O Uivo, como um poema mudou todo o País

A história da literatura ocidental divide-se em antes e depois da noite de 7 de outubro de 1955, na Six Gallery, em São Francisco. Foi ali que um jovem de óculos, tímido mas tomado por uma urgência profética, leu os primeiros versos de "O Uivo" (Howl) para uma plateia embriagada de vinho e de absoluto. Allen Ginsberg não estava apenas declamando; ele estava exorcizando o fantasma de uma América que, sob a máscara da prosperidade e do puritanismo do pós-guerra, sufocava, internava e destruía as suas mentes mais brilhantes, os seus poetas, os seus loucos, os seus homossexuais e os seus vagabundos transcendentais. Quando a editora City Lights, de Lawrence Ferlinghetti, publicou o poema em 1956, o impacto foi tão violento que o Estado tentou amordaçá-lo através de um histórico processo por obscenidade. Mas o uivo já não podia ser silenciado. Ao transformar o sofrimento psíquico em matéria sagrada e ao apontar o dedo contra Moloch — a máquina de guerra, o capitalismo devorador e o conformismo cego —, Ginsberg ofereceu um espelho trágico e libertador a toda uma geração. "O Uivo" unificou os marginalizados, pavimentou o caminho para a contracultura dos anos 60 e redefiniu os limites da liberdade de expressão. Mais do que um poema, tornou-se o testamento de que a arte, em sua entrega mais visceral e vulnerável, tem o poder de rachar as estruturas de um país inteiro.
Fica aqui a obra-prima de Allen Ginsberg na íntegra (na célebre tradução de Cláudio Willer), o uivo que ecoa até hoje:
O Uivo (Howl)Para Carl Solomon
IEu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura, famintas histéricas nuas,arrastando-se pelas ruas negras de madrugada à procura de uma dose de fúria,hipsters com cabeças de anjo ansiando pelo antigo contacto celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,que na pobreza e nos farrapos e de olhos encovados e brisados fumavam sentados na escuridão sobrenatural de apartamentos de água fria, flutuando sobre os tetos das cidades com uma sensação de jazz,que desnudaram os seus cérebros ao Céu sob o Metro e viram anjos do Islão cambaleando em tetos de cortiços iluminados,que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando o Arcadas e tragédias de Blake entre os estudantes de guerra,que foram expulsos das academias por serem loucos e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,que se encolheram em quartos sem barbear, queimando dinheiro em cestos de papéis e ouvindo o Terror através da parede,que foram detidos pelas suas barbas púbicas voltando por Laredo com uma carga de marijuana para Nova Iorque,que comeram fogo em hotéis de má fama ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram os seus fados noite após noite,com sonhos, com drogas, com pesadelos acordados, álcool e pénis e infindáveis orgias,ruas de passos trémulos sem destino, sobressaltos de relâmpago na alquimia do uso da palavra, o podes-crer do desespero e o génio do sol da meia-noite,que procuravam a base de platina absoluta através do amor e da dor e do fumo do peiote e do fumo do ópio, que atravessavam as cidades sem repouso e sem dinheiro à procura da chave secreta da eternidade que iluminasse a mente ocidental,que desapareceram no Zen de Nova Jérsia deixando um rasto de postais ambíguos de Atlantic City,sofrendo de suores Orientais e tangerinas de Tanger e enxaquecas de Newark e ossos partidos no inferno do fumo do Texas,que caminharam a noite inteira com os sapatos cheios de sangue nas docas de neve esperando por uma porta em East River que se abrisse para um quarto cheio de vapor quente e ópio,que criaram grandes dramas suicidas nas frentes de rocha do Hudson sob o holofote azul do nevoeiro da lua antes de serem atirados para ambulâncias do manicómio de Bellevue,que saltaram do teto de Brooklyn e falaram com as estrelas e a lua e a ponte e os peixes e a noite de Nova Iorque,que caminharam pelas ruas e gritaram em voz alta e viram os cães do destino e as mulheres da dor e os homens da pressa e os homens da solidão,que dançaram nos bares de jazz com os corações nas mãos e os sexos nos bolsos e as almas nas bocas,que choraram nos cinemas de Greenwich Village porque os filmes eram demasiado tristes e os homens eram demasiado frios e as mulheres eram demasiado belas,que se deitaram nos caminhos-de-ferro e esperaram pelo comboio e o comboio não veio e eles continuaram a viver e a escrever e a foder e a morrer,que se esconderam em caves de betão com ratos e baratas e garrafas de vinho barato e livros de Rimbaud e de Artaud,que foram levados para os hospitais psiquiátricos e receberam choques elétricos e perderam a memória e ganharam a visão e viram o mundo como ele é,que foram crucificados nas paredes dos escritórios e dos bancos e das fábricas e das lojas,que cantaram a sua canção de amor na escuridão das prisões e das celas e dos pátios,que se despediram de tudo e de todos e partiram para o Oeste no primeiro camião ou no primeiro comboio de mercadorias,à procura da luz, da verdade, da beleza, do amor, da liberdade, do fogo, do uivo.
IIQue esfinge de cimento e alumínio arrombou os seus crânios e devorou os seus cérebros e a sua imaginação?Moloch! Solidão! Imundície! Fealdade! Caixotes de lixo e dólares inacessíveis! Crianças gritando debaixo das escadas! Rapazes soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o sem amor! Moloch mental! Moloch o pesado julgador dos homens!Moloch a prisão incompreensível! Moloch a prisão cruzada de pernas de ossos vazios e cemitério sem alma! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um canibalismo industrial! Moloch cujo ouvido é uma sepultura fumegante!Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus se erguem nas longas ruas como Jeovás intermináveis! Moloch cujas fábricas sonham e coaxam no nevoeiro! Moloch cujas chaminés e antenas coroam as cidades!Moloch cujo amor é petróleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espetro do génio! Moloch cujo destino é um mictório de hidrogénio sem fado!Moloch em quem eu me sento isolado! Moloch em quem eu sonho anjos! Desperto em Moloch! Luz fluindo dos céus!Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais de cegos! indústrias demoníacas! nações de fantasmas! manicómios invencíveis! blocos de granito!Eles quebraram as suas costas erguendo Moloch ao Céu! Pistas, árvores, rádios, toneladas, erguendo a cidade ao Céu que existe e nos rodeia por todo o lado!Visionários! prodígios! alucinações! milagres! êxtases! idos pelo rio abaixo!Sonhos! adorações! iluminações! religiões! toda a carga de sensibilidade americana!Entregues ao vento da história! Avanços! mais de dez anos de lágrimas de animais! Cânticos e canções e loucuras! Novos horizontes! Novo homem!Idos abaixo no rio de Moloch! Moloch! Moloch! Robotizado! Autómato! Dinheiro! Almas vendidas no mercado! Moloch a máquina! Moloch o fim de tudo!Eles acordaram e viram o monstro! Moloch! O monstro que devorou a sua juventude e a sua poesia! Moloch o destruidor! Moloch o assassino!Adeus rapazes da noite! Adeus poetas da dor! Adeus anjos do uivo!
IIICarl Solomon! Estou contigo em Rocklandonde és mais louco do que euEstou contigo em Rocklandonde deves estar a sentir-te muito estranhoEstou contigo em Rocklandonde imitas a sombra da minha mãeEstou contigo em Rocklandonde assassinaste os teus doze secretáriosEstou contigo em Rocklandonde bates palmas à alma que regressa do purgatórioEstou contigo em Rocklandonde acusas o Estado de conspiração mística contra a tua liberdadeEstou contigo em Rocklandonde divides o mar com os teus braços nus e gritas por um MessiasEstou contigo em Rocklandonde escreves na parede o nome de Deus com o teu próprio sangueEstou contigo em Rocklandonde ressuscitaste os mortos da tua infância e falas com eles à noiteEstou contigo em Rocklandonde choras no chão de mármore porque os enfermeiros te tiraram os sapatosEstou contigo em Rocklandonde recebes os choques da máquina da meia-noite e a tua alma brilha mais que o solEstou contigo em Rocklandonde dizes que o mundo é uma conspiração de macacos contra a belezaEstou contigo em Rocklandonde viajas no tempo e no espaço sem sair da tua cama de ferroEstou contigo em Rocklandonde planeias a revolução dos anjos contra a burocracia do infernoEstou contigo em Rocklandonde esperas que a noite acabe e o dia venha com a sua luz de ouroEstou contigo em Rocklandnos meus sonhos caminhas pingando da viagem na autoestrada através dos Estados Unidos em lágrimas até à porta da minha cabana na noite ocidental.
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O Julgamento por Obscenidade: O Nascimento da Liberdade de Expressão ModernaEm 1957, a polícia de São Francisco prendeu Lawrence Ferlinghetti por vender o livro, acusando-o de disseminar "material obsceno". O poema falava abertamente sobre homossexualidade, sexo, drogas e criticava duramente o capitalismo e o militarismo americano.
O Impacto: o julgamento de Howl tornou-se um marco histórico. Defendidos por juristas, críticos e escritores, Ginsberg e Ferlinghetti venceram. O juiz Clayton W. Horn determinou que o poema tinha "importância social redentora".
A mudança no país: Essa decisão abriu as portas para a liberdade editorial nos EUA. Sem o julgamento de Howl, obras-primas subsequentes de autores como William S. Burroughs (Almoço Nu) ou Henry Miller (que estavam banidos no país) dificilmente teriam sido publicadas. O país teve que aprender, por lei, a tolerar a dissidência artística.
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