quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Dia Mundial do Vegetarianismo 2025: da soja importada ao resgate das PANC portuguesas


Neste 1 de outubro de 2025, assinala-se mais um Dia Mundial do Vegetarianismo. Se durante anos a transição para uma alimentação de base vegetal passou quase exclusivamente pelos substitutos industriais - como o tofu, o seitan e os derivados de soja -, a consciência ambiental atual exige um olhar mais crítico e local sobre o que colocamos no prato. 

Esta mudança de paradigma ganha especial relevância no panorama nacional. Segundo o estudo The Green Revolution (Lantern), cerca de 10,4% da população adulta em Portugal (aproximadamente 910 mil pessoas) consome já maioritariamente alimentos de origem vegetal, num universo que engloba cerca de 750 mil flexitarianos, 122 mil vegetarianos e 35 mil veganos. Adicionalmente, embora cerca de 89,6% dos portugueses se declarem omnívoros, 49% afirmam estar a tentar reduzir ativamente o consumo de carne, com especial foco na carne vermelha.

Estabelecido em 1977 pela North American Vegetarian Society (NAVS) e formalmente apoiado pela International Vegetarian Union (IVU) em 1978, este dia nasceu para promover os benefícios do consumo de plantas na saúde humana, na proteção dos animais e na sustentabilidade do planeta. A urgência desta mensagem fundamenta-se no impacto da pecuária intensiva, responsável por uma fatia expressiva das emissões globais de gases de efeito de estufa, desflorestação e consumo excessivo de água, a que se somam os benefícios comprovados de dietas vegetais na prevenção de doenças cardiovasculares e a sensibilização ética contra a exploração animal. [Site Oficial]

No entanto, o modelo tradicional de transição alimentar tem vindo a ser reavaliado. Embora o tofu e o seitan continuem a ser alternativas populares à carne, a sua produção industrial e a logística global de abastecimento levantaram legítimas preocupações ambientais. A expansão da monocultura da soja em ecossistemas sensíveis como a Amazónia e o Cerrado impulsiona a perda de biodiversidade e o uso intensivo de pesticidas - e mesmo que a grande maioria da soja mundial se destine à ração animal, o consumo direto de derivados importados não fica isento de escrutínio. Além disso, a transformação da soja em tofu e a extração do glúten de trigo para o seitan exigem processos industriais com elevado consumo de água e energia, resultando numa pegada de carbono acrescida devido ao transporte de longa distância e ao embalamento excessivo em plástico.

Perante este cenário, surge em Portugal uma viragem sustentável rumo ao consumo de proximidade e ao resgate das PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Espécies autóctones, espontâneas e silvestres - como as beldroegas, os saramagos, o dente-de-leão ou o umbigo-de-vénus - crescem naturalmente sem necessidade de monoculturas, fertilizantes ou pesticidas.

Conclusão:
Celebrar o Dia Mundial do Vegetarianismo em 2025 não é apenas abdicar da carne; é repensar a origem e a pegada dos próprios vegetais. Ao aliar o conhecimento científico sobre o impacto dos alimentos à valorização da flora espontânea portuguesa, tornamos a alimentação vegetal não só ética, mas verdadeiramente sustentável e enraizada no nosso território.

Referências bibliográficas e leituras recomendadas
  • Carvalho, A. M. (2010). Plantas silvestres com uso alimentar no Nordeste de Portugal: etnobotânica, salvaguarda e valorização de saberes tradicionais. Instituto Politécnico de Bragança. (Obra de referência nacional sobre a identificação, história e consumo de flora espontânea e PANC no território português).
  • Fraanje, W., & Garnett, T. (2020). Soy: food, feed, and land use change. Food Climate Research Network (FCRN), University of Oxford.(Estudo aprofundado sobre o destino do cultivo global de soja, a desflorestação importada e as cadeias de valor industriais).
  • Lantern (2023/2024). The Green Revolution: Estudo sobre o mercado veggie em Portugal. Madrid/Lisboa. (Análise do consumo de alternativas vegetais, perfil demográfico dos consumidores e tendências do mercado nacional).
  • Nunes da Silva, M., Santos, C. S., & Vasconcelos, M. W. (2022). Bioactive potential and nutritional value of underutilized legumes and wild edible plants for sustainable food systems. Frontiers in Nutrition / Plant Science [Comunicações & Projetos de Investigação CBQF/UCP].   (Investigação nacional desenvolvida no Centro de Biotecnologia e Química Fina sobre o potencial nutricional e ecológico de leguminosas locais e plantas silvestres).
  • Poore, J., & Nemecek, T. (2018). Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987–992. (Meta-análise global de referência sobre o impacto da pegada de carbono, uso do solo e da água de diferentes grupos alimentares).

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