sábado, 12 de setembro de 2026

O fenómeno do homonacionalismo: como a AfD e Alice Weidel reconfiguraram o voto LGBTIA+ na Alemanha

«Não sou queer, sou apenas casada com uma mulher que conheço há 20 anos».

Apesar do discurso tradicionalmente conservador e da defesa do modelo familiar clássico, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland (AfD) conseguiu captar um volume significativo e surpreendente de votos junto de setores da comunidade LGBTI+, particularmente entre homens homossexuais e bissexuais. Este fenómeno, frequentemente analisado através do conceito de "homonacionalismo", ficou evidente em várias sondagens realizadas no país. Numa pesquisa efetuada pela popular plataforma de encontros para homens gay Romeo, por exemplo, a AfD chegou a liderar as intenções de voto entre os utilizadores na Alemanha, ultrapassando partidos historicamente associados à defesa dos direitos das minorias sexuais, como Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD).

O principal motor para esta adesão eleitoral reside na forte agenda anti-imigração do partido. Uma parcela substancial dos eleitores LGBTI+ que vota na AfD justifica a sua escolha com o medo do aumento do antissemitismo e da homofobia na esfera pública, associando estes problemas ao crescimento da imigração proveniente de países de maioria muçulmana ou de sociedades culturalmente muito conservadoras. Para estes eleitores, as propostas de restrição de fronteiras da extrema-direita são percpcionadas como uma salvaguarda para o seu estilo de vida e segurança individual. Além disso, a figura de Alice Weidel, co-líder nacional da AfD - que é abertamente homossexual, vive numa união do mesmo sexo e tem dois filhos com a sua companheira -, serve como um elemento de validação para este eleitorado, reduzindo a perceção de que o partido seja intrinsecamente homofóbico. Existe também uma rejeição, por parte de setores mais assimilados da comunidade, em relação ao ativismo LGBTQIA+ contemporâneo e às pautas de identidade de género.

No entanto, este apoio eleitoral convive com profundas contradições em relação ao programa oficial da AfD. O partido opõe-se abertamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, defende ativamente a família tradicional como único pilar da sociedade, combate a introdução de conteúdos sobre diversidade sexual nas escolas e rejeita a Lei de Autodeterminação de Género, promovendo iniciativas para banir símbolos como a bandeira arco-íris de edifícios públicos. Esta dualidade faz com que a relação entre a extrema-direita alemã e a comunidade LGBTI+ continue a ser um dos temas mais controversos e fracturantes do debate político na Alemanha- num cenário onde, para muitos analistas, impera a lógica de que vale tudo para atingir o poder.

A contradição entre a agenda da AfD e o apoio de parte do eleitorado LGBTI+ é um dos fenómenos sociopolíticos mais estudados na Alemanha contemporânea. A leitura de que impera a lógica do "vale tudo para atingir o poder" é fundamentada por diversos académicos, jornalistas e politólogos que analisam as táticas de comunicação do partido e a psicologia do seu eleitorado. A teórica cultural Jasbir Puar formulou o conceito de homonacionalismo para descrever como certos setores de minorias sexuais acolhem ideologias nacionalistas e xenófobas, projetando a homofobia exclusivamente no "outro" - neste caso, nos imigrantes de países de maioria muçulmana. Em paralelo, a psicóloga social Beate Küpper demonstra que a AfD oferece a estes eleitores uma "identidade social de pertença", permitindo que o eleitor gay alemão se sinta parte do grupo dominante nacional em oposição ao imigrante muçulmano. Por sua vez, o cientista político Constantin Wurthmann aponta a figura de Alice Weidel como uma estratégia calculada de "folha de figueira" (fig leaf) para suavizar a imagem do partido e desarmar acusações de homofobia, permitindo ao eleitorado alinhar-se com a extrema-direita sem culpa ideológica. Já o ativista Volker Beck e o jornalista e analista político Enrique Anarte enquadram esta dinâmica no conceito de pinkwashing eleitoral, denunciando o uso da diversidade de uma figura de topo para ocultar uma plataforma abertamente hostil aos direitos LGBTI+.

Esta complexa teia explicativa reflete a razão pela qual a sociedade alemã vive hoje um tempo nem branco nem negro, mas marcado por profundas zonas cinzentas e contradições éticas. A população enfrenta uma forte polarização onde a perceção de insegurança individual e o medo do radicalismo religioso superam a adesão estrita aos princípios liberais e aos direitos sociais abrangentes. Adicionalmente, regista-se a normalização do que antes era inaceitável: o cordão sanitário político (Brandmauer) que afastava a extrema-direita está a esboroar-se, e o eleitorado habituou-se ao discurso da AfD, deixando de o ver sob uma ótica maniqueísta de "bem contra o mal" para o encarar como uma opção viável de protesto. O próprio movimento LGBTI+ vive uma fratura interna, deixando de ser um bloco monolítico e dividindo-se entre um eleitorado mais "assimilado ou conservador" e as pautas identitárias e trans mais recentes. Por fim, vigora uma hipocrisia institucionalizada em que o eleitorado aceita votar num partido cuja co-líder, Alice Weidel, beneficia pessoalmente de direitos - como a união de pessoas do mesmo sexo e a parentalidade - que a própria plataforma do seu partido procura limitar ou revogar para o resto da sociedade.

Este vídeo Breaking down Far Right AfD Party’s anti LGBTQ+ platform in Germany  analisa detalhadamente o paradoxo da AfD na Alemanha, explicando como o partido utiliza táticas políticas complexas enquanto mantém uma plataforma que afeta os direitos da comunidade LGBTI+.

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