quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A teia sem centro


Falcão- peregrino (Falco peregrinus)
𝐀 𝐓𝐞𝐢𝐚 𝐒𝐞𝐦 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨
Descalço os sapatos e, com eles,
a ilusão de que estou fora.
A pele já não é uma fronteira,
é apenas um ponto de contacto.

Não há topo na pirâmide;
a cicuta, a cigarra e o granito
têm o mesmo peso ontológico que o meu olhar.
O valor de uma árvore não se mede em metros cúbicos de madeira,
mas no sobressalto vivo do seu próprio existir.

O antropocentrismo desmorona-se como gesso húmido.
O que chamo «meu corpo»
é apenas a Terra a respirar através deste nome provisório.
O rio não corre para nos servir;
o rio corre porque é a linguagem da montanha.

Desaprender o domínio.
Escutar a inteligência silenciosa das raízes,
o direito inerente de cada líquen, de cada lobo,
de ser exatamente o que é.

A verdadeira revolução não é técnica,
é um acordar do Self ecológico:
reconhecer que ferir a teia
é ferir a mão que a toca.

Dissolver a posse.
Tornar-me, finalmente,
paisagem

João Paulo Soares, 14.10.2026

P.S. O que é o Self ecológico? Saiba mais aqui

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