terça-feira, 9 de outubro de 2012

Dois cientistas portugueses ganham mais de quatro milhões de euros em bolsas europeias

O dinheiro que Adélio Mendes irá receber, cerca de dois milhões de euros, vai servir para continuar a desenvolver células solares que funcionam com pigmentos. “São células sensibilizadas com corantes, são diferentes das [comuns] células de silício e mimetizam a fotossíntese das plantas”, explicou o investigador ao PÚBLICO. Estes pigmentos transformam a energia vinda do Sol em energia eléctrica. O conceito tem mais de 20 anos. Mas a equipa de Adélio Mendes conseguiu desenvolver várias tecnologias que permitirão construir células mais baratas com materiais muito mais abundantes. Segundo o cientista, estas células poderão funcionar com luz difusa: a luz do início da manhã, do final da tarde ou a que resta durante um nevoeiro. 

O projeto distinguido consiste na criação e desenvolvimento de uma tecnologia inovadora de produção de energia elétrica através de células fotovoltaicas sensibilizadas com corantes. Mimetizando o funcionamento da clorofila das plantas (pigmentos que permitem a fotossíntese), a tecnologia em causa, conhecida como células sensibilizadas com corante (DSC – Dye-sensitized Solar Cells), utiliza corantes para absorver a luz solar e a transformar em energia elétrica.

A solução tecnológica desenvolvida pela equipa de investigação liderada por Adélio Mendes apresenta-se como uma alternativa mais económica, segura e até estética do que as tradicionais células fotovoltaicas em silício e nas aplicações em edifícios também mais eficientes. O grande objetivo passa por construir módulos fotovoltaicos capazes de funcionar como revestimento de edifícios (semelhante a azulejos) ou até mesmo substituir fachadas, permitindo transformar a luz solar em electricidade baixando significativamente a fatura energética.

Esta tecnologia não tinha, até há pouco tempo, viabilidade comercial. No entanto, e com a colaboração da EFACEC, o investigador da FEUP desenvolveu um processo de selagem das células DCS com pasta de vidro, garantindo assim a estabilidade dos módulos fotovoltaicos a longo prazo. Assim, o financiamento de 2 milhões de euros será utilizado no desenvolvimento científico e tecnológico destas células fotovoltaicas tendo como objetivo final células com pelo menos 13 % de eficiência energética e com estabilidade de 25 anos.

Para além do desenvolvimento da selagem com vidro assistida a laser, serão desenvolvidos substratos transparentes com uma condutividade elétrica muito superior à atual, um contra-elétrodo de carbono nanoestruturado substituindo o atual filme de platina e um foto-elétrodo otimizado para receber um pigmento nanoestruturado de carbono. O desafio passa agora por colocar esta tecnologia no mercado no início de 2014, com a ajuda da EFACEC.

Na opinião de Adélio Mendes, este prémio “vai permitir que o sonho de Portugal vir a ser líder mundial nesta tecnologia fotovoltaica seja um pouco mais possível. Deus já fez o seu trabalho e Portugal é um do países europeus com maior radiação solar”.

Adélio Mendes junta-se a Rui L. Reis (Universidade do Minho), ambos distinguidos com uma Advanced Research Grant, que assim passam a integrar o restrito grupo de 1200 investigadores que em 2012 foram reconhecidos com uma bolsa de investigação do ERC, o que revela a dificuldade de alcançar este feito e a competitividade da excelência destas bolsas.

O Ministério da Educação e Ciência veio já felicitar os investigadores Rui L. Reis e Adélio Mendes, que se juntam agora aos sete investigadores portugueses que este ano foram distinguidos com Bolsas do ERC, referindo mesmo, em comunicado, que a atribuição destes prémios são «uma clara prova da excelência e vitalidade do tecido científico nacional, representado pelas instituições científicas portuguesas, reconhecidas internacionalmente».

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