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Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.
A Greenpeace Portugal apresentou hoje o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, um estudo inédito que analisa a evolução dos incêndios florestais em Portugal desde 1943 e conclui que o país continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, falhando na prevenção estrutural do risco.
O relatório foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do professor Domingos Xavier Viegas, e reúne mais de oito décadas de dados sobre incêndios em território nacional.
Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.
Apesar da redução significativa do número de ignições nas últimas duas décadas, o relatório alerta que Portugal continua altamente vulnerável quando se conjugam fenómenos de calor extremo, seca e vento forte com uma paisagem pouco gerida.
Entre os anos analisados, 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela dimensão da área ardida e pelo número de vítimas mortais, evidenciando um padrão de risco que, segundo os autores, permanece sem resposta estrutural. O estudo refere ainda que a maioria das ignições continua a ter origem humana, reforçando a necessidade de investir na investigação das causas, na sensibilização da população e em medidas preventivas.
Para o professor Domingos Xavier Viegas, a evolução dos incêndios resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a crescente florestação do território, a redução da atividade agrícola, o despovoamento do interior e o agravamento das alterações climáticas.
“O conhecimento científico que hoje temos não nos permite continuar a fazer mais do mesmo”, afirma o coordenador do relatório, defendendo uma transformação profunda da gestão florestal e da paisagem. O investigador sublinha que, embora a capacidade de deteção e combate aos incêndios tenha melhorado significativamente nas últimas décadas, essa evolução não tem sido suficiente para evitar grandes incêndios em anos de condições meteorológicas extremas.
O diretor do CEIF destaca ainda que 2025 voltou a demonstrar a vulnerabilidade do país, com uma época marcada por temperaturas elevadas, seca meteorológica em grande parte do território e um aumento expressivo da área ardida durante o mês de agosto.
Para a Greenpeace Portugal, o relatório pretende contribuir para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória de cada verão e passe a assentar numa base científica sólida. O diretor da organização, Toni Melajoki Roseiro, considera que o documento deve servir como instrumento de escrutínio das políticas públicas e apoiar decisões sobre prioridades orçamentais e estratégias de prevenção.
Já Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, alerta que o país precisa de atuar sobre as causas estruturais dos incêndios, defendendo que a prevenção deve decorrer durante todo o ano. “Sem prevenção estrutural, o combate chegará sempre tarde demais”, afirma.
Na sequência das conclusões do estudo, a Greenpeace apresenta um conjunto de exigências dirigidas ao poder político, entre as quais uma ação climática mais ambiciosa, uma gestão estratégica da paisagem, maior envolvimento do setor privado, reforço da prevenção social das ignições, maior transparência na aplicação dos recursos públicos, revitalização económica do mundo rural e a criação de um pacto ibérico para aumentar a resiliência aos incêndios florestais.
Segundo a organização ambiental, o conhecimento acumulado ao longo de mais de 80 anos demonstra que Portugal dispõe hoje da informação necessária para alterar o paradigma da prevenção e reduzir o impacto dos grandes incêndios nas populações, na economia e nos ecossistemas.
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