sexta-feira, 9 de março de 2018

António Lobo Antunes - Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto

Gustave Courbet - “La Bacchante” (1844-1847)

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada

Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome

Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão

Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias

De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste

Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos

Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete

Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto

A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa

Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa

Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão

Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher

Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher

Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada

Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado

Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

In “Eu me comovo por tudo e por nada”, 1992 álbum de Vitorino Salomé, com poemas de António Lobo Antunes

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