Se ontem refletíamos sobre por que ter esperança é urgente e revolucionário perante a rutura ecológica, hoje precisamos de olhar de frente para o diagnóstico material que exige essa mesma ação transformadora. A nossa esperança não pode ser passiva, porque a civilização que herdámos foi construída para um planeta que, literalmente, já não existe.
Por Mattia Acerbo
Todas as civilizações humanas surgiram sobre condições climáticas e ecológicas que não criaram. No entanto, na escala de tempo geológico da Terra, toda a história da civilização ocupa pouco mais do que um piscar de olhos.
A Terra tem aproximadamente 4,5 mil milhões de anos, a vida existe há pelo menos 3,7 mil milhões de anos, o Homo sapiens há cerca de 300.000 anos, enquanto o Holoceno - o intervalo climático dentro do qual a agricultura, as cidades e as sociedades complexas se desenvolveram - começou há apenas cerca de 11.700 anos.
Quase toda a história da Terra - e quase toda a história da vida - precede por ordens de grandeza o mundo humano construído na relativa estabilidade do Holoceno. Vistas a partir do tempo profundo, as nossas cidades e infraestruturas já ostentam a aparência de futuras ruínas: monumentais, pesadas e extraordinariamente recentes, erguidas num intervalo climático estreito cuja estabilidade foi tratada como permanente.
Esta estabilidade climática formava uma condição material tácita da civilização humana. A recorrência das estações, a relativa previsibilidade da precipitação e do caudal dos rios, e a persistência de regimes de temperatura familiares tornaram o mundo físico suficientemente previsível para que a agricultura, os povoamentos e as infraestruturas fossem organizados em torno da expectativa de que as suas condições básicas permaneceriam amplamente reconhecíveis ao longo das gerações.
O Holoceno foi uma infraestrutura que nunca tivemos de construir
Ilustração conceptual da janela climática do Holoceno. Informado por Kaufman et al., Scientific Data (2020), e Osman et al., Nature (2021).
E como nenhuma sociedade teve de a construir, o capitalismo pôde tratá-la como se fosse gratuita. O capital herdou talvez a infraestrutura mais valiosa da história humana: um clima relativamente estável.
Não o produziu nem pagou pela sua reprodução. A estabilidade climática não constava de nenhum balanço; o capital simplesmente assumiu que ela continuaria lá amanhã.
Construímos cidades para temperaturas retiradas do passado. Sistemas de drenagem para padrões familiares de precipitação. Agricultura em torno de ciclos de estações relativamente previsíveis. Casas para amplitudes históricas de calor e frio. Portos e povoamentos costeiros em redor de linhas de costa que se assumia moverem-se devagar. Infraestruturas inteiras foram concebidas com base na expectativa de que o dia de ontem permaneceria um guia razoável para o dia de amanhã.
Essa expectativa já não se verifica.
A rutura climática é, portanto, mais radical do que uma sucessão de eventos extremos. Significa que as regularidades ecológicas silenciosamente incorporadas na organização da vida social se estão, elas próprias, a tornar instáveis.
Aquilo que surge como a desestabilização da "natureza" regressa, assim, ao interior da sociedade como a desestabilização das suas fundações materiais.
Esta é a contradição no centro da crise climática: o capital acumulou-se tratando a estabilidade planetária como uma condição gratuita de produção e, no decurso da acumulação, começou a destruir essa própria condição.
O mundo construído sobre esses pressupostos permanece de pé enquanto as condições sob ele se alteram. Neste sentido, o capitalismo assemelha-se cada vez mais ao Wile E. Coyote (Bip Bip e Coiote) depois de correr para além da borda do penhasco: as pernas continuam a mover-se, a maquinaria continua a funcionar e a acumulação prossegue - enquanto o solo que tornava o movimento possível está a desaparecer debaixo dos pés.
Exceto que o capitalismo também tem vindo a dinamitar o penhasco atrás de si.
O Peso de uma Civilização Morta
O planeta muda mais depressa do que a civilização material construída sobre ele.
Cidades, autoestradas, fábricas, portos, centrais elétricas e edifícios não podem simplesmente migrar inalterados para um clima diferente. São imensos depósitos de matéria, energia e trabalho passado, construídos para permanecer no mesmo lugar durante décadas ou séculos. Quanto mais depressa as condições planetárias mudam, mais esta herança material começa a parecer uma civilização construída para o dia de ontem.
Existe agora, literalmente, mais deste mundo construído do que matéria viva na Terra.
Fonte: Elhacham et al., “Global human-made mass exceeds all living biomass,” Nature 588, 442–444 (2020), Fig. 1.
No início do século XX, a massa total de objetos produzidos pelo ser humano correspondia a apenas cerca de três por cento da biomassa do planeta. Por volta de 2020, de acordo com um estudo publicado na Nature, a massa antropogénica - betão, agregados, asfalto, tijolos, metais, plásticos e tudo o mais que os humanos construíram - atingiu cerca de 1,1 biliões de toneladas e ultrapassou a massa seca de todos os organismos vivos na Terra. Tinha vindo a duplicar aproximadamente a cada vinte anos. A humanidade estava a adicionar mais do que o seu próprio peso corporal em massa manufaturada por pessoa, todas as semanas.
A esta escala, o mundo construído já não é apenas um artefacto social; tornou-se um facto planetário. Este é o Antropoceno: a humanidade tornou-se uma força geológica, capaz de alterar o próprio sistema terrestre. Contudo, dizer que a humanidade se tornou uma força geológica não é dizer que a humanidade agiu como um sujeito coletivo único.
Um bilião de toneladas de betão não é a expressão de algum "instinto humano" universal para construir. São o resultado material de relações de classe, hierarquias sociais e distribuições desiguais de poder - a história endurecida em matéria, embutida nas infraestruturas do capital fóssil.
O capitalismo industrial sedimentou as suas relações sociais no mundo físico.
Entre 1900 e 2010, o stock de materiais acumulados em edifícios, infraestruturas e maquinaria aumentou cerca de vinte e três vezes. Uma vez construídos, criam dependências do passado (path dependencies): os investimentos de ontem determinam a procura de energia e materiais de amanhã.
Em termos marxianos, o trabalho passado confronta a sociedade viva sob a forma material - "trabalho morto que, como um vampiro, se alimenta do trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais dele suga" (O Capital, Vol. I, Cap. 15). Sob o capitalismo, máquinas, fábricas e infraestruturas adquirem um poder material de comando sobre o trabalho e a natureza.
Uma vez construída, a infraestrutura começa a exigir a sua continuação. Uma refinaria exige um fluxo contínuo de petróleo. Um sistema de autoestradas exige automóveis. Uma central elétrica a combustível fóssil construída para funcionar durante quarenta anos carrega dentro do seu betão e aço uma expectativa sobre o futuro.
O passado adquire um poder material sobre o futuro.
Esta é uma das razões pelas quais a transição ecológica é muito mais difícil do que "substituir uma fonte de energia por outra". O capitalismo acumulou um enorme mundo material cuja operação contínua reproduz o metabolismo social que, em primeiro lugar, desestabilizou o clima.
A contradição é cada vez mais gritante, uma vez que herdámos uma infraestrutura concebida para um conjunto de condições planetárias enquanto entramos noutro.
A infraestrutura pode permanecer de pé muito depois de o mundo para o qual foi construída ter começado a desaparecer.
Cidades de betão sem sombra, habitações expostas, redes de transporte fóssil e paisagens urbanas que retêm o calor assemelham-se cada vez mais aos vestígios de uma civilização industrial - ruínas futuras de um mundo cujas condições materiais já estão a desaparecer.
A Privatização da Sobrevivência
Se as condições materiais herdadas do Holoceno continuarem a deteriorar-se enquanto as relações de propriedade e riqueza existentes permanecerem intactas, a crise ecológica intensificará as desigualdades que acompanham o capitalismo industrial desde os seus primórdios. A classe social sempre moldou o acesso aos cuidados de saúde, à alimentação nutritiva, à habitação segura, a ambientes limpos e à possibilidade de viver uma vida mais longa e confortável. A rutura climática ameaça transformar estas diferenças de privilégio em diferenças na capacidade de sobreviver.
À medida que as condições básicas de vida se tornam menos fiáveis, a riqueza determinará cada vez mais quem pode comprar proteção contra o colapso ecológico. O que outrora era dado como garantido enquanto condição comum da vida tornar-se-á, cada vez mais, uma mercadoria. Os mais abastados poderão comprar distância em relação ao calor, à escassez e ao deslocamento forçado, enquanto as classes, comunidades e regiões mais pobres serão forçadas a absorver a crise em primeiro lugar e de forma mais violenta.
"Não há Planeta B" tornou-se, e bem, um dos slogans definidores do ambientalismo. No entanto, paradoxalmente, o Planeta B é precisamente o sonho dos tecno-oligarcas milionários: desde enclaves fortificados na Terra ao sonho de Elon Musk de colonizar Marte. A possibilidade de fuga torna-se mais fácil de imaginar do que a transformação das relações sociais que impulsionam o colapso ecológico no nosso planeta partilhado.
A obscenidade mais profunda desta trajetória é que a própria sobrevivência se pode tornar o privilégio supremo daqueles que mais beneficiaram do sistema que tornou o planeta cada vez mais difícil de habitar.
A adaptação climática sem transformação social é a privatização da sobrevivência.
Uma Civilização para o Planeta Que Existe
O problema, então, é como construir a vida social para condições planetárias que já não podem ser dadas como garantidas. Grande parte do mundo que herdámos foi concebida em torno de regularidades climáticas que já estão a escapar-nos.
A adaptação é inevitável, mas a sua direção é política. Prolongar a vida de uma civilização fóssil forçando corpos, cidades e ecossistemas a absorver um calor, instabilidade e perturbação cada vez maiores apenas preservaria a maquinaria do colapso.
Um planeta em mudança exige a transformação da organização material da vida social: a forma como construímos cidades e casas, produzimos e distribuímos energia, organizamos os transportes e a agricultura, gerimos a água, estruturamos o trabalho e reproduzimos a vida quotidiana. Um mundo mais quente força uma questão mais profunda: que tipo de sociedade pode permanecer compatível com as condições de vida?
Mas uma civilização fóssil não se pode tornar habitável simplesmente substituindo combustíveis fósseis por energias renováveis, plantando mais árvores ou adicionando espaços verdes enquanto se mantém intacta a sua organização material subjacente. Temos de repensar as divisões herdadas entre cidade e campo, sociedade e natureza, desenvolvimento humano e os limites biofísicos do planeta.
Nada disto é possível sem ir além do próprio capitalismo.
Este é o horizonte do ecossocialismo: não a gestão ecológica do mundo que herdámos, mas a reorganização democrática das suas fundações materiais em torno das necessidades coletivas, da prosperidade humana e da reprodução da vida na Terra.
O capitalismo passou séculos a adaptar a natureza aos requisitos da acumulação. Hoje, a crise ecológica confronta-nos com a tarefa inversa: reorganizar a vida social em torno dos requisitos materiais de um planeta habitável.
Construímos um mundo para um planeta que já não existe. Agora temos de construir um para o planeta que existe.
Dados mais actualizados: Human biomass movement exceeds the biomass movement of all land animals combined (2025)


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