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domingo, 11 de outubro de 2026

O desafio da Educação Ambiental na era digital: como desconstruir a bolha virtual e os seus epifenómenos


O meu profundo conhecimento das subculturas juvenis dos anos 80 e 90 - como os góticos, punks e metaleiros - foi fundamental para a minha caminhada. Eram movimentos que se destacavam por ser abertamente antirracistas e livres de homofobia, transfobia, idadismo ou gordofobia. Já na viragem para a década de 90, acompanhei de perto as dificuldades da terceira geração de imigrantes dos países lusófonos, marcada pelo preconceito, pela falta de mobilidade social e pela marginalização.

Hoje, com 40 anos de atividade enquanto Educador Ambiental, continuo a priorizar o contacto direto no terreno com as dúvidas, inquietações e dinâmicas dos jovens, onde a realidade do nosso tempo se espelha de forma genuína. No entanto, confesso que na era digital este trabalho é significativamente mais desgastante. Enfrentamos uma juventude visivelmente mais conservadora, o crescimento da machosfera, a atração por líderes autoritários e a manifestação aberta do racismo, da desigualdade social e do discurso de ódio. Reconhecer e intervir nestas contradições é crucial para combater a masculinidade tóxica, desconstruir preconceitos e transformar a mercantilização das mentes em cidadania ativa.

O meu compromisso passa por desenvolver uma pedagogia viva assente na Carta da Terra, nos tratados internacionais de conservação da Natureza e nos Direitos Humanos. Através de visitas de estudo, ciência cidadã e vivências transformadoras, ligamos a justiça socioambiental ao respeito pela diversidade, criando um espaço seguro onde as angústias da juventude possam ser canalizadas para um rumo eco-pacifista e uma esperança regeneradora.

É precisamente por isso que considero fundamental a leitura da obra "Carta à Terra – e a Terra responde", da economista e ativista francesa Geneviève Azam. Lançado originalmente em 2019 e editado em plena pandemia, este livro já alertava para os perigos do solucionismo tecnológico e para a aceleração de uma era digital que nos afasta do mundo sensível, com graves consequências na degradação das relações humanas e ambientais.

Azam desenvolve uma crítica severa ao capitalismo verde e à ilusão tecnocrática de que a crise ecológica se resolve com meras leis de mercado. Rejeitando a ideia de uma Natureza passiva ou inerte, a autora apresenta o planeta como um organismo vivo e rebelde que reage às agressões humanas através de catástrofes climáticas e colapsos ecológicos. Num apelo premente à resistência política, à sensibilidade e à desobediência civil, a obra propõe um novo modo de habitar o mundo.

Esta edição  fica ainda mais enriquecida com o prefácio do líder e pensador indígena brasileiro Ailton Krenak, que constrói uma ponte entre o pensamento crítico de Azam e a cosmovisão ancestral dos povos originários. Krenak denuncia o erro da sociedade ocidental moderna de se descolar do corpo da Terra para criar a ilusão de um domínio ilimitado. Ridicularizando a obsessão tecnocrática de colonizar outros planetas enquanto destruímos a nossa própria casa, Krenak relembra-nos que o amanhã não está à venda e que a nossa sobrevivência depende de recuperar a escuta, o afeto e a comunhão com o território.

Esta obra torna-se, assim, uma leitura urgente para quem trabalha com as novas gerações. Ela valida e fundamenta a necessidade de retirar os jovens da bolha digital, reconectando-os sensorialmente com a Natureza e capacitando-os para transformar a crise contemporânea numa cidadania empática, ativa e regeneradora.