O Espelho Distorcido dos Media: Quando o Rótulo Ideológico Apaga a Verdadeira Causa
Aquilo a que assistimos este domingo - depois da desmobilização à bastonada e cães por ordem do Ministério da Administração Interna -, na intervenção de Sandra Felgueiras, jornalista dos quadros da TVI e da CNN Portugal, não foi jornalismo, mas sim uma pseudo-reportagem carregada de premissas ideológicas e preconceitos pessoais. Em vez de exercer a profissão com a neutralidade, clareza e isenção que a liberdade de expressão exige, a jornalista, paga por um dos maiores grupos privados de comunicação social do país, optou por descrever e julgar os manifestantes de acordo com o filtro das suas próprias crenças e da linha do canal que representa.
A anatomia da manipulação mediática
O enquadramento ideológico foi imediato: antes sequer de ouvir qualquer pessoa ou descrever o contexto da interação, a pivô e investigadora da TVI começou por categorizar logo quem ali estava sob o carimbo de "esquerda revolucionária", colando uma etiqueta política a todo o grupo. Em seguida, ao abordar uma pessoa jovem adulta para questionar a presença de uma bandeira da Palestina numa marcha pela habitação, bastou surgir um momento de tensão para que a narrativa do comportamento assumisse o controlo da emissão. Em vez de procurar uma resposta articulada ou compreender o protesto, a atenção foi desviada para a reação emotiva, descrevendo generalizadamente os manifestantes como "muito reativos", resumindo as suas reivindicações ao simplista "não a nada" e "não à polícia", e classificando as suas atitudes como "comportamentos um pouco bizarros".
Com esta manobra, o verdadeiro foco da notícia foi deliberadamente secundarizado. O debate de fundo sobre a seletividade da empatia, a gritante ausência de cobertura mediática a tragédias humanas como as da República Democrática do Congo ou do Sudão e a sufocante precariedade da habitação em Portugal deram lugar a uma narrativa vitimizadora de que a comunicação social foi mal recebida e de que aqueles jovens "não respondem com tranquilidade".
A resposta que ficou por ouvir
Se a jornalista tivesse abordado o protesto com genuína honestidade intelectual e vontade de informar, em vez de procurar a caricatura de rua para preencher o tempo de antena do seu programa, a resposta que teria ouvido seria esta:
"A bandeira da Palestina está aqui porque o que se passa em Gaza é um genocídio em curso, e a solidariedade contra a perda de vidas inocentes é uma questão de simples humanidade e dever moral.
Mas já que me faz essa pergunta - e questiona também por que razão não trazemos uma bandeira da Ucrânia -, devolvo-lhe outra: porque é que as televisões, incluindo o seu programa, dão uma cobertura constante à tragédia na Ucrânia, mas ignoram a tragédia humana na República Democrática do Congo, no Sudão ou na Somália?
O silenciamento desses povos pela comunicação social tem uma quota-parte enorme de responsabilidade nesta assimetria. A solidariedade com a Ucrânia existiu porque a televisão a mostrou diariamente. Tenho a certeza absoluta de que, se a comunicação social mostrasse a fome e a guerra que devastam a República Democrática do Congo com o mesmo detalhe e tempo de antena, os nossos jovens também trariam essas bandeiras para a rua. A empatia deles é real, mas depende do espelho que os media lhes colocam à frente.
O que custa ver é a solidariedade tornar-se seletiva por falha de informação, enquanto internamente continuamos a ignorar as nossas próprias urgências. Estamos à porta do Natal - a única altura do ano em que a sociedade subitamente se lembra dos pobres, para depois os esquecer durante os restantes 11 meses. E a verdade é que a nova classe pobre em Portugal é precisamente esta geração de jovens: precarizados, sem acesso à habitação e sem perspetiva de futuro.
A dignidade humana não tem fronteiras nem devia ter 'modas' mediáticas. Quem se indigna com a injustiça tem de exigir verdade sobre o mundo inteiro e condições dignas para quem vive cá."
Exigir verdade e dignidade
Substituir a escuta ativa do país real por rótulos ideológicos e julgamentos de intenção diz muito sobre a degradação da comunicação social comercial. Quem sai à rua para exigir justiça merece respeito e informação séria, não o espelho distorcido de quem é pago para transformar causas complexas em espetáculo televisivo.
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