segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Ao que nós chegamos

"Respondam, respondam a tudo, em todo o lado", escreve José Pacheco Pereira no Público. "Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam. O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio.
Nestas eleições, como em geral em toda a actividade política, não há qualquer movimento ascendente em política que não seja o populismo dominado pela questão central do combate à imigração. A sua expressão política é o Chega, que domina toda a vida política, o discurso político, a agenda mediática, os debates, e as campanhas eleitorais em grande parte do país. Apesar de ser um partido bastante minoritário — teve menos de um quarto dos votos nas eleições legislativas de 2025, o que nem sempre é lembrado —, tudo o que “mexe” em Portugal acontece à volta do Chega.
Esta situação é uma enorme vitória política, que contrasta com a estagnação e a cedência aos temas do Chega por parte do PSD, com o bloqueio do crescimento da Iniciativa Liberal, com a crise profunda de identidade do PS que gera a paralisia do partido, e com a decadência acentuada do PCP e do Bloco — com a única excepção à esquerda de algum crescimento do Livre. É um panorama que, no seu conjunto, aponta para uma grave crise do sistema partidário pós-25 de Abril, crise que é estrutural e não conjuntural. Sendo assim, tudo está a mudar, sem ser no sentido de reforçar a democracia, nem a governação, nem o centro “moderado”, com um desequilíbrio no par direita-esquerda, claramente a favor da direita, criando um caos e uma errância cujos únicos efeitos previsíveis são a crise institucional e política da democracia. Este processo não é apenas português, é europeu e mundial.
Se não se partir daqui, desta análise fria e cruel, com elementos de catástrofe, não se parte da realidade, e essa é a primeira resposta aos que dizem que não basta análise, são precisas respostas. A primeira resposta é mesmo reconhecer que se está muito mal e que, tendo em conta a Lei de Murphy, vai ser tudo muito pior.
A segunda, é perceber como se chegou aqui, com um modelo de economia que favoreceu os de cima, cada vez mais ricos, deixou ficar a meio do elevador social todos os que estavam a sair da pobreza, fez descer uma parte da pequena e média burguesia e colocou numa redoma os mais pobres, deixando que dentro dessa redoma a inveja e o ressentimento social crescessem, com pobres a combaterem pobres. O combate por uma economia que incorpore um forte elemento de justiça social não é comunismo, é a doutrina social da Igreja.
Terceira, a evolução da economia capitalista associou-se a uma ecologia comunicacional que premeia a ignorância agressiva, a solidão, a desagregação de todas as relações que não passem pelas redes sociais, sem contacto humano, a não ser a competição por likes, e por frases assassinas, e insultos, e memes imbecis. Ao mesmo tempo, o deslumbramento tecnológico destruiu muito da função da escola, e diminuiu drasticamente o papel das mediações sociais, culturais, associativas, políticas e, no limite, familiares e religiosas.
A quarta resposta é o combate, sem transigência, pela democracia, combate esse que existe muito menos do que se possa pensar. Há mais moleza do que combate, e esse combate assume duas dimensões. Uma é contra as manifestações políticas do populismo, que conta nesse plano com um sistema de mentiras canalizado pelas redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais. Respondam, respondam a tudo, em todo o lado. Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam.
O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio. Outro é o exemplo do vitelo que combateu a fanfarronice toureira e nem sequer deu a Núncio, do CDS, o privilégio de lhe tocar o dorso. Isaltino e o vitelo viraram o feitiço contra o feiticeiro.
Outra resposta é mostrar a enorme contradição entre a brutalidade populista e os ensinamentos e a actuação das igrejas cristãs, que ainda são uma referência para milhões de portugueses. Denunciar a hipocrisia diante do altar, ou do padre, ou do pastor, e a falta de sentimentos cristãos face aos mais desprotegidos é eficaz, porque torna ridículo o bater no peito e o ajoelhar em pose.
Outra resposta é o combate intransigente pelos direitos humanos, cívicos, laborais dos imigrantes. Valorizando uma das coisas que este populismo de extrema-direita quer combater, o alvo de gente como Elon Musk: a empatia. E de novo a hipocrisia. Os militantes do Chega mandam vir comida pelos estafetas ou não? Não deviam, pois não? Porque isso é ajudar a imigração ilegal. Eles usam-nos nas estufas em condições de calor extremo? Não deviam, pois não? Deviam apenas contratar portugueses. E isso implica uma dura pressão sobre os governantes, cujas “autoridades” deviam multar a sério quem despreza as “condições de trabalho”, e quem viola a lei para ganhar dinheiro com os párias da imigração.
Há mais para os próximos artigos, o papel da nossa história, o patriotismo, e no fim e no princípio de tudo, a coragem. Estou mesmo a ver quem vai dizer, “mas isso é pouco, isso não é nada, isso não vai travar o Chega”. Não sei. O que sei é que não fazer nada não trava coisa nenhuma.

Apagão: Energias renováveis são principal foco de desinformação


A existência de uma dependência excessiva em relação às energias renováveis foi a narrativa desinformativa sobre o apagão mais acreditada pelos participantes de um relatório da coligação Ação Climática Contra a Desinformação (CAAD, sigla em inglês).

O relatório destaca que o apagão elétrico que deixou Portugal continental e Espanha peninsular sem energia durante mais de 10 horas foi explorado por agentes mal-intencionados que espalharam alegações falsas.

A campanha de desinformação incluiu narrativas sobre ataques cibernéticos da Rússia, anomalias atmosféricas, falhas de energia renovável e experiências governamentais.

Mais de metade dos inquiridos acreditou em pelo menos uma das narrativas falsas sobre as causa do apagão, sendo que a “dependência excessiva da rede elétrica em relação às energias renováveis” é a mais comum, particularmente entre os eleitores de extrema-direita.

Neste sentido, “as crenças sobre as alterações climáticas e o partidarismo são os principais fatores que determinam as diferenças de atitude” face à desinformação climática.

“As pessoas que pretendem votar em partidos de extrema-direita e que rejeitam as alterações climáticas têm opiniões menos favoráveis ao clima”, lê-se no documento.

O relatório alerta ainda para a necessidade de obrigar as redes sociais a impedir a amplificação de conteúdos enganadores sobre as alterações climáticas nas suas plataformas, bem como o investimento dos governos em campanhas de sensibilização pública para combater a desinformação e promover a integridade da informação.

Além destas medidas, os autores salientaram que se deve impedir que as empresas utilizem publicidade que divulgue informações enganosas ou promova comportamentos prejudiciais ao ambiente, como o consumo excessivo de combustível fóssil.

“Dar mais recursos às organizações de verificação de factos para desmascarar alegações falsas sobre as alterações climáticas”, também deve ser uma prioridade.

O relatório da coligação CAAD entrevistou 2.400 pessoas em Espanha e no Reino Unido, com o objetivo de combater a desinformação climática, pedindo uma ação decisiva e unificada contra o fenómeno.

Na semana passada, o painel de peritos que investiga o apagão elétrico de 28 de abril concluiu que o colapso foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia.

No primeiro trimestre de 2026 espera-se um relatório final que incluirá recomendações concretas destinadas a evitar incidentes semelhantes não apenas na Península Ibérica, mas em toda a rede elétrica europeia.

domingo, 5 de outubro de 2025

Les Français ne paient pas le vrai prix de l’alimentation



Champion des produits laitiers, des eaux et de la nutrition spécialisée avec ses marques Activia, Actimel, Evian, Volvic et Aptamil, le groupe Danone a renoué avec la croissance après une période compliquée au tournant des années 2020. Redressé par Antoine de Saint-Affrique, le groupe revendique un modèle combinant performance économique et responsabilité sociale, théorisé en 1974 par Antoine Riboud. Son patron insiste sur le rôle social des entreprises. « Le chef d’entreprise a un rôle dans la cité, car l’entreprise est un endroit absolument unique : c’est l’un des rares où l’on fasse encore société, où l’on apprenne à la fois le compromis et la constance d’un temps. C’est un endroit où on partage, et où des gens extrêmement divers d’opinion, de religion et d’origine construisent quelque chose pour le futur. Donc c’est aussi un facteur de stabilisation », estime-t-il.

Antoine de Saint-Affrique soutient l’initiative du président du Medef, Patrick Martin, d’organiser le 13 octobre « un énorme meeting » du patronat pour revendiquer l’apport des entreprises au débat public. « Sauf si je suis en déplacement, j’y serai pour rappeler une chose très importante, qui est que l’entreprise est créatrice de valeur et probablement le dernier lieu de consensus et de dialogue social. Il faut le réaffirmer de manière extrêmement forte. »

Consommation diverse
Alors que la grogne patronale monte face à l’instabilité politique, le dirigeant appelle à faire de la pédagogie. « Au-delà de l’opportunité de telle ou telle mesure, il faut revenir à un débat factuel, et ancré dans la réalité. Expliquons par exemple que quand on dépense 100 et que l’on emprunte 46, ce n’est pas un modèle durable. Ni pour le pays ni pour l’entreprise. Sur ces sujets, il y a une vraie vertu à la répétition et aux faits simples (…) pour arriver à des solutions de bon sens et de compromis ».

Bon indicateur de la consommation des Français, qui ont souvent ses produits dans leurs frigos, Danone évolue comme ses concurrents dans une conjoncture fragile. « En France, la consommation est diverse mais elle ne se porte pas trop mal. Le grand défi de notre pays reste beaucoup plus l’industrialisation que la consommation (…). Il y a souvent un décalage entre ce que le consommateur paye et la réalité des prix. Les Français ne paient pas le vrai prix de l’alimentation », insiste le dirigeant, appelant à ne pas faire de l’alimentaire « un produit d’appel ». Cela menace la rémunération des agriculteurs, un sujet sur lequel s’est engagé Danone avec des contrats de long terme, pour accompagner les investissements des fermes et des pratiques agricoles plus vertes.

« Quand vous vendez une baguette à quelques centimes d’euros ou une bouteille de côtes-du-rhône à prix cassé pour faire venir des gens dans vos magasins, vous créez un modèle qui n’est pas durable pour les agriculteurs. Et vous mettez en cause la souveraineté alimentaire du pays en entraînant la totalité de la filière vers le bas . C’est cela, l’enjeu, aujourd’hui », conclut Antoine de Saint-Affrique.

Fanatismo: o que acontece no cérebro?


A ciência mostra que o fanatismo — seja religioso, político ou ideológico — não é apenas uma questão de opinião. Ele afeta o funcionamento do cérebro, moldando a forma como pensamos, sentimos e reagimos.
Emoção acima da razão
Pesquisas em neurociência indicam que o fanatismo ativa intensamente o sistema límbico, especialmente a amígdala cerebral (hipófise - ligada ao medo e à raiva) e o núcleo accumbens, no estriado ventral (centro do sistema de recompensa).
Nesses momentos, há forte liberação de dopamina, que sinaliza prazer e reforça a motivação. Isso gera uma sensação de pertencimento e recompensa ao defender a crença, semelhante ao que ocorre em vícios.

Prejuízo no pensamento crítico
Ao mesmo tempo, há redução da atividade no córtex pré-frontal dorsolateral, área responsável por análise racional e flexibilidade cognitiva. O resultado é a dificuldade de revisar ideias ou aceitar informações que contradizem a crença.

Viés de confirmação
O cérebro passa a selecionar apenas informações que confirmam aquilo em que já se acredita. Críticas ou fatos contrários são percebidos como ameaças, acionando reações defensivas e emocionais.

Efeito semelhante a vício
Assim como nas dependências químicas, o fanatismo reforça circuitos de dopamina ligados à recompensa. Cada vez que a crença é reafirmada, o núcleo accumbens regista esse reforço como uma vitória, consolidando ainda mais a convicção.
Esse ciclo cria uma dependência emocional difícil de quebrar.
Inteligência preservada… mas seletiva
É importante destacar que o fanatismo não elimina a capacidade cognitiva geral.

Um fanático pode ser um ótimo profissional, resolver problemas complexos e aprender coisas novas normalmente.
Porém, quando o tema toca o objeto de devoção, o pré-frontal (nosso racional) “se cala” e o sistema emocional domina.
Isso cria uma “zona cega cognitiva”: fora dela, a razão funciona; dentro dela, a emoção prevalece.
Impacto na sociedade
O fanatismo não diminui a inteligência global, mas estreita o campo da razão quando o tema envolve a crença central. Isso pode levar a intolerância, polarização e resistência ao diálogo.

É possível mudar?
O fanatismo não é uma doença, mas um padrão de funcionamento do cérebro e das relações sociais.

A boa notícia é que, graças à neuroplasticidade, ele pode ser reduzido ou até revertido.
Educação crítica, diálogo empático, diversidade de experiências e práticas que equilibram emoção e razão (como mindfulness e terapia cognitiva) ajudam a reativar o pré-frontal e diminuir o domínio das emoções extremas.

Referências científicas
Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589.
Asp, E. W., Ramchandran, K., & Tranel, D. (2012). Authoritarianism, religious fundamentalism, and the human prefrontal cortex. Neuropsychology, 26(4), 414–421.
Zmigrod, L., Rentfrow, P. J., & Robbins, T. W. (2018). The partisan brain: An Identity-Based Model of Political Belief. Trends in Cognitive Sciences, 22(2), 152–163.

sábado, 4 de outubro de 2025

Como responder ao colapso social


A ciência e a modelação mostram que a nossa civilização está em colapso existencial, mas e se esta realidade aterradora for o estímulo de que a humanidade necessita para voltar a viver plenamente e com realização? Nesta palestra provocadora, a autora e jornalista best-seller internacional Sarah Wilson explora o lado positivo de perder o que temos dado como garantido. Sarah Wilson é autora de vários best-sellers do New York Times e da Amazon, podcaster, filósofa social e renegada.

É a apresentadora do podcast Wild with Sarah Wilson e escreve a popular newsletter da Substack, This is Precious, que conta com uma comunidade envolvida de 57.000 subscritores.

Sarah é conhecida mundialmente por ter fundado o movimento I Quit Sugar – um programa de bem-estar digital e 13 livros premiados vendidos em 52 países – que viu milhões de pessoas em todo o mundo transformarem a sua saúde. Em 2022, Sarah vendeu o negócio e doou 100% dos lucros a instituições de solidariedade.

O seu best-seller do New York Times, First, We Make the Beast Beautiful, é descrito por Mark Manson como "o melhor livro sobre como viver com a ansiedade que já li" e foi apresentado como livro do ano no Today Show da NBC. O seu livro This One Wild & Precious Life ganhou o prémio US Gold Nautilus de 2021.

Sarah é consultora de empresas e universidades em media, saúde mental e risco existencial. Foi oradora convidada para o curso de mestrado em Sustentabilidade e Liderança da Universidade de Cambridge e estabeleceu parcerias com organizações como o Climate Council, a Universidade de Harvard e a Intelligence Squared em campanhas. Esta palestra foi proferida num evento TEDx utilizando o formato de conferência TED, mas organizado de forma independente por uma comunidade local.

Fernando Santos Pessoa publicou em livro décadas de reflexões sobre Território e Paisagem

São 34 textos, que foram escritos ao longo de muitos anos, mas que «não são pensamentos dispersos» e denotam uma linha de pensamento coerente que Fernando Santos Pessoa, engenheiro silvicultor, arquiteto paisagista e professor universitário, sempre manteve.

Esta é uma descrição sucinta do livro “Território e Paisagem”, que junta reflexões do autor sobre temas diversos, mas principalmente ligados ao Ambiente, publicadas ao longo de mais de três décadas em diversas plataformas, incluindo o Sul Informação, que foi apresentado no dia 25 de Setembro, em Faro.

«Chego à conclusão de que ao longo dos anos mantive as mesmas convicções, aprofundando-as e esticando mais um bocadinho para novos desafios que nos aparecem. Mas a intenção é essa, é mostrar uma certa coerência mantida ao longo de tantos anos», disse ao Sul Informação Fernando Santos Pessoa, à margem da apresentação do seu mais recente livro.

«Nestes últimos anos surgiram desafios novos [ambientais e políticos] com os quais não contávamos aqui há 10 ou 20 anos. Dentro dessa ideia, como eu disse, sei que posso errar, mas faço o que for possível para não o fazer, dentro das minhas convicções», acrescentou.

Na sessão da passada semana, a apresentação da obra esteve a cargo do também arquiteto paisagista Gonçalo Gomes, antigo aluno (e não só) do homenageado, na Universidade do Algarve.

«Tenho de fazer uma declaração de interesses prévia: sou aluno, sou discípulo, sou amigo e sou admirador. Há sempre um certo viés, mas que eu não tenho qualquer problema em assumir, porque a leitura do que escreve e a análise da sua obra confirmam que eu não estou a exagerar», disse Gonçalo Gomes, durante a sessão.

Referindo-se a um texto dos anos 90, um dos que pode ser lido na obra apresentada, em que, apesar preconizar um futuro negro, nomeadamente grandes ameaças à liberdade e à democracia, Fernando Santos Pessoa avisava que «não se tratava de ser o Velho do Restelo», Gonçalo Gomes aproveitou para criar uma imagem diferente: «um “velho” no alto do Restelo, ou seja, alguém que, de um ponto elevado, lança um olhar mais lúcido, mais alongado e contextualizado sobre aquilo que se vai desenvolvendo à sua frente».

«Uma das grandes tónicas deste livro é ter um olhar humanista, sempre muito centrado no bem-estar das pessoas, na sua qualidade de vida e em algo que é fundamental, a dignidade do existir. Também se debruça sobre algo de que não falamos as vezes suficientes, que é a felicidade das pessoas, que é um tema sempre muito presente nas suas obras», resumiu.

Os 54 textos que estão unidos neste livro «enquadram-se em cinco grandes domínios, sendo que o Ambiente e Ecologia é o mais presente, seguido de um muito curioso, que é o Política e Utopia».

Muitos dos textos têm, de resto, uma forte componente de ativismo e de crítica «aos políticos negacionistas e interesseiros», como o próprio autor descreve na introdução do livro.

Arquitetura Paisagista e Ambiente, Ambiente e Cultura e Neste Tempo são os outros três domínios em que se dividem os textos presentes no livro.

Quanto ao futuro, Gonçalo Gomes não duvida que esta não será a última obra do seu antigo professor, uma vez que «a dinâmica é uma constante, quando falamos do arquiteto Fernando Santos Pessoa».

Fernando Pessoa não esconde, por seu lado, que por vezes se sente invadido por um certo pessimismo – «o meu grande amigo professor Jorge Paiva sempre disse: estamos sempre a malhar em ferro frio há tantas décadas, sempre a falar do mesmo assunto [sem conseguir que haja mudanças]» – e acaba a introdução a este livro com a frase «acho mesmo que vou parar».

Mais a frio, e de viva voz, admitiu ao nosso jornal, com um sorriso, que se calhar «qualquer dia sai mais qualquer coisa!».

“Território e Paisagem” junta textos e ilustrações de Fernando Santos Pessoa e é uma edição da editora Argumentum, com direção editorial de Filipe Jorge. O prefácio é do jornalista Idálio Revez.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia

Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, 22 de novembro de 2023. Foto de Mohammed Dahman

A esfera pública, tanto nas redes sociais quanto na diplomacia internacional, está dominada por uma novilíngua cautelosa, onde a precisão sucumbe ao medo da reação. Palavras como genocídio, racismo, xenofobia, e apartheid são substituídas por termos amenos, não porque perderam relevância, mas porque se tornaram mistificação e que ameaçam os ditadores e multinacionais.

Nas plataformas digitais, a autocensura é uma tática de sobrevivência e de submissão, à custa de desinformação massiva e de desgaste e até MEDO. Evitamos nomear o ódio e a violência com termos exatos para não sermos punidos por algoritmos ou pelo "cancelamento". O despeito pelas reivindicações dos sindicatos existe e os globocratas tudo estão a fazer (via controlo dos media, plataformas digitais, com desinformação e com posições abertamente desumanas e cheias de maldade) para os denegrir e isso é também uma ameaça à democracia. Acrescentaria arrivismo!

Essa moderação artificial impede que o público/ cidadão chame o que é sujo pelo seu nome, distorcendo a gravidade dos problemas sociais e ideológicos.

Há claramente uma lavagem do cidadão (citizen washing). A citizen washing refere-se a estratégias de empresas, governos ou organizações que usam uma retórica de cidadania, participação cívica ou empoderamento social para melhorar a sua imagem, sem realmente promoverem mudanças estruturais ou garantirem uma participação efetiva dos cidadãos. É, portanto, uma forma de “lavagem” comunicacional: aparentar compromisso democrático ou inclusivo sem o praticar de facto.

No palco global, essa mesma pressão se manifesta. O caso de Israel e o conflito em Gaza é o exemplo perfeito. A coragem da África do Sul de usar a palavra "genocídio" na Corte Internacional foi recebida com indignação por nações ocidentais, que preferiam a linguagem de "crise humanitária" ou "direito de defesa". Essa rejeição inicial serve para defender o status quo e evitar implicações políticas e jurídicas.

Estamos também mergulhados numa crise democrática com novos colonialismos: químicos (pesticidas e outros venenos) , lavagem verde, monoculturas intensivas e exóticas (eucalipto, soja, milho, etc), minerais raros, ouro, diamantes, Big Oil, Big Tech e Big Pharma. Onde vivem cá Elon Musk e os seus comparsas multibilionários, todos reconhecidamente de direita e por vezes com atitudes e compromissos da ultra-direita.

O Sul Global e a China perseguem os seus "activistas" ora ambientais ora dos direitos humanos e até os assassinam!

No fim, a novilíngua não é sobre civilidade, é sobre controle. Ao nos impedir de usar as palavras mais quentes, ela nos impede de sentir a indignação e a urgência necessárias para exigir mudanças. É uma ferramenta de moderação que prioriza a ordem da narrativa em detrimento da verdade nua e crua.

Assim como não chamamos de genocidas, quem comete crimes contra a humanidade, também não chamamos de fascistas quem defende políticas fascistas! Chamamos de extrema direita, suavizando o que são realmente. Para os Palestinianos, demorar a chamar de genocídio apenas aumenta o número de mortos.

Demorar a chamar os fascistas pelo nome, custará a nossa democracia.

Referências bibliográficas

Siouxsie & The Banshees - Dizzy


“Dizzy” dos Siouxsie & The Banshees tem uma história curiosa.
Foi gravada em 1994, numa fase já tardia da banda, mas só lançada oficialmente em 1995 na colectânea The Best of Siouxsie and the Banshees. Por isso, muitos fãs a veem como uma espécie de “canto do cisne” do grupo.

Significado da canção
A letra de “Dizzy” gira em torno de um estado emocional instável — uma mistura de fascínio, desorientação e vertigem (daí o título). O “dizzy” aqui pode simbolizar:
  1. A sensação de estar inebriado por alguém ou algo – o amor, a paixão, mas também a obsessão.
  2. Um estado de vulnerabilidade – deixar-se levar por forças que não se controlam totalmente.
  3. A linha ténue entre prazer e perigo – típica nas letras de Siouxsie, onde o fascínio e o risco coexistem.
Musicalmente, tem uma atmosfera mais melódica e luminosa do que o habitual no Banshees, quase pop, o que contrasta com o tom hipnótico e enigmático da letra. Alguns críticos dizem que essa dicotomia reforça a ideia de “tontura” — algo doce e sedutor, mas também instável.

Em resumo: “Dizzy” fala da vertigem emocional causada pela intensidade de um relacionamento ou de uma experiência, algo que nos tira do eixo entre prazer e desequilíbrio.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025

Jane Goodall - a cientista que redifiniu a Humanidade e respeito pelos Primatas


Morreu Jane Goodall, a mulher que demonstrou durante mais de 50 anos que os chimpanzés têm cultura e são parecidos com os humanos. Muito mais tarde, a genética acabaria por comprovar que diferimos apenas 1,2% a nível genético e que os chimpanzés e bonobos têm linguagem, usam e inventam instrumentos e são capazes de articular algo semelhante a palavras e de transmitir o conhecimento adquirido. Uma das suas observações mais emblemáticas foi acompanhar uma fêmea que se deslocou de um grupo que sabia apanhar formigas com uma vara previamente desramada e esfolada, o que per si já demonstra um enorme poder cognitivo, transmitindo esse conhecimento ao novo grupo, que assim pode ter acesso a proteína fácil. A aprendizagem da captura das formigas não é tarefa fácil e demora mais de 10 anos, pelo que demonstra que os chimpanzés também têm cultura. Obrigado, Jane!

Outras leituras

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Faleceu Jane Goodall - uma activista incansável


Goodall "morreu de causas naturais", enquanto estava na Califórnia, numa digressão de palestras pelos Estados Unidos, informou o Instituto Goodall, num comunicado publicado nas redes sociais.

Hoje despedimo-nos de uma lenda. Jane Goodall faleceu aos 91 anos, deixando um legado que mudou para sempre a forma como vemos os animais, a natureza e a nós próprios. Desde o seu trabalho pioneiro com chimpanzés na Tanzânia até à fundação do  Instituto Jane Goodall e da Roots & Shoots, ela inspirou o mundo com a sua coragem, compaixão e esperança inabalável. 


As descobertas da Dra. Goodall como etóloga revolucionaram a ciência e foi uma defensora incansável da proteção e restauração do nosso mundo natural. 

Obrigada, Jane, por nos lembrares que uma pessoa pode realmente mudar o mundo.

Biografia completa aqui

"Today, as a global phenomenon and thought leader, Jane Goodall is a leading actor for SDG 15 which aims to protect, restore and promote the sustainable use of terrestrial ecosystems in harmony with human communities, to build a better future for all." [fonte]

Áreas protegidas em risco na Europa. Trezentos hectares em Melides perdidos para grupo americano



A Europa está a perder áreas verdes a um ritmo de 600 campos de futebol por dia. Esses espaços, que antes abrigavam vida selvagem, capturavam carbono e forneciam alimentos, estão a desaparecer para darem lugar a novas construções, incluindo em Portugal. Uma investigação do jornal britânico The Guardian destaca o caso de Melides, onde um grupo norte-americano comprou quase três centenas de hectares para erguer um resort de luxo no qual várias personalidades estrangeiras já terão adquirido propriedades milionárias.

Pela primeira vez, replicando o que já acontece para medir a desflorestação na Amazónia, investigadores usaram imagens de satélite para avaliar a perda de áreas verdes na Europa ao longo de um período de cinco anos. O que antes era verde é agora cinzento devido à construção de estradas e edifícios, revelou o projeto Green to Grey, uma iniciativa do Guardian que contou com a colaboração de vários parceiros europeus.

Em Portugal, quase 300 hectares de área protegida em Melides, no município de Grândola, foram comprados pelo grupo imobiliário norte-americano Discovery Land Company para construir um resort e um campo de golfe.

O projeto CostaTerra Golf and Ocean Club, cujas propriedades rondam os 6,4 milhões de euros, ainda está em construção mas já terá casas vendidas a algumas celebridades estrangeiras, entre as quais a atriz Nicole Kidman, a duquesa de Sussex, Meghan Markle, e o seu marido príncipe Harry.

O grupo norte-americano que adquiriu os hectares de terreno decidiu, em 2021, encerrar o parque de campismo da Galé, que dava acesso à praia da Galé, em Melides, originando vários protestos ao longo dos últimos anos pelos antigos utilizadores do parque, que estava em funcionamento há várias décadas.

Toda essa área de Melides integra a Rede Natura 2000, uma iniciativa europeia que pretende assegurar a biodiversidade e conservar a natureza em zonas protegidas.

Os regulamentos europeus apenas preveem exceções ao desenvolvimento de projetos em áreas da Rede Natura 2000 em caso de interesse público superior. As autoridades portuguesas, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), aprovaram a construção do resort, com algumas entidades a destacarem os benefícios económicos que este trará.

No entanto, Ioannis Agapakis, advogado da ONG de direito ambiental ClientEarth, afirmou que um campo de golfe não preenche os requisitos ambientais. "É óbvio que não se trata de um interesse público superior", afirmou, já que "o simples facto de se encontrarem benefícios económicos num projeto não o torna de interesse público superior".

No seu site oficial, o resort CostaTerra promete “o luxo simples da vida europeia” na “última costa atlântica intocada do sul da Europa”.

Em comunicado, o grupo Discovery Land Company garantiu estar a desenvolver o CostaTerra “para ser um modelo de gestão ambiental e de sustentabilidade na região”, prometendo ser a “propriedade mais responsável do seu género”.

Segundo o Guardian, só a manutenção do campo de golfe, que ocupa 75 hectares, implica o consumo de cerca de 800 mil litros de água por dia.

“Todos os aspetos da propriedade, desde a conceção do campo de golfe, passando pelas práticas de gestão das águas pluviais e dos resíduos, até ao desenvolvimento e preservação do habitat e dos corredores de vida selvagem, foram concebidos para satisfazer ou exceder as normas da UE, incluindo as da Rede Natura 2000”, assegurou o grupo.

O projeto Green to Grey conclui que, em toda a Europa, cerca de 9.000 quilómetros quadrados de terreno - uma área equivalente à do Chipre - passaram da cor verde à cinzenta entre 2018 e 2023. Este número traduz-se em quase 30 quilómetros quadrados por semana, ou 600 campos de futebol por dia.

A análise abrangeu 30 países, cobrindo 96 por cento da área do Espaço Económico Europeu (EEE). Os cinco países com as maiores perdas de vegetação entre 2018 e 2023 foram a Turquia, Polónia, França, Alemanha e Reino Unido.

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024

Extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

Superfície global do oceano atingiu a temperatura recorde de 21 graus em 2024© Daniele Semeraro

O ritmo do aquecimento do oceano está a "acelerar" e a temperatura global à superfície bateu um recorde na primavera de 2024, atingindo 21 graus Celsius (ºC), segundo um relatório do Serviço de Monitorização Marinha do programa europeu Copernicus.

"Todo o oceano é afetado pela tripla crise planetária: alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição", é referido no nono relatório sobre o estado dos mares do Serviço de Monitorização Marinha do programa da União Europeia de observação da Terra publicado esta terça-feira.

O nível do oceano está a subir a um ritmo sem precedentes de 40,8 milímetros (mm) por década, e a extensão do gelo no Ártico e na Antártida está a atingir mínimos históricos, de acordo com outros dados recolhidos no relatório.

"Reduzir as emissões, embora essencial, já não é suficiente por si só para salvar o planeta", conclui o relatório, sublinhando que "os governos devem restaurar os ecossistemas e reforçar as políticas oceânicas para proteger uma economia azul global que vale milhares de milhões".

De acordo com os dados apresentados, analisados por mais de 70 cientistas, o aquecimento da superfície do oceano é "particularmente rápido" e três vezes superior à média no Mar Negro, praticamente o mesmo que no Báltico, e mais do dobro da média no Mediterrâneo, onde o aumento é de 0,41ºC por década e as ondas de calor marinhas ocorrem entre 16 e 23 dias a mais a cada 10 anos.

Tanto 2023 como 2024 registaram ondas de calor "excecionalmente intensas e persistentes", que levaram a temperaturas da superfície do oceano 0,25ºC superiores aos recordes anteriores, superando os recordes de 2015 e 2016.

Houve zonas do Atlântico que, em 2023, experimentaram mais de 300 dias em condições de ondas de calor marinhas.

No verão desse ano, a onda de calor mais longa alguma vez registada no Mediterrâneo fez com que as temperaturas à superfície subissem 4,3 graus acima do normal naquele mar, ou seja, 40,8 mm de subida do nível do mar por década.

A subida global do nível do mar está também a "acelerar a um ritmo sem precedentes": 31,4 mm por década entre 1999 e 2006, 39,3 mm por década entre 2007 e 2015 e 40,8 mm por década entre 2016 e 2024.

O aumento cumulativo entre 1901 e 2024 é de 228 mm, sendo o risco resultante de inundações e erosão em zonas costeiras que albergam cerca de 200 milhões de pessoas.

Todos os países europeus com densidades populacionais costeiras acima das 200 pessoas por quilómetro quadrado estão a registar uma subida do nível do mar acima da média.

Em relação à perda de gelo marinho, o Ártico registou quatro mínimos históricos entre dezembro de 2024 e março de 2025, mês em que se registaram menos 1,94 milhões de quilómetros quadrados do que a média de inverno de longo prazo, uma área quase seis vezes superior à Polónia.

Na Antártida, 2025 marca o terceiro ano consecutivo de baixa extensão de gelo marinho. Em fevereiro, havia menos 1,6 milhões de quilómetros quadrados do que a média de longo prazo, uma área quase três vezes superior à de França.

O aquecimento e a acidificação afetam 16% dos corais ameaçados e 30% dos severamente ameaçados.

Os resíduos plásticos poluem todas as bacias oceânicas e, entre os países que emitem mais de 10.000 toneladas por ano, 75% fazem fronteira com os recifes de coral.

O Serviço de Monitorização Marinha é um dos seis que compõem o programa de observação da Terra Copernicus, financiado pela União Europeia.

Para garantir circulação "mais segura e permanente" entre Campo do Gerês e Portela do Homem

Estrada da Mata de Albergaria vai ser pavimentada por 1 milhão de euros

Uma intervenção que só vai fazer aumentar a carga em Albergaria e consequentemente a poluição atmosférica e sonora, o abandono de lixo, a deposição de poeiras que recobrem a vegetação, o pisoteio descuidado de plantas e a perturbação constante da fauna — não é raro o atropelamento de animais como corços, martas ou raposas. E o problema é que estes danos não são temporários. Acumulam-se num ciclo contínuo de degradação que ameaça transformar uma área que deveria ser de proteção rigorosa num exemplo preocupante de desleixo ambiental. Senhor Presidente, ainda é tempo de reconsiderar a dita requalificação de Albergaria. Não transforme um património único, que deveria ser defendido com visão e coragem, num instrumento de conveniência política. A proteção da Mata exige responsabilidade. O que está em causa não é apenas o presente, mas sim a herança que deixaremos às gerações do futuro.

Será gasto um milhão de euros desviando um montante que deveria ser investido em projetos que inspirassem e orientassem a população a uma relação com a Mata que viabilizasse a sua manutenção, estudo e contemplação. 

Fonte: O Minho 

A Demagogia da Direita - usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas

É desconcertante como grande parte da direita portuguesa continua a usar o exemplo da Irlanda para defender que Portugal seria um país rico caso cobrasse impostos mais baixos sobre os lucros das empresas.
Como se a única diferença entre Portugal e a Irlanda fossem as taxas de imposto:
- como se os níveis de escolaridade na Irlanda não fossem há décadas superiores aos portugueses 
- e ainda são: 83,5% dos irlandeses adultos têm pelo menos o 12º ano, enquanto em Portugal são 61,3%, a taxa mais baixa da UE (ver gráfico);
- como se os irlandeses não falassem inglês nativo (a mesma língua que falam os chefes das empresas de sectores sofisticados que lá investem desde há décadas);
- como se o Estado irlandês não tivesse seguido, desde 1958, uma estratégia persistente de atracção de investidores americanos em sectores específicos de alta tecnologia (enquanto nós insistimos na ideia de disparar para todo o lado a ver se chove).

Mais desconcertante ainda é insistirem em usar números que não passam de uma ficção. Não são só os cépticos que o dizem: é o próprio Instituto Nacional de Estatística irlandês (o CSO). A questão é fácil de perceber: o facto de a Irlanda funcionar como uma espécie de paraíso fiscal leva muitas empresas a registar no país activos que rendem lucros, mas que não deixam nenhuma actividade no país.

Por exemplo, grandes multinacionais, sobretudo nos sectores das tecnologias digitais (Google, Apple, Meta) e farmacêutico (Pfizer, Johnson & Johnson) registam na Irlanda os lucros associados à propriedade intelectual, inflacionando as contas nacionais sem corresponder a actividade produtiva real no território.

Por isso, o governo e o CSO (o instituto nacional de estatística lá do sítio) passaram a dar destaque a medidas alternativas, como o Rendimento Nacional Bruto Modificado (RNB*), que exclui os efeitos artificiais da transferência de activos e lucros de multinacionais.

Segundo o CSO, o valor do RNB* da Irlanda em 2024 era pouco mais de metade (57%) do valor do PIB nesse ano (ver aqui). Estão a ver o efeito que isto tem na análise dos níveis relativos de riqueza, dos níveis de endividamento do país, ou do peso das despesas públicas na economia - tudo variáveis cujos indicadores usam o PIB no seu cálculo?

Podemos ter uma conversa séria sobre a relação entre competitividade e fiscalidade, claro, assumindo sempre que há diferentes desenhos possíveis para um sistema fiscal que se quer eficiente e justo. Mas já paravam com tanta demagogia, não era?

Além disso, A emigração irlandesa ainda é elevada e isso é demonstrativo de que a riqueza não é devidamente distribuída.

Entretanto, os irlandeses que trabalham em Inglaterra mesmo os altamente qualificados são discriminados. São vistos como os indostânicos em Portugal. Mão-de-obra barata, sem acesso a cargos de topo nas empresas. Sei bem do que falo pois trabalhei durante anos em várias empresas britânicas onde testemunhei sempre o mesmo padrão ( Carlos Vargas) . Os irlandeses são imigrantes e tratados dentro do padrão de discriminação "natural".