Corinne Le Quéré: Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate
A palestra de Corinne Le Quéré, intitulada “Carbon Storage by the Natural Land and Ocean Reservoirs in a Changing Climate”, explica como o ciclo global do carbono e o clima estão profundamente ligados e como as atividades humanas estão a alterar esse equilíbrio. Ela começa por recordar que, ao longo de milhões de anos, o CO₂ atmosférico e a temperatura variam em conjunto, de modo que perturbações grandes no ciclo do carbono amplificam o aquecimento ou o arrefecimento do planeta. O aquecimento atual, de cerca de 1,2 °C, é causado principalmente pelas emissões antropogénicas de CO₂ provenientes da queima de combustíveis fósseis e da mudança de uso do solo, e não por variabilidade natural.
Para estabilizar a temperatura, é necessário que as emissões de CO₂ atinjam um pico e depois caiam até zero líquido; quanto mais baixo for o nível de aquecimento que se aceita, mais rápido e mais profundo terá de ser esse corte. Os cenários do IPCC indicam que, com as políticas atuais, o aquecimento provável ficará perto de cerca de 3 °C, muito acima da meta de “bem abaixo de 2 °C” do Acordo de Paris. Apesar disso, há progresso real: em vários países, como os Estados Unidos, muitos países europeus, o Reino Unido, a França e, mais recentemente, o Japão, o Brasil e a África do Sul, as emissões fósseis caíram durante pelo menos uma década, mesmo com as economias a crescer, graças a mais eficiência energética, à substituição de combustíveis fósseis por renováveis e ao reforço de políticas climáticas. A mensagem central é que “muita coisa já está a acontecer”, mas é preciso fazer mais, mais rápido e em maior escala.
Atualmente, os sumidouros naturais - terra e oceano - absorvem em média cerca de 55% das emissões anuais de CO₂, travando consideravelmente o aquecimento. No entanto, as mudanças climáticas já estão a reduzir a eficiência desses sumidouros: estimativas indicam retroalimentações que diminuem o sumidouro terrestre em cerca de 20% e o oceânico em cerca de 7% na última década. Modelos projetam que, ao longo deste século, essas retroalimentações positivas, que amplificam o aquecimento, podem reduzir a capacidade de absorção em cerca de 30 a 40% em relação ao que seria sem mudanças climáticas.
A palestrante dedica atenção especial a dois tópicos: o Oceano Austral e os incêndios florestais. No caso do Oceano Austral, apresenta resultados de modelação que separam os efeitos dos gases com efeito de estufa e do ozono estratosférico sobre os ventos, a mistura e a circulação. No passado recente, a depleção do ozono dominou as mudanças nos ventos e na dinâmica do carbono; no futuro, os gases com efeito de estufa dominarão. O efeito direto do aquecimento da superfície tende a dominar a resposta do carbono oceânico, enquanto mudanças na mistura e na circulação têm efeitos opostos no carbono “natural” e no carbono antropogénico, parcialmente compensando-se. Quanto aos incêndios florestais, descreve um estudo que usa machine learning para separar influências climáticas, de raios e humanas. Nas últimas duas décadas, houve um aumento de cerca de 60% nas emissões de CO₂ de incêndios florestais a nível global, com uma anomalia particularmente grande em 2023, como no Canadá. Embora as florestas possam regenerar-se e reabsorver parte desse carbono, o atraso entre a emissão e o regrowth deixa mais CO₂ na atmosfera, criando uma retroalimentação positiva.
Por fim, Corinne Le Quéré aborda o que pode acontecer depois de 2100. Para este século, não há evidência forte de mudanças abruptas nos feedbacks do carbono, mas além de 2100 a situação é mais incerta: em cenários extremos, terra e oceano podem até começar a libertar carbono em vez de o absorver. Ela conclui que é crucial manter e reforçar políticas climáticas ambiciosas e estáveis, desenvolver e escalar a remoção deliberada de CO₂ (como BECCS e DACCS), melhorar a monitorização do ciclo do carbono e preparar estratégias de adaptação que incluam a gestão de perturbações como incêndios e pragas.
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