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| Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui |
Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.
Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.
Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.
Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.
Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.
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| Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui] |
Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.
A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.
Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026
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