Muitas vezes, os venenos das serpentes estão associados a dores intensas. Essa é uma das mais fortes razões pelas quais muitas pessoas as temem.
Contudo, uma investigação encabeçada por cientistas da Universidade de Bangor (Reino Unido), em colaboração com instituições europeias e australianas, revela que, pelo menos neste caso, não foi para causar dor que o veneno das víboras da Europa evoluiu.
A equipa analisou os venenos quatro espécies de víboras – Vipera ursinii, Vipera ammodytes, Vipera aspis e Vipera berus – para tentar responder a uma questão que, por muito tempo, tem permanecido sem resposta: como é que essas serpentes equilibram a função defensiva do veneno (para se protegerem de predadores) com a função de captura de presas (que requer a imobilização rápida da presa)?
A dor faz com que as vítimas se contorçam em agonia, o que pode aumentar a probabilidade de o predador ser ferido, e gravemente, e de a presa escapar. Por outro lado, um veneno concebido para subjugar as presas pode não servir de grande aviso para os predadores das serpentes.
“Esperávamos encontrar evidências de que algumas víboras evoluíram componentes do veneno especificamente para causar dor rapidamente, como mecanismo de defesa”, recorda Wolfgang Wüster, principal coautor do estudo.
“Em vez disso, não encontrámos quaisquer evidências de que os venenos ativam diretamente células nervosas sensíveis à dor. Isso sugere que, nas víboras europeias, a evolução do veneno é, principalmente, impulsionada pela necessidade de subjugar a presa”, detalha.
As glândulas de veneno das serpentes conseguem produzir apenas tipos específicos de venenos consoante a espécie, o que significa que umas produzem venenos com determinadas funções e efeitos e outras com outros.
Os investigadores começaram o estudo convictos de que víboras que se alimentam de animais com menos defesas, como insetos, podiam ter desenvolvido toxinas para produzir dor para defesa.
Não sendo preciso grande esforço “venenoso” para subjugar os insetos dos quais se alimentam, essas serpentes podiam ter orientado o veneno para a proteção contra predadores e outras ameaças. O inverso seria esperado de espécies que se alimentam de presas que podem causar mais danos às serpentes, como os roedores, com garras e dentes afiados.
Contudo, não foi isso que constataram, testando os venenos das diferentes víboras europeias em laboratório em células sensíveis à dor. Independentemente da dieta que tenham, nenhum dos venenos desses répteis evoluiu especificamente para causar a dor.
Assim, concluem os autores deste trabalho que a seleção natural deu prioridade à eficiência na caça em detrimento da produção de dor como defesa durante a evolução dos venenos das víboras europeias.
“Isto desafia a ideia de que as funções de defesa e predação impulsionam a evolução do veneno em diferentes direções nas serpentes”, afirma Bálint Üveges, primeiro autor do artigo. “Os nossos resultados indicam que a captura de presas é a força dominante que molda a composição do veneno nestas espécies.”
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