domingo, 18 de outubro de 2026

Entre a Razão Vital e a Luta de Classes: Os Limites de Ortega y Gasset


José Ortega y Gasset, filósofo, ensaísta, jornalista e ativista político espanhol, faleceu em Madrid a 18 de outubro de 1955, consolidando-se como um dos pensadores mais importantes do século XX e exercendo uma influência duradoura sobre os seus contemporâneos. Tido frequentemente como o "pai do existencialismo espanhol", o seu pensamento ganha verdadeira vida quando percebemos que nunca quis ser um filósofo de torre de marfim. Ortega escrevia para os jornais, falava para a rua e nutria uma obsessão clara: entender a vida tal como ela é vivida no dia a dia, com toda a sua confusão, urgência e imperfeição. Para ele, vivemos sempre numa circunstância, e a vida - a vida autêntica de cada um - consiste precisamente em saber o que fazer com ela, descobrindo o que tem de ser feito para não permitir que o "rebanho" cresça na sua ignorância, orgulhosa da sua própria estupidez.

A grande viragem do seu pensamento começa no modo como olhamos para a nossa existência. Durante séculos, a filosofia dividiu-se entre os idealistas, que juravam que tudo começava na mente, e os realistas, que priorizavam o mundo exterior. Ortega considerava essa discussão estéril, defendendo que a única realidade primordial e indiscutível é a vida humana de cada indivíduo. Esta "vida" não é um mero conceito biológico nem uma abstração teórica; é o drama de nos encontrarmos subitamente atirados para o mundo, sem termos pedido, e sermos forçados a decidir constantemente o que vamos fazer a seguir. Daí nasce a sua célebre máxima: "Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim".

Na prática, isto significa que ninguém existe num vácuo. O ser humano não é apenas a sua vontade, o seu caráter ou os seus sonhos, mas também o país onde nasceu, a língua que fala, a sua classe social, o seu momento histórico e até as pequenas contrariedades do quotidiano. Essa é a "circunstância" - o cenário e as cartas atribuídas pela vida. Não é possível simplesmente ignorar o mundo e viver isolado na própria mente; para realizar o seu potencial, o indivíduo tem de agir sobre esse cenário, transformando-o e dando-lhe sentido, numa conversa dramática e ininterrupta entre o "eu" e o meio que o cerca.

Por esta razão, Ortega criticava duramente a "razão pura" - uma razão fria, puramente matemática ou lógica, distante da realidade. A razão humana não serve para construir teorias abstratas e perfeitas que em nada alteram a existência quotidiana; serve, sim, para nos ajudar a navegar no mundo. Trata-se da "razão vital": pensamos porque precisamos de resolver problemas concretos e de nos orientar na selva da vida real. Desta perspetiva surge também o seu perspectivismo. Como a vida de cada pessoa está ancorada numa circunstância única, cada indivíduo ocupa um ponto de vista singular sobre o mundo. Se imaginarmos uma montanha, quem a observa do Norte vê uma paisagem coberta de neve, enquanto quem a olha do Sul contempla vegetação e sol. Ambos têm a verdade, pois a realidade não é uma imagem estática observável de um único ângulo absoluto, mas sim a soma de todas as perspetivas possíveis. O erro surge quando alguém julga que a sua visão individual é a única correta e tenta impô-la aos demais, ou quando se desagua num relativismo em que nenhuma perspetiva parece ter valor.

No entanto, a faceta de Ortega que talvez mais ressoe na atualidade é a sua crítica social, sintetizada na obra A Rebelião das Massas. Ao observar a Europa do início do século XX, o autor identificou a emergência do "homem-massa" - um termo que não designava as classes trabalhadoras ou os mais pobres no sentido económico, mas sim um perfil psicológico e uma atitude mental transversal a operários, académicos ou multimilionários. O homem-massa é o indivíduo que não exige nada de si mesmo, que não busca a excelência nem possui curiosidade intelectual, sentindo-se perfeitamente confortável por ser "igual a todo o mundo". Usufrui dos benefícios imensos da civilização moderna - a tecnologia, a medicina, os direitos políticos e o conforto material -, mas toma-os como garantidos, como se fossem frutos espontâneos da natureza, ignorando o esforço monumental, a disciplina e a cultura necessários ao longo de séculos para construir esses privilégios.

O grande perigo antevisto por Ortega residia na tirania deste conformismo. Ao sentir-se em maioria, o homem-massa perde o respeito pelo pensamento crítico, pelas minorias, pelo debate de ideias e pelas instituições. Em vez de argumentar, recorre à "ação direta" - à força bruta, ao linchamento moral ou à coerção do Estado - para esmagar tudo o que seja diferente ou exigente. Ao abdicar-se da responsabilidade individual, a democracia corre o risco de degenerar e abrir caminho a regimes autoritários, nos quais a multidão entrega o controlo a demagogos que prometem facilidades sem exigir esforço a ninguém.

Para compreender a evolução das sociedades, Ortega introduz ainda o conceito de geração. A história não avança por heróis isolados nem por impulsos cegos da multidão, mas através da sucessão de gerações - grupos de contemporâneos que partilham a mesma época, enfrentam os mesmos problemas e possuem uma "sensibilidade vital" semelhante. O papel de cada nova geração passa por receber a herança da anterior, criticá-la, adaptá-la ao seu tempo e dar o passo seguinte; quando uma geração se recusa a fazer esse trabalho ou se acomoda, a sociedade estagna. No fundo, o pensamento de José Ortega y Gasset configura-se como um apelo urgente à responsabilidade pessoal, lembrando que a liberdade não é um estado passivo, mas um compromisso diário de pensar pela própria cabeça, recusar o comportamento de rebanho e assumir o comando da própria vida dentro das circunstâncias dadas.

Porém, a grande limitação de Ortega reside precisamente na ausência de uma crítica estrutural ao capitalismo. O filósofo espanhol concentrou quase toda a sua análise nos domínios da cultura, da psicologia e da política, ignorando em grande medida a economia política. Embora criticasse o "homem-massa" pelo seu consumismo voraz e pela ilusão de abundância, não chegou a analisar quem lucra com essa alienação, nem a forma como o próprio sistema capitalista produz ativamente essa passividade para perpetuar a exploração. Para os pensadores críticos do capitalismo, como Karl Marx, Antonio Gramsci ou os teóricos da Escola de Frankfurt, não é possível culpar o indivíduo comum por ser "conformista" quando existe todo um aparelho económico, produtivo e publicitário minuciosamente desenhado para o manter submisso e alienado.

Para quem procura uma resposta direta à urgência de romper com a servidão e destruir o capitalismo selvagem através da ação coletiva e popular, a tradição crítica oferece perspetivas diametralmente opostas às de Ortega. Pensadores como Karl Marx e Rosa Luxemburg defenderam rigorosamente que a verdadeira libertação nunca viria de "elites esclarecidas", mas sim da auto-organização e da consciência da própria classe trabalhadora, partindo do princípio de que a emancipação dos trabalhadores terá de ser obra dos próprios trabalhadores. Na mesma linha, Antonio Gramsci analisou de que modo a classe dominante constrói uma "hegemonia cultural" para fazer o povo aceitar a exploração como algo natural e inevitável, sublinhando a necessidade premente de criar uma consciência de classe revolucionária a partir da base. Já no campo pedagógico e social, Paulo Freire contrapôs a visão elitista com a sua pedagogia do oprimido, argumentando que a consciencialização e a libertação têm de ser feitas pelo próprio povo, rejeitando radicalmente a premissa de que a massa é ignorante ou incapaz por natureza.

Ainda assim, mesmo para quem defende a revolução popular, a leitura de pensadores como Ortega y Gasset pode revestir-se de um importante valor estratégico. Conhecer a crítica que o autor faz à dinamização das massas ajuda a antecipar os riscos e desvios que qualquer movimento revolucionário enfrenta no terreno: o perigo de uma revolta legítima ser capturada por demagogos, a facilidade com que o dogmatismo sufoca a crítica interna ou a tragédia de a força da mudança se degenerar numa nova forma de autoritarismo. Como sustentava o filósofo Baruch Spinoza, o objetivo supremo de estudar as ideias dos outros não é "chorar nem rir, mas compreender". Rejeitar a visão de mundo de Ortega é uma posição perfeitamente legítima, pois ela parte de premissas sobre a natureza humana e a organização social que são fundamentalmente incompatíveis com o ideal de uma transformação popular e anticapitalista. Falarei disso numa próxima postagem. 

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