Ontem examinámos as causas e os efeitos da rutura ecológica: do fim da estabilidade do Holoceno à supremacia da massa produzida sobre a biomassa viva. Hoje, a aceleração exponencial da IA eleva os riscos e a complexidade a um patamar sem precedentes. Este ensaio examina as propostas da economia ecológica para navegar esta rutura e materializar a transição rumo ao Ecoceno.
Introdução: o empasse do século XXI e o novo vetor digital
Vivemos sob a sombra de uma contradição histórica. À medida que os relatórios científicos confirmam a ultrapassagem dos limites planetários - do aquecimento global à perda acelerada de biodiversidade -, as respostas das elites políticas e económicas continuam ancoradas na promessa do "Crescimento Verde". A narrativa dominante propõe que a mesma lógica de acumulação, concorrência e extração que nos trouxe à crise ecológica será a força capaz de nos salvar, bastando para isso substituir o combustível fóssil pelo eletrão limpo.
Contudo, esta miragem tornou-se ainda mais complexa e perigosa com a emergência da Inteligência Artificial (IA) generativa e da supercomputação. Longe de ser um instrumento neutro de desmaterialização, a IA revelou-se um acelerador extrativista: uma infraestrutura intensiva que exige quantidades astronómicas de energia, água potável para refrigeração de data centers e minerais críticos extraídos do Sul Global.
É perante esta dupla crise - ecológica e sociotécnica - que emerge uma síntese política rigorosa: o Ecossocialismo do Decrescimento. Não se trata de uma coleção de desejos utópicos ou de um apelo ao neoludismo, mas de um diagnóstico sobre os limites materiais do planeta e uma proposta de reconfiguração da civilização humana. Emerge, assim, a questão fundamental: estará nesta síntese a nossa verdadeira esperança?
I. A anatomia da ilusão: o falhanço do crescimento verde e o impacto da IA
Para compreender a urgência desta abordagem, é necessário desmontar o mito do "desacoplamento" (decoupling) entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o impacto ambiental. A evidência empírica demonstra que o desacoplamento absoluto, global e rápido o suficiente para evitar o colapso climático é inviável no âmbito do capitalismo.
O capitalismo exige uma expansão contínua para evitar a sua própria crise de acumulação. Quando uma tecnologia melhora a eficiência no uso de um recurso, o mercado expande a produção total - o histórico Efeito Jevons.
A aceleração da Inteligência Artificial agrava esta dinâmica de três formas centrais:
- Aumento metabólico: a expansão da IA está a catapultar a procura por eletricidade em várias regiões, adiando o fecho de centrais a carvão e a gás para alimentar data centers.
- Neocolonialismo extrativista: A corrida aos chips e servidores intensifica o extrativismo de lítio, cobalto e terras raras, concentrando a degradação ambiental no Sul Global para servir o consumo digital do Norte
- Aceleração da extração fóssil: As maiores empresas de tecnologia (Big Tech) comercializam algoritmos de IA concebidos especificamente para otimizar e acelerar a exploração de novas jazidas petrolíferas.
I. A síntese necessária: decrescimento, ecossocialismo e o planeamento Ex-Ante
O decrescimento reintroduz os limites da biologia e da física na economia. Contudo, como adverte o sociólogo e economista marxista John Bellamy Foster (no ensaio publicado no portal A Terra é Redonda), é imperativo reconhecer o "teorema da impossibilidade": não existe decrescimento dentro do capitalismo. O decrescimento não deve ser visto como uma simples inversão contabilística do PIB, mas sim como um processo de desacumulação de capital focado nas economias hiperdesenvolvidas.
Por outro lado, o ecossocialismo fornece a chave de leitura de classe e o mecanismo prático de transição:
- O planeamento democrático Ex-Ante: diferente do mercado capitalista, que atua ex-post (corrigindo danos apenas após a busca desenfreada do lucro), o planeamento ecossocialista atua ex-ante. Isto permite subordinar a produção - e o próprio uso da supercomputação e da IA - à "hierarquia das necessidades humanas reais", desmantelando indústrias destrutivas e expandindo a infraestrutura pública.
- A descomodificação da vida: transformação da habitação, transporte, saúde, nutrição e energia em bens comuns (commons), retirando-os da especulação financeira.
- Sobriedade digital e soberania tecnológica: submeter o desenvolvimento sociotécnico ao controlo coletivo. A capacidade computacional deve ser direcionada para a modelação climática, otimização de redes elétricas renováveis e medicina pública, e não para a criação de bolhas financeiras, vigilância ou publicidade direcionada.
- Redução da jornada de trabalho: diminuir a semana de trabalho para redistribuir o emprego e libertar tempo humano, substituindo o consumo hiperativo pela riqueza das relações sociais e da cultura.
O debate interno: desenvolvimento sustentável vs. comunismo do decrescimento
Nesta construção teórica, vale destacar o debate vivo no seio da ecologia política. Se por um lado Kohei Saito argumenta que a obra tardia de Marx já continha a semente de um "comunista do decrescimento", autores como John Bellamy Foster ressalvam que desenhar essa continuidade direta pode incorrer num anacronismo histórico. Marx defendia o desenvolvimento humano sustentável e a superação da ruptura metabólica num mundo industrial ainda incipiente. O ecossocialismo do decrescimento surge, assim, não como um dogma estático do século XIX, mas como a aplicação viva e renovada do materialismo histórico às condições da "economia de mundo cheio" do século XXI.
III. Estará aqui a esperança?
A palavra "esperança" corre o risco de ser esvaziada se for confundida com um otimismo ingénuo. O filósofo Ernst Bloch propôs o conceito de esperança concreta: a identificação das tendências reais no presente que contêm a semente de um futuro transformado.
Neste sentido, o ecossocialismo do decrescimento representa a esperança mais realista de que dispomos.
A verdadeira postura irrealista é continuar a acreditar que a expansão económica infinita - agora acelerada pela IA - pode coexistir com a estabilidade de um planeta finito. Esta síntese oferece uma bússola política que recusa simultaneamente o colapso ecológico e a barbárie social.
A esperança desta proposta não reside na expetativa de que as elites adotem este modelo voluntariamente, mas na sua capacidade de articular lutas históricas dispersas:
- Une os trabalhadores do setor tecnológico e da economia em geral - esgotados pelo ritmo de trabalho e ameaçados pela automação - à exigência de semanas de trabalho mais curtas e soberania sobre o seu tempo.
- Une as comunidades do Sul Global resistentes ao extrativismo à exigência de reparações históricas e climáticas.
- Une os movimentos urbanos que lutam pelo direito à habitação e aos serviços públicos contra a especulação do capital corporativo.
Conclusão: a coragem de imaginar o futuro
O ecossocialismo do decrescimento convida-nos a ultrapassar o "realismo capitalista" - a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Estará aqui a esperança? Sim, mas uma esperança exigente e combativa. Não se trata de uma garantia de vitória, mas de um projeto de emancipação. O ecossocialismo do decrescimento não promete um paraíso de consumo ilimitado nem um ciberespaço infinito, mas propõe algo mais sustentável: uma sociedade assente na abundância de tempo, na justiça social, na soberania tecnológica e na harmonia metabólica com a Terra.
Referências Bibliográficas
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- Foster, J. B. (2025, 30 de janeiro). Ecossocialismo e decrescimento. A Terra é Redonda.
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- Saito, K. (2023). O Capital no Antropoceno (Brasil) / Desacelerar: Manifesto pelo Decrescimento Ecossocialista (Portugal). Editora Boitempo / Editorial Presença.
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