quinta-feira, 18 de abril de 2024

Encontros Improváveis: Charles Baudelaire e Fraunhofer Diffraction


Spleen
Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

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Este poema de Baudelaire possui uma atmosfera profundamente gótica porque constrói o estado psicológico do Spleen através da estética do medo, da claustrofobia e da decomposição, recorrendo a uma cenografia de escuridão e aprisionamento em que o mundo físico se transforma numa vasta tumba. Elementos como o céu que pesa como uma tampa mortuária, a terra convertida numa masmorra húmida, a Esperança retratada como um morcego cego e assustado, a aranha que tece teias na mente febril, o som fantasmagórico dos sinos e os funerais soturnos a desfilar na própria alma são todos recursos típicos do Romantismo Negro e da literatura de terror do século XIX. Em vez de utilizar o horror apenas para assustar, Baudelaire interioriza as convenções góticas: a mansão assombrada ou a masmorra medieval já não são locais físicos distantes, mas sim a própria mente humana encurralada pelo desespero, pela depressão e pela finitude da existência.

A principal influência literária para esta atmosfera gótica e neurose interior é Edgar Allan Poe. Baudelaire não só leu e traduziu obsessivamente a obra de Poe para francês, como encontrou no autor americano uma alma gémea intelectual, absorvendo a sua fixação pela claustrofobia, pelo grotesco, pela decomposição psicológica, pela perversidade da mente e pelo sentimento de estar sepultado em vida. Além do Romantismo Negro de Poe e de autores como Lord Byron e E. T. A. Hoffmann - de quem herda o gosto pelas sombras, a melancolia demoníaca e o duplo —, o poema reflete fortes influências filosóficas e intelectuais. De Arthur Schopenhauer e da filosofia do pessimismo da época, Baudelaire absorve a visão da existência como sofrimento inevitável e a ideia de que a vontade humana é continuamente esmagada pela dor e pelo tédio. Há também uma marcante herança do pessimismo cristão e do conceito de Queda: ao contrário dos românticos tradicionais que procuravam consolo ou redenção na Natureza e no divino, a Natureza em Baudelaire surge desprovida de graça, Hostil e opressiva, enquanto a fé cede lugar a um sentimento de danação terrena onde a Angústia finca vitoriosa a sua bandeira negra.

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