segunda-feira, 29 de junho de 2026

Existe um colonialismo digital por parte das big techs? Peter Schmidt analisa


Peter Schmidt, escritor, pesquisador e ativista norte-americano, é uma das principais vozes internacionais no debate sobre os impactos das plataformas digitais na sociedade contemporânea.

Cofundador do coletivo internacional Amigos da Atenção e diretor da Strother School of Radical Attention, em Brooklyn, Nova York (EUA), Schmidt defende o chamado "ativismo da atenção" como forma de enfrentar o poder das big techs e preservar a autonomia humana diante da economia da atenção.

Em entrevista ao Roda Viva desta segunda-feira (29), Schmidt analisa como as plataformas digitais influenciam o comportamento humano, o debate público e a democracia, além de apresentar sua proposta de resgatar espaços de convivência livres de telas.

Autor do conceito de "human fracking", expressão que compara a exploração da subjetividade humana à extração agressiva de petróleo.

Como as big techs transformam atenção em lucro
Ao ser questionado sobre o significado do termo "human fracking", Schmidt explicou que a expressão é uma metáfora para descrever a forma como as big techs transformam a atenção dos usuários em lucro.

Segundo o pesquisador, as plataformas digitais inundam as pessoas com estímulos constantes, fragmentando a capacidade de concentração em períodos cada vez menores, o que aumenta o tempo de permanência nas telas e, consequentemente, o valor desse tempo para o mercado publicitário.

Então, esse tempo na tela pode ser vendido a uma empresa de publicidade. Assim, é um processo extrativo-violento, porque o fracking tradicional é muito danoso para o ambiente, é associado à desestabilização da terra e à intoxicação da água, e o fracking humano, essa extração de nossos seres, dos nossos cérebros, de nossa atenção, também é muito danoso.

Peter afirmou que, assim como o fraturamento hidráulico (fracking) causa impactos ambientais ao desestabilizar o solo e contaminar a água, o "human fracking" desestabiliza a percepção da realidade e "intoxica" a mente com desinformação e conteúdos que estimulam a raiva.

Para ele, a metáfora ajuda a compreender o caráter extrativo do modelo de negócios das big techs, baseado na exploração da atenção humana.

Inspiração para o novo livro
Questionado pelo apresentador Ernesto Paglia sobre o título de seu novo livro, "Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement", Peter Schmidt explicou a origem do termo "Attensity", um neologismo resgatado da Psicologia do início do século XX.

Segundo o pesquisador, a palavra foi criada pelo psicólogo britânico Edward Titchener para descrever o ato de "prestar atenção à própria atenção", por meio da auto-observação.

Schmidt afirmou que ele e outros artistas, escritores e educadores decidiram recuperar o conceito por considerá-lo especialmente atual.

Estamos num momento em que a gente precisa prestar atenção à nossa atenção. Nossa atenção tem sido explorada por uma indústria muito poderosa, com uma sofisticação tecnológica sem precedentes na história humana afirmou, Shmidt

A obra, escrita de forma colaborativa, propõe um manifesto pelo que Schmidt chama de "movimento de libertação da atenção" e alerta para os impactos da indústria digital na cognição humana e no funcionamento da democracia.

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