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| Foto e texto do meu amigo botânico Carlos Aguiar |
Em modo de fim de semana, e cheia de ruídos inflamados nas redes sociais, quando li esta crónica, foi como foi como uma raiz a travar a pressa do passo.
"Lá num canto do terreno vive a árvore, que não é minha. Quem pela primeira vez a vê, estranha: uma nogueira sem tronco, de copa arrojada pelo chão? Abeiram-se os curiosos da semba e percebem: é uma árvore, sim, de grosso tronco, manchado de líquenes amarelos, como é próprio da espécie, fincado dois metros abaixo, sólido, no solo fértil da horta do vizinho.
Diz o direito civil dos romanos que eu, como proprietário, tenho direitos exclusivos à coluna de ar que se ergue na vertical da estrema. Nenhum ramo ou folha pode invadir o meu espaço sem consentimento. Mas consinto, porque decepar uma nogueira brava é crime botânico grave... e os frutos que caem deste lado pertencem-me de direito.
Árvore, encontrei-te triste e enfraquecida. As entranhas trespassadas por videiras com a grossura de um punho. Braças e pernadas feridas pelos espinhos de silvas e roseiras-bravas. Adossado ao tronco, um vasto sabugueiro tirava-te a luz de que tanto precisas. Os ramos jovens secos nas pontas; as folhas manchadas pela antracnose, os frutos negros e mofados pela Xanthomonas.
Olhei para ti e compadeci-me. Armei-me de tesoura e serrote e, decidido, carreguei nos teus inimigos. Como um explorador de terras virgens, calquei ervas, cortei troncos, sarmentos e turiões, aparei galhos. Vieram os dias grandes e aqueceu o tempo. Da mesma forma que sorvo o ar fresco da manhã, bebo a água fresca da fonte e, a honrar o sol nascente, trinco uma maçã, abriste a copa ao sol, alongaste no espaço vazio os ramos, e estendeste as tuas raízes ao solo da horta, a aproveitar, à socapa, o azoto e a água das batateiras. Agora a luz é toda tua. O verde encheu o céu. Pelo ar veio o pólen, o sexo aconteceu e carregaste-te de frutos.
Na reserva da sombra da casa, levanto os olhos do livro e sinto-te. Fantasio que és um ser senciente regressado do passado, que pensas, decides e sabes agradecer. Com as folhas a tremeluzir na brisa julgo que sussurras: “vem cá”. Quando o vento mais forte te limpa os excessos da copa e os ramos secos caem num brando estrépito no solo, estás a dizer-me: “também sou capaz, sem ajuda”. O rebrilho das folhas molhadas de murrinha na luz crua da primavera é um sorriso de bem-estar. E os frutos? Presentes de agradecimento. Se na colheita me golpeias com uma noz, é porque brincas; zangada seria um galho de peso. Ou talvez me estejas a pedir mais cuidados. Uma calda de cobre? Adubo ao pé? Ergo-me e riposto: se te portares bem, no próximo ano, veremos.
As tuas folhas cansadas crestam e amarelecem. Em breve devolverão ao solo a fertilidade de que necessitarás no próximo ano. Dormirás profundamente, indiferente à água a escorrer pelos caules despidos e à agitação do vento. E a seiva suculenta protegida, sob a casca, a salvo das ferroadas da geada.
Árvore que és quase minha, chegamos juntos ao outono na esperança de uma nova primavera."

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