sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.


C. Eco-ansiedade e Fadiga de Alerta
A menção ao desgaste psicológico coletivo baseia-se em estudos recentes de saúde mental.
  • Glenn Albrecht (Conceito de Solastalgia): Filósofo australiano que cunhou o termo para descrever a angústia mental ou existencial causada pela alteração ambiental negativa do nosso próprio lar.

  • Estudos de Caroline Hickman (The Lancet, 2021): O maior estudo global sobre eco-ansiedade em jovens demonstram exatamente o que o texto refere: a "dificuldade em imaginar futuros desejáveis" e a perceção de que os governos estão a falhar, gerando uma ansiedade paralisante em vez de mobilizadora.

D. A Mudança Exponencial das Renováveis
O parágrafo otimista sobre a queda de custos da energia solar e baterias reflete dados económicos standard.
  • Relatórios da autoria de Ramez Naam ou os dados do Our World in Data (Max Roser): Mostram como a energia solar seguiu uma curva de aprendizagem tecnológica (Lei de Wright), tornando-se a forma de eletricidade mais barata da história na maioria dos países, superando as previsões mais otimistas das agências internacionais.

E. Ciência de Implementação
O termo "Ciência de Implementação" (Implementation Science) nasceu originalmente na medicina e na saúde pública para estudar como traduzir descobertas laboratoriais em práticas hospitalares reais.

No entanto, quando migramos este conceito para a crise climática e transformações sociais — ou seja, como fazer as sociedades mudarem politicamente, economicamente e psicologicamente —, entramos no campo da Ciência da Transição, da Sociologia Política e da Psicologia Humana aplicada.

Se queres explorar os autores e investigadores de referência que estudam exatamente como operacionalizar e acelerar estas mudanças estruturais, aqui estão os principais nomes divididos pelas suas áreas de atuação:

1. Psicologia da Mudança e Comportamento Coletivo
Esta vertente foca-se em como tirar o indivíduo e a comunidade da inércia, superando as barreiras cognitivas que o texto de Helena Freitas menciona.
  • Robert Cialdini (Livro: Influence: The Psychology of Persuasion)

    • O que estuda: É a maior autoridade mundial em persuasão e influência social. Cialdini estuda como as normas sociais (o que os outros estão a fazer) são infinitamente mais poderosas para mudar comportamentos sustentáveis do que panfletos informativos sobre o fim do mundo.

  • Per Espen Stoknes (Livro: Tomorrow's Economy)

    • O que estuda: Psicólogo e economista que desenha estratégias baseadas em nudges (pequenos empurrões comportamentais), narrativas positivas e capacitação local para transformar a eco-ansiedade em ação focada.

  • Albert Bandura (Conceito de Autoeficácia Coletiva)

    • O que estuda: Embora seja um clássico da psicologia, a sua teoria sobre a "autoeficácia coletiva" é a base da ciência de implementação social: as pessoas só agem se acreditarem que o seu esforço, somado ao dos outros, tem a capacidade real de mudar o sistema.

2. Ciência da Transição Sociotécnica (Transition Studies)
Esta área estuda como sistemas inteiros (transportes, energia, agricultura) mudam ao longo do tempo. Não foca apenas no indivíduo, mas na interação entre política, tecnologia e sociedade.
  • Frank Geels (Teoria da Perspetiva Multi-Nível - MLP)

    • O que estuda: É o autor mais citado nesta área. Geels estuda como as inovações sociais e tecnológicas emergem de "nichos" (pequenas comunidades, projetos-piloto), ganham força, desafiam o "regime" estabelecido (interesses políticos e económicos fósseis) e acabam por alterar a "paisagem" sociocultural global. É o mapa de como a teoria vira prática.

  • Derk Loorbach (Livro: Transitions to Sustainable Development)

    • O que estuda: Um dos pioneiros na gestão de transições (Transition Management). Ele estuda como governos e cidades podem criar "arenas de transição" — espaços estruturados de cooperação entre cidadãos, cientistas e políticos para desenhar e testar futuros desejáveis a nível local.

3. Economia Comportamental e Políticas Públicas
Autores que desenham arquiteturas de decisão para que a escolha mais sustentável seja a mais fácil, barata e politicamente viável.
  • Richard Thaler e Cass Sunstein (Livro: Nudge: O Empurrão Para a Escolha Certa)

    • O que estudam: Thaler (Prémio Nobel da Economia) e Sunstein revolucionaram as políticas públicas ao provar que os governos podem "desenhar" ambientes (ex: colocar painéis solares como opção padrão na construção de casas) que guiam as sociedades para decisões coletivas benéficas sem retirar a liberdade de escolha.

  • Elinor Ostrom (Livro: Governing the Commons)

    • O que estuda: Primeira mulher a ganhar o Nobel da Economia. O seu trabalho foca-se em como comunidades locais conseguem cooperar e gerir recursos escassos (água, florestas, energia) com sucesso, sem depender de uma imposição estatal rígida ou da privatização, desenhando regras práticas de compromisso coletivo.

4. Ativismo Estratégico e Ciência Política
Como a pressão social e política força a implementação legal das mudanças.
  • Erica Chenoweth (Livro: Why Civil Resistance Works)

    • O que estuda: Cientista política de Harvard que analisou centenas de campanhas de mobilização social. A sua famosa "Regra dos 3.5%" demonstra empiricamente que nenhuma transição ou revolução política falhou quando conseguiu a participação ativa e sustentada de pelo menos 3,5% da população. É a ciência da implementação através da resistência civil pacífica.

💡 Em resumo:

Se a "ciência de diagnóstico" nos diz para onde ir (ex: os relatórios do IPCC), estes autores da ciência de implementação dão-nos as ferramentas de como desenhar o caminho, manipulando os gatilhos psicológicos corretos, criando coalizões políticas e desenhando incentivos económicos reais.

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