Zanias é o projeto a solo da artista, produtora e DJ australiana Alison Lewis. Nascida em Melbourne e com uma infância passada entre a Indonésia, a Malásia e a Austrália, estabeleceu-se mais tarde no coração da cena eletrónica e underground de Berlim, após ter deixado a sua marca em Londres à frente de projetos como os Linea Aspera.
A sua sonoridade transita harmoniosamente entre o Darkwave, o Ethereal Wave, a Minimal Wave e a música eletrónica industrial ou EBM. A comparação com os Dead Can Dance é extremamente precisa e recorrente. Tal como Lisa Gerrard, Zanias aborda a voz como um instrumento sacro e vocalização de foro ritualístico sobre fundos eletrónicos densos e pulsantes. Faz um uso abundante e expressivo de melismas - a técnica de cantar várias notas musicais encadeadas sobre uma única sílaba -, o que confere às suas canções uma tonalidade ancestral, xamânica e quase mística, criando um contraste fascinante com a austeridade dos sintetizadores.
Na faixa Through This Collapse, a artista explora a transformação interior através da adversidade, da dor e do desapego. O colapso aqui evocado não representa um fim trágico ou uma destruição passiva, mas antes uma rutura necessária: a dissolução do ego, das ilusões e de velhas estruturas da vida para dar lugar ao renascimento. É uma viagem de catarse onde a dor é atravessada consciente e corajosamente para alcançar a libertação e uma nova forma de perceção.
A escolha da dupla artística OUROBOROS (constituída por Jeremy Carne e Nikolas Kasinos) para a realização, produção e edição do videoclipe de «Through This Collapse» revela uma cumplicidade concetual perfeita com a faixa. O próprio nome da dupla remete para o símbolo mitológico da serpente que devora a sua própria cauda - uma alegoria clássica dos ciclos de destruição, renovação e renascimento. Esta simbiose visual reflete de forma magistral o tema do colapso e da metamorfose espiritual abordado por Zanias. Através de paisagens austeras, jogos marcantes de luz e sombra e uma corporalidade expressiva, o vídeo desenrola-se como um ritual de passagem: a figura central atravessa ambientes de densidade e isolamento até emergir num estado de aceitação e transcendência, espelhando com precisão a travessia do caos interior rumo à clareza.
Do ponto de vista percetivo, a criação de Zanias é profundamente influenciada pela sua formação académica em Arqueologia e Antropologia, assim como por correntes filosóficas e literárias marcantes. Nota-se uma forte ressonância com o Existencialismo e o Niilismo de perspetiva afirmativa, remetendo para Nietzsche e Camus na ideia do Amor Fati - a aceitação plena da dor e da mudança para a construção do próprio sentido vital a partir do caos. Paralelamente, a obra dialoga com a Psicologia Junguiana na exploração da "Sombra" e no processo de individuação, bem como com o estudo dos ritos de passagem, do transe e do fascínio antropológico pela ligação entre o ser humano, o ritual e o cosmos.
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