segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Por favor Revejam o Documentário - Propaganda: The Art of Selling Lies (2019)


Introdução: Por que vale a pena rever este documentário hoje?

Num ecossistema global marcado pela policrise - onde a instabilidade económica, as alterações climáticas e os conflitos geopolíticos se entrelaçam -, a polarização entre os extremos do espectro político intensificou-se drasticamente. O debate público transmutou-se num campo de batalha ideológico entre visões radicais de extrema-esquerda e de extrema-direita, deixando os cidadãos imersos numa névoa de incerteza: afinal, quem manda verdadeiramente no mundo? Serão os governos eleitos, as multinacionais tecnológicas, os algoritmos das redes sociais ou os detentores do capital financeiro?

Rever Propaganda: The Art of Selling Lies (2019) no contexto atual não é um mero exercício de nostalgia cinefílica ou académica; é uma ferramenta de sobrevivência democrática. Ao desmantelar os mecanismos psicológicos e estéticos da persuasão, a obra de Larry Weinstein oferece uma chave de leitura essencial para compreender como as narrativas populistas contemporâneas alimentam a divisão social, exploram o medo e fabricam verdades à medida. Numa era de pós-verdade e desinformação sistemática, o documentário recorda-nos que a primeira linha de defesa contra a manipulação começa na nossa própria capacidade de questionar o que vemos e ouvimos.

O documentário Propaganda: The Art of Selling Lies (2019), realizado pelo cineasta canadiano Larry Weinstein, parte de uma interrogação fundamental sobre a condição humana: por que razão a humanidade é tão facilmente seduzida pela propaganda? Em vez de restringir a análise a um fenómeno político moderno ou a guerras geopolíticas pontuais, o realizador adota um prisma eminentemente artístico e histórico. A tese central da obra defende que a propaganda representa a arte da persuasão levada ao limite — uma ferramenta sofisticada que instrumentaliza a estética, a emoção e a narrativa para construir verdades fabricadas, manipular multidões e moldar o comportamento coletivo.

Para fundamentar esta premissa, o filme desenvolve uma jornada cronológica e conceitual que estabelece pontes entre as origens da civilização e o presente digital. A narrativa recua às civilizações da Antiguidade, demonstrando como os relevos mesopotâmicos, as moedas romanas e os monumentos egípcios funcionavam já como instrumentos primitivos de propaganda estatal destinados a legitimar o poder de reis e imperadores. Avançando na história, o documentário aborda a era da imprensa e o papel da arte sacra durante a Contrarreforma Católica, destacando a invenção de Gutenberg como o grande catalisador da disseminação de ideias em escala industrial.

A análise atinge particular densidade ao debruçar-se sobre o século XX, período marcado pelos regimes totalitários e pelas grandes guerras globais. Explora-se a estética fascista e nazi - com especial atenção ao trabalho cinematográfico de Leni Riefenstahl -, o realismo socialista da propaganda soviética e a emergência das campanhas de mobilização ocidentais, imortalizadas em ícones como o cartaz do Uncle Sam. Finalmente, o arco histórico culmina no século XXI, conectando a propaganda tradicional ao ecossistema dos algoritmos, das fake news, da mineração de dados no caso Cambridge Analytica e da proliferação da desinformação na era da pós-verdade.

O valor analítico da obra é enriquecido por um conjunto diversificado de testemunhos de artistas, ativistas e historiadores. O artista dissidente chinês Ai Weiwei reflete sobre a propaganda de Estado em regimes autoritários, contrapondo-a à "propaganda do indivíduo" através da arte enquanto ato de resistência. Por sua vez, Shepard Fairey, o designer responsável pelo icónico cartaz HOPE de Barack Obama, analisa a linha ténue que separa a arte urbana, a propaganda política e a comercialização da imagem. Paralelamente, diversos académicos explicam a forma como a neurociência e a psicologia das massas esclarecem a vulnerabilidade do cérebro humano ao medo, ao apelo tribal e às mensagens simplificadas.

Do ponto de vista cinematográfico, o filme funciona como uma experiência estética alinhada com o próprio tema. Fiel ao estilo do realizador, aborda cartazes, esculturas, quadros e excertos de filmes não apenas como documentos históricos, mas como peças de design persuasivo. A montagem dinâmica e o ritmo fluído utilizam uma linguagem visual próxima da colagem, combinando imagens de arquivo com grafismos modernos numa estrutura que espelha a saturação informativa contemporânea.

Apesar de a sua abordagem transversal conectar a história da arte antiga às redes sociais de forma excecional, o documentário apresenta algumas limitações. O esforço de cobrir milénios de história resulta inevitavelmente na abordagem superficial de determinados períodos, enquanto o foco acentuado no cenário político norte-americano no último terço do filme pode retirar-lhe alguma abrangência perante a evolução de novos cenários globais. Não obstante estas condicionantes, a obra sobressai pelo seu forte poder de provocação crítica, estimulando o espectador a questionar o viés de confirmação e as suas próprias certezas. Em última análise, Propaganda: The Art of Selling Lies constitui um alerta urgente sobre a fragilidade da perceção pública, demonstrando que a propaganda atinge a sua máxima eficácia quando aqueles que são manipulados nem sequer disso se apercebem.

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