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terça-feira, 7 de setembro de 2010
Arn Naess [1912-2009] e Bill Devall [1938-2009] In Memoriam
Segue um excelente registo videográfico dos fundadores do Movimento da Ecologia Profunda e uma pequena bio de Bill Devan.
Portrait of the Norwegian philosopher Arne Naess and the Deep Ecology Movement. Made in 1997 by Rerun Productions, The Netherlands. Shot on location in Naess's hut Tvergastein on the Hardangervidda mountain plateau, and in Berkeley, USA. With Bill Devall, Vandana Shiva, George Sessions, Helena Norberg-Hodge, and Harold Glasser
Faleceu em 26 de Junho do ano passado, Bill Devall o co-autor do livro "Ecologia Profunda: dar prioridade à natureza na nossa vida" (título da edição portuguesa, de 2004; no original, Deep Ecology: living as if nature mattered, 1985), sendo o outro autor George Sessions. Bill Devall foi um dos marcos do movimento da Deep Ecology, daí a sua relevância em termos globais.
A morte surgiu na sequência de uma operação de coração aberto. A sua última aparição em público foi provavelmente em Setembro 2008 na conferência da Society for the Human Ecology na Western Washington University em Bellingham.
Nasceu em Kansas City, Kansas, em 2 de Dezembro de 1938, licenciou-se na Universidade de Kansas e doutorou-se na Universidade de Oregon. Ensinou na Universidade de Alberta por um período curto e foi muitos anos docente em sociologia na Humboldt University (Califórnia do Norte).
Além do livro já citado, que foi o seu primeiro, escreveu ainda:
- Simple in Means and Rich in Ends, 1988
- Living Richly in an Age of Limits, 1993
Activista, foi um dos fundadores do North Coast Enviornmental Center com sede em Arcata, agiu a favor da reciclagem e da proteção das praias, florestas e espécies em perigo a nível local; a nível nacional dos EUA, destacou-se na luta pela proteção das florestas antigas do Pacífico Noroeste.
Foi praticante de Budismo Zen, tendo ajudado a fundar a comunidade Zen local.
Editou numerosos artigos, e compilou o livro Clearcut: The Tragedy of Industrial Forestry, tendo sido co-compilador de numerosos livros e artigos de Arne Naess, o filósofo norueguês inspirador do movimento da ecologia profunda, entre os quais Selected Works of Arne Naess, 2005, e, com Alan Drengson, da antologia Ecology of Wisdom: Writings by Arne Naess, 2008.
Baseado numa nota do número do Outono 2009 da revista Environmental Ethics.
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terça-feira, 17 de novembro de 2020
Os Oito Princípios da Ecologia Profunda
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| Arne Naess |
"A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos)", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 05-06-2017.
Eis o artigo.
“Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho;eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces”Henry Thoreau (1817-1862)
Relembrar os princípios mais profundos da ecologia é uma boa maneira para se comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente – 05 de junho – ainda mais neste momento em que se comemora os duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (nascido em 12/07/1817).
A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos). Os movimentos rasos (ou maquiagem verde) limitam-se a tentar minimizar os problemas ambientais e garantir o enriquecimento das sucessivas gerações humanas (a despeito do empobrecimento da natureza), enquanto a Ecologia Profunda vai na raiz dos problemas ambientais e defende os direitos de toda a comunidade biótica.
Na definição do físico, ambientalista e escritor Fritjof Capra (nascido em 1939): “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.
Em 1984, Arne Næss e George Sessions publicaram o texto “Basic Principles of Deep Ecology” onde enumeram os oito princípios da plataforma da Ecologia Profunda, conforme apresentado abaixo (em tradução livre para o português). Estes princípios estão em conformidade com o pensamento de Henry Thoreau (1817-1862) e são, cada vez mais, atuais diante da ameaça, crescentemente vigente no Antropoceno, da sexta extinção em massa da vida na Terra.
Assim, cabe reafirmar que entre as principais ameaças à vida estão a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. O Acordo de Paris oferecia uma resposta tímida, mas correta no sentido de mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Porém, o rompimento unilateral provocado por Donald Trump e pela saída obscurantista dos Estados Unidos de um Tratado Internacional que demorou anos para ser aprovado, mostra o quanto é difícil buscar uma relação minimamente harmoniosa entre a civilização e o meio ambiente. Em nome do crescimento econômico e da geração de emprego (sujo) o presidente dos EUA, desorganizando a governança internacional, atua no sentido de acelerar o ritmo de destruição da natureza, reforçando a marcha que leva ao precipício da civilização e ao ecocídio.
A sociedade depende da natureza e não o contrário. O ser humano não pode continuar agindo como um ectoparasita que mata seu hospedeiro e destrói os ecossistemas.
Não faltam estudos e avisos sobre a crise ecológica em curso.
Desta forma, mais do que nunca é preciso lembrar e reafirmar os ensinamentos da Ecologia Profunda e os 8 princípios para mudar o Mundo, escritos por Arne Næss e George Sessions:
2.Diversidade: A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmos.
3. Necessidades vitais: Os seres humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade exceto para satisfazer necessidades humanas vitais.
4.População: A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um substancial decrescimento da população humana. O florescimento da vida não-humana exige essa diminuição.
5.Interferência humana: A atual interferência humana no mundo não-humano é excessiva e a situação está piorando aceleradamente.
6.Mudança de políticas: Em conformidade com os princípios anteriores, as políticas precisam ser mudadas. As mudanças políticas afetam as estruturas básicas da economia, da tecnologia e da ideologia. A situação que resultará desta alteração será profundamente diferente da atual.
7.Qualidade de vida: A mudança ideológica ocorrerá, sobretudo, no apreciar da qualidade de vida (manter-se em situações de valor intrínseco), em vez da adesão a padrões de vida mais elevados. Haverá uma consciência profunda da diferença entre o grande (quantidade) e o importante (qualidade).
8.Obrigação de agir: Aqueles que subscrevem os princípios precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias.Referências:
ALVES, JED. Henry Thoreau: um revolucionário, Colabora, RJ, 20/01/2016
Arne Næss and George Sessions. Basic Principles of Deep Ecology, The Anarchist Library, 1984
Deep ecology
Artigo da Tree Hugger
Naess's Deep Ecology: Implications for the Human Prospect and Challenges for the Future
The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement- by Arne Naess
Ecology for Whom? Deep Ecology and the Death of Anthropocentrism
Daring to Care: Deep Ecology and Effective Popular Environmentalism
Deep ecology: Defending the Earth
Deep Ecology (1972-2016)
Artigo da Tree Hugger
Naess's Deep Ecology: Implications for the Human Prospect and Challenges for the Future
The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement- by Arne Naess
Ecology for Whom? Deep Ecology and the Death of Anthropocentrism
Daring to Care: Deep Ecology and Effective Popular Environmentalism
Deep ecology: Defending the Earth
Deep Ecology (1972-2016)
Leia mais
- A Ecologia Profunda e os novos direitos. Entrevista especial com Fábio Corrêa Souza de Oliveira
- Por Uma Ecologia Profunda E Revolucionária
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terça-feira, 3 de março de 2009
In memoriam a Arne Naess
O pequeno filme THE CALL OF THE MOUNTAIN com entrevista a Arne Naess Postagens do Bioterra sobre Arne Naess
Minha homengem ao grande vulto da Ecologia Profunda, Arne Naess, falecido a 12 de Janeiro de 2009.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Ecologia Profunda - o que é?
A Ecologia Profunda foi proposta pelo filósofo norueguês Arne Naess em 1973 como uma resposta a visão dominante sobre o uso dos recursos naturais. Arne Naess se inclui na tradição de pensamento ecológico-filosófico de Henry Thoreau, proposto em Walden, e de Aldo Leopold, na sua Ética da Terra. Denominou de Ecologia Profunda por demonstrar claramente a sua distinção frente ao paradigma dominante. No Brasil, nesta mesma época, o José Lutzemberger já propunha ideias semelhantes e desencadeava o movimento ecológico brasileiro com a criação da AGAPAN (Associação Gaucha de Proteção ao Ambiente Natural).
O quadro abaixo demonstra, pelo menos em parte, as propostas de Arne Naess e as suas diferenças frente a visão de mundo predominante.
Naess A. The shallow and the deep, long-range ecology movements: a summary. Inquiry 1973;16:95:100.
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quinta-feira, 30 de março de 2017
Ecologia Profunda: Um Novo Paradigma
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| Arne Naess (Biografia aqui) |
Crise de Percepção
À medida que o século se aproxima do fim, as preocupações com o meio ambiente adquirem suprema importância. Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo se tornar irreversível. Temos ampla documentação a respeito da extensão e da importância desses problemas.
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. Por exemplo, somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala massiva continuará enquanto o Hemisfério Meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão, o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência étnica e tribal que se tornou a característica mais importante da era pós-guerra fria.
Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise, que é, em grande medida, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e em especial nossas grandes instituições sociais, concordam com os conceitos de uma visão de inundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e globalmente interligado.
Há soluções para os principais problemas de nosso tempo, algumas delas até mesmo simples. Mas requerem uma mudança radical em nossas percepções, no nosso pensamento e nos nossos valores. E, de fato, estamos agora no princípio dessa mudança fundamental de visão do mundo na ciência e na sociedade, uma mudança de paradigma tão radical como o foi a revolução copernicana. Porém, essa compreensão ainda não despontou entre a maioria dos nossos líderes políticos. O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos lideres das nossas corporações. Nem os administradores e os professores das nossas grandes universidades.
Nossos líderes não só deixam de reconhecer como diferentes problemas estão inter-relacionados; eles também se recusam a reconhecer como as suas assim chamadas soluções afetam as gerações futuras. A partir do ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis". O conceito de sustentabilidade adquiriu importância-chave no movimento ecológico e é realmente fundamental. Lester Brown, do Worldwatch lnstitule, deu uma definição simples, clara e bela: "Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras." Este, em resumo, é o grande desafio do nosso tempo: criar comunidades sustentáveis — isto é. ambientes sociais e culturais onde podemos satisfazer as nossa necessidades e aspirações sem diminuir as chances das gerações futuras.
A Mudança de Paradigma
Na minha vida de físico, meu principal interesse tem sido a dramática mudança de concepções e de idéias que ocorreu na física durante as três primeiras décadas deste século, e ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo; da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.
A nova visão da realidade não era, em absoluto, fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender essa nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial. Eles precisaram de um longo tempo para superar essa crise, mas, no fim, foram recompensados por profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana.
As dramáticas mudanças de pensamento que ocorreram na física no principio deste século têm sido amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de cinqüenta anos. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um "paradigma" científico, definido como "uma constelação de realizações — concepções, valores, técnicas, etc. — compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos". Mudanças de paradigmas, de acordo com Kuhn, ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias denominadas "mudanças de paradigma".
Hoje, vinte e cinco anos depois da análise de Kuhn, reconhecemos a mudança de paradigma em física como pane integral de uma transformação cultural muito mais ampla. A crise intelectual dos físicos quânticos na década de 20 espelha-se hoje numa crise cultural semelhante, porém muito mais ampla. Consequentemente, o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência, mas também na arena social, em proporções ainda mais amplas.5 Para analisar essa transformação cultural, generalizei a definição de Kuhn de um paradigma científico até obter um paradigma social, que defino como "uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a urna visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza".
O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias idéias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e — por fim, mas não menos importante — a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.
Ecologia Profunda
O novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo "ecológica" for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).
Os dois termos, "holísticos" e "ecológico", diferem ligeiramente em seus significados, e parece que "holístico" é uni pouco menos apropriado para descrever o novo paradigma. Uma visão holística, digamos, de uma bicicleta significa ver a bicicleta como uni todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências das suas partes. Uma visão ecológica da bicicleta inclui isso, mas acrescenta-lhe a percepção de como a bicicleta está encaixada no seu ambiente natural e social — de onde vêm as matérias-primas que entram nela, como foi fabricada, como seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual ela é usada, e assim por diante. Essa distinção entre "holístico" e "ecológico" é ainda mais importante quando falamos sobre sistemas vivos, para os quais as conexões com o meio ambiente são muito mais vitais.
O sentido em que eu uso o termo "ecológico" está associado com uma escola filosófica específica e, além disso, com um movimento popular global conhecido corno "ecologia profunda", que está, rapidamente, adquirindo proeminência. A escola filosófica foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de ‘70, com sua distinção entre "ecologia rasa" e "ecologia profunda". Esta distinção é hoje amplamente aceita como um termo muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo.
A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de "uso", à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos — ou qualquer outra coisa — do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.
Em última análise, a percepção da ecologia profunda é percepção espiritual ou religiosa. Quando a concepção de espírito humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é, pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais, quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos, da dos budistas, ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norte-americanas.
Há outro modo pelo qual Arne Naess caracterizou a ecologia profunda. "A essência da ecologia profunda", diz ele, "consiste em formular questões mais profundas." É também essa a essência de uma mudança de paradigma. Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte.
Ética
Toda a questão dos valores é fundamental para a ecologia profunda; é, de fato, sua característica definidora central. Enquanto que o velho paradigma está baseado em valores antropocêntricos (centralizados no ser humano), a ecologia profunda está alicerçada em valores ecocêntricos (centralizados na Terra). É uma visão de mundo que reconhece o valor inerente da vida não-humana. Todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências. Quando essa percepção ecológica profunda torna-se parte de nossa consciência cotidiana, emerge um sistema de ética radicalmente novo.
Essa ética ecológica profunda é urgentemente necessária nos dias de hoje, e especialmente na ciência, uma vez que a maior parte daquilo que os cientistas fazem não atua no sentido de promover a vida nem de preservar a vida, mas sim no sentido de destruir a vida. Com os físicos projetando sistemas de armamentos que ameaçam eliminar a vida do planeta, com os químicos contaminando o meio ambiente global, com os biólogos pondo à solta tipos novos e desconhecidos de microorganismos sem saber as conseqüências, com psicólogos e outros cientistas torturando animais em nome do progresso científico — com todas essas atividades em andamento, parece da máxima urgência introduzir padrões "ecoéticos" na ciência.
Geralmente, não se reconhece que os valores não são periféricos à ciência e à tecnologia, mas constituem sua própria base e força motriz. Durante a revolução científica no século XVII, os valores eram separados dos fatos, e desde essa época tendemos a acreditar que os fatos científicos são independentes daquilo que fazemos, e são, portanto, independentes dos nossos valores. Na realidade, os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanas — em uma palavra, emergem de um paradigma — dos quais não podem ser separados. Embora grande parte das pesquisas detalhadas possa não depender explicitamente do sistema de valores do cientista, o paradigma mais amplo, em cujo âmbito essa pesquisa é desenvolvida, nunca será livre de valores. Portanto, os cientistas são responsáveis pelas suas pesquisas não apenas intelectual, mas também moralmente. Dentro do contexto da ecologia profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda a natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda, como Arne Naess claramente reconhece:
"O cuidado flui naturalmente se o "eu" é ampliado e aprofundado de modo que a proteção da Natureza livre seja sentida e concebida como proteção de nós mesmos... Assim como não precisamos de nenhuma moralidade para nos fazer respirar... [da mesma forma] se o seu "eu", no sentido amplo dessa palavra, abraça uma outro ser, você não precisa de advertências morais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue normas de estrita ética ambientalista.
O que isto implica é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamento correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica. A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos parte integral da teia da vida. No entanto, se temos a percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva. De fato, mal podemos deixar de responder dessa maneira.
Mudança da Física para as Ciências da Vida
Chamando a nova visão emergente da realidade de "ecológica" no sentido da ecologia profunda, enfatizamos que a vida se encontra em seu próprio cerne. Este é um ponto importante para a ciência, pois, no velho paradigma, a física foi o modelo e a fonte de metáforas para todas as outras ciências. "Toda a filosofia é como uma árvore" escreveu Descartes. "As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências”.
A ecologia profunda superou essa metáfora cartesiana. Mesmo que a mudança de paradigma em física ainda seja de especial interesse porque foi a primeira a ocorrer na ciência moderna, a física perdeu o seu papel como a ciência que fornece a descrição mais fundamental da realidade. Entretanto, hoje, isto ainda não é geralmente reconhecido. Cientistas, bem como não-cientistas, freqüentemente retêm a crença popular segundo a qual "se você quer realmente saber a explicação última, terá de perguntar a um físico", o que é claramente uma falácia cartesiana. Hoje, a mudança de paradigma na ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida.
Trechos retirados de "A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos", Capra, F. 1996. São Paulo: Cultrix, p. 23-29.
À medida que o século se aproxima do fim, as preocupações com o meio ambiente adquirem suprema importância. Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo se tornar irreversível. Temos ampla documentação a respeito da extensão e da importância desses problemas.
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. Por exemplo, somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala massiva continuará enquanto o Hemisfério Meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão, o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência étnica e tribal que se tornou a característica mais importante da era pós-guerra fria.
Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise, que é, em grande medida, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e em especial nossas grandes instituições sociais, concordam com os conceitos de uma visão de inundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e globalmente interligado.
Há soluções para os principais problemas de nosso tempo, algumas delas até mesmo simples. Mas requerem uma mudança radical em nossas percepções, no nosso pensamento e nos nossos valores. E, de fato, estamos agora no princípio dessa mudança fundamental de visão do mundo na ciência e na sociedade, uma mudança de paradigma tão radical como o foi a revolução copernicana. Porém, essa compreensão ainda não despontou entre a maioria dos nossos líderes políticos. O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos lideres das nossas corporações. Nem os administradores e os professores das nossas grandes universidades.
Nossos líderes não só deixam de reconhecer como diferentes problemas estão inter-relacionados; eles também se recusam a reconhecer como as suas assim chamadas soluções afetam as gerações futuras. A partir do ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis". O conceito de sustentabilidade adquiriu importância-chave no movimento ecológico e é realmente fundamental. Lester Brown, do Worldwatch lnstitule, deu uma definição simples, clara e bela: "Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras." Este, em resumo, é o grande desafio do nosso tempo: criar comunidades sustentáveis — isto é. ambientes sociais e culturais onde podemos satisfazer as nossa necessidades e aspirações sem diminuir as chances das gerações futuras.
A Mudança de Paradigma
Na minha vida de físico, meu principal interesse tem sido a dramática mudança de concepções e de idéias que ocorreu na física durante as três primeiras décadas deste século, e ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo; da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.
A nova visão da realidade não era, em absoluto, fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender essa nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial. Eles precisaram de um longo tempo para superar essa crise, mas, no fim, foram recompensados por profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana.
As dramáticas mudanças de pensamento que ocorreram na física no principio deste século têm sido amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de cinqüenta anos. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um "paradigma" científico, definido como "uma constelação de realizações — concepções, valores, técnicas, etc. — compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos". Mudanças de paradigmas, de acordo com Kuhn, ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias denominadas "mudanças de paradigma".
Hoje, vinte e cinco anos depois da análise de Kuhn, reconhecemos a mudança de paradigma em física como pane integral de uma transformação cultural muito mais ampla. A crise intelectual dos físicos quânticos na década de 20 espelha-se hoje numa crise cultural semelhante, porém muito mais ampla. Consequentemente, o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência, mas também na arena social, em proporções ainda mais amplas.5 Para analisar essa transformação cultural, generalizei a definição de Kuhn de um paradigma científico até obter um paradigma social, que defino como "uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a urna visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza".
O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias idéias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e — por fim, mas não menos importante — a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.
Ecologia Profunda
O novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo "ecológica" for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).
Os dois termos, "holísticos" e "ecológico", diferem ligeiramente em seus significados, e parece que "holístico" é uni pouco menos apropriado para descrever o novo paradigma. Uma visão holística, digamos, de uma bicicleta significa ver a bicicleta como uni todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências das suas partes. Uma visão ecológica da bicicleta inclui isso, mas acrescenta-lhe a percepção de como a bicicleta está encaixada no seu ambiente natural e social — de onde vêm as matérias-primas que entram nela, como foi fabricada, como seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual ela é usada, e assim por diante. Essa distinção entre "holístico" e "ecológico" é ainda mais importante quando falamos sobre sistemas vivos, para os quais as conexões com o meio ambiente são muito mais vitais.
O sentido em que eu uso o termo "ecológico" está associado com uma escola filosófica específica e, além disso, com um movimento popular global conhecido corno "ecologia profunda", que está, rapidamente, adquirindo proeminência. A escola filosófica foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de ‘70, com sua distinção entre "ecologia rasa" e "ecologia profunda". Esta distinção é hoje amplamente aceita como um termo muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo.
A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de "uso", à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos — ou qualquer outra coisa — do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.
Em última análise, a percepção da ecologia profunda é percepção espiritual ou religiosa. Quando a concepção de espírito humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é, pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais, quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos, da dos budistas, ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norte-americanas.
Há outro modo pelo qual Arne Naess caracterizou a ecologia profunda. "A essência da ecologia profunda", diz ele, "consiste em formular questões mais profundas." É também essa a essência de uma mudança de paradigma. Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte.
Ética
Toda a questão dos valores é fundamental para a ecologia profunda; é, de fato, sua característica definidora central. Enquanto que o velho paradigma está baseado em valores antropocêntricos (centralizados no ser humano), a ecologia profunda está alicerçada em valores ecocêntricos (centralizados na Terra). É uma visão de mundo que reconhece o valor inerente da vida não-humana. Todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências. Quando essa percepção ecológica profunda torna-se parte de nossa consciência cotidiana, emerge um sistema de ética radicalmente novo.
Essa ética ecológica profunda é urgentemente necessária nos dias de hoje, e especialmente na ciência, uma vez que a maior parte daquilo que os cientistas fazem não atua no sentido de promover a vida nem de preservar a vida, mas sim no sentido de destruir a vida. Com os físicos projetando sistemas de armamentos que ameaçam eliminar a vida do planeta, com os químicos contaminando o meio ambiente global, com os biólogos pondo à solta tipos novos e desconhecidos de microorganismos sem saber as conseqüências, com psicólogos e outros cientistas torturando animais em nome do progresso científico — com todas essas atividades em andamento, parece da máxima urgência introduzir padrões "ecoéticos" na ciência.
Geralmente, não se reconhece que os valores não são periféricos à ciência e à tecnologia, mas constituem sua própria base e força motriz. Durante a revolução científica no século XVII, os valores eram separados dos fatos, e desde essa época tendemos a acreditar que os fatos científicos são independentes daquilo que fazemos, e são, portanto, independentes dos nossos valores. Na realidade, os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanas — em uma palavra, emergem de um paradigma — dos quais não podem ser separados. Embora grande parte das pesquisas detalhadas possa não depender explicitamente do sistema de valores do cientista, o paradigma mais amplo, em cujo âmbito essa pesquisa é desenvolvida, nunca será livre de valores. Portanto, os cientistas são responsáveis pelas suas pesquisas não apenas intelectual, mas também moralmente. Dentro do contexto da ecologia profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda a natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda, como Arne Naess claramente reconhece:
"O cuidado flui naturalmente se o "eu" é ampliado e aprofundado de modo que a proteção da Natureza livre seja sentida e concebida como proteção de nós mesmos... Assim como não precisamos de nenhuma moralidade para nos fazer respirar... [da mesma forma] se o seu "eu", no sentido amplo dessa palavra, abraça uma outro ser, você não precisa de advertências morais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue normas de estrita ética ambientalista.
O que isto implica é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamento correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica. A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos parte integral da teia da vida. No entanto, se temos a percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva. De fato, mal podemos deixar de responder dessa maneira.
Mudança da Física para as Ciências da Vida
Chamando a nova visão emergente da realidade de "ecológica" no sentido da ecologia profunda, enfatizamos que a vida se encontra em seu próprio cerne. Este é um ponto importante para a ciência, pois, no velho paradigma, a física foi o modelo e a fonte de metáforas para todas as outras ciências. "Toda a filosofia é como uma árvore" escreveu Descartes. "As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências”.
A ecologia profunda superou essa metáfora cartesiana. Mesmo que a mudança de paradigma em física ainda seja de especial interesse porque foi a primeira a ocorrer na ciência moderna, a física perdeu o seu papel como a ciência que fornece a descrição mais fundamental da realidade. Entretanto, hoje, isto ainda não é geralmente reconhecido. Cientistas, bem como não-cientistas, freqüentemente retêm a crença popular segundo a qual "se você quer realmente saber a explicação última, terá de perguntar a um físico", o que é claramente uma falácia cartesiana. Hoje, a mudança de paradigma na ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida.
Trechos retirados de "A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos", Capra, F. 1996. São Paulo: Cultrix, p. 23-29.
Fonte: Eco-consciência
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Revolução Verde e Paradoxo Demográfico
Por José Carlos Marques, 19/09/09
A fome no mundo de milhões de pessoas é demasiado real para podermos encará-la sem perplexidade e tentar resolvê-la com estereótipos. Nessa medida, nem se pode subalternizar o facto de uma tecnologia poderosa, agronómica e química, ter "revolucionado" as quantidades de alimentos produzidos, nem se pode ignorar que essa multiplicação deixou milhões de pessoas na fome e legou problemas de sustentabilidade (fome futura!) que são um quebra-cabeças, desde a erosão à contaminação de solos e muitos outros. E não é apenas a "revolução verde" em termos agronómicos e químicos que está em causa, mas um complexo sistema tecnológico e civilizacional, que inclui a mecanização intensiva e consequente empobrecimento dos ecossistemas agrícolas, arrasando sebes para melhor circulação das grandes máquinas, apostando tudo nas grandes monoculturas, a opção económica e política ela expulsão dos camponeses da terra, por orientar os sistemas produtivos no "terceiro mundo" para a exportação de bens alimentares de interesse secundário deixando as populações locais mais pobres em alimentos essenciais e tornando-as até dependentes para esses bens básicos da importação da agricultura dos países ricos, por reduzir drasticamente o número de explorações agrícolas porque o "mercado" não consente que elas sejam viáveis e façam viver as famílias que ficam na terra, pela "necessidade" (leia-se: opção) de baixar drasticamente os preços alimentares para manter salários relativamente baixos e libertar rendimentos para o consumo dos bens industriais, e vários outros fatores.
Um dos aspetos mais curiosos da questão na sua real amplitude é aquilo a que chamo o paradoxo demográfico, que se pode ver em ação nos trabalhos dos historiadores do passado e dos sociólogos do presente. Isto é: o aumento populacional, ao contrário do que muitas vezes se supõe, não é algo que se resolva com maior produção alimentar PORQUE RESULTA DELA: é a maior disponibilidade de bens alimentares que permite o aumento populacional e não o contrário. Isso está comprovado em vários casos históricos e é inegável. Mas, por outro lado, como os "sociólogos da fome" também demonstraram, em especial no "terceiro mundo" (onde a colonização e a exploração ocidental imprimiu às sociedades locais inflexões de rumo específicas que não permitem que isolemos os fenómenos nelas presentes do surgimento da colonização), a fome está associada a populações excessivas, crescentes, com altas taxas de natalidade... Reduzir estes dois fenómenos contraditórios a explicações simplistas não nos ajudará muito.
Esse paradoxo está bem presente na nota do Carlos Aguiar. O primeiro fenómeno reveste esta forma que refere o Carlos: "As sacas de sulfato de amónio, de nitrato de cálcio, e outros adubos químicos, multiplicaram a população humana por quatro em 100 anos." Ou seja, o aumento de produção alimentar não se teria limitado a responder a necessidades alimentares de uma dada população, antes foi o fator do aumento populacional (sem esquecer que outros fatores existiram noutros domínios que não os da produção de alimentos).
O segundo fenómeno está de certa forma referido nesta outra frase por ele escrita: "No final do séc. XIX, William Crooks, um químico e físico inglês, alertou para o facto da população mundial estar a crescer aceleradamente e que se não fossem encontradas alternativas ao nitrato do Chile era inevitável uma fome global." Aqui as bocas seriam mais que as que poderiam ser alimentadas.
Como é próprio do paradoxo (diferentemente da simples e linear contradição, que é do domínio do pensamento), ele é um resultado da realidade e da sua complexidade e da coexistência de tensões opostas mas ambas reais.
Isso põe também o problema seguinte: será que, como afirmam tão frequentemente economistas e políticos, o aumento demográfico é não só uma boa coisa como uma coisa indispensável? Sem ele estaríamos perdidos - diz-se. A China e a Índia, as mais populosas nações do mundo, há muito que, embora com métodos diferentes, praticam o contrário disso, ou seja políticas (melhores ou piores) de limitação da natalidade. E aqui, do ponto de vista do movimento ecológico, surge a relevância do mútuo reforço de dois fatores convergentes na raiz da contínua degradação ambiental, inclusive dos solos e recursos agrícolas neles aplicados, degradação essa que é o sintoma claro da INSUSTENTABILIDADE do atual modelo agronómico: por um lado o aumento populacional, por outro lado a desmesura com que a civilização atual aplica a sua enorme potência tecnológica, a que acresce o facto de o sistema económico geral que domina se apoiar na necessidade de continuamente aumentar esses dois fatores e o respectivo consumo exponencial de toda a espécie de matérias primas, recursos vivos, etc.
Por isso, nem o atual modelo agronómico ("borlauguiano"...) poderá responder aos desafios do presente e do futuro; nem a alternativa poderá ser um outro modelo agronómico, seja ele "biológico", que apenas altere os métodos de cultivo isolando-os de todos os restantes fatores (sociais, económicos, tecnológicos, demográficos, civilizacionais).
Arne Naess, o mais notável filósofo que o movimento ecológico produziu (talvez porque antes de ser ecologista era já um filósofo notável), aponta claramente no sentido da redução gradual, voluntária e coletiva da população mundial, no que aliás converge com diversos movimentos de raiz ecológica que defendem desde os anos 1970 (por vezes de uma maneira que levanta outros problemas e algumas discordâncias importantes que eu subscreveria) a estabilização primeiro e redução depois da população mundial como indispensável para enfrentar a crise ecológica. Essas perspetivas, bastante visíveis no movimento ecoambiental mundial até 1980, sofreram depois um apagamento (como aliás o movimento na sua generalidade, até 1992 pelo menos, quando a Cimeira da Terra de certa forma começou a inverter o refluxo), e hoje são muito tímidas ou inaudíveis as vozes que põem a questão dentro do próprio movimento. Mas isso em nada afeta a importância teórica e prática dela.
Sobre a questão da população vista por Naess pode ver-se em português o texto que lhe é dedicado no livro Ganhar a Vida - Objectivo 7 Garantir a Sustentabilidade Ambiental, editado, sob coordenação de João Paulo Cotrim, pelo IPAD - Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento, na sua página 68 ("Arne Naess: cinco ideias para uma mudança"), que redigi.
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sexta-feira, 26 de junho de 2009
Bill Devall (2 December 1938 – 26 June 2009)
Deep ecology sociologist Bill Devall died at the age of 70 at his home in Trinidad, California. Originally from Kansas City, he received graduate degrees from the University of Hawaii and the University of Oregon, writing a thesis titled “What is the Governing of a Voluntary Organization: Oligarchy and Democracy in the Sierra Club.”
He taught sociology at the University of Alberta for a time before joining the Sociology Department at Humbolt State University (California) in 1968 where he remained for the duration of his teaching career, teaching non-traditional sociology classes on topics such as forestry, radioactive waste, and wilderness. Inspired by the early work of Arne Naess and the poetry of Gary Snyder, Devall co-wrote the 1985 book Deep Ecology: Living as if Nature Mattered with George Sessions (Salt Lake City: Peregrine Smith Books) that became a classic text of deep ecology.
Devall devoted his life to protecting nature in the classroom and in the socio-political realm. He was a founding member of the North Coast Environmental Center in Arcata, California and was locally active to protect the beaches, forests, and natural species of northern California.
Active in efforts to protect old growth forests in the Pacific Northwest, he participated in Redwood Summer 1990, a campaign funded by the Foundation of Deep Ecology and led by Earth First! to bear witness to and block logging access to old growth redwood forests in northern California. This led to Devall editing the pictorial book Clearcut: The Tragedy of Industrial Forestry (San Francisco: Sierra Club Books, 1995).
For Devall, deep ecology united environmental philosophy and environmental practices. Devall’s and Sessions’ 1985 book Deep Ecology, along with Michael Tobias’ edited anthology Deep Ecology (Avant Books, 1983), presented deep ecology to a wider English-speaking audience. Devall and Sessions sought to redirect environmental thinking and action from a shallow, anthropocentric perspective to a deep, holistic, ecocentric perspective that reoriented and reclaimed the environmental movement from a humanistic, resource-conservation, reform position to grassroots actions inspired by deep ecology.
Deep ecology was not something brand new but, rather, a reawakening of a very old Earth wisdom that would help us understand the current environmental crisis as crises of character and culture. Devall’s books Simple in Means, Rich in Ends: Practicing Deep Ecology (Salt Lake City: Peregrine Smith Books, 1988) and Living Richly in an Age of Limits (Salt Lake City: Peregrine Smith Books, 1993) were further elaborations on the philosophy and practices of deep ecology. With Alan Drengson, he co-edited The Ecology of Wisdom: Writings by Arne Naess (Berkeley: Counterpoint, 2008). As a member of the Arcada Zen Group, Devall was a practicing Buddhist who linked Buddhist principles and practices to environmental thought and practices.
His home in Trinidad, California was a congregation point for environmentalists, faculty, students, and other house guests participating in environmental campaigns and issues. There will be a memorial service in his honor at the Universal Unitarian Center in Bayside, California on 10 October 2009, and the online The Trumpeter: Journal of Ecosophy will be doing a memorial issue in his honor in 2010.
For more about Bill Devall, please visit his Facebook page.
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quarta-feira, 26 de abril de 2023
Um Retrato do Norte: Arne Næss
Arne Naess, um filósofo norueguês cujas ideias sobre a promoção de um relacionamento íntimo e abrangente entre a terra e a espécie humana inspiraram ambientalistas e ativistas políticos verdes em todo o mundo, nasceu há 100 anos em 27 de janeiro de 1912. Quando Næss morreu envelhecido 96, não foi apenas o filósofo mais conhecido da Noruega, mas também um pioneiro mundial com suas obras e teorias inspiradoras.
Ativista e desportista
As suas habilidades não se limitaram ao campo académico. Næss foi um alpinista notável, que em 1950 liderou a expedição que fez a primeira subida de Tirich Mir (7.708 m). Em 2005, ele foi condecorado como Comandante com a Estrela da Real Ordem Norueguesa de St. Olav por trabalho socialmente útil. Além disso, ele era um ativista. Em 1970, junto com um grande número de manifestantes, ele se acorrentou às rochas em frente a Mardalsfossen, uma cachoeira em um fiorde norueguês, e se recusou a descer até que os planos de construir uma represa fossem abandonados. Embora os manifestantes tenham sido levados pela polícia e a represa tenha sido construída, a manifestação lançou uma fase mais ativista do ambientalismo norueguês. Em 1958, Arne Næss fundou a revista interdisciplinar de filosofia Inquiry.
Ecologia Profunda e Nova Ética Ambiental
O mundo, especialmente, o conhece melhor como o fundador da ecologia profunda. A ecologia profunda é uma filosofia ecológica contemporânea que reconhece o valor inerente de todos os seres vivos, independentemente de sua utilidade instrumental para as necessidades humanas. A filosofia enfatiza a interdependência dos organismos dentro dos ecossistemas e dos ecossistemas entre si dentro da biosfera. Ele fornece uma base para os movimentos ambientais, ecológicos e verdes e promoveu um novo sistema de ética ambiental.
Uma teoria inovadora
O princípio central da ecologia profunda é a crença de que, como a humanidade, o ambiente vivo como um todo tem o mesmo direito de viver e florescer. A ecologia profunda se descreve como “profunda” porque persiste em fazer perguntas mais profundas sobre “por que” e “como” e, portanto, está preocupada com as questões filosóficas fundamentais sobre os impactos da vida humana como uma parte da ecosfera, em vez de com uma visão restrita. visão da ecologia como um ramo da ciência biológica, e visa evitar o ambientalismo meramente antropocêntrico, que se preocupa com a conservação do meio ambiente apenas para exploração por e para fins humanos, o que exclui a filosofia fundamental da ecologia profunda.
Næss, durante a sua vida frutífera, casou-se duas vezes, primeiro com Else Marie Hertzberg ,com quem teve dois filhos. Ela faleceu antes dele. Mais tarde ele se casou com Kit Fai, uma estudante chinesa quatro décadas mais nova, que conheceu quando tinha 61 anos.
Biografia e Bibliografia
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segunda-feira, 16 de março de 2026
O Earthism e a Transição para uma Civilização Ecológica
A crise civilizacional que enfrentamos no século XXI - marcada pelas alterações climáticas, pela perda acelerada de biodiversidade e pela erosão dos tecidos sociais — não é apenas um problema técnico que se resolve com melhores painéis solares ou carros elétricos. Trata-se, fundamentalmente, de uma crise de identidade e de metafísica. No centro da resposta a este desafio surge o Earthism (ou Terrismo), uma filosofia e um movimento ético que propõe uma reorientação radical: a transição de uma visão antropocêntrica para uma visão ecocêntrica da existência.
A Génese do Terrismo: De Whitehead a Cobb Jr.
Para compreender o Earthism, é obrigatório passar pela figura de John B. Cobb Jr., filósofo e teólogo norte-americano que dedicou a sua vida a construir as bases de uma Civilização Ecológica. Cobb fundamentou o seu pensamento na Filosofia do Processo de Alfred North Whitehead. Segundo esta perspetiva, o universo não é uma coleção de objetos inertes e independentes, mas sim um fluxo contínuo de eventos e relações.
Nesta visão, a Terra não é um "armazém de recursos" à espera de ser explorado, mas um organismo vivo e dinâmico onde cada parte — do microrganismo ao ser humano — possui valor intrínseco. Ao contrário da visão mecânica da modernidade, o Earthism defende que a natureza é "experienciadora". Quando destruímos um ecossistema, não estamos apenas a perder matéria-prima; estamos a ferir a própria trama da vida da qual fazemos parte.
Earthism vs. Ecologia Profunda: Uma Distinção Necessária
É comum confundir o Terrismo com a Ecologia Profunda (Deep Ecology), popularizada por Arne Naess. Embora partilhem a crítica ao consumo desenfreado, as nuances são vitais. A Ecologia Profunda é, muitas vezes, uma filosofia secular e puramente biocêntrica que pode tender para uma visão misantrópica, vendo o ser humano como um intruso ou uma ameaça à "pureza" da natureza.
Já o Earthism de Cobb Jr. é profundamente humanista e integrador. Cobb não nega a singularidade humana; pelo contrário, ele afirma que, por sermos a parte da biosfera que atingiu a autoconsciência e a capacidade tecnológica, temos a responsabilidade ética de agir como "guardiões" da Terra. O Terrismo não pede o fim da civilização, mas a sua transformação total numa civilização que floresça em harmonia com os limites planetários.
A Economia como Subsidiária da Ecologia
Uma das maiores contribuições de Cobb para o movimento foi a sua colaboração com o economista Herman Daly. No seu livro seminal For the Common Good, ambos desmontaram o mito do crescimento económico infinito num planeta finito. Para um "Earthista", a economia atual é uma forma de loucura matemática: tratamos o capital natural (solo, água, ar) como se fosse inesgotável.
A proposta de Cobb e Daly é a substituição do PIB (Produto Interno Bruto) por indicadores que meçam o bem-estar real e a integridade ecológica. Defendem uma Economia para a Comunidade, onde a produção é local, circular e regenerativa. Aqui, o sucesso não é medido pela acumulação de riqueza abstrata, mas pela capacidade de uma comunidade sustentar a vida de forma digna e sustentável.
A Convergência com Outros Pensadores
O Earthism não é uma ilha intelectual. Ele converge com o pensamento de Thomas Berry, que nos instigou a realizar o "Grande Trabalho" de transição da era Cenozoica para uma era Ecozoica. Bebe também da Democracia da Terra de Vandana Shiva, que luta contra a privatização da vida e pela proteção das sementes e da biodiversidade no Sul Global.
Conclusão: O Regresso à Terra
Em última análise, ser um adepto do Earthism significa reconhecer que não somos "donos" de nada, mas sim "terrestres". É a compreensão de que a espiritualidade, a política e a economia devem estar ao serviço da comunidade da vida. Como John B. Cobb Jr. frequentemente afirmou, o nosso destino e o destino da Terra são um só. Se a Terra falhar, a humanidade falha; mas se aprendermos a viver como parte integrante deste superorganismo, poderemos finalmente construir uma civilização que seja digna desse nome.
Referências Bibliográficas
- Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Nova Iorque: Bell Tower.
- Cobb, J. B., Jr. (2010). Spiritual Bankruptcy: A Prophetic Call to Action. Nashville: Abingdon Press.
- Daly, H. E., & Cobb, J. B., Jr. (1994). For the Common Good: Redirecting the Economy toward Community, the Environment, and a Sustainable Future. Boston: Beacon Press.
- Naess, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
- Shiva, V. (2005). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. Londres: Zed Books.
- Whitehead, A. N. (1929/1978). Process and Reality: An Essay in Cosmology. Nova Iorque: Free Press.
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
Carlos Renato Fernandes - Ecologia Profunda e Ecofeminismo
A dramática diminuição dos recursos naturais e a degradação do meio ambiente já não é mais uma ameaça, mas uma realidade, que afecta milhões de seres humanos. Inúmeros tesouros do mundo natural já foram perdidos e estamos prestes a perder, para sempre, animais e plantas que acabamos de descobrir, e cujo potencial para o nosso benefício é imprevisível. No Brasil, a derrubada de árvores e as queimadas na Floresta Amazónica continuam acontecendo. Mesmo com a criação de inúmeras Unidades de Conservação, a Floresta Atlântica também continua sendo agredida de maneira totalmente irresponsável. A causa principal é o aumento crescente da população mundial, que já soma 6 biliões e segue aumentando. A sua estabilização todavia só será possível quando houver uma melhor distribuição de renda e, consequentemente, a diminuição da pobreza na Terra. O avanço do capitalismo selvagem, baseado na tecnologia, dificilmente será contido. Exacerba-se pela necessidade de biliões de pessoas pobres dos países emergentes, de participar da riqueza material das nações industrializadas. A visão do mundo mecanicista de Decartes e de Newton, onde o corpo humano é visto como uma máquina, onde é estimulada a crença no progresso material ilimitado, e onde a mulher é classificada em posição inferior a do homem, é uma forma equivocada de nortear as acções humanas de maneira harmónica com a natureza. A única saída é por intermédio da força da ética ambiental, do planeamento familiar e da libertação da mulher. Mas esta solução requer uma mudança radical no nosso pensamento, nos nossos valores e nas nossas acções. Essa nova percepção é de um mundo totalmente integrado, que reconhece a interdependência de todos os fenómenos naturais com os seres vivos. Esses são os fundamentos de um importante e promissor movimento popular global, conhecido como Ecologia Profunda. É um pensamento ambientalista contemporâneo, tendo como base a escola filosófica fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 70.A Ecologia Profunda prevê que a única maneira de protegermos a nós mesmos é o reconhecimento e a protecção de todas as formas de vida do nosso planeta.
A distinção entre a Ecologia Rasa e a Ecologia Profunda hoje é amplamente aceita dentro do pensamento ecológico moderno. A Ecologia Rasa é centralizada no ser humano, é antropocêntrica. É como se a Terra existisse somente para o benefício do homem. A Ecologia Profunda, ao contrário, reconhece o valor de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um dos componentes da complexa e extraordinária teia da vida. O inseto que está aos nossos pés, ao qual na maioria das vezes não damos valor nenhum, possui um nome, interage com outras espécies de um mesmo ecossistema e o seu código genético não é muito diferente do nosso. Isto significa dizer que todos os seres vivos, a biosfera, tem um ancestral comum que começou a pensar quando surgiu a humanidade. Daí, sob a perspectiva ética, é nossa obrigação pensar nas outras criaturas e proteger a biosfera. Intimamente inserido neste pensamento, o ecofeminismo surge como uma importante escola filosófica de ecologia, que tem a base moral e espiritual ideal para um estilo de vida ecológico e activismo ambientalista. A dominação patriarcal sempre foi marcada por uma exploração hierárquica militarista, racista, capitalista selvagem e industrialista. São exemplos clássicos da ação antiecológica dos homens, diferentemente das mulheres, que se identificam muito mais com a natureza. As atitudes maternais predispõem ao pacifismo e à exploração harmoniosa dos recursos naturais pelas mulheres. O movimento feminista, desde a década de 70, defende a ideia de que o meio ambiente natural é feminino e por este motivo a proteção da natureza está ligada à libertação da mulher. O termo ecofeminismo foi usado pela primeira vez por Francoise d’Eauboune, mas foi por intermédio da publicação do livro de Rachel Carson, Silent Spring (1962), que despertou a atenção dos cientistas, dos políticos e dos historiadores para o movimento ecológico feminista. A autoconsciência da espécie humana há de progredir até alcançar a igualdade entre os homens e as mulheres, para a salvaguarda da vida, no nosso belíssimo e raro planeta azul.
CARLOS RENATO FERNANDES - ESCRITOR E FOTÓGRAFO DA NATUREZA,MEMBRO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PARANÁ, CENTRO DE LETRAS DO PARANÁ E AUTOR DOS LIVROS O PARANÁ , FLORESTA ATLÂNTICA – RESERVA DA BIOSFERA E CURITIBA.
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sábado, 11 de março de 2023
"A necropolítica é deixar morrer para manter viva uma economia predatória”. Entrevista com Eduardo Gudynas
Aos 63 anos, Eduardo Gudynas (Montevidéu, Uruguai, 1960) é o mais jovem da lista dos 75 principais pensadores dos últimos 150 anos sobre questões ligadas ao desenvolvimento elaborada pelo geógrafo David Simon, da Universidade de Londres. Há apenas oito latino-americanos na lista. Como pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), disciplina na qual é mestre, acompanha há mais de três décadas os problemas do desenvolvimento, do meio ambiente e dos movimentos sociais na América Latina, tendo escrito vários livros sobre esses temas.
Suas publicações mais recentes são uma avaliação das violações dos direitos humanos e da natureza no extrativismo na Bolívia e uma análise dos impactos da guerra na Ucrânia na ecologia política da América Latina. Além disso, colabora com organizações cidadãs sul-americanas e com instituições universitárias.
Apesar de centrar seus estudos em seu continente natal, Gudynas foi o primeiro latino-americano a receber a Cátedra Arne Naess em Meio Ambiente e Justiça Global da Universidade de Oslo (Noruega); também é pesquisador do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Munique (Alemanha) e recentemente passou a integrar a Comissão para a Transformação da Economia Global do Clube de Roma.
Aqui conversamos com ele sobre conflitos socioambientais, direitos da natureza e política.
Eis a entrevista.
Vamos falar sobre os conflitos socioambientais. Como eles ocorrem?
São disputas com componentes sociais onde as demandas ecológicas ou territoriais têm grande relevância. Incluem, por exemplo, protestos de comunidades locais contra projetos de mineração ou petróleo. As manifestações cidadãs que incorporam questões ambientais e territoriais têm uma longa história.
Lembro-me, por exemplo, da primeira grande marcha indígena na Bolívia, cujo slogan era território e dignidade, e isso ocorreu em 1990. Nessa mobilização, estavam presentes ingredientes sociais, ambientais e territoriais. Embora em relatos históricos de conflitos contra a mineração dos inícios do século XX esses componentes já estivessem presentes.
O que diferencia o conceito de território para os povos originários de como é entendido pelo senso comum tradicional? Como tudo isso se expressa na prática?
O território é uma construção social, é definido pelas vivências, histórias ou religiosidades, por exemplo, de comunidades camponesas ou indígenas. O que encontramos ouvindo, acompanhando ou participando de alguns conflitos é a defesa de um espaço geográfico considerado como próprio. Essa condição é chamada de território. Portanto, espaço ou geografia não são sinônimos de território, e em uma mesma região podem coexistir múltiplos territórios, inclusive sobrepostos entre si.
Há uma semelhança nos conflitos socioambientais?
A importância de acompanhar e ouvir as comunidades locais é que fica claro que existem muitos tipos de conflitos. Entre os mais visíveis estão aqueles que são uma reação às ameaças à saúde, à integridade do meio ambiente ou à usurpação de territórios considerados como próprios. Ali estão enraizados os protestos tão comuns que existem contra as mineradoras ou as petroleiras.
Mas também há conflitos onde o que está em disputa é uma indenização em dinheiro ou obras de infraestrutura, como um posto de saúde local ou um equipamento escolar. Não existe uma oposição frontal à chegada, digamos de uma mineradora, mas a luta é para conseguir parte do benefício económico.
Ao mesmo tempo, existem conflitos que operam na direção contrária. São as mobilizações que reivindicam a chegada desse tipo de empreendimento, argumentando que trarão investimentos e empregos. Chega-se, assim, a situações muito complicadas, onde há disputas entre diferentes grupos de uma comunidade, sendo uns a favor e outros contra esses empreendimentos.
Que relação existe, em geral, entre os conflitos socioambientais e a ação política nacional?
Muitos conflitos têm estreita associação com os problemas e, especialmente, com as misérias da política convencional. Boa parte deles explode em consequência de decisões, ações ou omissões em políticas públicas tomadas pelos Estados, como concessões feitas a mineradoras ou petroleiras. Em outros casos, há um Estado ausente e cúmplice, que falha em controlar e monitorar os efeitos da agricultura intensiva.
Muitas dessas disputas estão associadas à corrupção e aos crescentes níveis de violência, onde a política participa de múltiplas formas dessas mazelas. Os casos extremos estão no assassinato de defensores de direitos humanos ou ambientais em diferentes países, com as situações mais graves, por exemplo, no Brasil e na Colômbia.
O que exatamente está acontecendo?
O que acontece em muitos países é que as concessões de mineração ou de petróleo, ou as licenças para expansão agrícola são expedidas nas capitais para áreas que os técnicos acreditam estar vazias, que não são de ninguém, ou que, embora saibam que estão ocupadas, não consideram relevantes para os grupos locais. Dessa forma, o território de uma comunidade indígena de repente se encontra dentro de um polígono de petróleo e, logo depois, chegam militares, trabalhadores e técnicos para invadir suas terras. Isso torna inevitável o surgimento de um conflito.
Como reconhecemos nessas situações a herança colonial?
A herança colonial está presente de várias formas. A política convencional, especialmente com aquele repetido viés latino-americano em direção ao caudilhismo, tem uma clara herança colonial. Mas, ao mesmo tempo, as condições econômicas também estão imersas em uma subordinação que tem muito de colonial. Isso é muito evidente nos extrativismos, pois são extrações em grande quantidade de recursos naturais que são exportados para mercados globais, repetindo uma inserção internacional secular baseada em matérias-primas. Atualmente, explica boa parte dos conflitos ambientais mais graves do continente que estão associados à apropriação de recursos naturais para exportação. É como se o vínculo colonial se mantivesse, mas vestido com outra roupagem, que, em vez de ser dirigido por reis e vice-reis, passa a ser decidido nas Bolsas.
E qual é, assim vista, a relação entre globalização e conflitos socioambientais?
A globalização determina uma relação na qual a região latino-americana tem um papel subordinado. Os preços dos bens naturais são determinados nos centros financeiros, como é o caso da cotação dos minerais em Londres ou dos agroalimentos em Chicago. Se o valor do cobre ou da soja aumenta, todos os países começam a procurar cobre ou a plantar soja. As condições globais são tão poderosas que determinam as estratégias nacionais de desenvolvimento.
E qual é o nível ou a intensidade desses fluxos de exportação de recursos naturais?
O volume de extração de recursos naturais é brutal. Penso que o nível que essa depredação da natureza atingiu está passando despercebido. Na década de 1960, foram exportados pouco mais de 200 milhões de toneladas de recursos naturais, como minerais, hidrocarbonetos e produtos agrícolas e florestais, etc. Em meados da década de 2010, eram exportados cerca de 700 milhões de toneladas. Ou seja, mais que triplicou, o que significa que cada recanto do continente está enfrentando problemas com esses extrativismos.
O ritmo, a intensidade e o volume de apropriação da natureza são vertiginosos. Portanto, não é de se estranhar que os conflitos e as resistências diante desse avanço se multipliquem. Dessa forma, as condições globais que determinam o comércio e os preços acabam impactando nesses conflitos.
E como podemos identificar/reconhecer a pressão desses interesses estrangeiros no desenvolvimento dos conflitos socioambientais?
Em alguns setores, os interesses estrangeiros são decisivos, como sabemos, por exemplo, pela atuação das grandes corporações mineradoras, ou pelos fundos de investimento do capitalismo global que investem seu dinheiro em todo tipo de projeto em nosso continente.
Mas deve ficar claro que a situação mudou muito. Na década de 1960, os principais destinos das exportações de matérias-primas latino-americanas eram os Estados Unidos, o Canadá e os países da Europa Ocidental. Nos últimos anos, o destino é principalmente a China e outros países asiáticos. Além disso, esses fluxos para a América do Norte foram drasticamente reduzidos e a China absorve mais de três vezes os recursos que são exportados para a União Europeia. Em muitos casos, a pressão sobre os nossos territórios e recursos depende cada vez mais das decisões do Partido Comunista Chinês em Pequim.
Que papel desempenham ali os atores económicos nacionais?
O que a experiência latino-americana mostra, e que está ficando bastante claro no continente, mas não tanto em outras regiões, é que a propriedade dos recursos naturais ou das empresas que os extraem e comercializam não condicionam ou garantem que sejam cumpridos os mandatos de justiça social e ecológica.
Os atores nacionais operam da mesma forma que os interesses estrangeiros. Temos os casos de conhecidas mineradoras de capital nacional, das cooperativas de mineradoras bolivianas que se apresentam inclusive como revolucionárias, e dezenas de milhares de agricultores lançados na agricultura intensiva baseada nos agroquímicos. Todos eles estão por trás de muitos conflitos socioambientais. E não podemos esconder o caso das petrolíferas estatais, que também provocam impactos sociais e ambientais de toda ordem.
Podemos relacionar os recentes conflitos sociais e as mobilizações populares no Chile, Colômbia, Peru e outros países latino-americanos com os conflitos socioambientais?
Estamos enfrentando disputas que têm alguns aspectos comuns, mas são muito diferentes entre si. Cada caso permite observar que as situações nacionais são diferentes e, embora existam fatores recorrentes, também existem particularidades próprias de cada país.
No caso do Chile, observou-se uma explosão popular generalizada, que se multiplicou em várias cidades, expressando cansaço com a política e o regime institucional nesse país.
Por outro lado, no Equador ocorreram levantes liderados por organizações indígenas, alimentados por mobilizações de comunidades rurais e o apoio de alguns setores populares urbanos. As reivindicações contra a mineração, por exemplo, estiveram presentes, mas esse tema não liderou essas mobilizações.
Os conflitos socioambientais não eram perceptíveis?
Sim, claro, eles estão presentes. Continuam a multiplicar-se as reações em defesa dos territórios e na exigência de garantir a qualidade de vida e a conservação da natureza em todos os lugares. O número de conflitos continua a aumentar, e em vários casos conseguem travar alguns empreendimentos muito prejudiciais, e que, por sua vez, se tornam um exemplo para outra comunidade, em outra região ou outro país, que também decide se mobilizar.
Você se refere à forma como os Estados assumem esses conflitos com o termo necropolítica.
A meu ver, estamos entrando em tempos de necropolítica. Tomo emprestado esse termo do filósofo camaronês Achille Mbembe, para estruturar uma reflexão que mostra que há uma aceitação da morte. Tolera-se que pessoas morram, ou definhem numa condição eterna de mortos-vivos mergulhados na pobreza e na exclusão, toleram-se as quadrilhas e os pistoleiros, e tolera-se que as florestas sejam derrubadas e as águas poluídas.
Essa aceitação explica por que personagens repulsivos como Jair Bolsonaro puderam conquistar um governo. A mesma coisa está acontecendo agora no Peru, onde a presidência e o congresso se mantêm graças a uma sucessão de mortes e repressões. Esse deixar morrer consolidou-se durante a longa crise provocada pela pandemia. A necropolítica é deixar morrer, mas para manter vivo um tipo de economia predatória.
Os conflitos que eclodem na resistência aos extrativismos são uma das frentes de oposição a essa indiferença à morte e, ao mesmo tempo, são elas que alimentam as chamas de alternativas voltadas para a vida.
Num sentido mais político, como devemos propor alternativas locais, regionais e, finalmente, globais, às ameaças contra a natureza?
Surgiram inovações incríveis, especialmente na América do Sul. O reconhecimento dos direitos da natureza é um avanço substancial, especialmente sob a formulação alcançada no Equador. Essa estrutura permite acolher as tradições dos povos indígenas, bem como as posições críticas do conhecimento ocidental, e articulá-las para reconhecer os não humanos com seus valores intrínsecos.
O mesmo aconteceu com a plataforma do Bem Viver em suas acepções originais, pois é uma construção crítica ao desenvolvimento convencional, mas que lança alternativas ao mesmo tempo pós-capitalistas e pós-socialistas.
Essas e outras posições alcançaram um vigor extraordinário, e por isso foram inclusive formalizadas na Constituição equatoriana. Essa demanda é muito forte na América Latina.
Como isso se traduziu em políticas públicas?
Muitas dessas ideias foram utilizadas para propor novas políticas públicas. Quando se entende que os direitos da natureza impossibilitam a aprovação de novas explorações de petróleo na Amazónia por seus impactos sobre a biodiversidade, os solos e a água, imediatamente surgem desafios para as políticas públicas. A pergunta imediata é como projetar uma transição pós-petróleo que nos permita abandonar os hidrocarbonetos.
Com base nesse tipo de preocupação, foram desenhadas as chamadas transições pós-extrativistas. Elas podem ser descritas como planos de ação, com medidas que vão desde novas regulamentações até mudanças nos impostos, que seriam aplicadas se estivéssemos no comando de um governo que pretende caminhar para o Bem Viver. A experiência sul-americana, com todas as suas conquistas, mas também com suas derrotas, possibilita a construção de verdadeiros planos de governo e de ação muito sofisticados em várias frentes.
Que balanço faz? Qual é o horizonte dessas alternativas?
O atual ritmo e intensidade na apropriação dos recursos naturais só pode ser mantido com o aumento dos níveis de violência e sob condições de pobreza. Se houvessem avaliações socioambientais adequadas, se as comunidades locais fossem informadas e consultadas, a maioria dos projetos extrativistas atuais não seria aprovada.
Mas os conflitos locais se multiplicam e, enquanto isso, as maiorias, que estão nas cidades, parecem ter naturalizado a destruição da natureza, permitem que os povos indígenas sejam encurralados e os camponeses marginalizados. O que quero dizer é que há muitas reações e protestos, mas ainda são insuficientes, porque os governos e a política persistem nas mesmas estratégias, e o fazem porque têm importantes bases de apoio dos cidadãos.
Nesse contexto, o que entendemos por direitos da natureza?
Os seres humanos assumem-se como sujeitos, e nessa condição seus direitos são reconhecidos. Nisso consiste a condição determinante dos direitos das pessoas em seus usos contemporâneos.
Devido a determinadas sensibilidades e posturas entende-se que na vida não humana também há sujeitos. Uma vez que essa condição é compreendida, os direitos devem ser automaticamente reconhecidos.
Foi o que se discutiu no processo constituinte do Equador, que culminou com o reconhecimento dos direitos da natureza. A nova Constituição assim os reconhece, e coloca como sujeito os grupos onde a vida se baseia, como uma espécie. Isso também é importante porque serve para nos lembrar que os direitos da natureza não são iguais aos chamados direitos dos animais, nem que impõem um ambiente intocado onde nada pode ser cultivado ou extraído. Esses direitos permitem o uso da natureza desde que seja assegurada a sua sobrevivência.
Paralelamente aos direitos da natureza, mantêm-se os direitos humanos, inclusive os que envolvem a garantia da saúde e da qualidade do ambiente.
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quarta-feira, 5 de junho de 2024
A Ética Ambiental: O Imperativo Moral para a Sobrevivência Coletiva
A relação entre a humanidade e o mundo natural deixou de ser uma questão de mera utilidade para se tornar o epicentro do debate filosófico e político contemporâneo. A ética ambiental surge não apenas como um ramo da filosofia, mas como uma resposta urgente à crise ecológica, propondo uma reavaliação dos valores que norteiam a nossa presença no planeta. Esta disciplina consolidou-se na década de 1970, desafiando o antropocentrismo clássico — a ideia de que o Homem é o centro do universo — e introduzindo o conceito de que a natureza possui um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para o consumo humano.
As raízes desta ideologia bebem de pioneiros como Aldo Leopold, que na sua obra fundamental A Sand County Almanac (1949), introduziu a "Ética da Terra", defendendo que uma ação é correta quando tende a preservar a integridade e a beleza da comunidade biótica. Logo depois, Rachel Carson tornou-se o catalisador ético do movimento moderno com Silent Spring (1962), expondo a arrogância tecnológica humana. No campo da filosofia pura, o norueguês Arne Naess cunhou o termo "Ecologia Profunda", estabelecendo uma distinção clara entre a ecologia "rasa" (preocupada apenas com recursos para humanos) e a profunda, que reconhece o direito de todas as formas de vida florescerem.
A evolução do conceito trouxe novas camadas de complexidade com a introdução de visões individualistas e biocêntricas. Paul Taylor, em Respect for Nature (1986), defendeu o biocentrismo igualitário, onde cada organismo vivo é visto como um "centro teleológico de vida". Diferenciando-se desta visão sistémica, Tom Regan posicionou-se fora do ecocentrismo tradicional ao focar-se nos direitos individuais. Inspirado pela deontologia, Regan argumentou que animais sencientes são "sujeitos-de-uma-vida" e possuem valor inerente, o que proíbe o seu sacrifício mesmo em nome do equilíbrio de um ecossistema. Esta linha aproxima-se do utilitarismo de Peter Singer, embora Regan prefira a linguagem dos direitos absolutos à do cálculo de sofrimento.
A transição da teoria para a prática económica e existencial deve muito a nomes como Malte Faber e Reiner Manstetten. Faber, um dos pais da economia ecológica, integrou conceitos da física, como a entropia, para demonstrar que a ética ambiental é um imperativo biofísico: a economia deve respeitar a irreversibilidade do tempo e a finitude dos recursos. Manstetten, por sua vez, propõe uma filosofia da natureza que foge do ecocentrismo radical e misantrópico; para ele, o Homem não é um "vírus", mas um ser que deve redescobrir a sua dignidade através de uma relação de parceria e cuidado com o mundo natural. Esta visão cooperativa é essencial para a Ecologia Política, que estuda como o poder e a ética moldam a distribuição de custos ambientais.
Atualmente, estes princípios traduzem-se em resultados tangíveis como a Justiça Ambiental e a Transição Justa, conceitos centrais em tratados como o Acordo de Paris, que procura proteger comunidades vulneráveis na mudança para uma economia verde. O impacto jurídico é visível no movimento pelos Direitos da Natureza, onde países como o Equador integraram a "Pachamama" nas suas constituições como sujeito de direitos, um tema explorado detalhadamente no e-book do International Rivers. Paralelamente, o setor financeiro adotou critérios de ESG (Governação Ambiental, Social e Corporativa), reconhecendo que a negligência ética é um risco económico, conforme discutido em publicações da Harvard Business Review.
Em conclusão, a importância da ética ambiental reside na sua capacidade de nos recordar que somos parte integrante da biosfera. Desde o holismo de Leopold e o individualismo de Regan até à economia ecológica de Faber e Manstetten, o pensamento verde evoluiu para uma estrutura robusta que influencia hoje políticas públicas e tribunais internacionais. A sobrevivência da civilização depende agora da nossa capacidade de converter estes princípios em ações climáticas concretas, garantindo que a integridade do planeta seja preservada para as gerações vindouras.
Recursos Adicionais:
Para um estudo sobre a economia e filosofia da natureza, recomenda-se a consulta dos trabalhos de Faber e Manstetten disponíveis através do Instituto de Economia Ecológica.
Relatórios detalhados sobre ética e governação podem ser encontrados no portal do UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
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