Mutações: A Resistência pelo Pensamento
As revoluções biotecnológica, científica e digital empurraram-nos para mutações vertiginosas, que tendem a eliminar o pensamento e a tornar-nos reféns do que o poeta Paul Valéry chamou de "barbárie dos factos". Há 13 anos que Adauto Novaes coordena ciclos sobre múltiplos aspetos das mutações, com a participação de alguns dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e estrangeiros. Publicou seis volumes de ensaios, que abordam os temas da violência, da velocidade, da preguiça produtiva, da destruição do pensamento, da revolução digital, do vácuo dos valores e da necessidade de cultivar "as coisas vagas" (a arte, o pensamento, o ócio criativo e a crítica).
Mas, agora, o ciclo entra numa nova etapa, com a chegada à plataforma digital. Uma vaga de 313 ensaios e 24 filmes está disponível, gratuitamente, no site Artepensamento; em breve, serão acrescentados mais 345 ensaios, perfazendo quase 900. O alvo são, principalmente, os estudantes universitários. Lá, poderão ler textos de François Hartog, José Miguel Wisnik, Jacques Rancière, Marilena Chauí, Nicole Loraux, Gérard Lebrun, Benedito Coutinho, José Américo Pessanha, entre outros.
Nos ensaios, os autores travam um corpo a corpo dramático com os temas urgentes do nosso tempo:
"É quase uma enciclopédia", comenta Adauto Novaes. O professor Antônio Candido escreveu que o ciclo das mutações constitui um dos feitos mais importantes do nosso tempo no país. E, nesta entrevista, Adauto fala sobre o percurso dos 13 anos de mutações, a perspetiva de interação digital, o diálogo com as novas gerações e os desafios de um tempo sem passado e sem futuro, refém de um eterno presente.
As plataformas digitais foram temas de reflexões e críticas nos ciclos por si promovidos. O que é que elas proporcionam na difusão do projeto das mutações?
Na realidade, temos de ser coerentes com o que discutimos há 13 anos: as mutações produzidas pelas revoluções biotecnológica, científica e digital. Seria uma incoerência não usarmos a plataforma digital. É algo incontornável para quem deseja comunicar e interagir com as novas gerações. Os livros são muito importantes, fizeram história, como disse Antonio Candido. Mas as novas gerações procuram o conhecimento dos textos através dos novos meios. Pouco tempo após o lançamento, temos mais de 130 mil acessos. Mas o próprio Antonio Candido escreveu que os ciclos da mutação constituem um dos feitos mais importantes do nosso tempo no Brasil. Traçam os rumos da civilização contemporânea. Por todas estas razões, é importante que cheguem às novas gerações.
Como avalia o trajeto do ciclo das mutações?
Começámos com os sentidos da paixão, o desejo, temas que mesmo o pensamento de esquerda não levava em conta. Diziam que eram coisas ilusórias. Mas são elas que definem a atividade humana. Chegou um momento em que a ideia de "crise" já não era suficiente para explicar o que acontecia no mundo. Então, começámos com a ideia das mutações.
O que caracteriza, essencialmente, o tempo de mutações?
Diferente do Iluminismo, é uma era feita no vazio do pensamento, como dizia Hannah Arendt. A contribuição que damos é essa. Incluiremos os seis primeiros livros sobre as mutações. É algo muito sério. Se a política está neste estado, se os valores tendem a desaparecer, temos de refletir. Gostaria de ressaltar que grandes pensadores do Brasil e do exterior, na atualidade, participaram no ciclo. Poderia citar François Hartog, Frédéric Gros, Nicole Loraux, Jacques Rancière. E também do Brasil: José Américo Pessanha, Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Gerard Lebrun. Se não tivéssemos criado a plataforma, as novas gerações não saberiam. Os ensaios foram publicados em livro, mas, quase sempre, só estavam acessíveis às pessoas de algumas capitais. No Nordeste, por exemplo, muitas pessoas não têm acesso a esses livros. Preparámos cuidadosamente a apresentação; cada ensaio é precedido de uma síntese; trabalho com uma equipa há dois anos.
Como vê as possibilidades de uso deste material pelas novas gerações e pelos cursos universitários?
Isso é fundamental. E está a ser usado. Não é que o livro vá desaparecer. Mas a tendência é que as novas gerações procurem o conhecimento nos novos meios. Encontro-me com professores e eles dizem que está a ser muito útil. Se quer discutir filosofia, história, tecnologia, biociência ou ética, está tudo ali. É um pouco uma enciclopédia.
Que balanço faz das séries, que vão do silêncio dos intelectuais ao desejo, às paixões, às novas tecnologias e à barbárie?
Sempre nos preocupámos muito com isso. Vai sair um novo livro do ciclo, Dissonâncias do Progresso. É uma crítica contra o progresso, que se tornou extremamente atual. Há uma negação muito grande em relação às humanidades. Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. É o resultado de uma ideia de progresso que não quer saber do que acontece. A questão da bomba atómica e a possibilidade apocalíptica rondam-nos o tempo todo.
Estas linhas de pensamento ajudam a pensar ou a repensar o Brasil e o mundo?
Esse é o grande problema. O próprio Claude Lefort disse-me uma vez: "Temos de repensar todos os conceitos, até o de luta de classes. A própria classe operária tende a desaparecer. Existe a classe de trabalhadores". Ajuda a repensar os conceitos da política. A globalização criou um estado de desespero para os indivíduos. O pensador polaco Zygmunt Bauman disse que, antes da globalização, existia a luta de classes; hoje, existe a luta do indivíduo contra o resto do mundo.
O que pensa dessa afirmação?
É que, na globalização, existe uma tendência para o egoísmo organizado; a ideia de comunidade tende a desaparecer da história. Robert Musil dizia que o capitalismo é o egoísmo organizado. Há um problema muito maior aí: a própria política tende a desaparecer. Quem manda são os conglomerados e os técnicos. Numa sociedade tecnicizada, a política também tende a ser tecnicizada.
É precisa muita velocidade de pensamento para acompanhar as mutações do mundo globalizado? Fizemos um ciclo muito importante, O Elogio da Preguiça. Sem o tempo do ócio, não se cria nem obra de arte nem pensamento. Vivemos um momento em que não se vive o tempo do pensamento. As pessoas submetem-se a este tempo veloz da vida. E isso é terrível.
E como é que este estado de coisas está a afetar a escalada da violência?
As pessoas acabam por interiorizar muito a violência e o ódio. Albert Camus deu conferências nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Muitos acreditam que o monstro morreu, mas o veneno não morreu: o nazismo e o nazi-fascismo. A civilização criou muitas coisas importantes e corretas, mas também acumulou muito ódio. Só é possível superar este estado de coisas com um trabalho cuidadoso da educação e da sociedade. Temos de pensar mais profundamente sobre a constituição do ódio e da violência.
O que cria um clima favorável aos valores do nazismo e do fascismo nos dias de hoje?
O neofascismo adquiriu uma nova forma. Não é a mesma coisa de 1940. E estamos a ver como estas coisas estão a acontecer. O domínio da tecnociência distrai o pensamento, ninguém pensa mais. A sociedade já não tem forma porque não tem ideias. Qualquer coisa que se apresente tem probabilidades de obter adesão. Não é só no Brasil, mas também na Holanda, na Áustria e na Alemanha. Paul Valéry tem uma ideia interessante; diz que a barbárie é o império dos factos, e que precisaríamos das "coisas vagas", que são a arte, as ideias políticas e as utopias. A ausência de pensamento é um "prato cheio" para os aventureiros se estabelecerem. Valéry dizia, também, que estamos a viver um tempo em que desapareceram as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Não sabem o que aconteceu há 10 ou há 50 anos. As revoluções anteriores permitiam dar um salto. Mas, se o passado desaparece, não temos futuro. Ficamos reféns do presente e da barbárie dos factos.

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