Finalmente chegou a direita. A chegada tem a pequena particularidade de ocorrer depois de várias décadas em que se privatizaram empresas, liberalizaram mercados, enfraqueceu o poder sindical, se tornou o trabalho mais precário em nome da flexibilidade, se moderaram salários em nome da competitividade e se entregou uma parte crescente da habitação à lógica financeira. Mas não estraguemos uma entrada triunfal com minudências cronológicas. A direita chegou agora e, pelos vistos, tudo aquilo que aconteceu antes deve ter sido socialismo, comunismo ou uma fusão dos dois. Há quem consiga encontrar ambos no mesmo período, às vezes na mesma frase, o que poupa o incómodo de distinguir sistemas económicos.
Foi, reconheça-se, uma variedade bastante imaginativa de socialismo e uma versão ainda mais imaginativa de comunismo. O Estado retirava-se de sectores económicos, empresas públicas passavam para mãos privadas, o capital circulava com crescente liberdade, a negociação colectiva perdia força e sucessivos governos procuravam tranquilizar mercados com uma solicitude que raramente dedicavam aos salários. Quem preferir a tese da fusão terá apenas de aceitar um socialismo que privatiza e um comunismo muito respeitador da propriedade privada e dos mercados financeiros. Com definições suficientemente largas, cabe tudo.
A grande vitória da direita económica não consistiu em ganhar todas as eleições. Isso seria demasiado trabalhoso e, além do mais, desnecessário. Bastou-lhe conseguir que uma parte substancial das suas ideias deixasse de depender dos seus partidos. Ao longo das últimas décadas, governos de centro e de centro-esquerda aceitaram privatizações, desregulação, disciplina salarial, flexibilização laboral e a primazia da competitividade como componentes normais da governação. Discutia-se a intensidade, o calendário, por vezes o grau de protecção que devia acompanhar cada reforma, mas a direcção geral já raramente precisava de se apresentar como ideológica.
Uma ideia política alcança uma posição particularmente confortável quando já não precisa de dizer o nome. Privatizar tornou-se modernizar. Cortar despesa passou a chamar-se reformar. Reduzir protecção laboral era flexibilizar. Baixar custos para as empresas significava estimular a economia. Os salários, esses, tinham de ser responsáveis, porque aparentemente existe uma forma irresponsável de querer viver do próprio trabalho. Pouco a pouco, opções políticas perfeitamente discutíveis foram promovidas à categoria de factos da natureza. A chuva cai, o Sol nasce, os mercados precisam de confiança e o trabalhador precisa de compreender.
A linguagem ajudou bastante. Um empregado pode reagir mal se lhe disserem que vai perder poder negocial; fica muito mais composto se lhe explicarem que está a entrar num mercado de trabalho dinâmico. Quem ganha menos pode achar desagradável ouvir que a sua parte do rendimento nacional vai encolher; já a moderação salarial possui uma serenidade quase monástica. Até o trabalhador aprendeu a falar de si próprio como “custo laboral”, uma pequena obra-prima cultural. Durante séculos os homens tentaram deixar de ser mercadoria. Finalmente conseguimos que preencham o formulário como mercadoria e agradeçam a eficiência do processo.
Daqui nasceu uma figura política que merece estudo. O assalariado que observa a economia a partir da secretária do proprietário, embora continue a sentar-se na cadeira do assalariado. Preocupa-se com os encargos patronais de uma empresa que não possui, acompanha com ansiedade a tributação de patrimónios que nunca terá e suspeita dos direitos laborais de que depende. Há gente que resolveu a questão de classe de uma maneira admiravelmente simples: sente-se rica. A parte espiritual está tratada; falta apenas aquele pormenor bastante material que costuma acompanhar a riqueza e a que, por convenção, chamamos dinheiro. É uma conquista respeitável. Fazer um trabalhador pensar como o patrão sem ter de lhe entregar a empresa permite poupanças consideráveis.
Também ajuda convencê-lo de que os males da sua vida resultam de ainda haver demasiada esquerda. O salário mal chega, logo o mercado precisa de mais liberdade. A renda consome metade do rendimento, logo falta liberalizar a habitação. O emprego é inseguro, portanto existem demasiadas garantias. O hospital demora, conclusão inevitável, o Estado é ineficiente. A receita beneficia de uma resistência invulgar à experiência. Se melhora, estava certa. Se piora, faltou aplicá-la com coragem. Os alquimistas teriam apreciado o método.
A habitação oferece um exemplo especialmente instrutivo porque permite comparar a retórica com números bastante menos imaginativos. A ficha PH4.2 da OCDE, actualizada em Novembro de 2025, colocava a habitação social para arrendamento em cerca de 34% do parque habitacional dos Países Baixos, 23% na Áustria, 21% na Dinamarca, 16% no Reino Unido e 14% em França. Espanha surgia com 1,2%. Portugal rondava 1%.
É uma desilusão considerável. Uma pessoa passa anos a ouvir falar do socialismo português e espanhol, do comunismo ibérico e, nos dias de maior entusiasmo, de uma espécie de fusão entre ambos, e acaba a descobrir que os Países Baixos têm cerca de trinta e quatro vezes o peso de habitação social de Portugal. A este ritmo ainda descobrimos que Amesterdão é Havana com bicicletas e a Áustria uma experiência bolchevique tão bem organizada que ninguém deu por ela. Naturalmente, a quantidade de habitação social não transforma por si só um país em socialista ou capitalista, e é precisamente essa a piada. Se nem sequer usamos estes critérios quando os números aparecem, talvez “socialismo” e “comunismo” estejam a servir menos para descrever sistemas económicos do que para evitar discussões um pouco mais exigentes.
Mas a proeza maior não foi convencer as pessoas de que viveram no socialismo, no comunismo ou naquela curiosa combinação dos dois que preservou propriedade privada, empresas privadas, banca privada, fundos de investimento e milionários. Foi convencê-las de que os interesses de quem está muito acima delas são, por uma misteriosa coincidência, os seus próprios interesses. O homem que ganha pouco preocupa-se com os impostos de quem ganha muito; o inquilino que entrega metade do ordenado pela casa teme pela liberdade do mercado imobiliário; quem depende da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde e da reforma pública descobre que o Estado é excessivamente grande; e quem nunca terá património suficiente para justificar uma conversa com um consultor fiscal acompanha a tributação das grandes fortunas com a ansiedade de quem tem três herdades, quatro empresas, dinheiro parado no Luxemburgo e uma reunião marcada nas Ilhas Caimão ao fim da tarde.
Há pessoas com cinco dentes na boca e sem dinheiro para pôr os restantes que defendem com extraordinária convicção quem tem seis iates. O espantoso nem sequer é existirem seis iates; é o homem dos cinco dentes ter sido convencido de que a tributação do sexto constitui uma ameaça mais séria à sua liberdade do que não conseguir pagar um dentista. Pepe Mujica dizia conhecer bem o animal humano, “o único animal que tropeça 20 vezes na mesma pedra”. Vinte, olhando em redor, talvez tenha sido uma estimativa excessivamente optimista.
Existe depois a ideia, muito útil para esta conversa, de que quem critica desigualdade só pode fazê-lo por ressentimento. A tese poupa um incómodo considerável, porque dispensa qualquer discussão sobre a crítica. Se alguém questiona a concentração de riqueza, conclui-se que desejava possuí-la. Se defende impostos progressivos, deve ser porque lhe falta dinheiro. Se acha obsceno que certos patrimónios cresçam enquanto trabalhadores a tempo inteiro não conseguem pagar uma casa, deve tratar-se de inveja com pretensões económicas.
O raciocínio tem um pequeno problema. Nem toda a gente que escreve essas coisas está a contar moedas para chegar ao fim do mês. Há quem tenha casa, património, poupanças, viaje e possa permitir-se bastante mais do que aqueles que gostam de imaginar todos os seus adversários encostados à montra da prosperidade. Alguns conheceram dinheiro suficiente para deixarem de lhe atribuir poderes sobrenaturais. Sabem o que ele proporciona, apreciam o conforto que permite e não precisam de fingir desprezo por nenhuma dessas coisas. Também tiveram oportunidade de descobrir que uma conta bancária não vem acompanhada, por defeito, de inteligência, cultura, decência ou grandeza.
Talvez seja precisamente por isso que a veneração lhes pareça tão infantil. Quem nunca teve muito pode imaginar que o dinheiro transforma o homem. Quem já teve o bastante para observar o fenómeno de perto sabe que, em muitos casos, apenas lhe dá condições mais confortáveis para continuar a ser exactamente aquilo que era.
Esta circunstância torna particularmente divertido o “chorem mais”, expressão que conquistou um lugar importante na ciência política contemporânea. Costuma surgir quando alguém fala de salários, rendas, desigualdade ou serviços públicos e funciona como uma espécie de certificado de superioridade emitido pelo próprio interessado. Há quem o escreva vivendo exclusivamente do ordenado, sem casa própria, dependente do SNS e com poupanças insuficientes para suportar alguns meses sem rendimento. Ainda assim, identifica imediatamente quem está a perder e quem está a ganhar. Ele, naturalmente, está com os vencedores.
É possível que esteja. As equipas modernas tornaram-se muito inclusivas. Já permitem apoiar os proprietários sem possuir propriedade, os grandes investidores sem investimento e os milionários sem milhão. Antigamente exigia-se património para pertencer à classe proprietária. Hoje basta uma conta numa rede social e confiança.
O erro está em imaginar que a posição política revela automaticamente a posição económica. Não revela. Um homem pode defender os interesses de uma classe a que não pertence com a mesma liberdade com que apoia um clube onde nunca jogará. A diferença reside em que o clube não fixa a sua renda, o seu salário nem a idade da reforma.
Para o milionário, defender uma política fiscal favorável ao milionário possui pelo menos a dignidade da coerência. Está a tratar dos seus assuntos. O fenómeno torna-se intelectualmente mais rico quando alguém sem capital relevante se oferece para o mesmo serviço gratuitamente e ainda considera o trabalho uma prova de esperteza. O primeiro recebe dividendos. O segundo pode receber uma reacção com um polegar para cima e a agradável sensação de ter derrotado o comunismo antes de jantar.
Quem possui casa paga, algum património e poupanças enfrenta estas experiências políticas com uma tranquilidade diferente. Se o serviço público piorar, consegue pagar uma alternativa durante algum tempo. Se chegar uma crise, dispõe de margem. Se determinados bens ficarem mais caros, reduz o conforto antes de atingir a sobrevivência. Por isso é possível assistir sem grande ansiedade às celebrações de quem tem muito menos margem e exige políticas que o deixam ainda mais exposto. Seria grosseiro interromper. Afinal, também se aprende por experiência, e há professores que cobram valores bastante mais elevadas do que outros.
Ainda assim, seria injusto dizer que não receberam nada em troca. Receberam alguém para culpar. Quando o salário não chega, podem investigar o subsídio do desempregado; quando a renda sobe, podem investigar o imigrante; quando o hospital falha, podem investigar o funcionário público. São alvos próximos, concretos e fáceis de identificar. A formação dos salários, as escolhas fiscais, a concentração da propriedade, a formação das rendas ou a distribuição dos lucros são muito menos visíveis no quotidiano e dão bastante mais trabalho a seguir. Assim, quem tem pouco pode acabar a fiscalizar quem tem menos e sentir que participa na administração da ordem económica. É uma forma económica de governo. Sai bastante mais barato do que distribuir poder.
É neste contexto que a expressão “viragem à direita” se torna difícil de levar inteiramente a sério. Virámos durante décadas na mesma direcção e agora anunciamos a curva. Depois de privatizações, liberalizações, perda de influência sindical, flexibilização do trabalho e transformação de necessidades básicas em activos de investimento, há quem apresente a direita como experiência ainda por realizar. Seria como passar a noite a beber e, já perto do amanhecer, propor finalmente a abertura de uma garrafa.
Trump e Milei tiveram, cada um à sua maneira, uma fase de enorme euforia entre admiradores muito para lá das fronteiras dos respectivos países. Durante algum tempo, cada notícia favorável era recebida como mais uma prova de que ali estava finalmente a demonstração que faltava, e de repente abundavam especialistas portugueses e europeus em Washington e Buenos Aires. Entretanto, ouve-se bastante menos daquele entusiasmo. Quando começaram a surgir notícias menos confortáveis para a demonstração, os Estados Unidos e a Argentina revelaram-se subitamente realidades complexas, os processos passaram a exigir tempo e as conclusões precipitadas deixaram de ser aconselháveis. A prudência é uma virtude. Tem apenas esta tendência inconveniente para aparecer depois da euforia.
Trump e Milei interessam menos como excepções do que como versões particularmente explícitas de uma transformação anterior. Durante décadas, uma parte da direita económica conseguiu converter preferências políticas em senso comum administrativo. Certas opções deixaram de ser apresentadas como opções. Passaram a surgir como exigências da competitividade, dos mercados, da confiança, da modernização, palavras suficientemente vagas para não terem eleitorado e suficientemente poderosas para governarem.
Muitos dos antigos especialistas já devem ter encontrado outro país onde os indicadores continuem suficientemente bem comportados para lhes facilitar a teoria.
Agora a mesma tradição política apresenta-se, com admirável frescura, como revolta contra a ordem existente. Participou longamente na construção dessa ordem, mas chega à porta com ar de quem acaba de descobrir a obra e está profundamente chocado com o empreiteiro.
Para quem dispõe de casa, património, poupanças e alguma distância em relação à luta mensal pelas contas, o espectáculo pode ser acompanhado com relativo conforto. Os mais interessantes são outros. Os que ainda confundem proximidade verbal aos milionários com proximidade material, os que tratam a vulnerabilidade alheia como sinal de inferioridade e os que escreveram “chorem mais” durante anos porque estavam convencidos de assistir ao sofrimento a partir da bancada reservada aos vencedores. Talvez acabem mesmo lá. A esperança é uma coisa respeitável.
No dia em que perceberem que não estavam sentados à mesa dos "vencedores", mas apenas a ajudar a servir o jantar, é possível que o “chorem mais” adquira uma inesperada dimensão autobiográfica. Até lá, celebrem a chegada da direita da qual nunca saímos.
Fonte: RiseUpPortugal

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