O caso de Daniel McGowan e a subsequente desarticulação da Earth Liberation Front (ELF) através da "Operation Backfire" do FBI alteraram profundamente o panorama do ativismo ambiental nos Estados Unidos, inaugurando um período que a comunidade ativista apelidou de "Green Scare" (O Susto Verde). Até ao início dos anos 2000, o movimento de ação direta operava sob a premissa de que a destruição de maquinaria ou o incêndio de edifícios vazios constituíam sabotagem económica legítima, e não terrorismo, desde que a integridade física de seres humanos fosse rigorosamente salvaguardada. Contudo, a resposta judicial ao caso de McGowan demonstrou que o Estado norte-americano, fortemente influenciado pelo clima político pós-11 de Setembro, deixara de tolerar essa distinção. Ao aplicar agravantes por terrorismo a crimes exclusivamente materiais, as autoridades elevaram o custo da militância clandestina a um nível insustentável, o que neutralizou quase por completo as táticas de sabotagem em larga escala devido ao medo generalizado de penas de prisão perpétua.
Em 2006, McGowan declarou-se culpado de conspiração e incêndio posto em duas instalações no Oregon (uma empresa madeireira e uma exploração agrícola de árvores híbridas).
Em 2007, ele foi condenado a 7 anos (84 meses) de prisão numa prisão federal.O juiz aplicou uma "reclassificação por terrorismo" (terrorism enhancement), o que significou que, embora a pena tenha sido de 7 anos, ele a cumpriu em unidades de gestão de comunicação ultra-restritas (CMUs), destinadas a reclusos de alta segurança.
Ele foi libertado para uma casa de transição em 2012 e concluiu a sua liberdade condicional mais tarde.
Além de paralisar as ações na floresta, a estratégia de acusação do governo gerou uma crise de desconfiança sem precedentes no seio do movimento. Como a ELF se organizava em células autónomas e anónimas, a sobrevivência do grupo dependia da solidariedade mútua; no entanto, a pressão de enfrentar décadas na prisão levou vários ativistas históricos a cooperarem com o FBI e a testemunharem contra os seus próprios companheiros. Esta onda de delações destruiu o tecido de confiança da comunidade e fragmentou o movimento. Paralelamente, o lóbi corporativo e o governo aproveitaram o estigma do "ecoterrorismo" para aprovar legislação penal mais severa, como o Animal Enterprise Terrorism Act, o que acabou por gerar um efeito dissuasor mesmo no ativismo pacífico e legal, uma vez que a fronteira entre o protesto legítimo e a ameaça à segurança nacional se tornou perigosamente ambígua.
Como consequência direta deste sufoco legal e policial, o ativismo ambiental norte-americano foi obrigado a reinventar-se e a abandonar o modelo de guerrilha clandestina. Nas décadas seguintes, o foco mudou drasticamente para a desobediência civil em massa e assumida publicamente - como se viu anos mais tarde nos grandes protestos de Standing Rock contra os oleodutos -, onde os ativistas procuravam deliberadamente a detenção em frente às câmaras para expor a sua causa à opinião pública. O movimento profissionalizou-se, canalizando os seus esforços para batalhas jurídicas nos tribunais, campanhas de pressão financeira e desinvestimento em combustíveis fósseis, além de migrar parcialmente para o ciberativismo. O desfecho do caso de Daniel McGowan simbolizou, assim, o fim de uma era de romantismo ingénuo na ação direta, provando que o sistema judicial estava preparado para aplicar todo o arsenal antiterrorista aos seus cidadãos sempre que a propriedade privada fosse ameaçada, independentemente da nobreza das suas intenções ecológicas.
Uma excelente análise do processo pela Democracy Now (parte 1 e parte 2)
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