Com ferramentas modernas, cientistas teriam identificado no século XIX o impacto do CO₂ emitido pela queima de carvão e madeira na Revolução Industrial
Muito antes de a expressão “alteração climática” entrar no vocabulário da ciência, os primeiros sinais do impacto humano na atmosfera já estavam no ar. Um estudo publicado na revista PNAS indica que, se os cientistas da época tivessem acesso à tecnologia atual, teriam identificado indícios do aquecimento global já em 1885 - antes mesmo da invenção dos carros a gasolina.
A conclusão vem de uma simulação conduzida por investigadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, em parceria com instituições como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade de Washington. A equipa partiu de um cenário hipotético: e se, desde 1860, fosse possível monitorizar globalmente a atmosfera com a precisão de satélites e balões meteorológicos modernos?
Naquela época, a queima acelerada de carvão e madeira já lançava grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera - um subproduto da Revolução Industrial que iniciava os efeitos do aquecimento global.
A resposta veio por meio de um método de análise conhecido como fingerprint (impressão digital), que permite separar os efeitos naturais das alterações provocadas por humanos. Segundo os autores, esse padrão de interferência seria visível na forma de um arrefecimento na estratosfera - uma camada alta da atmosfera - causado pelo aumento do CO₂ e pela perda de ozono.
Por que razão a estratosfera arrefece e a Terra aquece?
Os gases do efeito de estufa atuam de maneira distinta nas camadas da atmosfera. Na parte mais baixa, a troposfera, eles retêm o calor irradiado pela superfície da Terra, provocando o aquecimento. Já na estratosfera, a camada seguinte, o acumulado desses mesmos gases intensifica a reflexão da radiação, fazendo com que parte do calor regresse ao planeta e que a própria estratosfera arrefeça.
Esse arrefecimento da estratosfera, segundo os autores, é um sinal inequívoco da ação humana e teria sido detetável com elevada confiança por volta de 1885. Mesmo com medições restritas ao hemisfério norte, os dados simulados indicam que o fenómeno seria percetível até 1894, apenas 34 anos após o início hipotético da monitorização climática global.
O que é que isto muda?
Na prática, o estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam. Embora a ciência só tenha começado a compreender o papel do CO₂ no aquecimento global a partir da década de 1970, os impactos da Revolução Industrial já estavam a ser registados na atmosfera um século antes.
Os investigadores alertam que os próximos 26 anos deverão trazer mudanças ainda mais intensas do que as observadas desde 1986, especialmente se não houver uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis.

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