No meio da discussão sobre a entrada de estrangeiros em Portugal nos últimos anos, nem sequer se soube quantificar bem a saída de residentes para outras paragens em busca de melhores condições de vida.
As novas estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE), analisadas pelo PÁGINA UM e confrontadas com os dados anteriores, elevam afinal para 602.300 as saídas permanentes entre 2021 e 2024, contra as 123.615 estimadas até às alterações metodológicas em Junho passado, que causaram uma rectificação na quantificação da população portuguesa. São afinal quase cinco vezes o valor anterior, numa revisão que acrescenta cerca de 479 mil movimentos ao retrato de quem deixou o país.
Aos valores deste quadriénio (2021-2024) acrescentam mais 179.948 saídas no ano passado. Assim, independentemente do saldo migratório estar francamente positivo, há uma realidade chocante: nos últimos cinco anos, saíram de Portugal para viver em países estrangeiros um total de 782.248 pessoas. São quase 430 saídas em média em cada um dos dias dos últimos cinco anos. Esta ‘sangria’ foi, porém, compensada por um fluxo de entradas muito superior, mas sobretudo por pessoas que se confrontam com uma nova realidade socio-cultural.
A diferença neste período torna-se clara quando se confronta o quadro revisto do INE para 2021-2024 com os antigos valores do próprio instituto que ainda continuam disponíveis no Eurostat. Para 2021, a estimativa passou de 25.079 para 120.806 saídas e, para 2022, de 30.954 para 128.536. Em 2023, o número subiu de 33.666 para 164.087. A maior correcção ocorreu em 2024: onde antes se apontavam 33.916 emigrantes permanentes, a nova série apresenta 188.871, mais de cinco vezes e meia o valor anterior.
Trata-se de uma revisão das estimativas para anos já decorridos, pelo que a diferença não corresponde a saídas ocorridas agora. Aquilo que mudou foi a dimensão atribuída à emigração. Num país que passou a receber muitos mais imigrantes, as entradas e o saldo positivo podiam deixar em segundo plano um fluxo de saída que os próprios dados oficiais subestimavam face aos resultados da nova metodologia.

Com efeito, o saldo migratório resulta apenas da diferença entre entradas e saídas. Pode, por isso, permanecer muito positivo mesmo quando a emigração é elevada, desde que a imigração a supere. O contributo de quem chega para o crescimento da população, para a actividade económica e para compensar o saldo natural negativo não permite concluir que Portugal esteja a conseguir reter quem já cá vive, sobretudo no caso dos jovens. Os dois movimentos coexistem, e o resultado agregado pouco esclarece sobre os percursos de quem parte.
Porém, existem sinais que mostram que é a população jovem que mais sai. Entre os residentes dos 20 aos 39 anos, a revisão de 2024 é expressiva: a estimativa passou de 22.606 para 92.605 saídas, um pouco mais de quatro vezes o valor anterior. A diferença aproxima-se de 70 mil movimentos num único ano, em idades que abrangem a conclusão de estudos, a entrada no mercado de trabalho, a consolidação de carreiras e a formação de famílias. Mas a idade, por si só, não permite concluir que se trata de jovens portugueses ou de pessoas com formação superior.
A alteração também muda a escala dos números que sustentaram notícias e intervenções políticas há poucos meses. Em 24 de Junho, a SIC Verifica considerou verdadeira a afirmação de Mariana Leitão de que desde 2017 não emigravam tantos jovens, com base em 19.249 saídas dos 20 aos 34 anos em 2024. Na nova série, esse mesmo ano e essas mesmas idades somam 73.494. A verificação assentava nos dados oficiais então disponíveis, que a revisão veio quase quadruplicar.

A revisão está longe de se limitar aos jovens. Entre os 40 e os 64 anos, a estimativa para 2024 passou de 7.849 para 56.521 saídas, mais de sete vezes o valor anterior. A correcção foi tão ampla nos restantes escalões que o peso dos 20 aos 39 anos no total desse ano desceu de 66,7% para 49%, apesar do forte aumento em números absolutos. O novo retrato mostra, assim, uma emigração mais numerosa e menos concentrada nos adultos jovens do que sugeriam as estimativas anteriores.
Incluindo 2025, a nova série soma 782.248 saídas em cinco anos, das quais 366.018 entre os 20 e os 39 anos e 255.044 entre os 40 e os 64. O último ano apresenta, contudo, uma descida do total para 179.948, menos 4,7% do que em 2024. Na meia-idade, o movimento foi o contrário: as saídas aumentaram 7,5%, para 60.752. A revisão em alta dos valores históricos não deve, por isso, confundir-se com um aumento contínuo da emigração em todas as idades.
Saliente-se que estes números abrangem residentes de nacionalidade portuguesa e estrangeira. Podem reunir situações distintas, desde portugueses que procuram oportunidades no exterior a imigrantes que regressam ao país de origem ou seguem para outro destino depois de viverem em Portugal. Por agora, este quadro por idades não separa essas trajectórias, nem permite calcular quantos dos que saíram tinham nacionalidade portuguesa.

Para ser contado como emigrante permanente é necessário ter vivido em Portugal durante pelo menos um ano e sair com intenção de residir no estrangeiro durante pelo menos outro ano. A definição exclui, portanto, o simples trânsito pelo território.
Num período de forte imigração, importa conhecer a dimensão destas novas partidas, mas também a da emigração portuguesa, incluindo a de jovens que terminam os estudos. Sem dados sobre qualificações e motivos, fica por apurar o peso dos salários, das oportunidades de carreira ou de outras condições de vida nas decisões de saída.
Como o PÁGINA UM noticiou em 30 de Junho, o INE retirou os quadros detalhados de 2021 a 2024 para os rever em linha com as novas estimativas da população residente. O ficheiro actualizado em 30 de Setembro confirma que as estimativas relativas a 2021 e aos anos seguintes assentam agora em informação administrativa. Até 2020, a metodologia apoiava-se em recenseamentos e inquéritos, pelo que o instituto adverte para os cuidados na comparação entre as duas séries.
Os acumulados apresentados medem movimentos de saída, podendo incluir uma pessoa que regressou e voltou a emigrar. Não correspondem a uma perda líquida de igual número de habitantes, pois esta depende também das entradas e do saldo entre nascimentos e mortes.
A imigração pode compensar as saídas em número de residentes, mas essa conta não diz se quem chega e quem parte tem as mesmas qualificações, ocupa as mesmas profissões ou vive nas mesmas regiões. A revisão torna mais evidente a necessidade de olhar para os dois fluxos, para perceber tanto a capacidade de atrair população como a de a fixar.
Fonte: Página UM
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