segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Os lugares que não importam

Em 2018, foi publicado um artigo científico intitulado “The revenge of the places that don't matter” (“A vingança dos lugares que não importam”) por Andrés Rodríguez-Pose. O artigo, amplamente citado na academia e na política europeia, fala sobre os lugares com persistente falta de oportunidades, fraco desenvolvimento económico e social, sem perspectivas de futuro e esquecidos pela maior parte das políticas e políticos. O autor argumenta que é nestes lugares que melhor proliferam os movimentos políticos populistas, que cavalgam na insatisfação e descontentamento da população. Movimentos estes que levaram à eleição de Donald Trump, ao Brexit, ao crescimento dos extremismos na Europa, ou até a conflitos armados (na Colômbia e no Perú) como forma de revolta ou vingança dos lugares esquecidos pelo poder político e económico instalado.   

Portugal aproxima-se de umas eleições muito importantes para o seu futuro próximo. Mas também em Portugal há lugares que não importam, esquecidos, com falta de oportunidades e sem perspectivas de futuro. Portugal, o país mais centralizado da Europa, é o país em que os distritos do interior representam dois terços da área de Portugal continental, e em que os mesmos distritos elegem menos deputados do que o círculo de Lisboa.

Mas se isso era um dado adquirido, tem ficado também claro que os problemas de 2/3 do país e a coesão territorial estão praticamente de fora dos debates e da campanha eleitoral. Talvez seja um tema demasiado complexo e que não sirva para os típicos soundbites, ou talvez, de facto, para a maioria dos candidatos, há temas e lugares que não importam nestas eleições.   

Nos programas eleitorais pouco se diz sobre como resolver o ciclo vicioso de desenvolvimento económico e social que se agrava cada vez mais em 2/3 do nosso país. Há partidos que nem sequer falam no assunto. Há partidos (a maioria) que apenas apresenta medidas soltas (políticas fiscais atractivas, teletrabalho, promoção da produção nacional, transferência de serviços e infraestruturas da administração central, melhorar a rede ferroviária, etc.), que como se tem visto nas últimas décadas não passam de pensos rápidos que rapidamente são ultrapassados por uma sociedade em constante mudança. E há partidos, que apesar de colocarem a “Coesão Territorial” como secção importante no seu programa, poucas reformas de fundo apresentam para resolver de vez este problema.   

A descentralização, enche a boca e agrada a todos, mas pouco se percebe como a pretendem fazer. A regionalização, sim para alguns, não para outros, “logo se vê” para a maioria. E assim ficamos, mais uma vez, com uma agremiação de políticas soltas que bem demonstram a importância que se dá a alguns lugares “esquecidos”, ou neste caso, que não dão votos.

Sei que nos próximos tempos os holofotes continuarão em Lisboa e que por lá ficarão até que a crise política se resolva, mas espero que o próximo Parlamento e Governo consigam, de uma vez por todas, e aproveitando os milhões da bazuca e as oportunidades criadas pela pandemia, girar os holofotes para outros sítios e começar a “importar-se” com todos os lugares e com todos os portugueses.

Combater desigualdades territoriais é combater desigualdades económicas e sociais, é combater “a vingança dos lugares que não importam”, é combater populismos e extremismos de todo o tipo, e esse devia ser, sem dúvida, um desígnio destas eleições e de todos nós.

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