Ao contrário do que, regra geral, acontece nos mamíferos, em que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos, no mundo dos pássaros elas têm vidas mais curtas do que eles.
A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, os cientistas dizem ter percebido que, em média, as fêmeas de 35 espécies apresentam, depois de atingirem a idade adulta, uma taxa de sobrevivência 12,4% inferior à dos machos da mesma espécie.
“O que me pareceu interessante foi o facto de este padrão ser consistente em muitos tipos diferentes de aves, de papa-moscas e toutinegras a cardeais e tanagrídeos”, diz Joanna Wu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e primeira autora do estudo.
A sobrevivência na vida adulta é fortemente influenciada por fatores como gastos de energia e outros custos biológicos associados à reprodução, ao movimento e à competição por recursos. As migrações exigem muito em termos energéticos e expõem as aves a predadores e ao risco de ferimentos. Quando não estão em viagem, as aves têm de defender o seu território e os seus recursos.
Para as fêmeas, os custos acrescidos associados à produção e postura de ovos são mais um fator de pressão, ainda que o cuidado das crias possa, dependendo das espécies, ser partilhado pelos dois progenitores.
Ao olharem para as várias décadas de dados em mãos, os investigadores perceberam que os machos têm taxas de sobrevivência mais elevadas tanto em espécies migradoras como não migradoras, embora sejam maiores em migradores de longas distâncias. Além disso, percebeu-se que nas espécies com asas mais pontiagudas os machos também tendem a viver mais que as fêmeas, algo que também se constatou em machos com níveis mais altos de gordura corporal.
A equipa reconhece que, além desses aspetos, não conseguiram, para já, encontrar uma explicação clara para as diferenças entre machos e fêmeas no que toca à longevidade. Ainda assim, há algumas hipóteses em cima da mesa, e uma delas tem a ver com a genética.
A hipótese cromossómica
Nos mamíferos, as fêmeas têm duas cópias do mesmo cromossoma sexual - XX - e os machos têm dois cromossomas sexuais diferentes - XY. Como explicam os investigadores, isso significa que se um dos cromossomas tiver algum gene defeituoso, as fêmeas têm um “substituto”, mas os machos não.
Nos machos humanos (ou seja, nos homens), problemas nos cromossomas sexuais e falta de um “plano B” estão associados a uma maior suscetibilidade, por exemplo, a doenças cardíacas e cancro à medida que o avanço da idade faz degenerar o cromossoma Y.
Por isso, há cientistas que consideram haver uma relação entre a longevidade e o par de cromossomas sexuais. Contudo, nas aves esses cromossomas estão invertidos: as fêmeas têm XY e os machos XX.
“Nas aves, ao contrário dos mamíferos, são as fêmeas que transportam dois cromossomas diferentes, enquanto os machos carregam dois do mesmo”, diz Wu. “Isto pode ser mais uma prova que associa o cromossoma sexual a uma menor longevidade nas aves fêmeas, mas essa é uma questão que ainda não investigámos diretamente”, acrescenta.
A investigadora diz que investigações futuras devem também tentar perceber se existe alguma relação entre a reduzida longevidade das aves fêmeas e o declínio acentuado de várias populações de aves que está a ocorrer pelo mundo fora.
“Se as fêmeas se tiverem já reproduzido com sucesso antes de morrerem, o facto de as suas vidas serem mais curtas não faz grande diferença. Mas não sabemos ainda se é esse o caso ou não”, explica.
“Sabemos que a perda de habitat e as alterações climáticas são os principais culpados, mas queremos perceber se esses fatores podem estar a tornar a sobrevivência ainda mais difícil para as fêmeas do que para os machos, num mundo que os humanos estão a transformar rapidamente.”
Foto: Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)

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