«O ICNF é mais um órgão policial-sancionatório do que educativo, e eu acho que as coisas em termos de futuro se resolvem com educação.»
«Do ponto de vista da ecologia científica, não me revejo na forma de proceder do ICNF e isso passa para os regulamentos e, sobretudo, para a interpretação dos regulamentos. Nada de verdadeiramente sólido se pode fazer em prol do ambiente sem as pessoas que vivem nos nossos campos e serras…»
«Acho que a proteção da natureza e seus recursos tem que ser feita para eles e com eles, e nunca contra eles. E por vezes parece que o Instituto tem uma lógica de imposição de padrões urbanos aos habitantes do mundo rural, e muito pouco respeito pela sua cultura, e pelos seus interesses.»
«A reserva da Malcata, por exemplo, foi criada para proteger o lince em Portugal, e julgo que acabou por provocar a extinção do lince. Proibiram-se as queimadas tradicionais, as arroteias, porque supostamente iria assustar o lince, e isso, evidentemente, criou matos altos, matos altos acabaram com as perdizes e os coelhos, e o lince não tinha onde comer e foi embora – passou a ser atropelado na periferia da serra. A história do ambiente em Portugal está cheia deste tipo de situações. Como fundei a Quercus tenho conhecimento destas coisas. (..) O lince da Malcata é um clássico. Se havia lince da Malcata no final dos anos 70 e anos 80, era porque haviam queimadas e porque as práticas tradicionais eram suficientemente adaptadas para que houvesse lince. »
«Em Portugal, primeiro a nobreza e, mais tarde, a burguesia rural endinheirada, foram-se apropriando das terras públicas e das terras comuns, como dunas, serras e tudo o mais que alguém com poder de bons contactos conseguisse escriturar em seu nome. E resulta daí que realmente o nosso país quase não tem terras públicas, o que complica muito a gestão do território, em especial a floresta e a própria proteção da natureza.»
«Depois, muitas vezes, o que se faz para proteger uma região é fazer dela uma reserva, um parque natural, fazem-se uns riscos no mapa e criam-se áreas protegidas onde as atividades humanas são muito limitadas, mas fora delas usam-se todo o tipo de desmandos como agroquímicos e monoculturas, permite-se a erosão de solos sem controlo, e por aí adiante.»
«A relação que o ICNF tem na vertente da conservação da natureza com as comunidades locais é altamente autoritária e nada cooperante. Tem uma lógica quase colonial do urbano sobre o rural, ou do intelectual sobre o menos escolarizado. Não se pode fazer conservação da natureza contra as pessoas, tem de ser sempre com as pessoas. Ou seja, tem de existir uma atitude pedagógica.»
«Um exemplo, e um problema mais grave que passa despercebido, é que nós somos produtores de pasta de papel para a Europa, e isso tem custos elevadíssimos em termos ambientais, em termos de água. Temos mais de um milhão de hectares de eucalipto em Portugal. Em França, a utilização de eucalipto globulus só é autorizada para secar pântanos e é altamente controlada, porque tem impactos.»
«Por cá, não vejo quase ninguém protestar. Protestamos contra 400 hectares de painéis solares, mas não protestamos contra um milhão de hectares de eucalipto. E estraga mais um hectare de eucalipto do que um hectare de painéis solares. Andámos no passado a subsidiar, a dar rios de dinheiro às pessoas para plantar eucaliptos. Isto, para mim, deveria ter sido um escândalo, não foi, e continua a não ser.»
«O movimento ambientalista em Portugal parece estar relativamente adormecido, como se o facto de aquilo ser verde fosse uma coisa aceitável ou menos má do que outras ocupações de solo, como por exemplo os painéis solares. O eucalipto tem um impacto enorme sobre os recursos hídricos, sobre o solo, e sobre os incêndios. Quanto é que nós pagamos anualmente no combate a incêndios? São centenas de milhões, e sobretudo porque temos uma floresta mal gerida. São muitas centenas de milhões de euros que nós pagamos a mais por bombeiros, meios aéreos, por prejuízo, dióxido de carbono para a atmosfera que não contabilizamos.»
«É evidente que o mau ordenamento e a má gestão da floresta estão na base da gravidade dos incêndios que nós temos. Se conseguiram que fossemos o fornecedor de papel à Europa à custa dos nossos campos, conseguem montar cá os centros de dados…»
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