“Grândola, Vila Moreira”: Paulo Núncio e a longa tradição de iliteratura na Direita Portuguesa
Há qualquer coisa de profundamente reconfortante na relação da classe política portuguesa com a cultura. É uma relação de amor à distância, daquelas em que se trocam juras sem nunca se ler a partitura. O político acorda com vontade de demonstrar erudição, vai à gaveta do espírito e retira de lá uma citação ou um verso. O resultado, contudo, costuma assemelhar-se a tentar montar um móvel sem ler o manual: faltam parafusos e a estrutura abana a cada estrofe.
O caso de poesia improvisada mais marcante pertence ao deputado e líder parlamentar Paulo Núncio. Numa tentativa de rebater com ironia as cantorias de protesto do Movimento pela Habitação, o deputado brindou o hemisfério parlamentar com um hino inédito do património imaterial nacional: “Grândola, Vila Moreira”. Ficou a dúvida na bancada: estaria o deputado a tentar homenagear um proprietário rural da província ou terá a sua mente voado para a MPB brasileira? É que a sua tentativa de citar o hino da Revolução parecia a introdução de uma canção perdida de Chico Buarque: “Morena de Angola, que leva o chocalho amarrado na canela…”, ou quem sabe a nostálgica “Morena dos olhos d’água, tira os seus olhos do mar…”. Se Zeca Afonso soubesse que a sua Grândola, Vila Morena terminaria rebatizada com apelido de família abastada e embalada com ritmo de samba, talvez tivesse escrito uma bossa nova sobre o Código do IRS. Fica a faltar ao deputado Núncio concluir o seu concerto, misturando Zeca e Chico numa só estrofe: "Vila Moreira, terra da fraternidade / Tira os teus olhos do mar e vem chocalhar na cidade!".
Antes de ser moda trocar letras de canções no hemiciclo, já em 1982 Leonor Beleza inaugurava esta tradição de hermenêutica criativa ao ler mal uma estrofe do Canto V de Os Lusíadas. A jovem jurista provou, logo aí, que o direito e a literatura partilham de uma enorme elasticidade. Em vez de citar Camões com a devida precisão empírica do homem renascentista (“Vi, claramente visto, o lume vivo”), Leonor Beleza declarou em público: “Vi, raramente visto, o lume vivo”. Ao trocar a clareza pela raridade, a futura ministra não só destruiu o pleonasmo com que o poeta afirmava a certeza científica do Fogo de Santelmo, como transformou o feito dos navegadores num evento de probabilidade estatística. A gafe deu origem ao inesquecível trocadilho dos corredores de São Bento, que celebravam o facto de a governante ter lido a epopeia nacional com uma “raramente beleza”.
Incapaz de falhar uma oportunidade para dar uma lição de rigor, o antigo Presidente Aníbal Cavaco Silva viveu a sua própria tragédia camoniana quando demonstrou hesitação na contagem dos cantos da obra-prima de Camões. A razão para a falha é hoje evidente e puramente púdica. Cavaco, homem de contenção familiar e rigor orçamental, ao chegar ao Canto IX - onde o poeta descreve detalhadamente a Ilha dos Amores e as ninfas desnudadas ao sol -, corou e decidiu simplesmente saltar a página. Para o antigo Primeiro-Ministro, a Ilha dos Amores soava a uma perigosa offshore de afetos desregulados e indisciplina financeira. Na dúvida, fez o que qualquer tecnocrata prudente faria: aplicou uma cativação moral ao Canto IX, reduzindo a epopeia apenas aos cantos que cumprissem o défice e os bons costumes.
E o que dizer do panteão musical de Pedro Santana Lopes? Conhecido como o político mais festivo e boémio da sua geração, Santana elevou a falta de cultura erudita ao estatuto de arte concetual através de dois andamentos memoráveis. No primeiro andamento, em 1990, ao tomar posse como Secretário de Estado da Cultura, revelou aos jornalistas que o seu compositor de eleição era Chopin, destacando com entusiasmo os seus fantásticos “concertos para violino”. O facto de Chopin ter dedicado praticamente toda a sua obra ao piano foi um mero detalhe técnico que o governante fez questão de superar. No segundo andamento, em 2018, para provar que andava a ter aulas de piano, garantiu que não tocava Chopin porque preferia “música romântica” (ignorando que Chopin é o expoente máximo do Romantismo), mas orgulhava-se de tocar Bach: o inimitável “Wohltemperierte Preludium”. O título misturava alemão com latino para definir o singelo Prelúdio em Dó Maior - a primeira peça que qualquer criança aprende na aula de iniciação.
Com este elenco, o parlamento português está finalmente em condições de apresentar uma temporada cultural completa para o próximo debate do Estado da Nação. A abertura ficará a cargo de Paulo Núncio com a sua Morena de Vila Moreira em ritmo de bossa nova; segue-se a leitura dramatizada de Os Lusíadas por Leonor Beleza (com a visão raramente clara do Canto V) e com as tesouradas de censura de Cavaco Silva no Canto IX por excesso de despesa sensual; e o encerramento será entregue a Pedro Santana Lopes, num solo ao piano de um concerto de violino inexistente de Chopin, enquanto murmura em alemão inventado um prelúdio de Bach. A política em Portugal pode não resolver os problemas do país, mas garante-nos sempre uma excelente temporada de comédia.
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