domingo, 24 de julho de 2016

História da Verdade - O que é a verdade? E como a conhecemos?



A busca da verdade e a natureza do conhecimento: de Parménides ao ceticismo antigo
Introdução e Ramo da Filosofia
O texto apresentado aborda centralmente a Epistemologia (ou Teoria do Conhecimento), mantendo contritos laços com a Ontologia (Metafísica) e a Lógica. A Epistemologia dedica-se a investigar o que é o conhecimento, como este se distingue da mera crença ou opinião (doxa), de que modo justificamos as nossas afirmações e qual a própria natureza da verdade - questões fundacionais que continuam a ecoar nos debates contemporâneos sobre o fenómeno da pós-verdade. A perspetiva histórica exposta reflete o modo como o pensamento ocidental evoluiu na tentativa de responder a duas perguntas essenciais: o que é a verdade e como a podemos conhecer. Desde a afirmação da factividade do ser até à desconstrução cética, o percurso da filosofia antiga demonstra que a reflexão sobre a verdade não é apenas uma especulação teórica, mas a própria base para o rigor intelectual, a ética e o discurso público.

O desenvolvimento histórico e as obras de referência
Para compreender esta evolução epistemológica, é indispensável analisar o papel das obras e autores citados na bibliografia, organizados pelas suas linhas de contribuição

1.Os Pré-Socráticos e os primórdios da onto-epistemologia: antes do surgimento de teorias epistemológicas formais, a preocupação inicial focava-se na relação entre a linguagem, a aparência e a realidade subjacente. Em estudos como os de Barnes (1979/1982), Graham (2010a, 2010b) e Guthrie (1969), analisa-se como Parménides estabeleceu uma rutura: a verdade (aletheia) pertence ao Ser, imutável e pensado pela razão, enquanto a aparência pertence ao mundo dos sentidos. Por sua vez, Hesíodo (Theogony and Works and Days, trad. West, 1988) reflete a transição entre o pensamento poético-mítico e o início da procura por explicações ordenadas do cosmo.

2. O desafio dos sofistas e o relativismo: com o surgimento de figuras como Protágoras e Górgias, a verdade deixa de ser vista como algo absoluto e passa a ser considerada dependente da perspetiva ou do poder da persuasão. Em textos como Against the Sophists e Encomium on Helen de Isócrates (1936, 1945), assim como no tratado pseudo-aristotélico On Melissus, Xenophanes, and Gorgias (1936), explora-se a crítica sofística à capacidade da linguagem de captar a realidade objetiva, subordinando o conhecimento à utilidade e ao contexto político e social (Munn, 2023; Billings & Moore, 2023).

3. Platão e a definição de conhecimento: Platão dedicou grande parte da sua obra a combater o relativismo sofístico e a estabelecer os alicerces da epistemologia clássica. No diálogo Teeteto (Platonis Opera, Burnet, 1905; Rowe, 2015), Platão explora e rejeita as definições de conhecimento como perceção ou como crença verdadeira simples, conduzindo à formulação de que o conhecimento exige uma justificativa ou razão (logos). Já no diálogo Sofista, enfrenta o problema de como é possível dizer o que é falso (falar do "não-ser") e apresenta o conceito de veridador (truth-maker), articulando linguagem e mundo de modo a explicar como uma proposição pode ser verdadeira ou falsa sem cair em contradições ontológicas.

4. Aristóteles, lógica e fundamentação: Aristóteles formaliza o estudo das regras do pensamento e da estrutura da ciência. Na Metaphysics (trad. Reeve, 2016) e no De Generatione et Corruptione (trad. Williams, 1982), Aristóteles estabelece a teoria da correspondência da verdade, onde o que é dito corresponde ao que é na realidade. Através da lógica dedutiva e do modelo demonstrativo, investiga como derivamos conhecimento necessário de primeiros princípios indemonstráveis, mas apreendidos intuitivamente (Smith, 1995).

5. O período helenístico e o ceticismo: a filosofia pós-aristotélica dividiu-se entre a procura de critérios de certeza e a desconstrução sistemática desses critérios. Autores como Epicteto (Discourses, Fragments, Handbook, 2014), Epicuro (The Epicurus Reader, 1994) e os estudos de Hankinson (2003) procuraram estabelecer critérios empíricos ou racionais para garantir a apreensão segura da realidade (kataleptike phantasia). Por outro lado, Sexto Empírico (Against the Logicians, 1935) e as análises contemporâneas de Bett (2010) e Pellegrin (2010) representam o culminar do ceticismo antigo ao compilar argumentos para demonstrar a equivalência de razões opostas (isostheneia), levando à suspensão do juízo (epoche). O percurso iniciado na busca pela certeza culmina, assim, na conclusão cética de que nenhuma alegação de conhecimento absoluto está isenta de dúvida.

6. Pontes modernas e contemporâneas: A bibliografia estende-se a momentos posteriores para ilustrar a relevância contínua do tema. McGinnis (2010) demonstra a continuação do debate aristotélico no mundo islâmico através de Avicena. John Stuart Mill em On Liberty (1859/1991) defende a necessidade do debate aberto para aproximar a sociedade da verdade. Bertrand Russell (The Philosophy of Logical Atomism, 1972/2010) e Mulligan, Simons & Smith (Truth-Makers, 1984) retomam o problema platónico e aristotélico de perceber o que no mundo torna uma afirmação verdadeira. Por fim, Sean Carroll (The Big Picture, 2016) traz o debate para o contexto da física e da visão científica moderna sobre a realidade.

Conclusão
A história da reflexão sobre a verdade e o conhecimento não é uma linha reta em direção a certezas dogmáticas, mas sim um diálogo contínuo entre a procura de fundamentação racional e a constatação das limitações humanas. Ao viajar desde a intuição ontológica de  Parménides, passando pelos debates platónicos sobre a perceção e o relativismo, até ao rigor dedutivo de Aristóteles e à suspensão do juízo dos céticos, percebe-se que as interrogações antigas continuam vivas. Compreender este percurso é fundamental para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, onde falar de pós-verdade não é um fenómeno inteiramente novo, mas o eco de disputas muito antigas entre a retórica persuasiva dos sofistas e a exigência de provas e justificações racionalmente válidas. Revisitando estas bases epistemológicas, obtemos as ferramentas críticas necessárias para avaliar discursos, questionar certezas infundadas e valorizar a procura honesta pelo conhecimento.

Bibliografia
Aristóteles, De Generatione et Corruptione. Trad. e notas de C. J. F. Williams. Oxford: Oxford University Press, 1982.
Aristóteles. Metaphysics. Trad., intro. e notas de C. D. C. Reeve. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc., 2016.
Barnes, Jonathan (1979) The Presocratic Philosophers. Londres e Nova Iorque, NY: Routledge & Kegan Paul, 1982.
Bett, Richard (2010) The Cambridge Companion to Ancient Scepticism. Cambridge: Cambridge University Press.
Billings, Joshua e Moore, Christopher, ed. (2023) The Cambridge Companion to the Sophists. Cambridge: Cambridge University Press.
Carroll, Sean (2016) The Big Picture: On The Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself. Nova Iorque, NY: Dutton.
Cooper, John M., ed. (1997) Plato: Complete Works. Ed. ass. D. S. Hutchinson. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc.
Epicteto, Discourses, Fragments, Handbook. Trad. Robin Hard. Oxford: Oxford University Press, 2014.
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Graham, Daniel W. (2010a) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 1. Cambridge: Cambridge University Press.
Graham, Daniel W. (2010b) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 2. Cambridge: Cambridge University Press.
Guthrie, W. K. C. (1969) A History of Greek Philosophy, Vol. II: The Presocratic Tradition from Parmenides to Democritus. Cambridge: Cambridge University Press.
Hankinson, R. J. (2003) “Stoic Epistemology”. In The Cambridge Companion to Stoics, ed. Brad Inwood. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 59–84.
Hesíodo, Theogony and Works and Days. Trad., intro. e notas de M. L. West. Oxford: Oxford University Press, 1988.
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McGinnis, Jon (2010) Avicenna. Oxford: Oxford University Press.
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Mill, John Stuart (1859) On Liberty. In On Liberty and Other Essays, ed. John Gray. Oxford: Oxford University Press, 1991.
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Munn, Mark (2023) “The Sophists between Aristocracy and Democracy”. In Billings, Joshua e Moore 2023.
Pellegrin, Pierre (2010) “Sextus Empiricus”, in Bett 2010: 120–141.
Platão. Platonis Opera, Tomus I: Tetralogia I-II. ed. John Burnet. Oxford: Clarendon Press, 1905
Platão. Theaetetus and Sophist, ed. Christopher Rowe. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
Pseudo-Aristóteles, “On Melissus, Xenophanes, and Gorgias”, in Aristotle, Minor Works. Trad. W. S. Hett. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1936.
Russell, Bertrand (1972) The Philosophy of Logical Atomism. Londres e Nova Iorque, NY: Routledge, 2010.
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Smith, Robin (1995) “Logic”. In The Cambridge Companion to Aristotle, ed. Jonathan Barnes. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 27–65.

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