quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Solaris (1972) de Tarkovsky: Porque é que a ficção científica é mais atual hoje do que nunca?

A ficção científica filosófica Solaris, adaptada do romance de Stanisław Lem e imortalizada no cinema por Andrei Tarkovsky em 1972 (com uma nova versão de Steven Soderbergh em 2002), é um drama existencial sobre os limites da mente humana perante o desconhecido e o peso inegociável da culpa e da memória. A narrativa acompanha Kris Kelvin, um psicólogo enviado a uma estação espacial que orbita o planeta misterioso Solaris. O planeta é coberto por um oceano protoplasmático gigante que demonstra ter consciência e, ao ler as mentes dos cientistas da estação, materializa as suas memórias, desejos e remorsos mais ocultos na forma de "visitantes" físicos. Kelvin vê-se forçado a conviver com uma cópia perfeita da sua falecida esposa, Hari, que se tinha suicidado anos antes após uma discussão entre o casal, forçando-o a enfrentar a carga emocional do seu passado.

O filme choca e mantém o seu impacto porque subverte as convenções da ficção científica tradicional de tecnologia e conquista galáctica para questionar a condição humana. Apresenta uma crítica à arrogância e ao antropocentrismo ao mostrar uma inteligência alienígena inacessível à lógica humana, evidenciando que a busca pelo cosmos é frequentemente uma fuga de nós próprios. A obra aborda a materialização da dor e do luto através da memória, transformando o remorso numa presença física, enquanto explora o mistério da identidade e da consciência ao mostrar a evolução de Hari de uma mera projeção para um ser com sofrimento e agência próprios. Toda esta atmosfera é intensificada pelo ritmo contemplativo e pelo isolamento claustrofóbico que espelha a própria prisão mental dos cientistas.

As influências científicas e filosóficas da obra elevam-na a uma profunda meditação existencial baseada na epistemologia, na psicanálise e na física teórica do século XX. No âmbito científico, o fracasso da "Solariologia" - a disciplina fictícia criada para catalogar o oceano - ilustra os limites do empirismo e antecipa a Teoria do Caos e os Sistemas Complexos, demonstrando como certos fenómenos ultrapassam a capacidade de modelação humana. Para explicar a existência dos visitantes, recorre-se a conceitos quânticos de matéria neutrónica mantida por campos de força, conferindo-lhes características biológicas humanas à escala macroscópica, mas com uma estrutura subatómica não celular e capacidade de regeneração. 

No plano filosófico e psicológico, o oceano funciona como uma metáfora direta do inconsciente: mobiliza o recalque freudiano ao materializar a culpa e o trauma reprimidos, e atua como a Sombra junguiana, forçando o indivíduo a confrontar a parte rejeitada da sua psique. Sob a ótica epistemológica e do existencialismo de inspiração kantiana, sartreana e kierkegaardiana, Solaris questiona se é possível conhecer verdadeiramente o "Outro" ou apenas as nossas próprias projeções, ao mesmo tempo que reflete sobre o livre-arbítrio e a autenticidade da vida e do sofrimento de uma entidade criada como cópia. [Fonte: Fundação Stanisław Lem

Apesar do sucesso da obra cinematográfica, a relação entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky foi marcada por uma célebre divergência artística. Lem ficou desapontado com a adaptação de 1972, afirmando que Tarkovsky tinha filmado "Crime e Castigo" no espaço. O desentendimento deveu-se ao choque entre o foco epistemológico de Lem - focado na impossibilidade de comunicação com o extraterrestre - e o humanismo moral e espiritual de Tarkovsky, que centrou a narrativa no pecado e na redenção de Kelvin. Lem criticou ainda a inclusão de cerca de 40 minutos iniciais passados na Terra com a família do protagonista, por considerar que introduziam um sentimentalismo nostálgico alheio à sua obra, e lamentou a redução visual e conceptual do oceano a um mero pano de fundo para conflitos morais humanos.

Para ler mais detalhadamente sobre cada um destes aspetos e ver imagens e esquemas explicativos, pode aceder a mais informações sobre a sinopse e o impacto de Solaris, explorar as influências científicas e filosóficas de Solaris e conhecer o conflito entre Stanisław Lem e Andrei Tarkovsky.

Andrei Tarkovsky era um crente convicto e a sua visão do mundo estava profundamente enraizada na fé e na tradição do Cristianismo Ortodoxo. No entanto, a sua religiosidade não se traduzia num dogmatismo cego ou numa prática institucional rígida, mas sim numa espiritualidade mística, poética e existencial. Sob o regime soviético - uma ditadura oficialmente ateia e materialista -, afirmar a fé era um ato de resistência espiritual. No seu livro Esculpir o Tempo e nos seus diários (Martirológio), Tarkovsky afirmava que a arte não existia para propagar ideias políticas, mas sim para cultivar a alma e preparar o homem para a transcendência, tendo chegado a declarar que via o seu trabalho como uma forma alternativa de oração.

A influência da tradição e da iconografia ortodoxa transborda em toda a sua cinematografia. A ideia central de que o sofrimento aceite com amor e o sacrifício pessoal podem redimir o mundo permeia obras como Andrei Rublev (sobre o famoso pintor de ícones do século XV), Stalker e o seu filme de despedida, O Sacrifício. Além disso, a sua estética visual - com o uso recorrente e quase ritualístico da água, da terra, do fogo e da luz - funciona como uma revelação do sagrado na própria matéria, aproximando o seu cinema da teologia do ícone ortodoxo, onde a imagem visível remete sempre para o invisível.

À semelhança de Fyodor Dostoievski, uma das suas maiores referências intelectuais, a fé de Tarkovsky não nascia da ignorância da dúvida, mas sim do confronto direto com a crise espiritual do homem moderno. Em Stalker (1979), a figura do protagonista encarna o conceito russo de yurodivy (o "louco por Cristo"), um indivíduo marginalizado que preserva a capacidade de crer num mundo tornado pragmático e cínico. Embora tenha demonstrado interesse por correntes como o Zen Budismo, a matriz conceptual e espiritual de Tarkovsky manteve-se inequivocamente ortodoxa, considerando ele que o esquecimento do divino e a perda da dimensão transcendente eram a verdadeira tragédia da humanidade contemporânea.

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