sábado, 24 de janeiro de 2026

JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência


O último disco em que José Afonso participou activa e integralmente. Passou despercebido a muita gente (que, provavelmente, achou terem sido suficientes as lágrimas vertidas por altura do espectáculo do Coliseu) e, no entanto, é um testemunho espantoso de vitalidade e lucidez criativa. Gravado entre Novembro de 82 e Abril de 83, com arranjos repartidos por Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto (concebidos, em boa parte dos casos, a partir de ideias de Zeca, como, de resto, aconteceu com a grande maioria das suas composições), constitui um verdadeiro olhar em volta, amadurecido e calmo, só possível por parte de quem viveu a vida com muita intensidade, com muita paixão. Uma autêntica viagem entre a utopia e o desencanto, é o que nos oferece Zeca Afonso neste álbum magnífico, onde é possível descobrir todas as memórias cruzadas dos tempos vividos, os desejos insatisfeitos, os sonhos. Onde pode descobrir-se, por exemplo, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril («Papuça»), uma reflexão serena e quase existencial sobre o que se fez e o que ficou por fazer («Canção da Paciência»), uma certa angústia que não renega, antes reforça, tudo aquilo por que se passou («Eu Dizia»). E, também, a crítica acutilante («O País Vai de Carrinho»), o prazer dos sons e das novas experiências («O Canarinho»), a esperança que não morre («Utopia»). Um disco ao nível dos melhores, capaz de sobreviver aos tempos e às fronteiras.

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar

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