invertebrados, resume o perigo nestes termos:
“Independente do quão rudemente tratemos o planeta, nós vamos desaparecer antes dos insetos. Mas o que será visível para nós é menos aves ou mesmo nenhuma ave no céu. Se queres pássaros, precisas de insetos. Se queres frutas e legumes, precisas de insetos. Se queres solos saudáveis, precisas de insetos. Se queres comunidades de plantas diversificadas, precisas de insetos.”[4]
Os insetos são fundamentais para o que Karl Marx chamou de metabolismo universal da natureza, a constante reciclagem de energia e matéria que torna a vida possível. Artrópodes – principalmente insetos, mas incluindo aranhas, ácaros, centopeias e milípedes – polinizam 80% de todas as plantas, reciclam os nutrientes essenciais da vida, criam solos saudáveis ​​e férteis, purificam a água e são o principal alimento de muitos pássaros e animais. Se eles desaparecessem completamente, a biosfera entraria em colapso e os humanos não durariam muito.
“A maioria dos peixes, anfíbios, pássaros e mamíferos entrariam em extinção quase simultaneamente. Em seguida iria a maior parte das plantas com flores e com elas a estrutura física da maioria das florestas e outros habitats terrestres do mundo. A terra apodreceria. À medida que a vegetação morta se acumulasse e secasse, estreitando e fechando os canais dos ciclos de nutrientes, outras formas complexas de vegetação morreriam e, com elas, os últimos remanescentes dos vertebrados. Os fungos remanescentes, depois de desfrutarem de uma explosão populacional de proporções estupendas, também pereceriam. Dentro de algumas décadas, o mundo voltaria ao estado de 1 bilhão de anos atrás, composto principalmente de bactérias, algas e algumas outras plantas multicelulares muito simples”.[5]
Para ser claro, o desaparecimento de todos insetos não é provável num futuro previsível: de facto, alguns insetos provavelmente sobreviverão à humanidade. O que as provas mostram é uma combinação de extinções definitivas e declínios populacionais radicais que alguns cientistas chamam de defaunação
. “Se não for controlada, a defaunação tornar-se-á não apenas uma característica da sexta extinção em massa do planeta, mas também um impulsionador de transformações globais fundamentais no funcionamento do ecossistema.”[6]
A maioria dos relatos sobre a vida na Terra concentra-se em mamíferos, pássaros, peixes e répteis, mas, na verdade, a grande maioria dos animais é de insetos. Ninguém sabe exatamente quantos são, mas uma boa estimativa é de dez quintilhões — 10 seguidos de dezoito zeros, bem mais de um bilhão de insetos para cada ser humano. Juntos, eles pesam substancialmente mais do que todos os outros tipos de animais (incluindo humanos) combinados. Eles são imensamente variados: só nos EUA, existem cerca de 23.700 espécies de besouros, 19.600 espécies de moscas, 17.500 espécies de formigas, abelhas e vespas e 11.500 espécies de mariposas e borboletas. Em todo o mundo, um milhão de espécies de insetos foram catalogadas e acredita-se que outras quatro milhões ainda não tenham sido identificadas ou nomeadas. Nas taxas atuais, muitos desaparecerão antes mesmo que os humanos saibam que eles existem.

Com populações tão grandes, é difícil imaginar que todas ou mesmo uma proporção significativa delas possam estar em risco. Além das borboletas, que são bonitas, e das abelhas, que são lucrativas, até recentemente as ameaças à vida dos insetos raramente eram mencionadas nos relatos de perda de biodiversidade.[7] O premiado livro premiado de Elizabeth Kolbert A Sexta Extinção (2014), por exemplo, refere-se apenas brevemente ao declínio de insetos, como uma consequência, difícil de mensurar, do desmatamento na Amazónia. O livro Esquivando-se da Extinção, de Anthony Barnosky (também de 2014), menciona os insetos de passagem apenas duas vezes. Da mesma forma, o best-seller de David Wallace-Wells A Terra Inabitável (2019) contém apenas três parágrafos sobre insetos.

Estes autores não estavam a ignorar arbitrariamente os nossos parentes de seis patas: as suas omissões refletiam uma longa lacuna na literatura científica. Embora os entomologistas tenham publicado muitos relatórios sobre a biologia e o comportamento de algumas espécies, poucos estudaram ou mediram as tendências das populações de insetos ao longo do tempo. Mesmo entre as abelhas, um dos grupos de insetos mais estudados, a Academia Nacional de Ciências dos EUA lamentou em 2007 que “faltam dados populacionais de longo prazo e o conhecimento de sua ecologia básica é incompleto”.[9]

Uma grande viragem ocorreu em outubro de 2017, quando 12 cientistas europeus publicaram um relatório inovador sobre o declínio de insetos voadores em áreas de proteção ambiental na Alemanha. Durante quase três décadas, membros da Sociedade Entomológica Krefeld, administrada por voluntários, capturaram e contaram insetos em 63 reservas naturais, usando armadilhas semelhantes a tendas. Uma análise dos seus registos, publicada na revista PLOS One, revelou uma tendência chocante que afeta abelhas, vespas, borboletas, moscas, besouros e muito mais.
“Os nossos resultados documentam um declínio dramático na biomassa média de insetos aéreos de 76% (até 82% no meio do verão) em apenas 27 anos para áreas naturais protegidas na Alemanha. […] O declínio generalizado da biomassa de insetos é alarmante, ainda mais porque todas as armadilhas foram colocadas em áreas protegidas destinadas a preservar as funções do ecossistema e a biodiversidade. Embora o declínio gradual de espécies raras de insetos seja conhecido há algum tempo (por exemplo, borboletas especializadas), os nossos resultados ilustram um declínio contínuo e rápido na quantidade total de insetos aéreos ativos no espaço e no tempo”.[10]
Em 2018, outro grupo de cientistas mostrou que entre 2008 e 2017 houve declínios substanciais na diversidade, biomassa e abundância de insetos nas pastagens e áreas florestais alemãs, e um estudo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências apontou que as populações de insetos nas florestas tropicais porto-riquenhas caíram até 98% desde a década de 1970.[11] Embora houvesse debates sobre números precisos e metodologia, agora havia, como escreveu o ecologista britânico William Kunin na prestigiada revista Nature, “provas robustas do declínio dos insetos”.[12]

Estas descobertas levaram ecologistas e entomologistas de todo o mundo a examinar estudos e registos anteriores, em busca de dados que pudessem ser usados ​​para medir as mudanças nas populações de insetos. Em 2019, a revista Biological Conservation apresentou uma revisão detalhada de 73 estudos publicados sobre declínio de insetos.
“A partir da nossa compilação de relatórios científicos publicados, estimamos que a proporção atual de espécies de insetos em declínio (41%) seja duas vezes maior que a de vertebrados, e o ritmo de extinção de espécies locais (10%) oito vezes maior, confirmando anteriores descobertas. Atualmente, cerca de um terço de todas as espécies de insetos está ameaçada de extinção nos países estudados. Além disso, a cada ano cerca de 1% de todas as espécies de insetos é adicionada à lista. Esses declínios de biodiversidade resultam numa perda anual de 2,5% de biomassa em todo o mundo.”[13]
Desde então, como ilustram os estudos citados no início deste artigo, as investigações sobre populações de insetos explodiram. Em fevereiro de 2023, o Google encontrou mais de 30.600 entradas para “insetos ameaçados de extinção” e o Google Scholar encontrou mais de 1.000 trabalhos académicos. Para relatos acessíveis das investigações mais recentes, recomendo fortemente dois livros recentes, Silent Earth [Terra Silenciosa] de Dave Goulson e The Insect Crisis [A crise dos insetos] de Oliver Milman. Ambos foram escritos por autores sérios, que evitam o sensacionalismo; no entanto, um se refere a um “apocalipse de insetos” e o outro descreve o declínio das populações de insetos como “uma situação terrível [que] mal pode ser compreendida”.[14]

Em The Cosmic Oasis [O oásis cósmico], uma história da biosfera publicada em 2022, os principais cientistas do Antropoceno, Mark Williams e Jan Zalasiewicz, alertam que é impossível exagerar a ameaça representada pelo declínio da vida dos insetos que pesquisas recentes confirmaram.
“Cerca de dois quintos das espécies de insetos do mundo podem estar ameaçadas de extinção dentro de algumas décadas; elas estão a ser amplamente exterminadas em paisagens urbanas e agrícolas e são dizimadas pela poluição em ambientes aquáticos. […] Como os insetos estão profundamente enraizados no funcionamento dos ecossistemas da Terra, uma grande perda no seu número e diversidade teria efeitos incalculáveis; na verdade, provavelmente causaria um colapso total dos ecossistemas, incluindo aqueles que nos sustentam”.[15]
Apocalipse dos Insetos no Antropoceno, Parte 2
Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o capitalismo global multiplicou o seu avanço, com efeitos devastadores para a biosfera. Alimentado pelos combustíveis fósseis e petroquímicos, a Grande Aceleração encerrou 12 mil anos de relativa estabilidade ambiental e climática durante o período do Holoceno e iniciou a era do Antropoceno. Como apresentou na sua conclusão, em 2004, um relatório de síntese do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP, na sigla em inglês):

“A segunda metade do século XX é única em toda a história da existência humana na Terra. Muitas atividades humanas atingiram pontos de decolagem em algum momento do século XX e aceleraram radicalmente no final do século. Os últimos 50 anos testemunharam, sem dúvida, a mais rápida transformação da relação humana com o mundo natural na história da humanidade”.[16]

O relatório do IGBP incluía gráficos que ilustravam aumentos sem precedentes na atividade humana e na destruição ambiental global, começando por volta de 1950.[17] Um deles, intitulado “Biodiversidade global”, rastreava a taxa de extinção de animais, que os autores estimam ser 100 a 1.000 vezes maior do que as taxas de extinção natural anteriores.[18] Uma medida da debilidade dos estudos sobre insetos é que a discussão sobre o declínio da biodiversidade mencione mamíferos, peixes, aves, anfíbios e répteis, mas não insetos ou quaisquer outros invertebrados.[19]

Como vimos, investigações recentes mudaram decisivamente este quadro. Não apenas as populações de insetos estão em declínio, mas também estão a diminuir muito mais rapidamente do que outros animais. Os insetos compreendem metade de um milhão de espécies animais que os cientistas acreditam estar em extinção neste século.[20] Os insetos do mundo estão entre as principais vítimas da Grande Aceleração. Se continuar assim, o rápido declínio dos insetos estará entre as características mais mortais do Antropoceno.

Concentração e simplificação
O fator mais importante para o declínio dos insetos é a destruição do habitat – em particular, o papel da agricultura industrial na expulsão de inúmeras espécies das suas casas. Outros habitats de insetos foram desestabilizados e destruídos, mas as terras agrícolas são críticas pela sua inigualável escala – a agricultura ocupa 36% da terra total do mundo e 50% da terra habitável. Dentro desta enorme área, imensas parcelas estão envolvidas no que pode ser descrito razoavelmente como uma guerra aos insetos.

Toda a agricultura desestabiliza os ecossistemas locais e perturba a vida dos insetos, mas, como explica o ecologista Tony Weis, até recentemente uma agricultura bem-sucedida exigia trabalhar o máximo possível com ambientes naturais, não contra eles:

“Ao longo da história, a viabilidade de longo prazo das paisagens agrícolas dependeu da manutenção da diversidade funcional nos solos, variedades de cultivo (e germoplasma de sementes dentro das variedades), árvores, animais e insetos para manter o equilíbrio ecológico e os ciclos de nutrientes. Para esse fim, os agroecossistemas foram manejados com uma variedade de técnicas, como multiculturas, padrões de rotação, adubos verdes (transformando tecidos vegetais não decompostos em solos, geralmente a partir de leguminosas ricas em nitrogénio), pousio, cuidadosa seleção agroflorestal de sementes e a integração de pequenas populações de animais”.[21]

As décadas após a Segunda Guerra Mundial testemunharam o equivalente agrícola do que foi a revolução industrial do século XIX – uma mudança da pequena produção de commodities para a massiva produção em larga escala, dependente de combustíveis fósseis. Embora a maioria das quintas ainda pertencesse a famílias, as decisões sobre o que cultivar e como cultivar eram cada vez mais tomadas em salas de reuniões de grandes empresas. Os ecologistas agrícolas Ivette Perfecto, John Vandermeer e Angus Wright descrevem a revolução metabólica na produção de alimentos:
“A capitalização da agricultura pós-Segunda Guerra Mundial foi realizada principalmente através da substituição de insumos gerados na própria quinta por insumos fabricados fora da quinta e que precisavam ser adquiridos. Desde a mecanização precoce da agricultura que substituiu a força animal por tração motorizada, até à entrada de fertilizantes sintéticos no lugar do composto e esterco, e à substituição do controle cultural e biológico por pesticidas, a história do desenvolvimento tecnológico agrícola tem sido um processo de capitalização que resultou na redução do valor que é agregado dentro da própria quinta. Nas quintas de hoje, o trabalho vem da Caterpillar ou John Deere, a energia da Exxon/Mobil, o fertilizante da DuPont e o controle de pragas da Dow ou Monsanto. As sementes, literalmente o germe que torna possível a agricultura, foram patenteadas e precisam ser compradas.”[22]
O boom do pós-guerra na produção agrícola baseou-se numa ampla variedade de novas tecnologias, incluindo equipamentos mecanizados, ração animal produzida em massa, fertilizantes sintéticos e sementes proprietárias. Os novos insumos funcionaram muito bem, mas como aponta a historiadora agrícola Michelle Mart, “a revolução tecnológica na agricultura foi mais acessível para alguns do que para outros”.
“Muitos pequenos agricultores familiares não tinham condições de arcar com os altos investimentos necessários para as novas tecnologias, nem tinham as vastas extensões de terra que as viabilizariam economicamente. Em 1955, os custos operacionais totais para uma quinta média tinham triplicado em relação a apenas 15 anos antes, precipitando um declínio no número de quintas e no número de pessoas que trabalhavam na terra. De 1939 a 1950, o número de quintas nos Estados Unidos caiu 40%, e o número caiu quase outros 50% de 1960 a 1970, enquanto o tamanho médio de uma quinta aumentou 0,8 hectares a cada ano.”[23]
De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, em 2012, “36% de todas as terras cultivadas estavam em quintas com pelo menos 800 hectares de terras agrícolas, acima dos 15% em 1987”.[24] Embora apenas cerca de 12% das quintas dos EUA possam ser descritas como unidades com operações comerciais muito grandes, elas obtêm 88% da receita agrícola líquida anual.[25]

Na América do Norte e na Europa, grandes quintas normalmente são criadas pela fusão de quintas menores. No Sul global, o desmatamento desempenha o papel principal: cerca de cinco milhões de hectares de floresta por ano são desmatados e substituídos por quintas e ranchos gigantes administrados por grandes empresas.[26] Entre 1980 e 2000, mais da metade das novas terras agrícolas nos trópicos foi criada pelo desmatamento de florestas. Entre 2000 e 2010, o número foi de 80%.[27]

A gestão rentável de grandes quintas com máquinas caras requer especialização. Cada cultura tem os seus próprios requisitos específicos, portanto, em vez de comprar várias máquinas, os agricultores concentraram-se numa única variedade de cultivo: apenas milho, ou apenas trigo, ou apenas soja e assim por diante. A matriz de campos cultivados com diferentes culturas que caracterizava a agricultura tradicional foi substituída por imensas áreas de plantas geneticamente idênticas. A maioria das cercas, cercas vivas, bosques e pântanos – lar para pequenos mamíferos, pássaros e insetos – foi removida para maximizar a produção e permitir que as máquinas cobrissem facilmente toda a área.

Ainda existem milhões de pequenas quintas que cultivam várias culturas, mas a produção e as vendas em todos os lugares são dominadas por um pequeno número de quintas muito grandes, cada uma cultivando apenas uma ou duas espécies de plantas ou animais. Em todo o mundo, cerca de 75% das variedades de culturas vegetais desapareceram efetivamente dos mercados agrícolas, deixando apenas nove espécies de plantas que agora compreendem quase dois terços de todas as culturas. Como Michael Pollen comenta, isto tem implicações importantes para as dietas humanas:
“o grande edifício de variedade e escolha que é um supermercado norte-americano acaba por se basear numa base biológica notavelmente estreita, composta por um pequeno grupo de plantas, dominado por uma única espécie: Zea mays, a erva tropical gigante que a maioria dos americanos conhece como milho.”[28]
O historiador ecológico Donald Worster descreve a transformação da agricultura no século XX como uma “simplificação radical da ordem ecológica natural”.
“O que antes era uma comunidade biológica de plantas e animais tão complexa que os cientistas mal conseguiam compreender, que foi transformada por agricultores tradicionais num sistema ainda altamente diversificado para o cultivo de alimentos locais e outros materiais, tornou-se agora cada vez mais um aparato rigidamente planeado que compete em mercados generalizados para o sucesso económico. Na linguagem de hoje, chamamos este novo tipo de agroecossistema de monocultura, que significa que uma parte da natureza foi reconstituída para produzir uma única espécie, que cresce na terra apenas porque em algum lugar há uma forte procura de mercado por ela.”[29]
Esta “desconexão dos processos naturais uns dos outros e a sua extrema simplificação” é, como escreve John Bellamy Foster, “uma tendência inerente ao desenvolvimento capitalista”.[30] Para um sistema económico que caminha constantemente para a simplificação e mercantilização de todas as coisas, os milhões de espécies de insetos são uma complicação desnecessária e indesejada.

Por si só, a mudança para a monocultura reduziu substancialmente a diversidade de insetos. Alguns insetos evoluíram para viver em qualquer lugar, mas muitos não podem sobreviver sem acesso a plantas específicas. As borboletas-monarca, por exemplo, só podem comer folhas de serralha e os seus ovos não eclodirão se colocados em qualquer outra planta. A simplificação de milhões de hectares reduziu radicalmente o número de monarcas, junto com muitos outros insetos de habitat especializado. Para eles, milhares de hectares dedicados ao milho, soja ou trigo podem muito bem ser descritos como desertos, pela nutrição e o suporte à vida que fornecem.

A agricultura industrial, no entanto, não apenas retira passivamente a sustentação aos insetos: ela os ataca agressivamente.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Insetos podem sentir dor, dizem evidências crescentes – eis o que isso significa para as leis de bem-estar animal



Pelo menos um trilião de insetos são mortos anualmente para alimentação e ração animal. Os métodos rotineiros de abate incluem calor e frio extremos , muitas vezes precedidos de fome. Em comparação, “apenas” cerca de 79 biliões de mamíferos e aves são abatidos a cada ano.

Os estudiosos há muito reconhecem que o valor da dor para a sobrevivência significa que muitos animais a experimentam, supostamente com exceção dos insetos . Mas pesquisamos mais de 300 estudos científicos e encontramos evidências de que pelo menos alguns insetos sentem dor. Outros insetos, entretanto, ainda não foram estudados com detalhes suficientes.

Também realizamos nosso próprio estudo sobre a resposta dos zangões a estímulos potencialmente nocivos. A maneira como eles reagiram aos estímulos foi semelhante às respostas de dor em humanos e outros animais que aceitamos sentir dor.

Os pesticidas matam triliões de insetos selvagens a cada ano. A verdadeira causa da morte costuma ser paralisia, asfixia ou dissolução dos órgãos internos, às vezes durante vários dias.

Se os insetos sentem dor, a criação de insetos e o controle de pragas causariam sofrimento em massa. No entanto, os debates e as leis de bem-estar animal ignoram quase universalmente os insetos . Uma razão é que, historicamente, os insetos eram frequentemente vistos como muito simples, com uma vida útil muito curta . Mas as evidências de que os insetos sentem dor estão se acumulando.

A questão de saber se os insetos sentem dor é difícil de responder. A dor é uma experiência inerentemente privada. A dificuldade de diagnosticar a dor quando o ser em questão não fala é ilustrada pelo tratamento relativamente recente de bebés durante a cirurgia.

Ainda na década de 1980, muitos cirurgiões acreditavam que os bebés não sentiam dor e raramente usavam anestésicos porque pensavam que as respostas óbvias dos bebés, como gritar e se contorcer, eram “apenas reflexos” . Embora ainda não tenhamos provas de que os bebés sentem dor, a maioria agora aceita isso com quase certeza.

Para qualquer ser que não pode comunicar diretamente o seu sofrimento, precisamos confiar no bom senso e na probabilidade. Quanto mais indicadores de dor encontrados, maior a probabilidade. É importante usar critérios consistentes entre os animais e procurar os mesmos indicadores comportamentais de dor em insetos que se usaria em uma vaca ou cão de estimação.

Dor no cérebro

A maioria dos animais exibe “nocicepção” – o processamento de estímulos nocivos que podem resultar em respostas semelhantes a reflexos. Os cientistas sabem há muito tempo que os insetos exibem nocicepção . No entanto, se um animal detecta estímulos potencialmente prejudiciais, não é necessariamente um indicador de dor “semelhante a” que em humanos é gerada no cérebro. Tanto a nocicepção quanto a dor podem acontecer, até certo ponto, independentemente uma da outra.

Num estudo recente, descobrimos que as respostas das abelhas ao calor dependem de outras motivações. Demos aos zangões quatro alimentadores: dois aquecidos e dois não aquecidos. Cada alimentador distribuía água com açúcar, que os zangões adoram.

Quando todos os comedouros tinham a mesma concentração de água com açúcar, as abelhas evitavam os dois comedouros aquecidos. Mas quando os comedouros aquecidos forneciam água com açúcar mais doce do que os comedouros não aquecidos, os zangões geralmente escolhiam os comedouros aquecidos. Seu amor pelo açúcar superava seu ódio pelo calor. Isso sugere que as abelhas sentem dor, porque (como os humanos) suas respostas são mais do que apenas reflexos.

As abelhas também se lembravam dos alimentadores aquecidos e não aquecidos e usavam essa memória para decidir de qual alimentar-se. Então, o trade-off aconteceu no cérebro.

Os cérebros dos insetos mudam as suas respostas comportamentais ao dano de outras maneiras. Por exemplo, moscas famintas são menos propensas a pular para longe do calor extremo do que moscas saciadas. Moscas decapitadas ainda podem pular, mas não apresentam essa diferença, demonstrando o envolvimento de seu cérebro na prevenção do calor. A comunicação entre o cérebro e a parte responsiva do corpo também é consistente com a dor.

Outros indicadores de dor

A estrutura que usamos para avaliar evidências de dor em diferentes insetos foi a que recentemente levou o governo do Reino Unido a reconhecer a dor em dois outros grandes grupos de invertebrados , crustáceos decápodes (incluindo caranguejos, lagostas e camarões) e cefalópodes (incluindo polvos e lulas). , incluindo-os na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022. A estrutura possui oito critérios, que avaliam se o sistema nervoso de um animal pode suportar a dor (como a comunicação cérebro-corpo) e se seu comportamento indica dor (como troca motivacional). desligados).

Moscas e baratas satisfazem seis dos critérios. De acordo com a estrutura, isso equivale a “forte evidência” para a dor. Apesar das evidências mais fracas em outros insetos, muitos ainda mostram “evidências substanciais” de dor. Abelhas, vespas e formigas preenchem quatro critérios, enquanto as  borboletas, mariposas, grilos e gafanhotos preenchem três.

Os escaravelhos, o maior grupo de insetos, satisfazem apenas dois critérios. Mas, assim como outros insetos que receberam notas baixas, há pouquíssimos estudos sobre escaravelhos nesse contexto. Não encontramos nenhuma evidência de nenhum inseto falhando em todos os critérios.

Nossas descobertas são importantes porque a evidência de dor em insetos é aproximadamente equivalente à evidência de dor em outros animais que já estão protegidos pela lei do Reino Unido. Os polvos, por exemplo, apresentam evidências muito fortes de dor (sete critérios).

Em resposta, o governo do Reino Unido incluiu polvos e caranguejos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, reconhecendo legalmente sua capacidade de dor.

O governo do Reino Unido estabeleceu um precedente: fortes evidências de dor garantem proteção legal. Pelo menos alguns insetos atendem a esse padrão, então é hora de protegê-los. Para começar, recomendamos a inclusão de insetos na Lei de Bem-Estar Animal (Sentience) de 2022, que reconheceria legalmente sua capacidade de sentir dor. Mas esta lei exige apenas que o governo considere o seu bem-estar ao redigir legislação futura.

Se quisermos regular práticas como agricultura e pesquisa científica, o governo precisa estender as leis existentes. Por exemplo, a Lei de Bem-Estar Animal de 2006, que torna crime causar “sofrimento desnecessário” aos animais abrangidos pela lei. Isso pode levar a fazendas de insetos, como fazendas convencionais, minimizando o sofrimento animal e usando métodos de abate humanitários.

A Lei de Animais (Procedimentos Científicos) de 1986 regula o uso de animais protegidos em qualquer procedimento experimental ou outro procedimento científico que possa causar dor, sofrimento, angústia ou danos permanentes ao animal. Proteger os insetos sob esta lei, como os polvos já são, regularia a pesquisa de insetos, reduzindo o número de insetos testados e garantindo que os experimentos tenham uma forte fundamentação científica.

Finalmente, os pesticidas são uma grande preocupação para o bem-estar dos insetos selvagens. Recomendamos o desenvolvimento de pesticidas mais humanos, que matam os insetos mais rapidamente e minimizam o seu sofrimento.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Biodiversité : l’extinction des espèces vivantes est pire que prévu, alertent des scientifiques

                                  

Une étude parue cette semaine avance l’hypothèse que l’extinction des espèces animales et végétales est sous-estimée par les organismes de préservation de la biodiversité. Actuellement chiffrée à 0,4 % des espèces, elle avoisinerait en réalité entre 7 et 13 %.

L’extinction de la biodiversité serait plus importante que prévu, selon une étude scientifique publiée cette semaine et relayée par le Muséum d’histoire naturelle (MHN). Ces travaux, parus dans la revue Biological Reviews et relayés par Le Parisien , il y aurait entre 7,5 et 13 % d’espèces disparues depuis l’an 1 500 dans le monde.

« Appliqué à l’ensemble des êtres vivants, ceci représente de l’ordre de 150.000 à 260.000 espèces éteintes », analyse le Muséum.

Les invertébrés représentent 95 % des espèces animales
Jusqu’ici les chiffres communiqués par l’Union internationale pour la conservation de la nature (UICN), qui recense les espèces disparues ou en voie de disparition, faisaient état de 0,4 % des espèces animales et végétales éteintes.

Une différence expliquée par Benoît Fontaine, biologiste de la conservation au MHN et coauteur de cette étude à nos confrères de Sud Ouest : « L’UICN répertorie surtout les animaux auxquels l’homme s’intéresse, ceux qu’il voit dans son environnement : les 6 500 mammifères, les 11 000 espèces d’oiseaux, parfois les amphibiens », explique-t-il. « Mais ce faisant, c’est l’essentiel de la biodiversité qui est ignoré : les invertébrés, qui représentent 95 % à 97 % des espèces animales connues. »

Tous les invertébrés ne sont pas concernés de la même façon : les invertébrés terrestres seraient plus en danger que les espèces marines, nuancent les scientifiques.

L’Union internationale pour la conservation de la nature (UICN), qui recense les espèces disparues ou en voie de disparition, a étudié 138 374 espèces, dont 38 543 (quelque 28 %) ont été classées dans les différentes catégories « menacées » en 2021. Des spécialistes alertent sur un effondrement en cours de la biodiversité, certains évoquant une « sixième extinction de masse ». « Quand on prend des mesures de conservation, ça marche. Nous, les scientifiques, affirmons aussi qu’il n’est pas trop tard », ajoute Benoît Fontaine.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Edward O. Wilson, um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu aos 92 anos


Edward Osborne Wilson, tido como o “herdeiro de Darwin” e um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu a 26 de Dezembro em Burlington, Massachusetts (Estados Unidos), aos 92 anos, informou a E. O. Wilson Biodiversity Foundation.

Wilson, um perito em insectos e ecossistemas que lutou para travar o declínio mundial da biodiversidade, era um biólogo premiado e professor nas Universidades de Harvard e Duke. Chamavam-lhe o herdeiro natural de Charles Darwin.

“Wilson dedicou a sua vida a estudar o mundo natural e a inspirar outros para cuidarem desse mundo natural tal como ele”, segundo uma nota daquela Fundação.

Nas palavras de Paula J. Ehrlich, presidente da Fundação, “o santo Graal do Edward era o puro entusiasmo da conquista de conhecimento”. “O seu foco científico corajoso e a voz poética transformaram a forma como nos compreendemos a nós próprios e ao nosso planeta. A sua maior esperança era que estudantes por todo o mundo partilhassem a sua paixão pela descoberta como a fundação científica para a gestão futura do nosso planeta. O seu legado foi uma crença profunda nas pessoas e na nossa vontade humana partilhada de salvar o mundo natural.”

E.O. Wilson era chamado o “herdeiro natural de Darwin” e era afectuosamente conhecido como o “homem das formigas” pelo seu trabalho pioneiro como entomólogo. Wilson lembrava, fascinado, que se conheciam mais de 20.000 espécies de formigas desde o Círculo Polar Árctico à ponta da América do Sul. Só na floresta tropical da Amazónia, as formigas representam mais de 10% da biomassa de todos os animais.

No seu livro The Diversity of Life, de 1992, escrevia sobre uma expedição que fez à floresta tropical da Amazónia e sobre os seus insectos: “Subitamente apercebi-me do quão pouco se sabe sobre estas criaturas da floresta tropical e quão profundamente gratificante seria passar meses, anos, o resto da minha vida neste lugar até conhecer todas as espécies pelo nome e cada detalhe das suas vidas.”

E.O Wilson era professor Emérito da Universidade de Harvard, onde deu aulas durante 46 anos, presidente da E.O. Wilson Biodiversity Foundation e presidente do Half-Earth Council.

Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos científicos, recebeu por duas vezes o Prémio Pulitzer, primeiro em 1979 com o livro de On Human Nature e depois em 1991 com o livro The Ants.

Wilson nasceu em 1929 em Birmingham, Alabama (Estados Unidos), e desde cedo cresceu nele um interesse pelo mundo natural. Estudou na Universidade de Alabama e fez o doutoramento em Harvard, onde ensinou durante 46 anos.

Durante a sua carreira, E.O. Wilson descobriu mais de 400 espécies de formigas e provou que as formigas usam excreções de feromonas para comunicar umas com as outras.

Este investigador, que estudou como a selecção natural e outras forças podem influenciar o comportamento dos animais, era também um ávido activista pela conservação e foi instrumental em lançar a Encyclopedia of Life, uma base de dados online gratuita que documenta todas os 1.9 milhões de espécies da Terra reconhecidas pela Ciência.

Em 2016 publica o livro Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life, onde propõe um plano exequível para salvar a biosfera: dedicar metade da superfície da Terra à natureza. Entre as regiões do planeta que Wilson defendia ainda poderem ser reclamadas para o mundo natural estão o Parque Nacional da Gorongosa (Moçambique), a bacia hidrográfica do rio Amazonas e as planícies do Noroeste da Europa.

Fonte: Wilder

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

12 curtas-metragens para educar as crianças sobre valores


As curtas-metragens de animação para o público infantil vão além da função de entretenimento. Eles demonstram que é possível contar histórias sobre o mundo real, tratar de temas complexos e relevantes através de uma abordagem lúdica e inusitada.

Educar integralmente significa a desenvolver atitude crítica e valores morais, para que as crianças possam identificar a diferença entre certo e errado e, então, construir uma personalidade saudável.
O Monge e o Cão

A curta é um grande exemplo de como sempre podemos mudar nossas atitudes para viver melhor. Intitulado “The Wrong Monk”, criado por Tom Long como um projeto final de sua especialização em animação 3D na Southampton Solent University.

Ele conta a história de um monge eremita que vive só, mas que um dia é surpreendido por uma visita inesperada, enquanto fazia seus exercícios diários. A história se desenrola a partir daí e nos traz uma poderosa mensagem sobre como nossas vidas mudam quando escolhemos agir corretamente e aproveitarmos o tempo de nossas vidas sendo realmente felizes.

Título original: The Wrong Monk
Direção e roteiro: Tom Long
Gênero: Animação / Aventura / Família
Lançamento: 2009
Duração: 3:20 minutos
Historias da unha do dedão do pé do fim do mundo

É com delicadeza e criatividade que Evandro Salles e Márcia Roth dirigem a animação Histórias da unha do dedão do pé do fim do mundo, baseada em poemas de Manoel de Barros.
Num diálogo lúdico entre textos de Barros e desenhos de Salles, a animação vai construindo imagens e sentidos inusitados e poéticos por meio da brincadeira com coisas e palavras.


Título original: Historias da unha do dedão do pé do fim do mundo
Direção e roteiro: Evandro Salles e Márcia Roth
Gênero: Animação / Família
Lançamento: 2007
Duração: 8 minutos
Calango!

A curta metragem Calango! foi uma produção dirigida por Alê Camargo, e realizada com a participação de jovens durante a 1ª Oficina de Animação 3D, em Brasília, na OZI Escola de Audiovisual, em 2007. A história retrata a perseguição de um pequeno calango faminto, atrás de um grilo… mas as coisas não serão tão simples quanto ele imagina. Ação, humor e uma perseguição desenfreada numa animação 3D bem brasileira. A aventura acontece no ritmo do choro “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo.

Título original: Calango!
Direção: Alê Camargo
Roteiro: Alê Camargo, Alessandra Mota, Alexandre Souza, Anderson Lopes e Dalmo Pereira
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2007
Duração: 7:41 minutos
Guilhermina & Candelário: a historia da feiticeira

Avó Francisca conta história repleta de emoção ao redor da fogueira. Guilhermina e Candelário compartilham com seus avós e amigos uma divertida noite de fogueira. A coruja Pepita também participa da confraternização.

A voz da avó Francisca levará a todos a uma viagem imaginária aos confins do bosque, através de um relato cheio de emoção, música e suspense, em que as dificuldades de Candelário e Ismael despertarão na comunidade um profundo sentimento de solidariedade.

Título original: Guilhermina & candelario: a historia da feiticeira
Direção e roteiro: Maritza Rincón González
Gênero: Animação / Aventura / Família
Lançamento: 2015
Duração: 12 minutos
*Ver outros episódios da série no canal oficial. AQUI!

Caminho dos Gigantes | Way of Giants

“Caminho dos Gigantes” é uma curta-metragem de Alois Di Leo e Sinlogo Animation.O filme é uma busca poética pela razão e propósito da vida, que conta a história de Oquirá, uma menina indígena de seis anos, que enfrenta o ciclo da vida e o conceito de destino. O filme explora as forças da natureza e a nossa conexão com a terra e os seus elementos.

A música tem um papel importante na história. O mestre de música andina, Tito La Rosa, foi trazido do Peru até São Paulo para compor e tocar a música, utilizando instrumentos musicais andinos e incas – muitos dos quais ele e o seu filho confeccionaram manualmente, seguindo tradições andinas.

Título original: “Way of Giants“ | “Caminho dos Gigantes”
Direção e roteiro: Alois Di Leo
Animação: Henrique Lobato e Tiago Rovida
Gênero: Animação / Aventura / Família
Lançamento: 2016
Duração: 11:52 minutos
Vida fácil

Vida Fácil é uma produção da Ringling College of Art and Design, uma faculdade dos Estados Unidos especializada em arte e design. Dirigida por Jiaqi Xiong, é um convite a reflexão sobre valores como responsabilidade e comprometimento com nossas obrigações.

A trama conta a história de uma menina que preferia brincar ao invés de fazer as lições de casa. Nesse mundo de fantasia, sua boneca ganha vida e começa a fazer as liçōes da escola em seu lugar. Porém, depois de um tempo os papéis se invertem.

O curta é indicado para trabalhar com os pequenos sobre responsabilidade e mentiras. Ele também traz observações sobre a importância do esforço e das conquistas por mérito próprio.


Título original: The Easy Life
Direção e roteiro: Jiaqi Xiong
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2015
Duração: 2:21 minutos
Destino

Com direção de Fabien Weibel, o curta Destiny apresenta uma reflexão metafórica sobre a correria do mundo moderno, em que deixamos de ‘nos enxergar’ enquanto o autoconhecimento dá lugar a movimento robóticos e propósitos pouco aprofundados. A importância da pausa, mais uma vez, aparece como ponto nítido.

Título original: Destiny
Direção e roteiro: Fabien Weibel
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2012
Duração: 5:25 minutos
Frankenstein Punk

A curta metragem de Cao Hamburger e Eliane Fonseca (1986) é uma ótima oportunidade para discutir géneros do cinema, preconceitos e conflitos culturais. Frank – o protagonista da história – é uma criatura diferente, nascida ao som da música “Singing in the rain” (Arthur Freed e Nacio Herb Brown). Certo dia, ele decide partir em busca da sua felicidade. Os estudantes podem ainda conhecer a técnica de stop motion e seu uso em filmes de animação. “Frankenstein Punk” tem 12 minutos e foi o grande premiado do Festival de Gramado de 1986.

Título original: Frankenstein Punk
Direção e roteiro: Cao Hamburguer e Eliana Fonseca
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 1986
Duração: 12 minutos
Zimbú

Uma bola de futebol aparece em uma tribo africana, isolada do mundo. Ela chega até os pés de um guerreiro africano, que descobre a magia do futebol.

Título original: Zimbú
Direção e roteiro: Marcos Strassburger Souza
Gênero: Animação / Aventura / Família
Lançamento: 2012
Duração: 3 minutos
Alcançar

A curta metragem de Ahmed Elmatarawi é uma mistura entre entretenimento e observações sobre temas como solidariedade e compartilhamento.

O roteiro traz o personagem perdido no imenso deserto a procura de água. Ele está quase sem forças quando encontra o tesouro que tanto precisa. Além disso, o curta traz um final surpreendente.

A trama dá margem para uma conversa com as crianças sobre egoísmo e pensamento coletivo.

Título original: Reach (Alcanzar)
Direção e roteiro: Ahmed Elmatarwi
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2016
Duração: 3:52 minutos
Felicidade

A curta Happiness (2017), criado pelo ilustrador e especialista em animação Steve Cutts, provoca reflexão sobre busca da felicidade constante em um contexto social e econômico que favorece justamente o oposto. As metáforas vão ainda mais a fundo e criticam, por exemplo, a falta de respeito ao próximo – que, sem que se perceba literalmente no cotidiano, gera a falta de amor-próprio.

Título original: Hapiness
Direção e roteiro: Steve Cutts
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2017
Duração: 4:40 minutos
Parcialmente nublado

Uma pequena joia das animações. Parcialmente Nublado encanta a todo o instante. Provavelmente um dos melhores curta-metragens que a Pixar já produziu, “Partly Cloud” tem como principal mérito fazer uso de cores alegres e belas sob uma história que já é, por si só, linda.

As cegonhas são encarregadas de levar os bebês para suas respectivas famílias, mas onde elas buscam os recém nascidos? A resposta está na estratosfera, onde as nuvens trabalham esculpindo crianças. Gus (voz de Tony Fucile), é uma nuvem cinzenta e insegura, mestre em criar bebês mal criados. Além disso, ele gera crocodilos, porcos-espinhos, carneiros e muito mais. Suas criações são obras de arte, entregues pelo seu fiel parceiro Peck (voz de Tony Fucile), uma cegonha. Mas as criações de Gus estão ficando cada vez mais indisciplinadas. Como Peck irá conseguir lidar com seu trabalho?

Título original: Partly Cloudy
Direção e roteiro: Peter Sohn
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2009
Duração: 5:32 minutos
Piper – descobrindo o mundo

"Piper" é a curta-metragem da Pixar que conta a história da cria de uma ave maçarico que, com fome, teve que aprender a se desenrascar sozinha e saiu pela primeira vez do ninho para ir à procura de comida pela costa. O único problema é que a comida está enterrada debaixo da areia onde as forte ondas dão à costa. Mas com a ajuda de um novo amigo, esta pequena cria volta a mergulhar, na esperança de superar os seus medos e encher a barriga...



Curta da Pixar, vencedor do Oscar de 2016, mergulha na lição da importância da criatividade: de como é necessário lidar com as adversidades da vida com resiliência. O curta faz jus à noção de que você não precisa estar certo sempre, você precisa ser verdadeiro sempre. Você não precisa acertar mil questões do existente para ser genial, você só precisa refletir sobre o inesperado.

Título original: Piper
Direção e roteiro: Adrian Belew
Gênero: Animação / Drama / Família
Lançamento: 2016
Duração: 3:26 minutos

“O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.”
– Mario Quintana, in: Caderno H, (1945-1973), Porto Alegre: Editora Globo, 1973.


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Extra
Walt Disney & Salvador Dali – Destino

“Escondido nos Arquivos dos Estúdios Disney, estava um projeto de um curta com a arte de Walter Elias Disney com Salvador Dalí.”

A música “Destino” do compositor Armando Dominguez serviu como base para a criação da curta-metragem animado que uniu duas figuras emblemáticas dos anos 40: o pintor surrealista Salvador Dalí e o animador americano Walt Disney.

Convidado por Disney, Dalí iniciou o projeto que durou nove meses com o animador John Hench. A produção do desenho animado começou em 1945, mas só foi finalizada 58 anos depois, em 2003, devido a uma crise sofrida pelos Estúdios Disney e desencadeada pela Segunda Guerra Mundial. O projeto foi interrompido com apenas 17 segundo finalizados e ficou a cargo de Roy Disney, sobrinho de Walt Disney, a finalização da curta em 2003.

A canção-tema interpretada por Dora Luz, os rascunhos deixados no início do projeto e 15 famosas telas de Dalí foram utilizadas para a finalização da animação. A obra é de tamanha intensidade que podemos ver os traços orgânicos de Dalí se unirem às técnicas de animação de Disney. O resultado é uma belíssima curta-metragem de animação mostrando a história de amor entre Chronos e uma mortal.